Xadrez às cegas

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Paul Morphy durante uma exibição.

Xadrez às cegas ou xadrez vendado é uma variante do xadrez onde o enxadrista realiza seus movimentos sem ver o tabuleiro de xadrez, e sem ter qualquer tipo de contato físico com ele. Deste modo, o jogador deve manter a posição das peças memorizadas e comunicar seus movimentos oralmente.

Em partidas simultâneas e às cegas, normalmente uma pessoa fica encarregada de realizar os movimentos do enxadrista e informar os movimentos de cada adversário. Esta modalidade foi muito comum no século XIX e devido ao fascínio que causava foi a fonte de renda de muitos enxadristas profissionais que realizavam exibições por honorários.

História recente[editar | editar código-fonte]

Philidor durante uma partida às cegas.

O primeiro registo de uma partida de xadrez às cegas deve-se a Sa'id bin Jubair (665–714) no Médio Oriente. Na Europa, jogar xadrez vendado era uma maneira de os enxadristas mais fortes darem chances de vitória a um oponente mais fraco, ou apenas para mostrar suas habilidades superiores.

O primeiro evento às cegas conhecido ocorreu na Europa, na cidade de Florença, no ano de 1266.[1] Já no ano de 1783, o proeminente enxadrista André Danican Philidor demonstrou a sua habilidade aos disputar três partidas simultaneamente com grande sucesso, e os jornais da época destacaram este feito. Paul Morphy participou de uma exibição às cegas no ano de 1858 na cidade de Paris contra oito fortes oponentes, obtendo o impressionante resultado de seis vitórias e dois empates. Outros mestres enxadristas também se destacaram nesta modalidade, como Louis Paulsen, Joseph Henry Blackburne, que chegou a jogar 16 partidas simultaneamente, Johannes Zukertort e o primeiro campeão mundial Wilhelm Steinitz.

Século XX[editar | editar código-fonte]

Blackburne fez da modalidade uma de suas fontes de renda.

Ao longo do tempo o recorde de partidas simultâneas às cegas foi quebrado várias vezes. Em 1900 Harry Nelson Pillsbury jogou 20 partidas simultâneas na Filadélfia, e pouco tempo depois tentou realizar a façanha rara de jogar quinze partidas de xadrez e quinze de Damas simultaneamente, sendo vinte oito o recorde de partidas de simultâneas deste jogo.

Em 1924, no Hotel Alamac em Nova Iorque, Alexander Alekhine jogou de 26 partidas simultâneas de xadrez contra fortes enxadristas como Isaac Kashdan e Hermann Steiner, entre outros, com um placar de +16 -5 =5. Em Fevereiro do mesmo ano, em Paris, ele enfrentou 28 equipes de quatro enxadristas cada, obteve 22 vitórias, três empates e três derrotas. No mesmo ano, Réti melhorou seu recorde ao jogar 29 partidas simultâneas em São Paulo e provocou uma situação engraçada pois apesar da memória fantástica esqueceu sua mala depois do evento.

No dia 16 de Julho de 1934, em Chicago, Alekhine bateu novamente o recorde mundial ao jogar 32 partidas simultâneas, sendo Edward Lasker o árbitro do evento.

Em 28 de Setembro de 1963 o recorde era novamente batido por Koltanowski, na cidade de São Paulo, ao jogar 34 partidas, vencer 24 e perder 10 num período de 13 horas.

Botvinnik não jogava a modalidade por temer danos a sua saúde.

O recorde está incluído no Guinness Book of Records e é geralmente aceito como o recorde mundial atual,[1] apesar de outros enxadristas terem reclamado um feito maior. Miguel Najdorf e János Flesch alegaram ter quebrado o recorde, mas os eventos não foram apropriadamente monitorados como o de Koltanowski. Nardorf alegou ter quebrado o recorde ao jogar contra 40 (+36 =1 -3) oponentes em Rosário, na Argentina,[2] , disputa organizada com o intuito de ganhar publicidade o suficiente para comunicar à sua família que ainda estava vivo, uma vez que permaneceu na Argentina depois de ter viajado para competir pela Polônia nas olimpíadas de xadrez de 1939. Ele chegou a aumentar seu recorde para 45 oponentes em São Paulo no ano de 1947, com o resultado de 39 vitórias, quatro empates e duas derrotas.[3] Entretanto, Najdorf teve acesso às planilhas de marcação, e havia vários oponentes por tabuleiro.[1] Koltanowski afirmou que poderia ter jogado mais de 100 partidas nestas condições.[4]

A última tentativa de quebrar o recorde mundial foi reclamada pelo húngaro János Flesch, em Budapeste, no ano de 1960, ao enfrentar 52 oponentes, vencendo 31 jogos com três empates e 18 derrotas. Entretanto, esta tentativa de recorde não é aceita porque Flesch podia verbalmente recontar as marcações nos jogos em progresso. O evento também teve uma pausa de cinco horas, e incluiu muitas partidas rápidas.[4]

Desde então não houve nenhuma tentativa de quebrar novamente o recorde, devido à falta de interesse nestes números.[5]

Outro recorde notável foi estabelecido Koltanowski em 1960, na cidade de São Francisco, quando disputou 56 partidas simultâneas consecutivas a uma velocidade de 10 segundos por movimento. A exibição durou aproximadamente 9 horas com um resultado de 50 vitórias e 6 derrotas.

Outros tipos de xadrez às cegas[editar | editar código-fonte]

Outro tipo de xadrez às cegas (mas não vendado) foi registrado por Harold James Ruthven Murray: entre os nomadês da Ásia Central, dois homens cavalgando lado a lado dizendo seus movimentos um para o outro, sem entretanto ver um tabuleiro.[1]

Cuidados com a saúde[editar | editar código-fonte]

Embora o xadrez às cegas seja recomendado em moderação como um dos muitos recursos para aumentar a força enxadrística, as exibições simultâneas foram banidas da URSS, pois acreditavam ser maléficas à saúde do enxadrista por ser mais cansativa do que o jogo regular, mesmo quando são empregados controles de tempo.[1]

Psicologia[editar | editar código-fonte]

Uma vez que requer uma extraordinária visão espacial e memória, esta forma de xadrez foi objeto de estudo de várias pesquisas no campo da psicologia, começando com as pesquisas de Alfred Binet em 1893, continuando com o trabalho do psicoanalista GM Reuben Fine em 1965 e culminando com as duas últimas décadas com vários artigos descrevendo experimentos na psicologia com o xadrez às cegas.[6] Em geral, estas pesquisas demonstram que o crucial para o xadrez às cegas são o conhecimento do enxadrista e sua habilidade de realizar operações espaço-visuais mentalmente.

Atualidade[editar | editar código-fonte]

Atualmente[quando?], são realizados torneios para a modalidade sendo o mais importante o Torneio Melody Amber, realizado em Monte Carlo. Este evento é patrocinado pelo bilionário e ex-campeão de Xadrez postal Joop van Oosterom e atrai muitos enxadristas de elite para competir nestas circunstâncias únicas. Vladimir Kramnik, Viswanathan Anand, Alexei Shirov e Alexander Morozevich estão entre os enxadristas de elite que têm disputado e ocasionalmente vencido o torneio entre 1996 e 2006.

Referências

  1. a b c d e The Elite Meet in Monte Carlo. ChessBase.
  2. Perlas Ajedrecísticas - Christian Sánchez.
  3. Chess Notes 4811. Blindfold Record.
  4. a b Lawton, Geoff. Tony Miles:It's Only Me. [S.l.]: Batsford, 2003. ISBN 0-7134-8809-3
  5. Hooper, David e Whyld, Kenneth. The Oxford Companion to Chess. [S.l.]: Oxford University Press, 1992. ISBN 0198661649
  6. Gobet, F. & Campitelli, G. (2007). O olho da mente no xadrez às cegas.PDF.European Journal of Cognitive Psychology, 17, 23-45.

Ver também[editar | editar código-fonte]