Arboviroses

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O termo arboviroses foi criado em 1930 e se refere às doenças causadas por arbovírus, que são vírus transmitidos pela picada de artrópodos hematófagos.[1][2] As arboviroses que afetam os seres humanos são, na sua maioria, classificadas como zoonoses.[3][4] Nem sempre o ser humano é vital para a replicação dos vírus, sendo as modificações ecológicas e antropogênicas as principais causas para a dispersão destas arboviroses em grandes escalas.[2][3]

A inserção e disseminação de cada arbovirose no ambiente depende de fatores climáticos como temperatura, ciclos hídricos e umidade.[5] Apenas no continente Antártico ainda não há registros de arboviroses, entretanto, especialistas mostram que países tropicais são propícios para abrigar a multiplicação de vetores, o que aumenta a incidência dessas doenças.[4]

As principais arboviroses no Brasil[editar | editar código-fonte]

A incidência das arboviroses no Brasil é um assunto de relevância atual, pois ainda não existem imunizações preventivas para boa parte das infecções causadas por estes vetores, assim, toda a população está suscetível a adquirir algum tipo de enfermidade desta origem.[3] Em países, como o Brasil, em que há a coexistência de várias arboviroses, o diagnóstico clínico é dificultado, o que pode levar ao agravamento e à expansão dessas doenças.[6] As principais arboviroses já registradas no Brasil são dengue, zica, chicungunha, febre amarela, mayaro e oroupouche.[2][6]

Oroupoche[editar | editar código-fonte]

Teve seu primeiro surto urbano no Brasil em 1961. Depois da dengue foi considerada uma das arboviroses mais comuns e é uma das causas mais recorrentes de febres inespecíficas. Desde então, essa arbovirose está concentrada na Região Norte e Centro-Oeste.[2]

Mayaro[editar | editar código-fonte]

A arbovirose Mayaro não se adaptou ainda para a forma urbana, mas especialistas alertam para a possibilidade de um crescimento de casos em virtude da possível transmissão deste patógeno pelo mosquito Aedes.[2][7] O primeiro caso de Mayaro, em solo brasileiro ocorreu em 1955, desde então, os casos se concentram no Norte e no Centro-Oeste, assim como no caso do Oropouche.[7]

Febre Amarela[editar | editar código-fonte]

Foi durante o século XVII que a primeira epidemia de febre amarela aconteceu no Brasil, especialmente na região nordestina. Assim, progressivamente, essa arbovirose vem se expressando em diversas reemergências.[8] No início século XX a febre amarela urbana, aquela transmitida pelo vetor Aedes, foi relativamente controlada, entretanto, desde 1970, com a reinserção do mosquito Aedes aegypti em solo brasileiro, muito se teoriza sobre uma possível urbanização desse agravo.[2][8] Desde 1930, a febre amarela silvestre, transmitida pelos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, vem se expressando em ciclos regulares, a cada 3-7 anos até 2017, quando houve um grande surto de febre amarela silvestre no Brasil.[2][8][9]

Dengue[editar | editar código-fonte]

Sendo reconhecida como a arbovirose de maior importância mundial atualmente, a dengue teve seu primeiro grande surto no Brasil em 1845, seguindo até 1923.[10] Depois disso, devido a uma grande campanha de erradicação, o Brasil controlou relativamente este vetor até 1976, quando a dengue voltou com mais epidemias graves, em virtude do aumento das infecções por mais de um sorotipo.[2]

Chicungunha[editar | editar código-fonte]

No Brasil, a chicungunha teve seu primeiro surto em 2015 e a partir de então, vem se apresentando junto com a dengue e a zica como uma das maiores arboviroses do país.[6]

Zica[editar | editar código-fonte]

Apesar de ter sido reconhecida como um arbovirose com relevância em saúde pública no Brasil só no começo do século XXI, quando sua emergência foi correlacionada com o aumento de casos de microcefalia no Nordeste, os casos em humanos de zica datam desde 1954 na Nigéria.[11]

Arboviroses e desigualdades no Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil, um país em desenvolvimento, é notado que as desigualdades sociais e o acesso aos sistemas de saúde influenciam nas distribuições geográficas das arboviroses.[12] Por exemplo, regiões que abrangem grande concentração espacial de pessoas inseridas em habitações precárias podem resultar em uma aumento de incidência de arboviroses, uma vez que o nível de infraestrutura das moradias, do acesso ao saneamento básico e à água encanada tratada são fatores intimamente ligados ao aparecimento de criadouros dos vetores.[12]

A falta de acesso ao saneamento básico colabora para a multiplicação de vetores.

É destacado que, o crescimento da incidência destas arboviroses como dengue, chicungunha e zica aumentam a demanda hospitalar brasileira devido a associação delas a novas patologias sintomáticas, como o caso das síndromes microcefalia e a de Guillain-Barré agravadas durante o período de surto da epidemia de febre zika vírus em 2015-2016, na qual deixou sequelas na população e no sistema único de saúde.[3][12]

Dos mecanismos de controle e redução das arboviroses no Brasil, no caso de mosquitos, são ressaltados os métodos de transgenia, as campanhas de conscientização sobre os possíveis criadouros de vetores, a descrição dos sintomas, além do "fumacê" através de produtos químicos para diminuir a população circulante.[3][12][13] Entretanto, os principais desafios a serem enfrentados estão relacionados com a infraestrutura nos processos de urbanização, no crescimento populacional, na degradação ambiental, nas desigualdades sociais e no acesso ao sistema de saúde para realização de tratamentos integrado conjuntamente aos sistemas de monitoramento de vigilância epidemiológica para prevenção dos possíveis surtos.[14][3][15][16]

Brasil e meio ambiente[editar | editar código-fonte]

A modificação do meio ambiente faz com que os vetores artrópodes passem por um processo chamado sinantropia, isso explica as emergências e reemergências das arboviroses recentes.[3][17] Por exemplo, há estudos que mostram que a urbanização desorganizada e a modificação excessiva do meio ambiente da região amazônica, decorrida da construção de barragens e estradas no meio de florestas, propiciou a multiplicação de vetores e a emergência de arboviroses.[14] Outro exemplo é a ocorrência de novos casos de malária onde a extensão e expansão do desmatamento pode se associar diretamente aos índices de novos casos anuais registrados em 2018.[18]

O desmatamento colabora para a disseminação das arboviroses.

As mudanças climáticas, o aquecimento global e o desmatamento, também passam a ser encaradas como contribuintes importantes no cenário das arboviroses, apresentando relevância de interesse epidemiológico e de saúde pública devido aos processos industriais, à alta demanda por recursos e aos adensamentos populacionais que modificam as interações ecossistêmicas da natureza.[14][15] Essas situações interligadas ao uso e ocupação do solo e a mobilidade urbana induzem a alterações das dinâmicas de calor e chuva, influenciando na proliferação, principalmente, de mosquitos vetores devido ao acúmulo de água parada que oportuniza mais locais para desova. Também há indícios que o aumento da temperatura, influenciada por mudanças climáticas, diminui o ciclo de eclosão de ovos, ou seja, a reprodução desses vetores fica mais acelerada.[4][10]

Além disso, há registros que indicam que o período necessário para que o vetor da doença passe a ser capaz de disseminá-la é influenciado pelo aumento de temperatura, ou seja, em ambientes mais quentes, os vetores conseguem infectar hospedeiros em menos tempo.[10]

Referências

  1. Figueiredo, Rafael; Paiva, Christovão; Morato, Marcela (2017). «Arboviroses». Consultado em 22 de outubro de 2021 
  2. a b c d e f g h Silva, Luiz Jacintho da; Angerami, Rodrigo Nogueira (2008). Viroses emergentes no Brasil. [S.l.]: Editora FIOCRUZ 
  3. a b c d e f g Lima-Camara, Tamara Nunes (1 de janeiro de 2016). «Arboviroses emergentes e novos desafios para a saúde pública no Brasil». Revista de Saúde Pública: 36–36. ISSN 1518-8787. doi:10.1590/S1518-8787.2016050006791. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  4. a b c Lopes, Nayara; Nozawa, Carlos; Linhares, Rosa Elisa Carvalho (fevereiro de 2014). «Características gerais e epidemiologia dos arbovírus emergentes no Brasil». Revista Pan-Amazônica de Saúde (3). ISSN 2176-6223. doi:10.5123/S2176-62232014000300007. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  5. McMichael, Anthony J.; Woodruff, Rosalie E. (1 de janeiro de 2008). Mayer, Kenneth H.; Pizer, H. F., eds. «14 - Climate change and infectious diseases». San Diego: Academic Press (em inglês): 378–407. ISBN 978-0-12-370466-5. PMC 7155514Acessível livremente. doi:10.1016/b978-012370466-5.50019-4. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  6. a b c Campos, Jonatan. «Arboviroses de importância epidemiológica no Brasil». Revista de Ciências da Saúde Básica e Aplicada: 36-48 
  7. a b Esposito, Danillo Lucas Alves; Fonseca, Benedito Antonio Lopes da (setembro de 2017). «Will Mayaro virus be responsible for the next outbreak of an arthropod-borne virus in Brazil?». The Brazilian Journal of Infectious Diseases (em inglês) (5): 540–544. doi:10.1016/j.bjid.2017.06.002. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  8. a b c Costa, Raissa De Moura; Facioli, Larissa De Souza; Reis, Thainá Desiree Franco dos; De Sá, Odila Rigolin; Bernardes, Nicole Blanco (29 de julho de 2018). «Febre Amarela: Sua Perspectiva No Brasil». ID on line REVISTA DE PSICOLOGIA (41): 435–448. ISSN 1981-1179. doi:10.14295/idonline.v12i41.1209. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  9. Ribeiro Jr, Marcelo Augusto Fontanelle. «Febre Amarela: revisao e situacao epidemiologica atual no Brasil». Revista de Medicina: 407-414 
  10. a b c Galati, Eunice A. B.; Camara, Tamara N. de L.; Natal, Delsio; Chiaravalloti-Neto, Francisco (17 de dezembro de 2015). «Mudanças climáticas e saúde urbana». Revista USP (em inglês) (107): 79–90. ISSN 2316-9036. doi:10.11606/issn.2316-9036.v0i107p79-90. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  11. Garcia, Leila Posenato. «Epidemia do Vírus Zika e Microcefalia no Brasil: Emergência, Evolução e Enfrentamento.». Ipea. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.: 62 
  12. a b c d Lesser, Jeffrey; Kitron, Uriel (1 de dezembro de 2016). «A geografia social do zika no Brasil». Estudos Avançados (88): 167–175. ISSN 1806-9592. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  13. «Ministério da Saúde lança campanha de combate ao mosquito Aedes aegypti». Ministério da Saúde. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  14. a b c Vasconcelos, Pedro F. C.; Travassos da Rosa, Amélia P. A.; Rodrigues, Sueli G.; Travassos da Rosa, Elizabeth S.; Dégallier, Nicolas; Travassos da Rosa, Jorge F. S. (2001). «Inadequate management of natural ecosystem in the Brazilian Amazon region results in the emergence and reemergence of arboviruses». Cadernos de Saúde Pública (suppl): S155–S164. ISSN 0102-311X. doi:10.1590/S0102-311X2001000700025. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  15. a b Barcellos, Christovam; Monteiro, Antonio Miguel Vieira; Corvalán, Carlos; Gurgel, Helen C.; Carvalho, Marilia Sá; Artaxo, Paulo; Hacon, Sandra; Ragoni, Virginia (setembro de 2009). «Mudanças climáticas e ambientais e as doenças infecciosas: cenários e incertezas para o Brasil». Epidemiologia e Serviços de Saúde (em inglês) (3). ISSN 1679-4974. doi:10.5123/S1679-49742009000300011. Consultado em 22 de outubro de 2021 
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  17. Almeida, Lorena Sampaio; Cota, Ana Lídia Soares; Rodrigues, Diego Freitas (28 de setembro de 2020). «Saneamento, Arboviroses e Determinantes Ambientais: impactos na saúde urbana». Ciência & Saúde Coletiva: 3857–3868. ISSN 1413-8123. doi:10.1590/1413-812320202510.30712018. Consultado em 22 de outubro de 2021 
  18. «Um quilômetro quadrado desmatado na Amazônia equivale a 27 novos casos de malária». Jornal da USP. 28 de maio de 2018. Consultado em 22 de outubro de 2021