Zuzu Angel

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Zuzu Angel
Nascimento 5 de junho de 1921
Curvelo, Brasil
Morte 14 de abril de 1976 (54 anos)
Rio de Janeiro, Brasil
Nacionalidade Brasil brasileira
Filho(s) Hildegard Angel
Stuart Angel Jones
Ana Cristina Angel Jones
Ocupação estilista

Zuleika Angel Jones, nascida Zuleika de Souza Netto e conhecida como Zuzu Angel, (Curvelo, 5 de junho de 1921Rio de Janeiro, 14 de abril de 1976) foi uma estilista brasileira, mãe do militante político Stuart Angel Jones e da jornalista Hildegard Angel.

Personagem notória do Brasil da época da ditadura militar, ficou conhecida nacional e internacionalmente não apenas por seu trabalho inovador como estilista de moda mas também por sua procura pelo filho, militante de organizações extremistas, assassinado pelo governo e transformado em desaparecido político, em que enfrentou as autoridades da época e levou sua busca a se tornar conhecida no exterior.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Moda[editar | editar código-fonte]

Nascida em Curvelo, Minas Gerais, mudou-se quando criança para Belo Horizonte, onde começou a costurar e criar modelos, fazendo roupas para as primas,[1] mudando-se depois para a Bahia, onde passou a juventude. A cultura e cores desse estado influenciaram significativamente o estilo das suas criações. Pioneira na moda brasileira, fez sucesso com seu estilo em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos.

Em 1947, foi morar na cidade do Rio de Janeiro e nos anos 50 iniciou seu trabalho como costureira, quando fazia roupas principalmente para alguns familiares próximos. No princípio dos anos 70, após muitos anos de costura e investindo um dinheiro que teve que juntar a vida toda, abriu uma loja de roupas em Ipanema.

Seu estilo misturava renda, seda, fitas e chitas com temas regionais e do folclore, com estampados de pássaros, borboletas e papagaios. Zuzu também trouxe para a moda as pedras brasileiras, fragmentos de bambu, de madeira e conchas.[1]

Vestidos de Zuzu Angel em exposição sobre a trajetória da estilista, em Brasília. Foto: Luiz Murauskas / Ministério da Cultura

Trabalhando muito, com o tempo fez algumas amizades importantes no bairro e através de ajudas de pessoas ricas e bem intencionadas que reconheciam seu trabalho teve a oportunidade de expandir seus negócios e começou a realizar desfiles de moda nos EUA. Nestes desfiles, sempre abordou a alegria e riqueza de cores da cultura brasileira, fazendo sucesso no universo da moda daquela época. Suas roupas eram bem costuradas e muito coloridas, pois ela passou a, além de costurar, desenhá-las e pintá-las. O anjo, de seu sobrenome, passou a ser uma das marcas registradas de suas criações.[2] Foi ela quem trouxe para o Brasil e popularizou no universo da moda nacional o termo "fashion designer".[3]

Nos anos 1940, Zuzu conheceu o americano Norman Angel Jones em Belo Horizonte, com quem iniciou um relacionamento amoroso e se casou em 1947. Após alguns anos juntos, foram para o Rio de Janeiro, mudando-se depois para Salvador, onde ela morou muitos anos. Lá, Zuzu engravidou e deu à luz seu filho, chamado Stuart Edgar.

Confronto com a ditadura[editar | editar código-fonte]

Na virada dos anos 60 para os anos 70, Stuart Jones, filho de Zuzu e então estudante de economia, passou a integrar as organizações que combatiam a ditadura militar no Brasil, instaurada em 1964, filiando-se ao MR-8, grupo guerrilheiro de ideologia socialista do Rio de Janeiro. Preso em 14 de abril de 1971, Stuart foi torturado e morto pelo Centro de Informações da Aeronáutica (CISA) no aeroporto do Galeão e dado como desaparecido pelas autoridades.[4]

A partir daí Zuzu entraria em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho, envolvendo os Estados Unidos, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Como estilista, ela criou uma coleção estampada com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos.[5] O anjo, ferido e amordaçado em suas estampas, tornou-se também o símbolo do filho. Em setembro de 1971, ela chegou a realizar um desfile-protesto no consulado do Brasil em Nova York, tecnicamente território brasileiro, pois uma lei da ditadura militar impedia que brasileiros criticassem o país no exterior. Fazendo o desfile no consulado – que foi pego de surpreso pelo tema – ela não podia ser acusada de criticar o país fora dele. Em 15 de setembro daquele ano, sua luta chegava aos jornais internacionais, com a manchete no canadense The Montreal Star: "Designer de moda pede pelo filho desaparecido". Cinco dias depois era a vez do Chicago Tribune trazer a manchete "A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas".[6] Uma filmagem deste desfile, de cerca de quatro minutos, feita pela rede norte-americana NBC e nunca exibida antes, foi achada anos depois nos arquivos da TV Cultura de São Paulo e exibida na mostra "Ocupação Zuzu", inaugurada em São Paulo em 1 de abril de 2014, exatamente 50 anos depois do início governo militar que ela combateu após a morte de Stuart.[6]

Suas roupas passaram a ser vendidas em lojas de renome como Bergdorf Goodman, Saks, Lord & Taylor, Henry Bendell e Neiman Marcus.[6] Com sua relativa notoriedade internacional, ela envolveu em sua causa celebridades de Hollywood que eram suas clientes, como Joan Crawford, Liza Minelli e Kim Novak, [7] e durante a visita de Henry Kissinger, então secretário de estado norte-americano, ao Brasil, em 1976, chegou a furar a segurança para entregar-lhe um dossiê com os fatos sobre a morte do filho, também portador da nacionalidade americana.[5] Um ano antes já havia feito a mesma coisa, entregando um dossiê escrito em inglês à esposa do general Mark Clark, comandante das tropas aliadas no front italiano durante a II Guerra Mundial, que estava em visita ao Brasil, no Hotel Sheraton, em São Conrado, Rio de Janeiro, para que entregasse ao marido.[8] Seu caso também acabou chegando ao Senado dos Estados Unidos através de um discurso do senador Edward Kennedy, a quem Zuzu fez chegar a denúncia da morte do filho. [9] Com um destemor que beirava a temeridade, certa vez tomou da mão de uma aeromoça o microfone de bordo de um voo para anunciar aos passageiros "que desceriam no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil, país onde se torturavam e matavam jovens estudantes'. [8]

Foram anos em busca do corpo do filho, sem poder dar-lhe um enterro, pois o corpo de Stuart nunca foi encontrado e consta como desaparecido político brasileiro.[10] Mesmo depois de Stuart morto, o governo militar espalhava cartazes com o rosto de Stuart e o rótulo "Procurado". [8]

Morte[editar | editar código-fonte]

A busca de Zuzu pelas explicações, pelos culpados e pelo corpo do filho só terminou com sua morte, ocorrida na madrugada de 14 de abril de 1976, num acidente de carro na Estrada da Gávea, à saída do Túnel Dois Irmãos (Estrada Lagoa-Barra), Rio de Janeiro, hoje batizado com seu nome. O carro dirigido por ela, um Karmann Ghia TC, derrapou na saída do túnel e saiu da pista, chocou-se contra a mureta de proteção, capotando e caindo na estrada abaixo, matando-a instantaneamente.[2] Está sepultada no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.

Uma semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa de Chico Buarque de Hollanda um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse, em que escreveu:. "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho".[1]

Em 1998, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos julgou o caso sob número de processo 237/96 e reconheceu-a como pessoa que, "por ter participado, ou por ter sido acusada de participação, em atividades políticas, tenha falecido por causas não-naturais, em dependências policiais ou assemelhadas".[11] [12] Em seu relatório final publicado em 2007, a Comissão inseriu depoimentos de duas testemunhas oculares do acidente, sendo um deles prestado indiretamente, que afirmaram ter visto o carro do Zuzu ter sido fechado por outro e jogado fora da pista, caindo de uma altura de cerca de cinco metros.[13] :414

Em 2013, a organização independente Wikileaks vazou um documento do governo norte-americano datado de 10 de maio de 1976, que comentava a morte de Zuzu num desastre automobilístico e mostrava preocupação com o fato e sua repercussão no Brasil e no exterior, atentando que, "para qualquer um familiar com o trânsito e em especial os túneis do Rio de Janeiro o acidente não é estranho", embora a hipótese de que possa ter havido "jogo sujo" por parte de forças de segurança não esteja acompanhada de evidências e seja até mesmo esperada, a hipótese não poderia ser descartada.[14]

Em 2014, o ex-delegado do DOPS do Espírito Santo, Cláudio Guerra, apresentou em depoimento à Comissão Nacional da Verdade uma fotografia do dia do acidente com Zuzu. Segundo ele, a imagem mostra o coronel do exército Freddie Perdigão dentre os curiosos que observavam a cena. O presidente da Comissão acredita que isto consubstancia suas suspeitas de envolvimento das Forças Armadas com o caso.[15] Alguns dias depois, o advogado de três militares que prestaram depoimento afirmou que a informação era incorreta.[16] O Jornal O Dia apresentou a foto a Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis e que foi torturada por Perdigão, e a um sargento que trabalhou com Perdigão, ambos não reconheceram o agente a pessoa indicada como sendo Freddie Perdigão.[17]

Na cultura popular[editar | editar código-fonte]

Depois de sua morte, Zuzu foi homenageada em livros, música e filme. O mesmo Chico Buarque compôs, sobre melodia de Miltinho (MPB4), a música Angélica, em 1977, em homenagem à estilista.[18] Em 1988, o escritor José Louzeiro escreveu o romance Em carne viva, com personagens e situações que lembram o drama de Zuzu Angel.[19]

Em 1993, a filha de Zuzu, a jornalista Hildegard Angel, criou o Instituto Zuzu Angel de Moda do Rio de Janeiro, em memória da mãe.[20] Em 2000, Zuzu foi homenageada pela escola de samba carioca União da Ilha do Governador, com o enredo "Pra não dizer que não falei das flores", então representada por sua filha Hildegard Angel.

Em 2006, o cineasta Sérgio Rezende dirigiu Zuzu Angel, filme que retrata a vida da estilista, protagonizada por Patrícia Pillar e com Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Paulo Betti, Juca de Oliveira e Elke Maravilha, entre outros, no elenco.

Citações[editar | editar código-fonte]

Cquote1.svg Eu sou a moda brasileira.[20] Cquote2.svg
Cquote1.svg Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade.[21] Cquote2.svg

Referências

  1. a b c Zuzu Angel. UOL Educação. Página visitada em 15/06/2011.
  2. a b Uma costureira contra o regime dos generais. Veja. Página visitada em 15/06/2011.
  3. Estilista mineira Zuzu Angel enfrentou os militares em busca do filho. O Estado de Minas. Página visitada em 27/03/2014.
  4. Stuart Edgar Angel Jones. desaparecidospoliticos.org. Página visitada em 15/06/2011.
  5. a b Saiba mais sobre a estilista Zuzu Angel. Folha de S. Paulo. Página visitada em 15/06/2011.
  6. a b c Mello, Maína. Trabalho de Zuzu Angel, a estilista do desfile-protesto, volta à cena nos 50 anos do golpe militar. Caderno Ela - O Globo. Página visitada em 15/03/2014.
  7. Miranda. Vida ou arte em Zuzu Angel. Digestivo Cultural. Página visitada em 15/06/2011.
  8. a b c Tosta, Wilson. Procura-se um morto. O Estado de São Paulo. Página visitada em 12/05/2013.
  9. "Stuart Edgar Angel Jones"
  10. Stuart Edgar Angel Jones. Centro de Documentação Eremias Dolizoicov. Página visitada em 15/06/2011.
  11. Diário Oficial da União. COMISSÃO ESPECIAL DOS DESAPARECIDOS POLÍTICOS - Secretaria Executiva. Página visitada em 26 de setembro de 2012.
  12. Lei 9140.
  13. Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Direito à verdade e à memória: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (PDF). Página visitada em 26 de setembro de 2012.
  14. Wikileaks: EUA mostravam preocupação com morte de Zuzu Angel. EBC - Agência Brasil. Página visitada em 22/05/2013.
  15. Último Segundo: Foto aumenta suspeita de participação de Forças Armadas na morte de Zuzu Angel. iG - Último Segundo. Página visitada em 26/07/2014.
  16. Adriano Barcelos (29/07/2014). Advogado nega que coronel apareça em foto de carro de Zuzu Angel. Folha de São Paulo. Página visitada em 01/08/2014.
  17. Juliana dal Piva (30/07/2014). Identificação errada constrange a Comissão da Verdade. Jornal O Dia. Página visitada em 01/08/2014.
  18. Angélica. Página visitada em 15/06/2011.
  19. José Louzeiro. Página visitada em 15/06/2011.
  20. a b Histórico resumido. Instituto Zuzu Angel. Página visitada em 15/06/2011.
  21. Souza, César. Zuzu Angel. Revista Época Negócios. Página visitada em 15/06/2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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