Zeus

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Zeus
O Júpiter de Esmirna, descoberto em Esmirna em 1680.[1]
Rei dos Deuses
Deus do Céu, Trovão e Relâmpago
Deus da Lei, Ordem e Justiça
Morada Monte Olimpo
Símbolos Raio, águia, touro e carvalho
Cônjuge Hera e outras
Pais Cronos e Reia
Irmãos Héstia, Hades, Hera, Posidão e Deméter
Romano equivalente Júpiter

Zeus (em grego antigo: Ζεύς; transl. Zeús;[2] em grego moderno: Δίας, transl. Días), na religião da Grécia Antiga, é o "pai dos deuses e dos homens" (πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε, patēr andrōn te theōn te),[3] que exercia a autoridade sobre os deuses olímpicos como um pai sobre sua família. É o deus dos raios na mitologia grega. Seu equivalente romano é Júpiter, enquanto seu equivalente etrusco é Tinia; alguns autores estabeleceram seu equivalente hindu como sendo Indra.

Filho de Cronos e Reia, Zeus é o mais novo de seus irmãos; na maior parte das tradições é casado, primeiro com Métis, engendrando a deusa Atena e, depois, com Hera, embora, no oráculo de Dodona, sua esposa seja Dione, com quem, de acordo com a Ilíada, ele teria gerado Afrodite.[4] É conhecido por suas aventuras eróticas, que frequentemente resultavam em descedentes divinos e heróicos, como Atena, Apolo e Ártemis, Hermes, Perséfone (com Deméter), Dioniso, Perseu, Héracles, Helena de Troia, Minos, e as Musas (de Mnemosine); com Hera, teria tido Ares,Ênio,Ilítia, Éris Hebe e Hefesto.[5]

Como ressaltou o acadêmico alemão em seu livro Religião Grega, "mesmo os deuses que não são filhos naturais de Zeus dirigem-se a ele como Pai, e todos os deuses se põem de pé diante de sua presença."[6] Para os gregos, era o Rei dos Deuses, que supervisionava o universo. Nas palavras do geógrafo antigo Pausânias, "que Zeus é rei nos céus é um dito comum a todos os homens."[7] Na Teogonia, de Hesíodo, Zeus é responsável por delegar a cada um dos deuses suas devidas funções. Nos Hinos Homéricos ele é referido como o "chefe dos deuses".

Seus símbolos são o raio, a águia, o touro e o carvalho. Além de sua clara herança indo-européia, sua clássica descrição como "ajuntador de nuvens" também deriva certos traços iconográficos das culturas do Antigo Oriente Médio, tais como o cetro. Zeus frequentemente foi representado pelos antigos artistas gregos em duas poses diferentes: numa, em pé, apoiado para a frente, empunhando um raio na altura de sua mão direita, erguida; na outra sentado, numa pose majéstica.

Havia muitas estátuas erguidas em sua honra, das quais a mais magnífica era a sua estátua em Olímpia, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Originalmente, os Jogos Olímpicos eram realizados em sua honra.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Carruagem de Zeus, de Histórias dos Tragedistas Gregos (1879), de Alfred Church.

Em grego, o nome do deus é Ζεύς, Zeús, AFI[zdeús] (nominativo : Ζεύς, Zeús; vocativo : Ζεῦ, Zeû; acusativo: Δία, Día; genitivo: Διός, Diós; dativo: Διί, Dií). Na Civilização Minoica, Zeus não era cultuado pela população geral, mas apenas em pequenos cultos minoritários que o viam como um semideus que acabara sendo morto.[8] Os primeiros registros de seu nome estão no grego micênico, nas formas di-we e di-wo, escritas no silabário Linear B.[9]

Zeus, referido poeticamente pelo vocativo Zeu pater ("Ó, pai Zeus"), é uma continuação de *Di̯ēus, o deus proto-indo-europeu do céu diurno, também chamado de *Dyeus ph2tēr ("Pai Céu").[8] Este mesmo deus é conhecido por este nome em sânscrito (Dyaus/Dyaus Pita), latim (Júpiter, de Iuppiter, do vocativo proto-indo-europeu *dyeu-ph2tēr[10] ), que é derivado da forma básica *dyeu- ("brilhar", e em seus diversos derivados - "céu", "deus").[8] Já na mitologia germânica o paralelo pode ser encontrado em *Tīwaz > alto germânico antigo Ziu, nórdico antigo Týr, enquanto o latim também apresenta as formas deus, dīvus e Dis (uma variação de dīves[11] ), do substantivo relacionado *deiwos.[11] Para os gregos e romanos, o deus do céu também era o deus supremo. Zeus é a única divindade do panteão olímpico cujo nome tem uma etimologia tão evidentemente indo-européia.[12]

Zeus na mitologia[editar | editar código-fonte]

Zeus, na Villa Getty, entre 1 e 100 d.C., autor desconhecido.

Nascimento[editar | editar código-fonte]

Cronos teve diversos filhos com Reia: Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon, porém engoliu-os todos (menos Poseidon e Hades) assim que nasceram, após ouvir de Gaia e Urano que ele estava destinado a ser deposto por seu filho, da mesma maneira que ele havia deposto seu próprio pai - um oráculo do qual Reia tomou conhecimento e pôde evitar.

Quando Zeus estava prestes a nascer, Reia procurou Gaia e concebeu um plano para salvá-lo, para que Cronos fosse punido por suas ações contra Urano e seus próprios filhos. Reia deu à luz a Zeus na ilha de Creta, e entregou a Crono uma pedra enrolada em roupas de bebê, que ele prontamente engoliu.

Infância[editar | editar código-fonte]

Reia teria escondido Zeus numa caverna no Monte olimpo, em Creta. De acordo com as diversas versões da história, ele teria sido criado:

  • por Gaia;
  • por uma cabra chamada Amaltéia, enquanto um pelotão de Kouretes - "soldados", ou "deuses menores" - dançavam, gritavam e batiam suas lanças contra seus escudos para que Cronos não ouvisse o choro do bebê (ver cornucópia);
  • por uma ninfa chamada Adamantéia; como Cronos era senhor da Terra, dos céus e do mar, ela o escondeu pendurado por uma corda de uma árvore, de modo que ele, não estando nem na terra, nem no céu e nem no mar, teria ficado invisível para seu pai.
  • por uma ninfa chamada Cinosura; como agradecimento, Zeus a teria colocado em meio às estrelas.
  • foi criado por Melissa, que o amamentou com leite de cabra e mel.
  • foi criado por uma família de pastores sob a condição de que suas ovelhas fossem salvas dos lobos.

Rei dos deuses[editar | editar código-fonte]

Marnas colossal sentado, retratado ao estilo de Zeus. Período romano. Marnas[13] era a divindade principal de Gaza (Museu Arqueológico de Istambul).

Após chegar à idade adulta, Zeus forçou Cronos a vomitar primeiro a pedra que lhe havia sido dada em seu lugar - em Pito, sob os vales do monte Parnaso, como um sinal para os mortais: o Ônfalo, "umbigo" - e em seguida seus irmãos, de acordo com a ordem em que haviam sido engolidos. Em algumas versões, Métis deu a Crono um emético para forçá-lo a vomitar os bebês, enquanto noutra o próprio Zeus teria aberto com um corte a barriga de Crono. Em seguida Zeus libertou os irmãos de Crono, os Gigantes, os Hecatônquiros e os Ciclopes, que estavam aprisionados num calabouço no Tártaro, após matar Campe, o monstro que os vigiava.

Para mostrar seu agradecimento, os Ciclopes lhe presentearam com o trovão e o raio, que haviam sido escondidos anteriormente por Gaia. Zeus então, juntamente com seus irmãos e irmãs, os Gigantes, Hecatônquiros e Ciclopes, depuseram Crono e os outros Titãs, durante a batalha conhecida como Titanomaquia. Os Titãs, após serem derrotados, foram despachados para o Tártaro, enquanto um deles, Atlas, foi condenado a segurar permanentemente o céu.

Após a batalha contra os Titãs, Zeus dividiu o mundo com seus irmãos mais velhos, Posidão e Hades: Zeus ficou com o céu e o ar, Posidão com as águas e Hades com o mundo dos mortos (o mundo inferior). A antiga Terra, Gaia, não podia ser dividida, e portanto ficou para todos os três, de acordo com suas habilidades - o que explica porque Posidão era o "sacudidor da terra" (o deus dos terremotos), e Hades ficava com os humanos que morreram (ver Pentos).

Gaia, no entanto, não aprovou a maneira com que Zeus tratou os Titãs, seus filhos; logo após assumir o trono como rei dos deuses, Zeus teve de combater outros filhos de Gaia: o monstro Tifão e a Equidna. Zeus derrotou Tifão, aprisionando-o sob o Monte Etna, porém poupou a vida de Equidna e seus filhos.

Zeus e Hera[editar | editar código-fonte]

Zeus era irmão e consorte de Hera. Com ela teve três filhos: Ares, Hebe e Hefesto, embora alguns relatos afirmem que Hera teria tido-os sozinha. Algumas versões também descrevem Ilitia e Éris como filhas do casal. As conquistas amorosas de Zeus, no entanto, entre ninfas e as mitológicas progenitoras mortais das dinastias helênicas são célebres. A mitografia olímpica lhe credita com uniões com Leto, Deméter, Dione e Maia. Entre as mortais com quem ele teria se relacionado estavam Sêmele, Io, Europa e Leda.

Diversos mitos mencionam o sofrimento de Hera com o ciúme gerado por estas conquistas amorosas, e a descrevem como uma inimiga consistente das amantes de Zeus e de seus filhos. Por algum tempo uma ninfa chamada Eco foi encarregada de distrair Hera falando incessantemente, afastando assim sua atenção dos casos amorosos de seu marido; quando Hera descobriu o estratagema, condenou Eco a repetir permanentemente as palavras de outras pessoas.

Consorte e filhos[editar | editar código-fonte]

Descendentes divinos[editar | editar código-fonte]

Mãe
Filhos
Ananque ou Têmis

Moiras1

  1. Átropos
  2. Cloto
  3. Láquesis
Deméter
  1. Perséfone
  2. Zagreu
Dione ou Tálassa Afrodite*
Ege

Egipã[14]

Eos
  1. Ersa
  2. Caras
Éris

Limo

Eurínome/Eurídome/
Eurimedusa/Evante
Graças2
  1. Aglaia
  2. Eufrosina
  3. Tália
Gaia
  1. Órion
  2. Manes
Hera
  1. Ares3
  2. Ilitia
  3. Éris
  4. Hebe3
  5. Hefesto3
  6. Ângelo
Leto
  1. Apolo
  2. Ártemis
Maia

Hermes

Métis

Atena4

Mnemosine
  1. Musas (três originais)
    1. Aede
    2. Mélete
    3. Mneme
  2. Musas (nove posteriores)
    1. Calíope
    2. Clio
    3. Erato
    4. Euterpe
    5. Melpômene
    6. Poliímnia
    7. Terpsícore
    8. Tália
    9. Urânia
Nêmesis Helena de Troia (possivelmente)
Perséfone
  1. Zagreu
  2. Melínoe
Selene
  1. Ersa
  2. Leão da Nemeia
  3. Pandia
Tália Palicos
Têmis
  1. Astreia
  2. Ninfas de Eridanos
  3. Nêmesis
  4. Horas
    1. Primeira geração
      1. Auxo
      2. Carpo
      3. Talo
    2. Segunda geração
      1. Dice
      2. Irene
      3. Eunomia
    3. Terceira geração
      1. Ferusa
      2. Eupória
      3. Ortósia
Mãe desconhecida Aleteia
Mãe desconhecida Até
Mãe desconhecida Cero
Mãe desconhecida Litas
Mãe desconhecida Tique

Descendentes semi-divinos e mortais[editar | editar código-fonte]

Mãe
Filhos
Alcmene Héracles
Antíope
  1. Ânfion
  2. Zeto
Anaxiteia Oleno
Astérope, Oceânide Ácragas
Calisto Arcas
Cálice Étlio (possivelmente)
Calírroe (filha de Aqueloo) sem descendentes conhecidos
Carme Britomártis
Cassiopeia Atínio
Caldene
  1. Sólimo
  2. Mílias
Dânae Perseu
Dia Perito
Égina
  1. Éaco
  2. Damocrácia[15]
Elara
  1. Tício
Electra
  1. Dardano
  2. Iásio
  3. Harmonia
Europa
  1. Minos
  2. Radamanto
  3. Sarpedão
  4. Alagônia
  5. Carno
  6. Dodona[16]
Eurimedusa Mirmidão
Euriodeia Arcésio
Ftia (filha de Foroneu) Aqueu (possivelmente)
Himália
  1. Crônio
  2. Esparteu
  3. Cito
Ideia, ninfa Crés
Iodame Teba
Io
  1. Épafo
  2. Ceróesa
Isonoe Orcômeno
Lâmia
  1. Áquilos
  2. Herófila
Laodâmia Sarpedão
Leda
  1. Pólux
  2. Castor
  3. Helena de Troia5
Mera Locro
Niobe
  1. Argos
  2. Pelasgo
Ótris (Meliteu)
Pandora
  1. Greco
  2. Latino
Pluto Tântalo
Podarge
  1. Bálio
  2. Xanto
Protogênia
  1. Étlio (possivelmente)
  2. Ópus
Pirra Hélen
Sêmele Dioniso
Taígete Lacedémon
Tia
  1. Magnes
  2. Mácedon
Torrébia Cário
Ninfa africana Iarbas
Ninfa samotrácia Sáon (possivelmente)
Ninfa sítnide Mégaro
Mãe desconhecida
  1. Calabro
  2. Geresto
  3. Ténaro
Mãe desconhecida Corinto
Mãe desconhecida Crínaco

1Os gregos alegavam tanto que as Moiras eram filhas de Zeus e da titã Têmis quanto de seres primordiais como o Caos, Nix ou Ananque.

2As Graças eram consideradas filhas de Zeus e Eurínome, porém também foram citadas como filhas de Dioniso e Afrodite, ou de Hélios e da náiade Egle.

3Alguns relatos contam que Ares, Hebe e Hefesto teriam nascido partenogeneticamente.

4De acordo com uma versão, Atena teria nascido por meio de partenogênese.

5Helena seria filha de Leda ou Nêmesis.

* Em versões mais antigas do mito, Afrodite seria filha de Urano e Tálassa, sendo tia de Zeus.

Títulos e epítetos[editar | editar código-fonte]

Cabeça colossal de mármore de Zeus, de autoria romana, século II d.C. (Museu Britânico)[17]

Zeus desempenhava um papel dominante, presidindo sobre o panteão olímpico da Grécia Antiga. Foi pai de muitos heróis, e fazia parte de diversos cultos locais. Embora o "ajuntador de nuvens" homérico fosse um deus do céu e do trovão, como seus equivalentes orientais, também era o supremo artefato cultural; de certa maneira, era a encarnação das crenças religiosas gregas, e o arquétipo da divindade grega.

Além dos epítetos locais, que simplesmente designavam que a divindade havia feito algo em determinado lugar, os epítetos ou títulos aplicados a Zeus enfatizavam diferentes aspectos de sua ampla autoridade:

  • Zeus Olímpio, enfatizava a realeza de Zeus e seu domínio sobre os deuses, bem como sua presença específica no Festival Pan-Helênico de Olímpia.
  • Zeus Pan-Helênio ("Zeus de todos os Helenos"), a quem o célebre templo de Éaco em Egina foi dedicado.
  • Zeus Xênio, Filóxeno ou Hóspites: Zeus que era o padroeiro da hospitalidade e dos convidados, pronto para vingar qualquer mal cometido a um estrangeiro.
  • Zeus Órquio: Zeus protetor dos juramentos. Mentirosos que haviam sido expostos eram forçados a dedicar uma estátua a Zeus, muitas vezes no santuário de Olímpia.
  • Zeus Agoreu: Zeus que cuidava dos negócios na ágora e punia os comerciantes desonestos.
  • Zeus Egíoco: Zeus que portava a égide, com a qual ele infundia o terror nos ímpios e em seus inimigos.[18] [19] [20] Outros autores derivaram este epíteto de αἴξ ("cabra") e οχή, interpretando-o como uma alusão à lenda segundo a qual Zeus teria sido amamentado por Amalteia.[21] [22]

Entre outros nomes e epítetos dados a Zeus estão:

  • Zeus Meilíquio (Meilichios, "facilmente acessível"): Zeus assimiltou um daimon ctônico arcaico, propiciado em Atenas, Meilíquio.
  • Zeus Taleu (Zeus Tallaios, "Zeus solar"): o Zeus que era cultuado em Creta.
  • Zeus Labraindo (Labrandos): venerado na Cária, seu local de culto era em Labrandos, e era representado empunhando um machado de ponta dupla (labrys). Estava associado ao deus hurrita do céu e da tempestade, Teshub.
  • Zeus Naio (Naos) e Zeus Buleio (Bouleus): formas de Zeus cultuadas em Dodona, o oráculo mais antigo. Alguns autores acreditam que os nomes de seus sacerdotes, os selos, teriam dado origem ao nome de helenos, dado ao povo grego desde a Antiguidade.
  • Zeus Cásio: o Zeus do Monte Cásio, na Síria.
  • Zeus Itômio ou Itomeu (Ithomatas): o Zeus do Monte Itome, na Messênia.
  • Zeus Astrápeo (Astrapios, "relampejante")
  • Zeus Brôntio, Brôncio ou Bronteu ("trovejante")

Cultos[editar | editar código-fonte]

Cultos pan-helênicos[editar | editar código-fonte]

O principal centro de culto de Zeus, para onde todos os gregos se dirigiam quando queriam prestar homenagem ao seu principal deus, era Olímpia. A cada quatro anos realizava-se um festival, cujo ponto máximo eram os célebres Jogos Olímpicos. Havia na cidade um altar a Zeus, feito não de pedra mas sim de cinzas, obtidas a partir dos restos de sacrifícios animais realizados ali ao longo de séculos.

Fora dos santuários que se encontravam nas principais pólis, não havia uma maneira específica de culto a Zeus partilhada por todo o mundo grego; a maior parte dos títulos listados abaixo, por exemplo, podiam ser encontrados em inúmeros templos gregos da Ásia Menor à Sicília. Certos rituais eram igualmente comuns: o sacrifício de um animal de cor branca sobre um altar elevado, por exemplo.

Zeus Velcano[editar | editar código-fonte]

Com apenas uma exceção, os gregos eram unânimes em reconhecer o local de nascimento de Zeus como sendo a ilha de Creta. A Civilização Minoica contribuiu com diversos aspectos essenciais da religião grega antiga: "através de cem canais a antiga civilização se esvaziou na nova", observou o historiador americano Will Durant,[23] e o Zeus cretense manteve suas feições jovens originais. Velcano (Velchanos), versão helenizada do nome minóico do filho local de uma deusa-mãe, "uma divindade pequena e inferior que assumiu os papéis de filho e consorte",[24] foi adotado como um epíteto para Zeus, cujo culto espalhou-se para diversos outros locais.

Em Creta, Zeus era venerado em diversas cavernas (em Cnossos, Ida e Palecastro). Durante o período helenístico um pequeno santuário dedicado a Zeus Velcano foi fundado nas proximidades da cidade moderna de Aghia Triada, sobre as ruínas de um antigo palácio minóico. Moedas do período originárias de Festo mostram a forma com a qual o deus era cultuado: um jovem sentado entre os galhos de uma árvore, com um galo sobre seus joelhos.[25] Noutras moedas cretenses Velcano foi representado na forma de uma águia, e era associado com uma deusa que celebrava um casamento místico.[26] Inscrições em Gortina e Lito registraram um festival referido como Velcânia (Velchania), o que mostra quanto seu culto ainda era difundido na Creta helenística.[27]

As histórias de Minos e Epimênides sugerem que estas cavernas haviam sido usadas anteriormente para adivinhações incubatórias por reis e sacerdotes. A ambientação dramática da peça Leis, de Platão, se passa ao longo de uma rota de peregrinação a um destes sítios, enfatizando o conhecimento cretense arcaico. Na arte da ilha, Zeus era representado como um jovem de cabelos longos, e não como, no resto da Grécia, um adulto maduro; a ele eram entoados hinos que o descreviam como ho megas kouros, "o grande jovem". Estatuetas de marfim do "Garoto Divino" foram desenterradas nas proximidades do Labirinto de Cnossos, por Arthur Evans.[28] Juntamente com os curetes (kouretes), um grupo de dançarinos extáticos armados, ele presidia sobre os rituais secretos e rigorosos de treinamento atlético-militar da paideia cretense.

O mito da morte do Zeus cretense, encontrado em diversos sítios montanhosos, porém mencionado apenas numa fonte comparativamente tardia - Calímaco[29] - juntamente com a afirmação do gramático Antonino Liberal de que um fogo se acendia anualmente na caverna onde o jovem havia nascido e que ele havia compartilhado com um mítico enxame de abelhas, sugere que Velcano teria sido uma divindade anual associada à vegetação.[30] O autor helenístico Evêmero aparentemente teria proposto uma teoria segundo a qual Zeus teria sido um grande rei de Creta, e que, postumamente, sua glória teria o transformado aos poucos numa divindade. As obras de Evêmero não sobreviveram aos dias de hoje, porém foram mencionadas por autores cristãos posteriores.

Zeus Liceu[editar | editar código-fonte]

Cabeça de Zeus, com uma coroa de louros, num stater de ouro. Lâmpsaco, c. 360-340 a.C. (Cabinet des Médailles).

O epíteto Zeus Liceu (Zeus Lykaios, "Zeus-lobo") era atribuído a Zeus apenas quando associado ao festival arcaico das Liceias, na localidade de Liceia, nas encostas do Monte Liceu, o pico mais alto da Arcádia. Zeus tinha uma associação apenas formal[31] com os rituais e mitos deste rito de passagem que envolviam a ameaça antiga de canibalismo e a possibilidade de uma transformação em licantropo para os efebos que dele participavam.[32] Nas proximidades da antiga pilha de cinzas sobre a qual eram efetuados os sacrifícios,[33] se encontrava um recinto proibido no qual, supostamente, nenhuma sombra jamais era projetada.[34]

De acordo com Platão,[35] um clã específico se reuniria na montanha para fazer um sacrifício a Zeus Liceu, a cada nove anos, e uma pequena quantidade de entranhas humanas era acrescentada às entranhas do animal sacrificado; aquele que consumisse o pedaço de carne humana supostamente se transformaria num lobo, e voltaria à forma humana apenas se não voltasse a consumir carne humana até o fim do próximo ciclo de nove anos. Haviam jogos associados com o festival das Liceias, que foram interrompidos no século IV a.C. com a urbanização da Arcádia (Megalópole); lá, o principal templo era dedicado a Zeus Liceu.

Apolo também tinha uma antiga forma lupina, Apolo Liceu (Apollo Lycaeus), venerado em Atenas no Liceu (Lykeion), célebre por ser um dos locais frequentados por Aristóteles, onde ele costumava lecionar.

Outros cultos[editar | editar código-fonte]

Embora a etimologia indique que Zeus era originalmente um deus celestial, diversas cidades gregas prestavam homenagem a uma versão local de Zeus, que vivia sob a terra. Os atenienses e sicilianos cultuavam Zeus Melíquio (Zeus Meilichios, "bondoso" ou "melífluo"), enquanto outras cidades tinham Zeus Ctônio (Zeus Chthonios, "terreno"), Zeus Catactônio (Zeus Katachthonios, "sob a terra") e Zeus Plúteo (Zeus Plousios, "trazedor de riquezas"). Estas divindades podiam ser representadas nas artes plásticas na forma de serpentes, ou em forma humana, ou até mesmo como ambas, na mesma imagem. Também recebiam oferendas da carne de animais negros sacrificados em poços no solo, da mesma forma como era feito para divindades ctônicas, como Perséfone e Deméter, ou como as homenagens dedicadas aos heróis em suas sepulturas - enquanto os deuses olímpicos costumavam receber vítimas brancas, sacrificadas em altares elevados.

Em alguns casos, as cidades não determinavam com precisão se o daimon a quem eles estavam dedicando o sacrifício era um herói ou um Zeus subterrâneo; assim, o santuário de Lebadeia, na Beócia, pertencia tanto ao herói Trofônio quanto ao Zeus Trofônio (Zeus Trophonius, "aquele que nutre"), de acordo com a versão apresentada por Pausânias ou Estrabão. O herói Anfiarau era cultuado como Zeus Anfiarau (Zeus Amphiaraus), em Oropo, nos arredores de Tebas, e os espartanos tinham até mesmo um santuáriio dedicado a Zeus Agamenon.

Cultos não-pan-helênicos[editar | editar código-fonte]

Além dos títulos e conceitos pan-helênicos mencionados acima, diversos cultos locais mantinham suas próprias ideias idiossincráticas sobre o rei dos deuses e homens. Com o epíteto de Zeus Etneu (Zeus Aetnaeus), era venerado no Monte Etna, onde existia uma estátua sua, e era realizado um festival chamado de Etnéia em sua homenagem.[36] Outros exemplos é o Zeus Ênio ou Enésio (Zeus Aeneius ou Aenesius), forma com a qual era venerado na ilha de Cefalônia, onde existia um templo dedicado a si no Monte Eno.[37]

Oráculos[editar | editar código-fonte]

Molde em terracota do 'Júpiter Amon' (Jupiter Ammon), com chifres de carneiro. Século I d.C., Museo Barracco, Roma.

Embora a maior parte dos oráculos fossem dedicados a Apolo, a herois, ou a diversas deusas, como Têmis, alguns oráculos foram dedicados a Zeus.

Oráculo de Dodona[editar | editar código-fonte]

O culto a Zeus em Dodona, no Épiro, onde existem evidências de atividades religiosas desde o segundo milênio a.C., estava centrado num carvalho sagrado. Quando a Odisseia foi composta (por volta de 750 a.C.), a adivinhação era feita ali por sacerdotes descalços, conhecidos como selos (selloi), que observavam o movimento e os ruídos feitos pelas folhas e galhos da árvore com o vento.[38] Quando Heródoto escreveu sobre Dodona, séculos depois, sacerdotisas chamadas de pelêiades ("pombas") haviam substituído os antigos sacerdotes.

A consorte de Zeus em Dodona não era Hera, porém sim a deusa Dione - cujo nome é uma forma feminina de "Zeus". Seu status como uma das titãs indica que ela pode ter sido uma divindade pré-helênica mais poderosa, e talvez a ocupante original daquele oráculo.

Oráculo de Siwa[editar | editar código-fonte]

O oráculo de Amon no Oásis de Siwa, situado na região do Deserto Ocidental, no Egito, não se encontrava dentro dos confins do mundo grego antes da época de Alexandre, o Grande, porém já pairava sobre o imaginário grego durante o período arcaico; Heródoto menciona consultas com o oráculo de Zeus Amon em seus relatos das Guerras Persas. Zeus Amon era especialmente cultuado em Esparta, onde existia um templo dedicado a ele na época da Guerra do Peloponeso.[39]

Após a viagem de Alexandre ao deserto, para consultar-se com o oráculo em Siwa, este passou a figurar no imaginário helenístico, especialmente com a figura da sibila líbica.

Zeus e deuses estrangeiros[editar | editar código-fonte]

Zeus foi identificado com o deus romano Júpiter, e associado no imaginário sincrético clássico (ver interpretatio graeca) com diversas outras divindades, tais como o egípcio Amon e o etrusco Tinia. Juntamente com Dioniso, absorveu o papel do principal deus frígio Sabázio. O governante sírio Antíoco Epifânio IV ergueu uma estátua de Zeus Olímpio no templo judaico em Jerusalém;[40] os judeus helenizados referiam-se a esta estátua como Baal Shamen ("Senhor do Céu").[41]

Alguns mitólogos comparativos modernos também o alinharam com a divindade hindu Indra.

Zeus na filosofia[editar | editar código-fonte]

No neoplatonismo, a figura de Zeus familiar à mitologia grega é associada ao Demiurgo, ou Mente (nous) Divina. Especificamente dentro da obra de Plotino, Enéadas,[42] e na Teologia Platônica, de Proclo.

Na cultura moderna[editar | editar código-fonte]

Reconstrução da Estátua de Zeus, de Fídias, num desenho de Maarten van Heemskerck.

Representações de Zeus na forma de um touro, a forma que ele assumiu quando estuprou Europa, podem ser vistas na moeda grega de dois euros e na carta de identidade britânica. Mary Beard, professora de Estudos Clássicos na Universidade de Cambridge, criticou o fato, descrevendo-o como uma "aparente celebração do estupro."[43]

No cinema e na televisão, Zeus foi interpretado por diversos atores:

Referências

  1. A escultura foi presenteada a Luís XIV da França como sendo de Esculápio, porém foi restaurada, já identificada como Zeus, por volta de 1686, por Pierre Granier, que acrescentou o braço direito erguido empunhando o raio. De mármore, data do século II d.C.; anteriormente no 'Allée Royale', (Tapis Vert), nos Jardins de Versalhes, atualmente se encontra no Museu do Louvre (catálogo oficial online)
  2. Também é pronunciado /zdeús/ e, no grego moderno /'zefs/; o genitivo é Διός, transl. Diós.
  3. Hesíodo, Teogonia, 542
  4. Existem duas histórias conflitantes a respeito da origem de Afrodite: Hesíodo, na Teogonia, afirma que ela teria "nascido" a partir da espuma do mar, após Crono ter castrado Urano, o que faria dela filha de Urano; porém Homero, na Ilíada (livro V) menciona Afrodite como filha de Zeus e Dione. De acordo com Platão (Simpósio, 180e), as duas seriam entidades completamente diferentes: [[Afrodite#Afrodite Urânia e Afrodite Pandemos|Afrodite Urânia (Aphrodite Ourania) e Afrodite Pandemos (Aphrodite Pandemos).
  5. Hamilton, Edith. Mythology. 1998. ed. Nova York: Back Bay Books, 1942. p. 467. ISBN 978-0-316-34114-1. Visitado em 6 de março de 2009.
  6. Ilíada, livro 1.503;533
  7. Pausânias, 2. 24.2.
  8. a b c Minoan Religion and the Ancient Greeks. Visitado em 17-4-2012.
  9. Palaeolexicon[citar página]
  10. Online Etymology Dictionary: Jupiter. Visitado em 3=7=2006.
  11. a b American Heritage Dictionary: dyeu. Visitado em 3-7-2006.
  12. Burkert. Greek Religion. [S.l.: s.n.], 1985. p. 321. ISBN 0-674-36280-2.
  13.   "Gaza". Enciclopédia Católica. (1913). Nova Iorque: Robert Appleton Company. ; Johannes Hahn: Gewalt und religiöser Konflikt; The Holy Land and the Bible
  14. Higino, Fabulae 155
  15. Escólios em Píndaro, Ode Olímpica 9, 107
  16. Estêvão de Bizâncio, s. v. Dōdōne, com uma referência a Acestodoro
  17. O busto sob a base do pescoço é do século XVIII. A cabeça, que foi pouco trabalhada em sua parte posterior, indicando que devia se localizar originalmente num nicho, foi encontrada na Villa de Adriano, em Tívoli, Itália, e doada para o Museu Britânico por John Thomas Barber Beaumont, em 1836. BM 1516. (Museu Britânico, A Catalogue of Sculpture in the Department of Greek and Roman Antiquities, 1904).
  18. Homero, Ilíada i. 202, ii. 157, 375, &c.
  19. Píndaro, Odes Ístmias iv. 99
  20. Higino, Astronomia Poética ii. 13
  21. Spanh. ad Callim. hymn. in Jov, 49
  22. Schmitz, Leonhard. In: Smith, William. Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. Boston: [s.n.], 1867. Capítulo Aegiduchos. p. 26. vol. 1.
  23. Durant, The Life of Greece (The Story of Civilization Part II, Nova York: Simon & Schuster) 1939:23.
  24. Castleden, Rodney. Minoans: Life in Bronze-Age Crete, "The Minoan belief-system" (Routledge) 1990:125
  25. Apontado por Bernard Clive Dietrich, The Origins of Greek Religion (de Gruyter) 1973:15.
  26. Cook, A. B. Zeus Cambridge University Press, 1914, I, figuras 397, 398.
  27. Dietrich (1973), comentando Martin P. Nilsson, Minoan-Mycenaean Religion, and Its Survival in Greek Religion 1950:551 e notas.
  28. "Professor Stylianos Alxiou reminds us that there were other divine boys who survived from the religion of the pre-Hellenic period — Linos, Plutos and Dionysos — so not all the young male deities we see depicted in Minoan works of art are necessarily Velchanos" (Castleden 1990:125
  29. Richard Wyatt Hutchinson, Prehistoric Crete, (Harmondsworth: Penguin) 1968:204, menciona que não há qualquer referência clássica à morte de Zeus (apontado por Dietrich 1973:16, nota 78).
  30. "This annually reborn god of vegetation also experienced the other parts of the vegetation cycle: holy marriage and annual death when he was thought to disappear from the earth" (Dietrich 1973:15).
  31. No mito fundador do banquete de Licáon para os deuses, no qual havia sido incluído entre os ingredientes a carne de um sacrifício humano - talvez um dos próprios filhos de Licáon, Níctimo ou Arcas - Zeus teria derrubado, enfurecido, a mesa e atingido a casa de Licáon com um raio; seu patronato pode ter sido apenas pouco mais que formulaico.
  32. Uma ligação morfológica ao termo lyke, "brilho", pode ser apenas fortuito.
  33. Arqueólogos modernos não encontraram traços de restos humanos entre os detritos sacrificatórios. Walter Burkert, "Lykaia and Lykaion", Homo Necans, traduzido para o inglês por Peter Bing (University of California) 1983, p. 90.
  34. Pausânias 8.38.
  35. República 565d-e
  36. Schol. ad Pind. Ol. vi. 162
  37. Hesíodo, de acordo com um escólio na Argonautika de Apolônio de Rodes, ii. 297
  38. Odisseia, 14.326-7
  39. Pausânias 3.18.
  40. II Macabeus 6:2
  41. Russel, David Syme. Daniel. (Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 1981) 191.
  42. No quarto tratado, 'Problemas da Alma', o Demiurgo é identificado como Zeus (Enéada IV, 4, 10).
  43. A Point of View: The euro's strange stories BBC News. Visitado em 20-11-2011.
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em inglês, cujo título é «Zeus».

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