Zelda Fitzgerald

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Zelda Fitzgerald (24 de Julho de 1900 - 10 de Março de 1948) née Sayre, nascida em Montgomery, Alabama, foi uma romancista norte-americana e a esposa do escritor F. Scott Fitzgerald.

Ela foi um ícone na década de 20[1] , apelidada por seu marido de "a primeira melindrosa americana". Depois do sucesso do primeiro romance de Scott, This Side of Paradise, os Fitzgeralds tornaram-se celebridades. Os jornais de Nova York os enxergaram como a concretização da Era do Jazz e da Geração Decadente: jovens, aparentemente ricos, belos.

Zelda Fitzgerald também foi a inspiração para a protoganista de The Legend of Zelda, criada pela Nintendo no ano de 1986 por Shigeru Miyamoto e Takashi Tezuka.

Desde o início da adolescência, Zelda foi uma presença admirável na sociedade sulista, ofuscando todas as outras moças, sendo a estrela dos recitais de balé e dos eventos de elite nos clubes de campo. Pouco tempo depois de terminar o ensino médio, ela conheceu F. Scott Fitzgerald em um baile do clube de campo, mas não se impressionou e concordou com os familiares quanto às limitações das perspectivas financeiras dele para sustentar uma família. A paixão dele estava declarada, e um leve flerte evoluiu para um longo namoro à distância, que se dava através de cartas semanais, sendo que Fitzgerald estava ciente dos encontros descompromissados que ela tinha com outros homens. Determinado a obter segurança financeira e, assim, Zelda, Fitzgerald ampliou sua produção escrita: de artigos ao seu primeiro livro. Em 20 de março de 1920, a editora Scribner’s Sons aceitou publicar seu romance This Side of Paradise, e Fitzgerald imediatamente contatou Zelda, que concordou em ir para Nova York para casar e viver com ele. Eles casaram em 3 de abril de 1920 e, mais tarde, mudaram-se para a Europa. Enquanto Scott era aclamado por The Great Gatsby (O Grande Gatsby) e por seus contos, e o casal socializava com grandes nomes da literatura como Ernest Hemingway, o casamento era uma mistura de ciúme, ressentimento e amargor. Scott usou o relacionamento como material para seus romances, chegando a utilizar fragmentos do diário de Zelda, os quais atribuía às suas heroínas fictícias. Buscando uma identidade artística para si própria, Zelda escreveu contos e artigos de revista, e, aos 27 anos, desenvolveu uma obsessão pela ideia de ter uma carreira de bailarina, treinando à exaustão.

A tensão do casamento tempestuoso, o alcoolismo crescente de Scott e a instabilidade cada vez maior de Zelda pressagiaram a admissão dela, em 1930, no sanatório Sheppard Pratt, localizado em Towson, Maryland, onde foi diagnosticada com transtorno bipolar. Enquanto estava lá, ela escreveu um romance semiautobiográfico, Save Me the Waltz (Esta Valsa é Minha), que foi publicado em 1932. Scott ficou furioso por ela ter usado material a respeito de sua vida juntos, mas ele faria o mesmo em Tender is the Night (Suave é a Noite), publicado em 1934; os dois romances oferecem representações contrastantes do casamento fracassado deles.

De volta à América, Scott foi para Hollywood, onde experimentou escrever roteiros e iniciou um relacionamento com a colunista de cinema Sheilah Graham. Em 1936, Zelda foi internada no Highland Mental Hospital, localizado em Ashville, Carolina do Norte. Scott morreu em Hollywood em 1940; ele vira Zelda pela última vez um ano e meio antes. Ela passou seus anos remanescentes trabalhando em um segundo romance, que nunca finalizou, e pintando exaustivamente. Ela morreu em 1948 quando o hospital onde vivia pegou fogo. O interesse pelos Fitzgerald ressurgiu pouco tempo após a morte de Zelda: o casal foi assunto de livros e filmes que ganharam popularidade e recebeu atenção de estudiosos. Depois de uma vida como símbolo da Era do Jazz, dos Loucos Anos 20 e da Geração Perdida, Zelda Fitzgerald encontrou, postumamente, um novo papel: após uma popular biografia publicada em 1970 retratá-la como vítima de um marido autoritário, ela se tornou um ícone feminista. Zelda foi introduzida no Hall da Fama das Mulheres de Alabama em 1992.[2]

Biografia[editar | editar código-fonte]

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Nascida em Montgomery, Alabama, Zelda Sayre era a mais nova de seis irmãos. Sua mãe, Minerva Buckner "Minnie" Machen (23 de novembro de 1860 - 13 de janeiro de 1958), escolheu seu nome em homenagem a personagens de duas histórias pouco conhecidas: "Zelda: A Tale of Massachussetts Colony" (1866), de Jane Howard, e "Zelda's Fortune" (1874), de Robert Edward Francillion. Nas duas histórias, Zelda é uma cigana.[3] Quando criança, Zelda era mimada pela mãe, mas o pai, Anthony Dickinson Sayre (1858-1930)[4] – um juiz da Suprema Corte do Alabama e um dos principais juristas do estado – era um homem severo e distante. A família era descendente dos primeiros colonizadores de Long Island, que haviam se mudado para o Alabama antes da Guerra Civil Americana. À época em que Zelda nasceu os Sayre eram uma família proeminente do sul do país. O tio avô dela, John Tyler Morgan, teve seis mandatos no Senado dos Estados Unidos; o avô paterno editava um jornal em Montgomery; o avô materno era Willis Benson Machen, que cumpriu um mandato parcial como senador do Kentucky.[5] [6] Os irmãos de Zelda eram Anthony Dickinson Sayre Jr. (1894-1933), Marjorie Sayre (Sra. Minor Williamson Brinson) (1866-1960), Rosalind Sayre (Sra. Newman Smith) (1889-1979) e Clothilde Sayre (Sra. John Palmer) (1891-1986). Zelda Sayre foi uma criança extremamente ativa. Ela dançava, fazia aulas de balé e gostava de ficar ao ar livre. Em 1914, passou a frequentar a escola Sidney Lanier High School. Ela era inteligente, mas não tinha interesse nas aulas. Seu estudo de balé continuou durante o ensino médio, onde teve uma vida social ativa. Embora bebesse, fumasse e passasse muito tempo com os garotos, ela continuou sendo uma líder na cena social da juventude local. Um artigo de jornal que falava sobre uma de suas apresentações de dança citou-a dizendo que só se importava com "garotos e natação."[7] Ela desenvolveu uma ânsia por atenção, buscando ativamente desrespeitar convenções – fosse dançando o Charleston ou vestindo um traje de banho justo e da cor da pele para incensar os rumores de que nadava nua.[8] A reputação de seu pai era uma rede de proteção, o que evitava a ruína social de Zelda.[9] Naquele tempo, esperava-se que as mulheres do sul fossem delicadas, dóceis e transigentes. As excentricidades de Sayre chocavam as pessoas ao seu redor, e ela se tornou – junto à sua amiga de infância e futura estrela de Hollywood Tallulah Bankhead – um dos principais assuntos de fofoca em Montgomery.[10] Seu etos foi resumido abaixo da sua foto de formatura do ensino médio:

Why should all life be work, when we all can borrow.
Let's think only of today, and not worry about tomorrow.
[Por que toda a vida deveria ser trabalho, quando todos nós podemos pegar emprestado.
Vamos pensar somente no hoje, e não nos preocupar com o amanhã].[11]

F. Scott Fitzgerald[editar | editar código-fonte]

Perfil da cabeça e ombros de um homem
F. Scott Fitzgerald em 1921, por Gordon Bryant para a revista Shadowland

Zelda e Scott se conheceram em julho de 1918. Ele passou a contatá-la diariamente e ia para Montgomery nos seus dias de folga. Ele falava de seus planos de ser famoso e enviou a ela um capítulo de um livro que estava escrevendo. Estava tão encantado com Zelda que reformulou a personagem Rosalind Connage, de This Side of Paradise, para que se parecesse com ela. Ele escreveu: "qualquer crítica a Rosalind termina onde começa sua beleza"[12] e disse a Zelda que "a heroína se assemelha a você em mais do que quatro maneiras".[13] Zelda era mais do que uma mera musa – depois que ela mostrou seu diário pessoal a Scott, ele usou trechos na íntegra no romance. O solilóquio do protagonista Amory Blaine no cemitério, que aparece na conclusão de This Side of Paradise, foi retirado diretamente do diário dela.[14]

O primeiro encontro de Scott e Zelda foi numa estação de trem (que Scott mais tarde incluiu em The Great Gatsby, com Nick). Scott não era o único homem cortejando Zelda, e a competição apenas fez com que ele a quisesse mais. No livro de registros que manteve meticulosamente durante toda a vida, ele mencionou, em 7 de setembro, que havia se apaixonado. No fim, ela faria o mesmo. Sua biógrafa, Nancy Milford, escreveu: "Scott atraíra algo em Zelda que ninguém antes dele havia percebido: um sentimento romântico de presunção, que era semelhante ao dele."[15]

O namoro foi brevemente interrompido em outubro, quando ele foi convocado para o norte. Ele esperava ser enviado para a França, mas foi designado para Camp Mills, Long Island. Enquanto estava lá, o Armistício de Compiègne foi assinado. Ele voltou à base próxima a Montgmorey e, em dezembro, eles estavam inseparáveis e apaixonados; Scott mais tarde descreveria o comportamento deles como "imprudência sexual"[16] Em 14 de fevereiro de 1919, ele foi dispensado do serviço militar e partiu para se estabelecer em Nova Iorque.[17]

Eles escreviam um para o outro com frequência e, em março de 1920, Scott enviou a Zelda o anel que pertencera à mãe dele, e eles noivaram.[18] Muitos amigos e membros da família de Zelda ficaram receosos com o relacionamento.[19] Eles não aprovavam o consumo excessivo de álcool de Scott, e a família dela, que era episcopal, não gostava que ele fosse católico.[19]

Casamento[editar | editar código-fonte]

Em setembro, Scott já havia finalizado seu primeiro romance, This Side of Paradise, e o manuscrito foi rapidamente aceito para publicação. Quando soube que o romance havia sido aceito, Scott escreveu ao editor Maxwell Perkins solicitando a antecipação do lançamento: "Tenho muitas coisas dependendo do sucesso do livro – incluindo, é claro, uma garota." [20] Em novembro, ele voltou a Montgomery, triunfante com a novidade a respeito do romance. Zelda aceitou se casar com ele assim que o livro fosse publicado;[21] ele, por sua vez, prometeu levá-la para Nova Iorque com "toda a iridescência do princípio do mundo".[22] This Side of Paradise foi publicado em 26 de março, Zelda chegou em Nova Iorque em 30 daquele mês, e, em 3 de abril de 1920, diante de um pequeno grupo de pessoas na Catedral de São Patrício, eles se casaram.[23]

Scott e Zelda tornaram-se celebridades em Nova Iorque tanto pelo seu comportamento extravagante quanto pelo sucesso de This Side of Paradise. Eles foram obrigados a deixar o Hotel Biltmore e o Hotel Commodore devido à embriaguez.[24] Certa vez, Zelda pulou na fonte da Union Square. Outro exemplo desse comportamento é de quando Dorothy Parker os conheceu: Zelda e Scott estavam sentados em cima de um táxi. Parker disse que "os dois pareciam ter acabado de sair caminhando do sol; sua juventude era impressionante. Todo mundo queria conhecê-lo."[25] A vida social deles era regada a álcool. Na vida pública, isso não significava muito mais do que cochilar quando chegavam às festas, mas, na vida privada, levava a sérias brigas, de modo crescente.[26] Para a satisfação dos dois, nas páginas dos jornais nova-iorquinos Zelda e Scott haviam se tornado ícones de juventude e sucesso – efants terribles da Era do Jazz.[27]

No Dia de São Valentim de 1921, quando Scott trabalhava para finalizar seu segundo romance, The Beautiful and Damned (Os Belos e Malditos), Zelda descobriu que estava grávida. Eles decidiram ir para a casa de Scott em Saint Paul, Minnesota para ter o bebê.[28] Em 26 de outubro de 1921, ela deu à luz Frances "Scottie" Fitzgerald. Scott registrou Zelda dizendo, quando ela voltava do efeito da anestesia, "Oh, Deus, Goofo, estou bêbada. Mark Twain. Ela não é esperta—ela está com soluço. Espero que seja bela e tola—uma bela tolinha". Muitas de suas palavras acabaram aparecendo nos romances de Scott; em The Great Gatsby, a personagem Daisy Buchanan manifesta uma esperança similar para sua filha.[29]

Um desenho do perfil de uma mulher com cabelo curto ondulado
Zelda em 1922

Fitzgerald nunca se tornou particularmente caseiro ou demonstrou qualquer interesse nos cuidados com a casa.[30] Em 1922, os Fitzgerald contrataram uma babá para a filha, um casal para limpar a casa e uma lavadeira.[31] Quando a editora Harper & Brothers convidou Zelda para contribuir com o livro Favorite Recipes of Famous Women, ela escreveu: "Veja se tem bacon, e, se tiver, pergunte à cozinheira em qual frigideira se deve fritá-lo. Então, pergunte se tem ovos e, se tiver, tente persuadi-la a escalfar dois deles. É melhor não tentar fazer torradas, pois eles queimam com muita facilidade. Além disso, no caso do bacon, não deixe o fogo muito alto, ou você terá que sair de casa por uma semana. Sirva de preferência em pratos de porcelana, embora os de ouro ou de madeira sirvam, se estiverem à mão."[32]

No começo de 1922, ela engravidou novamente. Presume-se que ela tenha abortado.[33] Em março, Scott escreveu em seu registro: "Zelda e seu aborteiro." A opinião de Zelda a respeito da segunda gravidez é desconhecida, mas, no primeiro rascunho de The Beautiful and Damned, o romance que Scott estava finalizando, ele escreveu uma cena em que a personagem feminina principal, Gloria, acredita estar grávida, e Anthony sugere que ela "fale com alguma mulher e descubra o que é melhor fazer. A maioria dá um jeito." A sugestão de Anthony foi retirada da versão final, uma mudança que alterou o foco, passando da questão do aborto para a preocupação de Gloria de que um bebê arruinaria sua aparência.[34]

Quando a publicação de The Beautiful and Damned se aproximava, Burton Rascoe, o recém-designado editor literário do New York Tribune, abordou Zelda, buscando uma oportunidade de atrair leitores com uma resenha atrevida do trabalho mais recente de Scott. Em sua resenha, ela fez uma referência espirituosa ao uso de seus diários na obra de Scott, mas o material plagiado se tornou uma fonte genuína de ressentimento:[35]

Para começar, todos devem comprar este livro pelas seguintes razões estéticas: primeiro, porque sei onde encontrar o mais lindo vestido de tecido dourado por apenas trezentos dólares, em uma loja na Rua 42, e, também, se um número suficiente de pessoas o comprarem, onde há um anel de platina com aro completo, e, ainda, se um monte de gente o comprar, meu marido precisa de um novo sobretudo, embora aquele que ele possui tenha servido bem nos últimos três anos... Parece-me que em certa página reconheci parte de um antigo diário meu que despareceu misteriosamente pouco depois do meu casamento, e também fragmentos de cartas que soam vagamente familiares, ainda que bastante editadas. De fato, o Sr. Fitzgerald – acredito que é assim que ele escreve seu nome – parece acreditar que o plágio começa em casa.[36]

O artigo fez com que Zelda recebesse propostas de outras revistas. Em junho, um artigo escrito por Zelda Fitzgerald, Eulogy on the Flapper (Elogio à melindrosa), foi publicado na Metropolitan Magazine. Apesar de supostamente tratar do declínio do estilo de vida das melindrosas, a biógrafa de Zelda, Nancy Milford, disse que o ensaio era "uma defesa de seu próprio código de existência."[37] Zelda descreveu-as:

A melindrosa despertou de sua letargia de pré-debutante, cortou seu cabelo, vestiu seu melhor par de brincos e uma grande quantidade de audácia e blush e foi à luta. Ela flertava porque flertar era divertido e vestiu um maiô porque tinha uma silhueta bonita ...ela tinha consciência de que as coisas que fazia eram aquelas que sempre quis fazer. As mães desaprovavam que seus filhos levassem as melindrosas para os bailes, para os chás, para nadar e, acima de tudo, que as levassem a sério.[38]

Zelda continuou escrevendo e vendeu vários contos e artigos. Ela ajudou Scott a escrever a peça The Vegetable, mas, quando esta fracassou, os Fitzgerald se viram endividados. Scott escreveu contos furiosamente para pagar as contas, mas ficou desgastado e deprimido.[39] Em abril de 1924, eles foram para Paris.[40] [41]

Expatriação[editar | editar código-fonte]

Depois de chegar a Paris, eles logo se mudaram para Antibes[42] , na Riviera Francesa. Enquanto Scott estava absorto no processo de escrita de The Great Gatsby, Zelda apaixonou-se por um vistoso jovem piloto francês, Edouard Jozan.[43] Ela passava as tardes nadando na praia e as noites dançando nos cassinos com Jozan. Depois de seis semanas, ela pediu o divórcio. Scott a princípio quis confrontar Jozan, mas, ao invés disso, respondeu ao pedido de Zelda trancando-a na casa deles até que ela desistisse da ideia. Jozan não sabia que ela havia pedido o divórcio. Ele deixou a Riviera mais tarde naquele ano, e os Fitzgerald nunca mais o viram. Anos mais tarde ele disse a Milford, biógrafa de Zelda, que a infidelidade foi imaginária: "Os dois tinham uma necessidade de drama, eles inventaram tudo isso e talvez fossem vítimas de suas imaginações instáveis e um tanto doentias".[44] De "F. Scott Fitzgerald: A Life in Letters": Fitzgerald se referiu ao caso Jozan em sua carta de agosto para Ludlow Fowler, sobre as ilusões perdidas em The Great Gatsby representando a perda de sua segurança na fidelidade de Zelda, sobre como o livro refletia os aspectos centrais, dramatizados, do amor dele e de Zelda, sobre cortejo, ruptura, reestabelecimento com o sucesso financeiro e a traição com Jozan: "Eu também me sinto velho neste verão...todo o fardo deste romance — a perda daquelas ilusões que dão tanta cor ao mundo que você não se importa se as coisas são verdadeiras ou falsas, desde que elas participem da glória mágica". The Great Gastby estava em forma de rascunho durante a crise com Jozan, em julho de 1924, e o texto datilografado foi enviado à Scribners no final de outubro.[45] Fitzgerald escreveu em seus cadernos: "naquele setembro de 1924 eu soube que havia acontecido algo que nunca poderia ser consertado."[46]

Depois da briga, os Fitzgerald mantiveram as aparências entre os amigos, aparentando estarem felizes. Mas, em setembro, Zelda teve uma overdose de pílulas para dormir. O casal nunca falou sobre o incidente e se recusou a dizer se fora uma tentativa de suicídio ou não. Scott voltou a escrever, finalizando The Great Gatsby em outubro. Eles tentaram comemorar com uma viagem a Roma e Capri, mas os dois estavam infelizes e abatidos. Quando ele recebeu as provas do romance, afligiu-se quanto ao título: Trimalchio in West Egg, apenas Trimalchio ou Gatsby, Gold-hatted Gatsby ou The High-bouncing Lover. Foi Zelda quem escolheu The Great Gatsby.[47] Também foi nessa viagem, enquanto estava com colite, que Zelda começou a pintar.[48]

Em abril de 1925, em Paris, Scott conheceu Ernest Hemingway, cuja carreira ele fez muito para promover. Hemingway e Scott Fitzgerald se tornaram grandes amigos, mas Zelda e Hemingway não gostaram um do outro desde a primeira vez em que se encontraram; ela o descreveu abertamente como "falso"[49] e "falso como um cheque sem fundos."[50] Ela achava que a persona autoritária e machista de Hemingway era apenas pose; Hemingway, por sua vez, disse a Scott que Zelda era louca.[49] [51] Provavelmente não ajudava que Scott insistisse constantemente para que ela contasse a história de seu caso com Jozan a Hemingway e a esposa, Hadley. Adornando a história, os Fitzgerald disseram aos Hemingway que o caso terminara quando Jozan cometeu suicídio.[52] Foi através de Hemingway, no entanto, que os Fitzgerald foram apresentados a grande parte da comunidade de expatriados da Geração Perdida: Gertrude Stein, Alice B. Toklas, Robert McAlmon e outros.[43]

Uma das brigas mais sérias ocorreu quando Zelda disse a Scott que a vida sexual deles decaíra porque ele era homossexual e que ele provavelmente estava tendo um caso com Hemingway. Não há evidências de que qualquer um dos dois era homossexual, mas Scott mesmo assim decidiu dormir com uma prostituta para provar sua heterossexualidade. Zelda encontrou os preservativos que ele havia comprado antes que qualquer encontro ocorresse, e a isso se seguiu uma briga séria, que resultou num ciúme persistente.[53] Mais tarde, ela se jogou de um lance de escadas de mármore em uma festa porque Scott, absorto em uma conversa com Isadora Duncan, a ignorava.[54]

Zelda descrita pelo crítico literário Edmund Wilson, recordando-se de uma festa na casa dos Fitzgerald em Edgemoor, Delaware – fevereiro de 1928:

Eu sentei ao lado de Zelda, que estava em seu auge, iridescente. Alguns dos amigos de Scott estavam irritados com ela; outros, encantados. Eu era um dos que foram cativados. Ela tinha os caprichos de uma jovem do Sul e a desinibição de uma criança. Conversava com cor e sagacidade tão espontâneas – quase exatamente do jeito que ela escrevia – que eu logo deixei de me sentir incomodado pelo fato de que a conversa tinha funcionava como uma "associação livre" de ideias e de que não tinha como acompanhá-la.

Raras vezes conheci uma mulher que se expressasse tão encantadora e vigorosamente: por um lado, ela não usava frases prontas e, por outro, não fazia nenhum esforço para obter efeito. Evaporava rápido, no entanto, e eu me lembro de apenas uma coisa que ela disse naquela noite: que a escrita de Galsworthy era um tom de azul no qual ela não estava interessada.[55]

Obsessão e doença[editar | editar código-fonte]

Embora Scott tenha se baseado largamente na personalidade intensa de sua esposa em seus escritos, grande parte do conflito entre os dois se originava no tédio e isolamento que Zelda vivenciava enquanto Scott estava escrevendo. Ela frequentemente o interrompia quando ele estava trabalhando, e os dois foram ficando cada vez mais infelizes ao longo dos anos 20. Scott tinha desenvolvido alcoolismo grave, o comportamento de Zelda se tornou cada vez mais errático e nenhum dos dois progrediu em seus esforços criativos.[56]

Zelda tinha um desejo profundo de desenvolver um talento que fosse inteiramente dela, talvez como uma reação à fama e ao sucesso de Scott como escritor. Aos 27 anos, ela ficou obcecada com o balé, que estudara quando garota. Ela fora elogiada por suas habilidades de dança quando criança e, embora as opiniões de seus amigos sobre essa habilidade divergissem, parece que ela era razoavelmente talentosa. No entanto, Scott desprezava completamente o desejo de sua esposa de se tornar uma dançarina profissional e considerava-o uma perda de tempo.[57]

Zelda voltou aos estudos tarde demais para se tornar uma dançarina verdadeiramente excepcional, mas insistiu obsessivamente em treinos diários exaustivos (de até oito horas por dia[58] ) que contribuíram para sua exaustão física e mental subsequente.[59] Em setembro de 1929, ela foi convidada a participar da escola de balé da San Carlo Opera Ballet Company, em Nápoles, mas, por mais perto que isso estivesse do sucesso que desejava, recusou.[60] Enquanto o público ainda acreditava que os Fitzgerald viviam uma vida de glamour, os amigos notavam que a presença deles nas festas tinha passado de elegante a autodestrutiva – os dois tinham se tornado companhia desagradável.[61]

Em abril de 1930, Zelda foi internada em um sanatório na França onde, depois de meses de observação e tratamento, além de uma consulta com um dos principais psiquiatras da Europa, Doutor Eugen Bleuler,[62] foi diagnosticada como esquizofrênica.[63] Inicialmente internada em um hospital nos arredores de Paris, ela foi mais tarde transferida para uma clínica em Montreux, Suíça. A clínica tratava principalmente doenças gastrointestinais, e, como resultado dos problemas psicológicos profundos de Zelda, esta foi transferida para uma clínica psiquiátrica em Prangins, às margens do Lago Léman. Ela foi liberada em setembro de 1931 e os Fitzgerald voltaram para Montgomery, Alabama, onde o pai de Zelda, Juiz Sayre, estava morrendo. Em meio ao sofrimento da família da esposa, Scott anunciou que estava indo para Hollywood.[64] O pai de Zelda morreu enquanto Scott estava longe, e a saúde dela piorou mais uma vez. Em fevereiro de 1932, ela havia voltado a viver em uma clínica psiquiátrica.[65]

Save Me the Waltz[editar | editar código-fonte]

Em 1932, enquanto se tratava na Clínica Phipps no John Hopkins Hospital, em Baltimore, Zelda teve um arroubo de criatividade. Ao longo de suas seis primeiras semanas na clínica, ela escreveu um romance inteiro e o enviou para o editor de Scott, Maxwell Perkins.[66] [67]

Quando Scott enfim leu o livro de Zelda, uma semana depois de ela enviá-lo a Perkins, ficou furioso. O livro era um relato semiautobiográfico do casamento deles. Através de cartas, Scott a repreendeu e reclamou enfurecido que o romance havia utilizado o material autobiográfico que ele planejava usar em Tender Is the Night, no qual estava trabalhando havia anos e o qual finalmente seria publicado em 1934.[68]

Scott forçou Zelda a alterar o romance, removendo as partes que foram baseadas no material compartilhado que ele planejava usar. A Grande Depressão tinha atingido os Estados Unidos, mas a Scribner aceitou publicar o livro, e uma impressão de 3010 cópias foi lançada em sete de outubro de 1932.[69]

As semelhanças com os Fitzgerald eram óbvias. A protagonista do romance era Alabama Beggs, filha de um juiz do Sul, assim como Zelda, que casa com David Knight, um aspirante a pintor que fica famoso pelo seu trabalho de maneira abrupta. Eles vivem a vida rápida em Connecticut antes de partir para a França. Insatisfeita com o casamento, Alabama se entrega ao balé. Apesar de ouvir que não tinha chance, ela persevera e, depois de três anos, torna-se a principal dançarina em uma companhia de ópera. Entretanto, Alabama adoece devido à exaustão, e o romance termina quando eles retornam para a família dela, no Sul, quando seu pai está morrendo.[70]

Tematicamente, o romance retratou a luta de Alabama (e assim, também a de Zelda) para ser mais do que "uma motorista de banco traseiro em relação à própria vida" e para ser respeitada por suas próprias proezas – para se estabelecer independentemente de seu marido.[71] O estilo de Zelda era muito diferente do de Scott. A linguagem usada em Save Me the Waltz (Esta Valsa é Minha) era repleta de floreios verbais e metáforas complexas. O romance também era profundamente sensual; conforme escreveria a estudiosa de literatura Jacqueline Tavernier-Courbin em 1979, "a sensualidade vem da percepção de Alabama sobre a onda de vida presente dentro dela, da consciência do corpo, das imagens naturais através das quais não apenas as emoções, mas também meros fatos são expressos, da presença avassaladora dos sentidos, em particular o tato e o olfato, em cada descrição."[72]

Na época, no entanto, o livro não foi bem recebido pelos críticos. Para o desalento de Zelda, ele vendeu somente 1392 cópias, pelas quais ela recebeu $120.73.[73] O fracasso de Save Me the Waltz e as críticas severas de Scott sobre o fato de ela tê-lo escrito – ele a chamou de "plagiadora"[74] e de "escritora de quinta categoria"[74] – acabaram com seu entusiasmo. Foi o único romance que ela publicou.

Anos remanescentes[editar | editar código-fonte]

A partir de meados da década de 1930, Zelda passou o resto da vida em vários estágios de sofrimento mental. Algumas das obras que ela pintara nos anos anteriores, dentro e fora dos sanatórios, foram exibidas em 1934. Zelda ficou desapontada com a resposta à sua arte, assim como havia ficado com a recepção morna de seu livro. O The New Yorker as descreveu apenas como "pinturas da quase mítica Zelda Fitzgerald; com quaisquer conotações e associações emocionais que possam ter restado da assim chamada Era do Jazz." Não foi oferecida nenhuma descrição efetiva das pinturas.[75] Zelda, às vezes, tornava-se violenta e reclusa. Em 1936, Scott a internou no Highland Hospital, em Asheville, Carolina do Norte, e escreveu com pesar aos amigos:[76]

Zelda agora alega estar em contato direto com Cristo, William o Conquistador, Mary Stuart, Apolo e mais toda a parafernália comum de piadas de hospício... A tudo que ela sofreu, não há uma única noite sóbria na qual eu não eu preste uma rígida homenagem durante uma hora, na escuridão. De um jeito estranho, talvez inacreditável para você, ela sempre foi minha criança (não era recíproco como geralmente é em um casamento)... Eu fui sua grande realidade, frequentemente o único agente de contato que conseguia tornar o mundo tangível para ela.[76]

Zelda permaneceu no hospital enquanto Scott retornou mais uma vez para Hollywood por causa de um emprego, que pagava mil dólares por semana, na MGM em junho de 1937.[77] Sem que Zelda soubesse, ele iniciou um caso sério com a colunista de cinema Sheilah Graham.[78] Apesar da agitação do romance, Scott estava amargo e exausto. Quando a filha, Scottie, foi expulsa do internato, em 1938, ele culpou Zelda. Embora Scottie tenha sido aceita na Vassar College depois, o ressentimento dele contra Zelda estava mais forte do que nunca. Sobre o modo de pensar de Scott, Milford escreveu: "a veemência de seu rancor em relação a Zelda era clara. Fora ela quem o arruinara; ela quem o fizera esgotar seus talentos... Seu sonho fora roubado dele por Zelda."[79]

Depois de uma briga violenta e embriagada com Graham, em 1938, Scott voltou a Asheville. Um grupo do hospital de Zelda planejara ir para Cuba, mas ela perdera a viagem. Os Fitzgerald decidiram ir sozinhos. A viagem foi um desastre mesmo para os padrões deles: Scott foi espancado ao tentar parar uma briga de galo e voltou aos Estados Unidos tão embriagado e exausto que teve de ser hospitalizado.[80] Os Fitzgerald nunca mais se viram.[81]

Scott voltou para Hollywood e para Graham; Zelda voltou para o hospital. Mesmo assim, ela progrediu em Asheville e, em março de 1940, quatro anos depois de sua internação, foi liberada.[82] Ela estava perto dos quarenta, seus amigos há muito haviam partido, e os Fitzgerald não tinham mais muito dinheiro. Scott estava cada vez mais amargo com seus próprios fracassos e com o sucesso contínuo de seu velho amigo Hemingway. Eles escreveram um para o outro com frequência até que, em dezembro de 1940, Scott sucumbiu. Em 21 de dezembro de 1940, ele morreu. Zelda não conseguiu comparecer ao funeral dele em Rockville, Maryland.[83]

Zelda leu o manuscrito inacabado do romance que Scott estava escrevendo quando faleceu, The Love of the Last Tycoon [O Último Magnata]. Ela escreveu ao crítico literário Edmund Wilson, que havia concordado em editar o livro, refletindo sobre o legado de Scott. Zelda acreditava, disse Milford, sua biógrafa, que o trabalho dele continha "um temperamento americano fundamentado na crença em si mesmo e na 'vontade-de-sobreviver', as quais seus contemporâneos haviam abandonado. Scott, ela insistia, não o fizera. O trabalho dele possuía vitalidade e força por causa de sua crença infatigável em si mesmo."[84]

Depois de ler The Last Tycoon, Zelda começou a trabalhar em um romance próprio, Caesar's Things. Ela não comparecera ao funeral de Scott e também não compareceu ao casamento de Scottie. Em agosto de 1943, ela voltou ao Highland Hospital. Trabalhou em seu romance enquanto entrava e saía do hospital. Ela nunca melhorou realmente e nunca finalizou o romance. Na noite de 10 de março de 1948, houve um incêndio na cozinha do hospital. Zelda estava trancada em uma sala, esperando pela terapia de eletrochoque. O fogo se alastrou através do poço do elevador de comida, se espalhando por todos os andares. As escadas de emergência eram de madeira e também pegaram fogo. Nove mulheres, incluindo Zelda, morreram.[85]

Uma fotografia em cores de um túmulo. Na lápide se lê Francis Scott Key Fitzgerald September 24, 1896 December 21, 1940 His Wife Zelda Sayre July 24, 1900 March 10, 1948. "So we beat on boats against the current, borne back ceaselessly into the past" -- The Great Gatsby
O túmulo de Zelda e Scott em Rockville, Maryland

A filha dos Fitzgerald, Scottie, escreveu depois de suas mortes:

Eu acho (na falta de provas documentais do contrário) que, se as pessoas não são loucas, elas escapam de situações loucas, por isso nunca fui capaz de comprar a ideia de que foi o alcoolismo do meu pai que a levou ao sanatório. Assim como não acho que foi ela que o levou ao alcoolismo.[86]

Scott e Zelda foram enterrados em Rockville, Maryland – orginalmente no Rockville Union Cemetery, longe do lote de terra da família dele. Em 1975, no entanto, Scottie esforçou-se para que eles fossem enterrados junto aos outros Fitzgerald no Saint Mary's Catholic Cemetery e obteve êxito. Inscrita na lápide deles está a última frase de The Great Gatsby: "Então prosseguimos, barcos contra a corrente, empurrados incessantemente ao passado."

Legado[editar | editar código-fonte]

Scott acreditava ser um fracasso quando morreu, e a morte de Zelda também foi pouco notada. Mas, pouco tempo depois, o interesse pelos Fitzgerald ressurgiu. Em 1950, o roteirista Budd Schulberg, que conhecia Scott do tempo em que este estivera em Hollywood, escreveu The Disenchanted [Os Desencantados], que apresentava um personagem alcoólatra fracassado, inspirado em F. Scott Fitzgerald. Em 1951, o professor da Universidade Cornell Arthur Mizener escreveu The Far Side of Paradise, uma biografia de F. Scott Fitzgerald que reacendeu o interesse pelo casal entre os estudiosos. Ela foi serializada na The Atlantic Monthly, e uma reportagem a respeito dela foi escrita na revista Life, uma das mais lidas e discutidas à época nos Estados Unidos. Scott era visto como um fracasso fascinante; a saúde mental de Zelda foi amplamente responsabilizada pelo potencial desperdiçado dele.[87]

Uma peça baseada em The Disenchanted estreou na Broadway em 1958. Também naquele ano a amante de Scott em Hollywood, Sheilah Graham, publicou um livro de memórias, Beloved Infidel [Adorado Infiel], sobre os últimos anos dele. Beloved Infidel tornou-se um bestseller e, mas tarde, um filme estrelado por Gregory Peck, no papel de Scott, e Deborah Kerr, como Graham. O livro e o filme retrataram-no sob uma ótica mais compreensiva do que os trabalhos anteriores. Em 1970, no entanto, o casamento de Scott e Zelda passou por sua mais profunda revisão, quando Nancy Milford, uma estudante de pós-graduação da Universidade Columbia, publicou Zelda: uma biografia, o primeiro trabalho extenso sobre a vida dela. Ele foi finalista do Pulitzer e do National Book Award e esteve durante semanas na lista de mais vendidos do The New York Times. O livro apresenta Zelda como uma artista por mérito próprio cujos talentos foram diminuídos por um marido controlador. Assim, Zelda tornou-se um ícone do movimento feminista na década de 1970 – uma mulher cujo potencial não reconhecido fora suprimido pela sociedade patriarcal.[88]

Zelda foi a inspiração para "Witchy Woman"[89] ,[90] , canção sobre feiticeiras sedutoras escrita por Don Henley e Bernie Leadon para os Eagles depois que Henley leu a biografia de Zelda e sobre a musa, o gênio incompleto por trás do marido, F Scott Fitzgerald, a selvagem, cativante, fascinante, fundamental "melindrosa" da Era do Jazz e dos Roaring Twenties personificada em The Great Gatsby na personalidade desinibida e imprudente de Daisy Buchanan.[91] O comportamento de Zelda na letra de "Witchy Woman" alude aos seus excessos nas festas, que foram prejudiciais a sua psique: "She drove herself to madness with the silver spoon [Ela levou a si mesma à loucura com a colher de prata]" é uma referência ao tempo que Zelda passou em uma instituição psiquiátrica e à colher de prata entalhada usada para dissolver torrões de açúcar com absinto,[92] bebida alcoólica popular nos anos 1920, destilada a partir da losna e chamada de "fada verde" porque às vezes levava a alucinações.

Quando Tenessee Williams dramatizou suas vidas em Clothes for a Summer Hotel, nos anos 1980, ele se baseou largamente em Milford. Uma caricatura de Scott e Zelda surgiu: como epítome da glorificação da juventude da Era do Jazz, como representantes da Geração Perdida e como uma parábola sobre as armadilhas do sucesso demasiado.[88] A lenda de Zelda e Scott adentrara amplamente na cultura popular: no filme de Woody Allen Manhattan, de 1979, quando o amigo de Allen confidencia que planeja trocar a esposa pela amante (que por acaso é a ex-namorada do Allen), este pergunta com descrença se ele planeja "fugir com a vencedora do prêmio Zelda Fitzgerald de maturidade emocional."

Sobre o legado de Zelda na cultura popular, a biógrafa Cline escreveu: "Recentemente, o mito comparou Zelda aos outros ícones do século XX, Marilyn Monroe e Princesa Diana. Compartilha com as duas o desafio às convenções, a intensa vulnerabilidade, a beleza condenada, a luta incessante por uma identidade séria, a vida curta e trágica e o temperamento completamente impossível."[93] Em 1989, o museu de F. Scott e Zelda Fitzgerald foi inaugurado em Montgomery, Alabama. Ele fica em uma casa que eles alugaram por pouco tempo em 1931 e 1932. O museu é um dos poucos lugares em que algumas das pinturas de Zelda estão em exibição.[94]

Um musical britânico, Beautiful and Damned, com texto de Kit Hesketh Harvey e letra e música de Les Reed e Roger Cook, estreou no West End de Londres em 2004, com Helen Anker no papel de Zelda.

Em 2005, o compositor Frank Wildhorn e o letrista Jack Murphy estrearam seu musical Waiting For The Moon em Marlton, Nova Jersey. O musical era estrelado por Lauren Kennedy no papel de Zelda. Era, na maior parte, centrado no ponto de vista de Zelda e continha muita dança. O show, que foi exibido apenas entre 20 e 31 de julho de 2005, ainda está sendo discutido para uma possível montagem na Broadway.

A imagem deslumbrante de Zelda também inspirou o nome da personagem Princesa Zelda, do criador de jogos de videogame Shigeru Miyamoto na série de jogos The Legend of Zelda. Miyamoto explicou: "Zelda era o nome da esposa do famoso escritor F. Scott Fitzgerald. Ela era uma mulher famosa e que todos consideravam bonita, e eu gostei do som de seu nome. Então, tomei a liberdade de usá-lo no primeiro título da série."[95]

O autor francês Gilles Leroy escreveu uma autobiografia fictícia chamada Alabama Song (2007); ela ganhou o Prêmio Goncourt, maior distinção literária da França. Embora Leroy sempre tenha insistido que o livro não é uma biografia, mas um romance, ele contou com uma grande pesquisa factual.

Tom Hiddleston e Alison Pill interpretam Scott e Zelda Fitzgerald no longa-metragem de 2011 Meia-noite em Paris, de Woody Allen.

A peru-selvagem Zelda, moradora do Battery Park em Manhattan, Nova York, deve seu nome a ela porque (segundo a lenda) durante um dos colapsos nervosos de Zelda Fitzgerald, ela desapareceu e foi encontrada lá, tendo, aparentemente, caminhado vários quilômetros em direção ao centro.[96]

O romance de estreia de R. Clifton Spargo, Beautiful Fools: The Last Affair of Zelda and Scott Fitzgerald (Overlook Press, 2013) é uma ficcionalização da última viagem de Zelda e Scott juntos, para Cuba, em 1939.

Reavaliação crítica[editar | editar código-fonte]

Depois da biografia de Milford, estudiosos e críticos começaram a olhar para o trabalho de Zelda sob uma nova perspectiva. Em uma edição de 1968 de Save Me the Waltz, o estudioso de F. Scott Fitzgerald Matthew Bruccoli escreveu: "Save Me the Waltz vale a leitura em parte porque qualquer coisa que ajude a elucidar a carreira de F. Scott Fitzgerald vale a pena – e também porque é o único romance publicado de uma mulher corajosa e talentosa que é lembrada por suas derrotas."[97] Mas, conforme Save Me the Waltz ia sendo cada vez mais lido junto à biografia de Milford, uma nova perspectiva surgiu.[98] Em 1979, a estudiosa Jacqueline Tavernier-Courbin escreveu, refutando o posicionamento de Bruccoli: "Save Me the Waltz é um romance comovente e fascinante que deveria ser lido segundo seus próprios termos, tanto quanto Tender Is The Night. Ele não precisa de nenhuma outra justificativa que não seja sua excelência comparativa.[99]

Save Me the Waltz tornou-se o foco de muitos estudos literários que exploravam diferentes aspectos do trabalho de Zelda: a forma como o romance contrastava com a visão de Scott sobre o casamento deles apresentada em Tender Is The Night;[100] ; o modo como a cultura da mercadoria surgida nos anos 1920 gerou estresse nas mulheres modernas;[98] e o modo como essas atitudes levaram a uma distorção da "doença mental" nas mulheres.[101]

A coletânea dos escritos de Zelda Fitzgerald (incluindo Save Me the Waltz), editada por Matthew J. Bruccoli, foi publicada em 1991. O crítico literário do The New York Times Michiko Kakutani escreveu: "É impressionante que o romance tenha sido escrito em dois meses. É ainda mais extraordinário que mesmo com todas as suas falhas ele consiga encantar, divertir e comover o leitor. Zelda Fitzgerald é bem-sucedida nesse romance ao transmitir seu próprio desespero heroico para obter êxito em algo seu, e ela também conseguiu distinguir-se enquanto autora com, conforme certa vez disse Edmund Wilson sobre o marido dela, um "dom para transformar a linguagem em algo iridescente e surpreendente.'"[102]

Estudiosos continuam a examinar e debater o papel que Scott e Zelda podem ter tido no abafamento da criatividade de cada um.[103] A biógrafa de Zelda, Cline, escreveu que os grupos que defendem cada um são "tão diametralmente opostos quanto os que defendem Plath ou Hughes" – uma referência à forte controvérsia a respeito da relação dos poetas Ted Hughes e Sylvia Plath, que eram casados.[104]

A arte de Zelda também foi reavaliada como interessante por seus próprios méritos. Depois de a arte dela passar grande parte das décadas de 1950 e 60 nos sótãos da família – a mãe de Zelda, inclusive, mandou queimar muitas das obras porque não gostava delas[105] – estudiosos começaram a examina-la. Exposições de seu trabalho já viajaram através dos Estados Unidos e da Europa. Uma resenha da exposição escrita pelo curador Everl Adair mencionou a influência de Vincent van Gogh e de Georgia O'Keeffe em suas pinturas e concluiu que o corpus remanescente "representa o trabalho de uma mulher talentosa e visionária que superou tremendas adversidades para criar um conjunto da obra fascinante – que nos inspira a celebrar a vida que poderia ter sido."[105]

Referências[editar | editar código-fonte]

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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