Vulcão da Urzelina

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Erupção do vulcão da Urzelina na ilha de São Jorge (1808) visto da ilha do Faial. Aquarela no Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal.
O cone que marca o principal centro eruptivo do vulcão de 1808 nos montes sobranceiros à Urzelina.
Cratera do vulcão da Urzelina, sítio localmente conhecido por “Bocas de Fogo da Urzelina”.
Cratera do vulcão da Urzelina, sítio localmente conhecido por “Bocas de Fogo da Urzelina”, Vista Geral.
A velha torre sineira da Urzelina, o que resta da igreja destruída pela erupção.

Vulcão da Urzelina é a designação dada à erupção vulcânica que em 1808 destruiu a freguesia da Urzelina, na ilha de São Jorge, Açores, criando o extenso mistério basáltico que hoje forma a Ponta da Urzelina.

Algumas descrições contemporâneas[editar | editar código-fonte]

Na obra Ilha de S. Jorge (Açores); Apontamentos para a sua História, de José Cândido da Silveira Avelar,[1] está compilado um conjunto de descrições da erupção e dos acontecimentos que a rodearam. A descrição mais extensa e circunstanciada deve-se ao padre João Ignácio da Silveira (1767 — 1852), então cura de Santo Amaro, que escreveu uma relação que o Dr. João Teixeira Soares, publicou com algumas notas no Jorgense, n.º 6, de 1 de Maio de 1871, e foi transcrita no Archivo dos Açores, vol. V, páginas 437 a 441. Foi aquele escrito, com algumas variantes, que João Duarte de Sousa seguiu na narrativa do fenómeno, de página 188 a 193 dos seus Apontamentos. Eis o seu conteúdo:

Na noite amanhecendo para o Domingo do Bom Pastor, primeiro dia do mez de Maio do presente anno de 1808, tremeu a terra tão frequentemente que se contavam oito tremores por hora, e d’estes foi um sobre a madrugada tão grande, que fez levantar o povo das camas (1.). No mesmo dia, estando já parte do povo na igreja deprecando a Deus nosso pai, houve outro abalo tão forte que fez fugir todo o povo da egreja, das 11 para as 12 do mesmo dia houve outro tremor, e juntamente um estrondo tão grande que a todos amortiso, (2.), e de repente se vio levantar uma grande nuvem de fumo sobre o mais alto monte da freguezia da Urzelina, no pico d’ António José de Sequeira, e bem defronte da egreja de S. Matheus cuja planta e centro da freguesia era o mais agradável da ilha, e por isso mesmo muito frequentado de muitos sujeitos bons e maus de todas as ilhas, e em breve tempo engrossou e subindo ao mais alto ceo fez arco sobre parte da freguezia das Manadas e da Urzelina, indicando um terrível castigo já mostrando nas redobradas e negras nuvens uns incumbrados montes, umas medonhas furnas.
Da bocca daquele vulcão saíam estrondos tão fortes e medonhos sem intervalo que convidavam aos habitantes d’esta ilha para Juízo. Correu todo o povo a deprecar a Deos, porém logo o povo da freguezia da Urzelina se assustou deixando o seu vigário o rev. José António de Barcellos só no adro da sua igreja, e logo no mesmo dia choveu tanta areia de tarde que ficaram as casas chamadas do mato cobertas de areia e os campos d’ahi para cima em parte ficaram com altura de 7 palmos, e as vinhas dos Castelletes até à ermida de Santa Rita, da freguezia das Manadas, ficaram cravadas e as casas quasi abatidas com o pezo, sahindo immediatamente línguas de fogo do centro que chegavam aos ceos, deitando pedras ignitas de 8 palmos, em distância dum quarto de legoa, outras de 16 palmos em quadro e outras menores, subindo à mesma altura cahiam como densos chuveiros.
Chegou a triste noite, então é que desfaleceram os habitantes desta ilha vendo todo o fogo e pedras ignitas, que sahiam como coriscos e quase que pareciam cair sobre os povos, e as vidraças das egrejas pareciam quebrarem-se aos eccos d’aquelle pregoeiro que nos ameaçava de morte.
Até à terça feira, 3 do mesmo mez, rebentou o fogo em 7 logares, ficando a bocca ou vulcão perto da Ribeira do Arieiro, em cuja tarde abrandou o fogo: e na madrugada da quarta-feira, 4 do mesmo mez, arrebentou o fogo entre as Ribeiras, acima da fonte da Fajã, e da mesma sorte fazendo nuvem de pó de enxofre e terra que parecia arder todo aquelle logar. Logo fez procissão o vigario da Urzelina para a parte da Fajã com o Senhor Santo Christo e Senhora das Dôres e a poucos passos encontrou-se com o padre José de Sousa Machado, que trazia em procissão a Senhora da Encarnação acompanhado de várias pessoas. mas quasi suffocadas do muito pó enxofrado que estava cahindo. reunidos àquela procissão algum tanto animados, chegaram à ermida da Senhora do Desterro, ainda, que com muito trabalho porque do cruzeiro para cima cahia muita terra sulfúrea e tão pegajosa que muitas árvores cahiram com o peso d’ella e o fétido entontava aos viajantes. Passados mais 7 dias rebentou o fogo nas areias da freguezia de Santo Amaro, onde abrindo duas bocas vomitava fogo à maneira de duas grandes ribeiras de matéria fluida, e com tanta força que no segundo dia se achava a mais de um moio de campo de mistério que encaminhando-se às casas fez pôr parte do povo em fugida, o vigário, o rev. Amaro Pereira de Lemos, esteve falto dos sentidos e a irmã, D. Anna Maria de Lemos, esteve douda.
O vigário das Velas e ouvidor, o rev. António Machado Teixeira, temendo fosse o fogo à villa mandou deitar pregão para que se retirassem, e que mandava o Sacramento para a Beira e d’aqui resultou um levante que se não pode explicar.
As freiras foram para a igreja de Rosais; o ouvidor e outros clérigos para o Faial, o doutor juiz de fóra e outros para o Pico e o mais povo de quasi toda a villa foi para a Beira e Rosaes. Este levante foi sem maior necessidade, por que no dia em que o fizeram foram ver o fogo que já pouco corria e só por dentro da ribeira.
O alto da serra por onde o dito fogo passou ficou abatido e em grotas formidáveis, os caminhos quebrados de forma que não passavam carros nem gente por parte, as fontes secas.
Poucos dias depois retrocedeu ao primeiro logar em que tinha rebentado, defronte da igreja da Urzelina, com a mesma força que dantes, e perseverou doze dias, em que foram continuas as súplicas a Deus e por não sermos ouvidos do Senhor, por serem as culpas em maior número que as suas misericórdias, continuou o mesmo flagello. sahindo do vulcão (que dizem ter bocca em circunferência de um moio de campo) muitas areias, que arruinavam parte dos campos da referida freguezia de São Matheus e das mais circunvizinhanças. e chegou a cahir na ponta do Pico, em Angra e São Miguel, e para a parte da villa não cahio porque os ventos sempre cursaram pelo nor-noroeste.
N’este tempo todo o povo da Urzelina se ausentou desamparando todos as suas moradas, uns para as Manadas, outros para a Calheta. outros para Rosais e uns para Angra, isto o povo da Urzelina, ficando só o reverendo vigário no adro.
Observou-se que em quanto a maré enchia aquelle vulcão embravecia mais e deitava com mais força pedras mármores grandes, umas das gerais eram muito pretas e pesadas e feriam lume, e outras à maneira de vergas, de lagens e outras redondas, umas muito brancas e partidas reluziam pelo muito salitre que tinham.
Em uma noite estando o vigário da Urzelina em guarda de sua igreja, sendo já 11 horas e meia, pegou a observar umas ribeiras de fogo, que vinham correndo pelo monte abaixo, e tocando a fogo apenas acudiram 6 ou 8 pessoas, que acompanharam o Santíssimo para a ermida do Senhor Jesus, para onde na mesma noite fez trasladar todas as imagens, vasos sagrados e vestes sacerdotais. Entraram logo a observar que os campos circunvizinhos ao dito monte se iam incendiando e levantando-se pedras como montes, que corriam ardentes até à planície das vinhas que faziam pasmar a quem tal castigo via.
Em 17 do dito mez de maio, vendo o vigário das Manadas, o reverendo Jorge de Mattos Pereira, que o da Urzelina se achava estrompado e com a sua gente dispersa veio com parte dos seus fregueses à igreja da dita freguezia de S. Matheus para salvar o que podesse da dita egreja, o que assim fez, e estando trabalhando na mesma de repente se levantou um tufão de fogo ou vulcão e introduzindo-se nas terras lavradas levantou todos aquelles campos até abaixo às vinhas com todas as árvores e bardos, fazendo-se uma medonha e ardente nuvem e correndo até abaixo da igreja queimou trinta e tantas pessoas na egreja e nos campos, e vindo para a parte da ermida do Senhor Santo Christo tomou a luz ao sol de sorte que parecia uma tremenda noite (3.) e pensando o dito vigário da Urzelina que era a última hora de vida já trémulo tratava de consumir o Sacramento, mas em quanto se aprontou entrou a divisar uma pequena luz e esperando um pouco, vendo que ia esclariando, não quiz consumir o Sacramento e saindo a ermida logo se encontrou com o vigário das Manadas e um clérigo queimados e todas as mais pessoas que com elles entraram, uns por menos molestos foram para a sua casa e outros ficaram na referida ermida e casas vizinhas, por não poderem ir para as suas, vindo uns com os couros das mãos e pés pendurados, outros tão inchados e pretos que se não conheciam, outros com as pernas quebradas, e alguns espirando, todos pedindo Sacramentos, e apenas os receberam alguns logo expiraram (4.). E vendo o rev. vigário que o fogo era cada vez mais e que se ia aproximando à dita ermida levou o divino Sacramento para as Manadas para a ermida de Santa Rita, em cuja tarde administrou os sacramentos a alguns dos seus fregueses, que ali se achavam queimados e a outros d’aquella freguezia das Manadas com licença do rev. vigário.
No dia seguinte consumiu o Sacramento o rev. vigário da Urzelina e a toda a pressa passou à parte do Norte por onde veio para o logar da Ribeira do Nabo para accudir a alguns dos seus freguezes, que para o dito logar se tinham passado queimados, isto por já não poder passar pelo sul pelos tufões de fogo que saíam da bocca d’onde corriam caudalosas ribeiras de fogo em matérias fluidas, que já chegavam quasi ao mar.
Agora se acha o dito vigário com os sacramentos na ermida de Nossa Senhora da Encarnação para onde voltaram os que andavam dispersos. Até ao dia 16 do dito mez eis aqui o que se observou, apparecendo na falda do monte que se formou de pedra e areia, o mais alto da ilha, uma abertura d’onde sahia uma caudalosa ribeira de fogo que chegou a dividir-se em cinco, e transbordando todas arrasaram os principaes campos e sessenta e sete casas de morada, toda a canada dos Abreus até à canada onde o padre Bartholomeu Luiz morava, com vinhas e terras, ficou em mysterio (5.), e vindo estas ribeiras ao mar levaram a igreja de S. Matheus, que hoje se acha em mysterio tão alto que hombrea com a torre da dita egreja, menos a dita torre e frontispício com um bocado do adro (6.).
Até 5 de Junho do dito anno, Domingo do Senhor Espírito Santo, sahiu d’aquelle vulcão umas vezes pedra outras areia, em cujo dia sahiu com tanta força que chegou à villa, (7.)e desde este dia até à sexta-feira seguinte deitou tantas cinzas, que abrasaram as cearas de muitas freguezias, e cobriram os pastos de forma que alguns sujeitos varreram os pastos para ver se os gados comiam, mas nem assim podiam pastar e por esta razão morreram muitos gados.
Todas as boccas por onde rebentou fogo fumam, mas sem prejuízo (8.), ainda que estamos esperando a cada instante renovação do fogo, porque nossos corações nenhum arde de amor Divino.
Em todo o espaço do mez de Maio, em que correu o fogo, nunca anoiteceu n’esta ilha, porque faltando a luz do sol ficava a do fogo.

O Dr. João Teixeira Soares, escreveu uma narrativa da mesma erupção, que publicou no jornal Jorgense, números 21 e 22 de 15 de Agosto e 1 de Setembro de 1872, que foi transcrita no Archivo dos Açores, vol. V, páginas 442 e 443, firma-se naquela outra do padre João Ignacio e nas notas que ele havia feito. Desta narrativa destacam-se as seguintes considerações:

Desde aquelle dia (5 de Junho) até ao dia 10 do mesmo mez teve logar a emissão de cinzas, que cahiram sobre uma grande área da ilha, chegando mesmo a algumas vizinhas.
Então cessou a actividade vulcânica, mas gradualmente; as crateras fumaram ainda por muito tempo, e por muitos anos se percebeu próximo às fendas, que na direcção do oriente ao ocidente se abriram, uma maior elevação de temperatura, assaz denunciada pela vegetação herbácea que cobria o solo. As lavas conservaram também por annos gazes sulfurosos.
Dos phenomenos que relatamos, aquelle que nos parece dever chamar mais a atenção do geólogo, é o das nuvens ardentes. Sahiam das crateras depois de uma como syncope da actividade d’estas. Eram carregadas d’uma poeira húmida ou polme, que fazendo-as pesadas as obrigava a correr por sobre a terra, vertente abaixo, para o mar. Traziam uma terrível força de translação. A introdução da mais leve parte nos órgãos da respiração causava a morte. Idêntico phenomeno apareceu como vimos em 1580.
A lava de 1808 é a mais tratável que talvez se conheça na história geológica. Muitas partes d’ella estão já convertidas em frondosas matas. A representação gráfica das crateras e lavas dum e outro vulcão esclareceriam notavelmente a sua história e relações.

Na Revue Scientifique de la France a de l’Etranger, 2.ª série, 2.º ano, n.º 51, 21 de Junho de 1873, página 1200, com o título Saint George (Açores) et ses eruptions, Ferdinand André Fouqué escreveu o que a respeito das erupções de 1580 e 1808 verificou nas duas crateras que visitou, e que o volume V do Archivo dos Açores, páginas 444 e 445, transcreveu. Aquele naturalista, desembarcando na vila da Calheta no dia 8 de Julho de 1872, dirigiu-se no dia imediato, acompanhado do Dr. João Pereira da Cunha Pacheco, ao lugar das ditas crateras, resultando do seu estudo o seguinte:

Estas nuvens eram carregadas de uma poeira húmida, desciam ao longo da vertente, rojando-se pela superfície do terreno. A este contacto venenoso as plantas murcham e morrem imediatamente. … O poder asphixiante d’estas nuvens, a sua progressão perto da superfície do solo e o seu constante movimento pelos declives do terreno indicam como elemento principal d’eIas a existência de um gaz deletério e denso que, muito provavelmente, não seria senão o ácido carbónico. A sua opacidade deve atribuir-se ao vapor d’agoa, meio condensado e a sua cor avermelhada ao pó vulcânico muito subtil arrastado e em suspensão naquela mistura de gazes e vapores. Enfim a acção deletéria exercida rapidamente sobre as plantas provém sem dúvida do acido clorídrico e do acido sulfuroso expelidos juntamente com os vapores aquosos e arrastados por elles. As testemunhas da erupção de 1808 não fazem menção de chamas; as descrições que deixaram levam a pensar que a temperatura das nuvens ardentes era pouco elevada. A sua atenção foi principalmente excitada pela acção venenosa d’estes agentes. Segundo uma narrativa, provavelmente um pouco exagerada, os homens e os animais morriam mal respiravam aqueles vapores pestilenciais. É evidente portanto que as nuvens ardentes de 1808 eram muito mais húmidas e com uma temperatura muito mais baixa que as de 1580. Sem dar plena fé do que se conta das nuvens daquela primeira erupção conterem em si globos de chamas, pode-se pelo menos afirmar que elas transportavam ao longe matérias incandescentes. e que os efeitos destruidores eram devidos tanto ao seu poder calorifico como à sua natureza química. propriedades bem diferentes das nuvens de 1808. Todavia a identidade dos nomes dados pelos habitantes, com dois séculos de intervalo, àquelas singulares manifestações é na realidade justificada por muitas considerações. Nos dois casos com effeito, trata-se de massas vaporosas, opalinas, carregadas de matérias pulverulentas, de contornos arredondados como os de uma nuvem, que descem pelas encostas das montanhas à superfície do solo, e que mataram as plantas e os animais. A existência de globos de fogo nas nuvens ardentes de 1580 é mais duvidosa, porque com muita dificuldade se compreende como gazes, cuja combustão produz chamas, possam transportar-se ao longe, ao ar livre, sem que imediatamente sejam inflamados. Admitindo além d’isso, que houve uma differença considerável entre as temperaturas das nuvens ardentes das duas erupções, não se pode achar n’este único facto rasgo bastante para os qualificar como dois fenómenos absolutamente distintos. Os effeitos caloríficos descritos foram presenciados por observadores inexperientes: a situação dos logares em que se produziram, a distância mais ou menos afastada das boccas de emissão, a rapidez variável de translação da nuvem vulcânica, as condições climatéricas particulares da atmosfera no momento de cada uma das erupções, e muitas outras causas, podiam ainda modificar considerável e diversamente a intensidade das acções devidas à intervenção do calórico. É pois com razão que as testemunhas da erupção de 1808. conservaram a denominação usada em 1580, posto que não tivesse todo o vigor e precisão desejáveis.
Phenomenos semelhantes aparecem perto d’outros vulcões (9.) mas talvez em parte alguma as nuvens ardentes se viram melhor do que nas duas erupções de S. Jorge. Insisto tanto mais no seu exame, quanto ellas me parecem fornecer a chave de alguns problemas fornecidos pelas exumações de Pompeia.
A situação estranha dos esqueletos descobertos no meio das ruas da necrópole vulcânica romana é muito difícil de explicar, na maior parte dos casos, invocando somente a analogia com os phenomenos que se observam nas modernas erupções do Vesúvio. Uma chuva de cinzas por mais abundante e carregada de humidade que seja, não pode, por exemplo ter, lançado por terra e soffucado um homem robusto, que encontrou a morte fugindo por uma rua pública, em companhia de suas duas filhas. Foi necessária a intervenção de um gaz deletério para matar todos três com espantosas agonias.
De todas as lavas que tem corrido nos Açores, depois que os portuguezes as abordaram, a de 1808 é de todas a mais alterável. Os musgos e os liquens invadiram-na primeiro, depois a vegetação herbácea implantou-se n’ella e por fim os arbustos e as árvores.
Actualmente certas porções estão transformadas em espessas matas, enquanto ali próximo muitas camadas de lavas de 1580 apenas começam a desagregar-se.

Na Corographia Açorica, página 94, João Soares de Albergaria de Sousa, que foi testemunha ocular da erupção de 1808, diz:

O vulcão de 1808, que vimos rebentar nas Lagoinhas, sobre a serra que fica ao norte e iminente à aldeia da Urzelina, também respirou no lugar d’Entre Ribeiras, uma légua ao noroeste e depois no das Areias; a primeira boca expeliu por largos dias grande quantidade de materiais; 7 dias apareceu o sol obscuro pela densidade da atmosfera, impregnada dos vapores vulcânicos; choveram cinzas; a ilha sofreu muitas e violentas concussões; o solo na vizinhança do vulcão abriu. fendas profundas; os lábios dos hiatos abateram em lugares de 4 a 6 palmos. Este vulcão correu ao mar sem interrupção, deixando o chão coberto de lava em altura de 30 pés, pouco mais ou menos.

Outras observações e factos[editar | editar código-fonte]

Como se vê, nem o Padre João Ignacio da Silveira, nem João Soares de Albergaria de Sousa, testemunhas da erupção, aludem ao pedaço de terreno rodeado de lavas que ficou incólume e que a tradição do povo atribui ao facto de nele pastar uma rez destinada ao bodo do Espírito Santo.

Também Francisco Ferreira Drummond, nos Anais da Ilha Terceira, tom. III, pág. 184, referindo-se àquele fenómeno diz que foi visto e sentido na ilha Terceira, caindo até cinzas por muitos dias, que se achava a cada passo, empacada sobre as plantas dos jardins, das hortaliças e campos mais remotos.

Foram igualmente pressentidos os terremotos na ilha do Faial, de onde vendo-se rebentar o fogo na ilha de S. Jorge, mandou a câmara municipal da Horta uma lancha com algum socorro e uma carta à câmara das Velas, oferecendo hospitalidade às pessoas que se quisessem nela refugiar (António Lourenço da Silveira Macedo, História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta, tomo 1, páginas 300 e 542).

Na escavação duma pedreira, no mês de Junho de 1877, na freguesia da Urzelina, numa casa que foi de Jorge Soares de Avelar, foram encontrados nas ruínas uma pedra de atafona, um caldeirão e uma bilha de barro, tudo envolto em materiais soterrados pelo dito vulcão.

A reação das autoridades perante a catástrofe[editar | editar código-fonte]

Abandonada a presidência da câmara das Velas pelo juiz de fora, dr. António Augusto Pereira, que se retirou para a fronteira ilha do Pico apenas rebentou o fogo, os demais vereadores nomeados por carta régia de 9 de Dezembro de 1806, capitão Amaro Teixeira de Sousa, sargento mor José Soares de Sousa, capitão João Ignacio da Silveira, e procurador do concelho Jorge José Covilhão, encerraram-se na administração municipal, tomando providências cujos acórdãos relacionaram em um caderno, que o juiz de fora no seu regresso fez desaparecer para ofuscar os serviços daqueles patriotas.

Tendo o capitão general D. Miguel António de Melo conhecimento do sucesso, mandou em carta de 18 de Maio à câmara para distribuir gratuitamente pelos pobres 5 moios de milho: recomendou-lhe se implorasse a misericórdia divina, e que ela o avisasse da necessidade de maiores socorros, concluindo em prestar-se em ir à ilha se a sua presença fosse necessária.

A câmara, por sua carta de 23 de Julho agradeceu ao capitão-general a oferta do cereal e os bons desejos que nutria a favor do povo oprimido pelo fogo. E aproveitando os oferecimentos do capitão general terminou pedindo que a maior esmola que v. ex. lhe fazia em atenção à suma pobreza em que ficava esta ilha, era representar a sua alteza real se dignasse abolir o regimento de milícias, cujo corpo é formado por uma grande parte dos empobrecidos com a queima: com os pobres que não vivem de outra cousa senão do seu jornal e outros muitos miseráveis que talvez apareçam com a farda para fazerem as guardas sem vestirem camisa pela não terem: a ocasião é oportuna, v. ex. está disposto a proteger esta ilha queira dignar-se fazer-lhe a maior de todas as esmolas.

O governador e capitão general, como resposta, em sua carta de 21 de Outubro ao juiz de fora, insultando a câmara, mandou que aquele magistrado em vereação severamente repreendesse os sujeitos que tal carta assignaram (!) que não tendo o escrivão da câmara registado aquela carta o suspendesse, como efectivamente foi suspenso o que o era, José Félix Rodrigues Mendes. E por desconfiar, ele capitão general, tenha para tais absurdos concorrido com suas astúcias ordinárias António Sebastião Espínola, v. mercê o mandará prender à minha ordem pelo tempo que deixo ao seu arbítrio.!!!

Ao pároco da freguezia José António de Barcellos — diz em manuscrito o dr. João Teixeira Soares, publicado no jornal Velense, n.º 135, de 23 de Julho de 1885 — verdadeiro pastor do seu rebanho, foram durante muitos anos pela junta da real fazenda dadas respostas de evasiva às petições em que implorava o auxílio para a construção d’uma nova paróquia: e só no governo do capitão general Francisco de Borja Garção Stockler pôde alcançar os auxílios que pediu, levantando à custa de fadigas e sacrifícios penosos a nova paróquia. sem outro galardão mais que o reconhecimento da posteridade.

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Na semana antecedente a terra havia tremido por vários dias.
  2. Este fenómeno foi pressentido pelos irracionais que se achavam nas proximidades do logar em que ocorreu. Poucos minutos antes do acontecimento os gados que se achavam próximos, começaram a mostrar-se inquietos e aterrados correndo sem que houvesse tapumes que os pudesse aguentar para o lado norte da ilha. As pessoas que se achavam por aqueles sítios vendo a fuga dos gados. seguiram instintivamente o mesmo proceder. de uma delas houvemos esta informação.
  3. Foi este para os homens o mais terrível dos acontecimentos d’este vulcão. Manifestou-se pela primeira vez depois de começar o curso das lavas e foi então que produziu o maior estrago por ser ainda desconhecido. Por um pouco parecia que a actividade das crateras se suspendia. Seguiu-se a esta sincope a explosão d’uma nuvem escura que rojando-se pelo solo baixava pela vertente da ilha até ao mar com uma força prodigiosa arrasando e queimando quanto encontrava: o que d’ela respirava morria necessariamente. Os effeitos d’este fenómeno fazem lembrar os do simaun do deserto, assim não lhe ficaria mal o nome de simaun vulcânico.
  4. Segundo os assentos da paróquia foi n’este dia 17 levado ao mar pelos ares pelo referido tufão Francisco José de Sousa, casado, de 59 annos de idade e morador na freguezia. Morreram mais no mesmo dia queimados pelo mesmo tufão Anna da Gloria, solteira, de 49 annos de idade, Francisco Machado, casado, de 30 annos de idade, Luzia de Jesus, casada, Thereza lgnacia, viúva. de 30 annos de idade, João, solteiro, de 14 annos, José Silveira Borges, casado, de 42 annos, João Espinola, casado, de 55 annos.
  5. Os proprietários que mais perderam foram, acima do caminho, começando do poente, o convento das freiras desta villa. os filhos de José Monteiro de Castro, o capitão Joaquim José Pereira e seu irmão o capitão Manuel José da Silveira, abaixo do caminho o padre António Homem de Bettencourt. As lavas d’este vulcão, que apenas tem uma existência externa de 63 annos, são talvez as mais benignas que se encontram em toda a terra. Em logares, sobretudo nos declives, já se encontram frondosas matas. Se a incúria dos proprietários não fosse tão grande, já podia aquele solo estar na quasi totalidade arborizado.
  6. Esta igreja havia sido construída no primeiro quartel do século passado. Estava voltada ao oriente. A sua torre ainda hoje existe completa.
  7. A causa da chegada d’aquelles produtos vulcânicos a esta villa não foi devida tanto à força com que foram expellidos como a haver n’aquelle dia soprado o vento de leste o que até ali não sucedera.
  8. As emissões gasosas duraram ainda por muitos annos não só nas crateras e fendas do solo, mas nas próprias lavas. Ainda em 8 de Julho de 1810, por occasião de se pretender limpar o poço de baixa-mar da freguesia, no qual haviam caído escorias da lava me correra junto d’elle, morreram asfixiados dentro do mesmo por emanações sulfurosas: Manuel Ignacio Lopes, de 29 annos, casado: Manuel José de Sequeira, 23 annos, casado: António, filho de José António Fagundes, 15 annos, solteiro. Eram todos três da freguesia de Santo Amaro e tinham ido àquela de faxina.
  9. O vulcão de Santorino em 1866 produziu umas fumaradas ácidas com movimentos rotatórios singulares causando nas plantas efeitos devastadores análogos, em certos respeitos, aos das nuvens ardentes dos Açores. Veja-se a nota de M. de Corona inserta nas Comptes Rendues de l’Academie des Sciences, Tomo LXIV, 1867.

Referências

  1. , José Cândido da Silveira Avelar, Ilha de S. Jorge (Açores); Apontamentos para a sua História, Typ. Minerva Insulana, Horta, 1902 (página 430 e seguintes)