Éris (planeta anão)
Éris (centro) e Disnomia (à esquerda do centro) vistos pelo Telescópio espacial Hubble | |
| Características orbitais | |
|---|---|
| Afélio | 97,56 |
| Periélio | 37,77 |
| Semieixo maior | 67,668 1 |
| Excentricidade | 0,441 77 |
| Período orbital (sideral) | 203.500 d (557 a) |
| Velocidade orbital média | 3,436 |
| Inclinação | 44,187 |
| Satélites conhecidos | 1 (Disnomia) |
| Características físicas | |
| Diâmetro médio | 2 326 ± 12 km[1] |
| Área da superfície | (1,70±0,02)×10⁷ |
| Volume | (6,59±0,10)×10⁹ |
| Massa | (1,66±0,02)×10²² |
| Densidade média | 2,52 ± 0,05[1] |
| Gravidade superficial | 0,82±0,02 |
| Velocidade de escape | 1,38±0,01 |
| Período de rotação sideral | 25,9±0,5 h |
| Albedo | 0,96+0,09 −0,06[1] |
Éris, formalmente designado 136199 Éris (símbolo:
),[2] é o segundo maior planeta anão conhecido no Sistema Solar.[3] É um objeto transnetuniano classificado como plutoide[4] que está localizado em uma região conhecida como disco disperso, nos confins do Sistema Solar. Ele tem uma órbita altamente excêntrica e está em uma distância de 95,9 UA do Sol, em seu afélio.[5]
Éris tem um grande satélite natural conhecido: Disnomia. Em fevereiro de 2016, a distância desse objeto em relação ao Sol era de 96,3 UA (14,41 bilhões de km),[6] mais de três vezes a de Netuno ou Plutão. Com exceção dos cometas de longo período, Éris e Disnomia eram os objetos naturais conhecidos mais distantes no Sistema Solar até a descoberta de 2018 VG18 em 2018.[6] Éris tem um período orbital de cerca de 560 anos e encontra-se a cerca de 97 UA do Sol, em seu afélio. Como Plutão, a sua órbita é bastante excêntrica, e leva o planeta anão a uma distância de apenas 35 UA do Sol no seu periélio (a distância de Plutão ao Sol varia entre 29 e 49,5 UA, enquanto que a órbita de Netuno fica a cerca de 30 UA).
Como Éris parecia ser maior que Plutão, a NASA inicialmente o descreveu como o "décimo planeta" do Sistema Solar. Isso, junto com a perspectiva de outros objetos de tamanho semelhante serem descobertos no futuro, motivou a União Astronômica Internacional (UAI) a definir o termo "planeta" pela primeira vez. De acordo com a definição da UAI aprovada em 24 de agosto de 2006, Éris, Plutão e Ceres são "planetas anões",[3] reduzindo o número de planetas conhecidos no Sistema Solar para oito, o mesmo que antes da descoberta de Plutão em 1930. Observações de um ocultação estelar por Éris, em 6 de novembro de 2010, mostraram que ele é ligeiramente menor que Plutão,[7][8] que foi medido pela sonda New Horizons como tendo um diâmetro médio de (2.377 ± 4) quilômetros em julho de 2015.[9][10]
Mitologia
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Éris era a deusa da discórdia. O planeta foi chamado assim porque a sua descoberta lançou a discórdia entre os astrónomos quanto à definição de um planeta e causou, indirectamente, a descida de estatuto de Plutão de "planeta" para "planeta anão". Na mitologia grega é famosa por ter causado, indirectamente, a Guerra de Troia.[11][12] Era também conhecida por acompanhar o seu irmão Ares (Marte) para o campo de batalha e, quando os outros deuses iam embora, ela ficava rejubilando-se da carnificina.
Antes de receber o nome tinha a designação provisória de 2003 UB313, que é uma matrícula atribuída automaticamente de acordo com o protocolo da União Astronómica Internacional (UAI) para os asteroides. No entanto, a probabilidade de que esse corpo celeste fosse classificado como um planeta levou a que a UAI não autorizasse nenhum nome, dado que não era claro se seria classificado como um planeta principal ou não. Caso fosse, a UAI só aprovaria nomes da tradição greco-romana, tal como acontece com todos os outros planetas do Sistema Solar. A indecisão levou a que o nome "Xena" (uma suposta personagem da mitologia grega) fosse adotado popularmente como alcunha; essa suposta personagem mitológica foi criada especialmente para a série televisiva Xena, A Princesa Guerreira.[13] Um dos nomes mais sugeridos para Éris era o de Perséfone (a Proserpina romana), mulher de Plutão.
História de observação e exploração
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Um grupo de cientistas formado por Michael E. Brown, Chad Trujillo e David Rabinowitz, utilizando o observatório instalado no monte Palomar na Califórnia, varriam o céu à procura de grandes corpos celestes no Sistema Solar exterior. Descobriram-se nesse processo Quaoar, Orco e Sedna.
Observações de rotina feitas em 21 de outubro de 2003, encontraram um novo corpo celeste; devido, contudo, ao seu movimento extraordinariamente lento, não foi dado como candidato, vez que o sistema de procura automática em imagens excluía todos os astros que se movessem a menos de 1,5 arcossegundos por hora, por forma a reduzir o número de falsos candidatos.
Contudo, Sedna foi descoberta a mover-se a apenas 1,75 arcossegundos por hora, o que levou a equipa a decidir re-analisar manualmente dados já registados, considerando um valor menor de movimento angular. Em 5 de janeiro de 2005, esta nova análise revelou a existência de Éris confirmando o seu lento movimento pelo espaço.
O novo astro, com uma magnitude aparente de cerca de 19, apesar de não ser acessível na observação direta, é suficientemente brilhante para ser registrado, através de técnicas fotográficas ou de tratamento digital de imagens, com um telescópio amador. A inclinação da sua órbita é responsável por não ter sido descoberto até então, dado que a maioria das pesquisas para corpos do Sistema Solar exterior concentravam-se no plano da eclíptica, onde se encontra a maioria dos corpos do Sistema Solar, incluindo a Terra.

Observações subsequentes foram levadas a cabo, de forma a estimar a distância e o tamanho, o que levou a que a sua descoberta não fosse anunciada antes de terem sido determinadas com maior exatidão a dimensão e a massa desse corpo celeste.
Entretanto, foi intempestivamente anunciada, por um outro grupo em Espanha, a descoberta de um corpo celeste apelidado de Haumea, precisamente o que a equipa norte-americana estava a observar, o que levou esta a acusar o grupo espanhol de falta de ética e a anunciar, de forma precipitada, a descoberta de Éris no dia 29 de julho de 2005. No mesmo dia, novos objetos foram anunciados: Haumea e Makemake, lançando a confusão na imprensa com uma pletora de descobertas importantes ao mesmo tempo.

Apesar de previamente terem sido descobertos grandes objetos na cintura de Kuiper, eram todos menores em dimensão quando comparados com Plutão. Pelo contrário, Éris parecia ser maior, lançando o debate sobre a sua categorização como décimo planeta, tal como pretendido pelos seus descobridores ou como um simples asteroide.
A indefinição prolongou-se por largos meses, lançando a discórdia entre os astrônomos do que seria um planeta. Pouco tempo depois, no encontro da UAI não houve consenso quanto à categorização deste novo mundo como um planeta principal. No entanto, 11 dos 19 membros apoiariam que fosse categorizado como planeta, enquanto que 6 membros propuseram que se reduzisse o número de planetas principais para oito, retirando também o estatuto a Plutão. Até à decisão final, todos os corpos celestes a orbitarem para além de Plutão seriam classificados apenas como objetos transnetunianos.
A UAI fez uma reunião geral em agosto de 2006: na proposta inicial da definição do termo "planeta", Éris seria categorizado como um planeta. No entanto, a pressão de um grupo de astrónomos fez com que uma nova definição fosse escrita, que acabou por ser aprovada unanimemente, atirando Éris, Ceres e Plutão para um novo grupo de corpos celestes — os "planetas anões", que não são reconhecidos como planetas principais.[14] Éris recebeu o nome da deusa grega da discórdia.[15]
Com a descoberta de Disnomia, um satélite natural de Éris, Michael E. Brown e Emily Schaller, astrônomos do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), puderam medir de maneira precisa a massa de Éris com a ajuda do telescópio espacial Hubble.
Éris tem aproximadamente 27% mais massa que Plutão segundo os pesquisadores, que tiveram os trabalhos publicados na edição da revista "Science" de 15 de junho. Em 6 de novembro de 2010, observações de um ocultação estelar por Éris, mostraram que ele, apesar de ser mais massivo, é ligeiramente menor que Plutão.[7][8]
Características físicas
[editar | editar código]Tamanho e massa
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Éris é o segundo maior corpo celeste conhecido para além da órbita de Netuno. O albedo de Éris não era inicialmente bem conhecido e o seu tamanho real não podia ser determinado com precisão. Observações preliminares feitas com o Spitzer indicaram que Éris seria cerca de 20% maior que Plutão, enquanto observações do Hubble sugeriram que seria apenas 1% maior, o que indicaria um albedo extraordinariamente elevado.[16]
Em novembro de 2010, Éris ocultou uma estrela, permitindo medições mais precisas.[17] Dados desse evento indicaram que o diâmetro de Éris é de 2 326 ± 12 km, confirmando que é ligeiramente menor que Plutão.[17] Com uma massa de 1,66 × 10²² kg, Éris é aproximadamente 27% mais massivo que Plutão, resultando em uma densidade significativamente maior de 2,52 g/cm³, sugerindo uma composição rochosa mais substancial.[1]
Composição superficial
[editar | editar código]Éris é composto de uma mistura sólida de gelo e rocha. Observações espectrográficas revelaram a presença de gelo de metano na superfície.[18] Ao contrário do aspecto avermelhado de Plutão e Tritão, Éris apresenta uma coloração cinzenta. Isto deve-se à enorme distância de Éris em relação ao Sol, o que permite que o metano condense uniformemente sobre toda a superfície.
O albedo de Éris é excepcionalmente alto, de 0,96, tornando-o um dos objetos mais refletores do Sistema Solar.[1] Esta alta refletividade sugere que a superfície é coberta por gelo fresco, possivelmente renovado periodicamente. A presença de metano volátil indica que Éris permaneceu sempre nos confins gelados do Sistema Solar, mantendo temperaturas suficientemente baixas para preservar este gelo.
Em 2024, observações realizadas com o Telescópio Espacial James Webb detectaram evidências de metano deuterado na superfície de Éris, sugerindo possível atividade geotérmica no interior do planeta anão.[19] Esta descoberta implica que Éris pode ter um interior diferenciado e potencialmente ativo.
Estrutura interna
[editar | editar código]Baseando-se na alta densidade de Éris, os cientistas propõem que o planeta anão possui um interior diferenciado, com um núcleo rochoso coberto por um manto de gelo.[20] A presença de metano deuterado e a alta densidade sugerem que processos geológicos podem ainda estar ativos no interior de Éris, possivelmente mantendo um oceano subsuperficial líquido em profundidade, similar ao que se especula existir em outros corpos gelados do Sistema Solar exterior.
Órbita e rotação
[editar | editar código]Éris possui uma órbita altamente excêntrica, com excentricidade de 0,44177. Esta órbita leva o planeta anão desde 37,77 UA no periélio até 97,56 UA no afélio, uma variação extrema que resulta em grandes diferenças de temperatura e iluminação solar ao longo de seu período orbital de 557 anos.[5] A inclinação orbital de 44,187° em relação ao plano da eclíptica é uma das mais altas entre os objetos conhecidos do Sistema Solar, o que explica por que Éris não foi descoberto anteriormente.
O período de rotação de Éris é de aproximadamente 25,9 horas.[21] Estudos publicados em 2023 confirmaram que Éris está em rotação sincronizada (tidally locked) com sua lua Disnomia, significando que o mesmo hemisfério de Éris permanece sempre voltado para Disnomia, assim como a Lua mantém sempre a mesma face voltada para a Terra.[22]
Atmosfera e clima
[editar | editar código]Devido à sua órbita extremamente excêntrica, as temperaturas em Éris variam significativamente. No periélio, quando Éris está a 37,77 UA do Sol, a temperatura superficial pode atingir aproximadamente -232°C, enquanto no afélio, a 97,56 UA, as temperaturas podem cair para -248°C.[23]
Quando Éris se aproxima do Sol em seu periélio, acredita-se que parte do gelo de metano e nitrogênio na superfície possa sublimar, formando uma atmosfera tênue temporária, similar ao que ocorre com Plutão.[24] No entanto, quando Éris se afasta novamente para o afélio, esta atmosfera congela e se deposita novamente na superfície. Atualmente, Éris está próximo ao afélio, portanto qualquer atmosfera que possa existir estaria em estado congelado.
A pressão atmosférica de Éris, quando presente, é estimada ser extremamente baixa, possivelmente alguns nanobares, muito menor que a de Plutão. Observações da ocultação estelar de 2010 não detectaram evidências conclusivas de uma atmosfera significativa naquele momento.[1]
Satélite
[editar | editar código]A lua de Éris, Disnomia, foi descoberta em 10 de setembro de 2005 por Michael E. Brown e sua equipe usando o telescópio espacial Hubble.[25] Estima-se que Disnomia tenha aproximadamente 700 km de diâmetro, sendo cerca de oito vezes menor e sessenta vezes menos brilhante que Éris.[26]
Disnomia orbita Éris a uma distância de aproximadamente 37.350 km, completando uma órbita em cerca de 15,8 dias.[27] O sistema Éris-Disnomia apresenta algumas semelhanças com o sistema Terra-Lua em termos de proporções relativas. Apesar das dimensões mais reduzidas, Disnomia está proporcionalmente próxima de Éris, e os dois corpos mantêm uma rotação sincronizada mútua.
A observação de Disnomia permitiu aos astrônomos calcular com precisão a massa de Éris através da aplicação das leis de Kepler, confirmando que Éris é o planeta anão mais massivo conhecido do Sistema Solar, apesar de ser ligeiramente menor em diâmetro que Plutão.
Ver também
[editar | editar código]Referências
[editar | editar código]- ↑ a b c d e f Sicardy, B.; et al. (outubro de 2011). «Size, density, albedo and atmosphere limit of dwarf planet Eris from a stellar occultation». EPSC-DPS Joint Meeting 2011, 2-7 de outubro de 2011, Nantes, França: 137. Bibcode:2011epsc.conf..137S
- ↑ JPL/NASA (22 de abril de 2015). «What is a Dwarf Planet?». Jet Propulsion Laboratory. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ a b «The IAU draft definition of "planet" and "plutons"». UAI (em inglês). 16 de agosto de 2006. Consultado em 17 de janeiro de 2026Arquivado em 20 de agosto de 2006, no Wayback Machine.
- ↑ «Plutoid chosen as name for Solar System objects like Pluto». Paris: União Astronômica Internacional (News Release - IAU0804). 11 de junho de 2008. Consultado em 17 de janeiro de 2026. Arquivado do original em 13 de junho de 2008
- ↑ a b Classificação orbital da MPC Agosto de 2006
- ↑ a b «AstDys (136199) Eris Ephemerides». Department of Mathematics, University of Pisa, Italy. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ a b Mike Brown (2010). «The shadowy hand of Eris». Mike Brown's Planets. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ a b Brown, Mike (22 de novembro de 2010). «How big is Pluto, anyway?». Mike Brown's Planets. Consultado em 17 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 21 de julho de 2011 (Franck Marchis on 2010-11-08)
- ↑ «How Big Is Pluto? New Horizons Settles Decades-Long Debate». NASA. 2015. Consultado em 17 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 13 de julho de 2015
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