Íbis-terrestre-de-reunião

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Aparência hipotética baseada nas evidências disponíveis.

Aparência hipotética baseada nas evidências disponíveis.
Estado de conservação
Status iucn3.1 EX pt.svg
Extinta  (início do séc. XVIII) (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Pelecaniformes
Família: Threskiornithidae
Género: Threskiornis
Espécie: T. solitarius
Nome binomial
Threskiornis solitarius
(Sélys, 1848)
Distribuição geográfica
Endêmico da ilha da Reunião (em destaque)
Endêmico da ilha da Reunião (em destaque)
Sinónimos

O Íbis-terrestre-de-reunião ou íbis-sagrado-de-reunião (nome científico: Threskiornis solitarius) é uma espécie de ave extinta nativa da ilha de Reunião. Os seus parentes existentes mais próximos são o íbis-sagrado, o íbis-sagrado-de-madagáscar e o íbis-pescoço-de-palha.

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

A história taxonômica do íbis-terrestre-de-reunião é complexa e complicada. A confusão aconteceu porque durante muito tempo pensou-se existir uma espécie de dodô branco na ilha da Reunião. Sabe-se hoje que esse suposto dodô é fruto de uma conjectura errada baseada nas escassas e ambíguas descrições em vida do íbis, com pinturas de dodôs brancos feitas no século XVI e redescobertas no século XIX. Os primeiros a retratarem o dodô com uma plumagem branca (ao invés de cinza ou acastanhada, sua cor real) foram os pintores holandeses Pieter Withoos e Pieter Holsteyn. Depois outros artistas se inspiraram nessas obras e também desenharam dodôs brancos.[2]

O oficial chefe inglês John Tatton, em 1625, foi o primeiro a mencionar especificamente uma ave branca na ilha da Reunião. Os franceses ocuparam a ilha a partir de 1646, e se referiam à ave como solitaire ("solitário"). M. Carré da Companhia Francesa das Índias Orientais descreveu o solitário em 1699, explicando a razão de seu nome:[2]

Eu vi um tipo de ave neste lugar que eu nunca havia encontrado em nenhuma outra parte; é a que os moradores chamam de Oiseaux Solitaire, certamente porque ela ama a solidão e só frequenta os lugares mais isolados; nunca se vê duas ou mais juntas; está sempre sozinha. Não é diferente de um peru, embora não tenha pernas compridas. A beleza de sua plumagem é uma delícia de se ver. É de um cor inconstante que beira o amarelo. A carne é saborosa; ela fornece um dos melhores pratos neste país, e pode constituir uma fina iguaria em nossas mesas. Quisemos manter duas dessas aves para envia-las à França e apresenta-las a Sua Majestade, mas logo que subiram a bordo do navio, elas morreram de melancolia, tendo-se recusado a comer ou beber.[3]

Um huguenote francês abandonado em Reunião, François Leguat, usou o nome "solitário" para a ave terrestre que ele encontrou na ilha vizinha de Rodrigues (o solitário-de-rodrigues) na década de 1690, mas acredita-se que ele pegou emprestado o nome de uma obra de 1689, de autoria de Marquis Henri Duquesne, que mencionou a espécie da ilha da Reunião. O próprio Duquesne provavelmente já tinha baseado sua descrição em outra mais antiga.[2] Nenhum espécime do solitário foi preservado.[4] Os dois indivíduos que Carré tentou enviar para a menagerie real da França não sobreviveram em cativeiro. Billiard alegou que Bertrand-François Mahé de La Bourdonnais enviou um "solitário" nativo de Reunião para a França por volta de 1740. Uma vez que o íbis-terrestre-de-reunião possivelmente já estava extinto a essa altura, a ave transportada pode ter sido, na verdade, um solitário-de-rodrigues.[5]

O único escritor contemporâneo que se refere especificamente a "dodôs" habitando a ilha da Reunião foi o marinheiro holandês Willem Ysbrandtszoon Bontekoe, embora não tenha mencionado a coloração das aves:[2] [6]

Havia também Dod-eersen [antiga palavra do holandês para o dodô], que têm asas pequenas, e muito longe de serem capazes de voar, eles eram tão gordos que mal podiam andar, e quando tentavam correr, arrastavam a parte de baixo do corpo no chão.[3]

Quando seu relato foi publicado em 1646, ele foi acompanhado por uma gravura que hoje sabe-se que havia sido copiada de um dos dodôs da "Crocker Art Gallery sketch", do pintor flamengo Roelant Savery.[5] Uma vez que Bontekoe naufragou e perdeu todos os seus pertences depois de visitar a ilha da Reunião, em 1619, ele não pode ter escrito suas memórias até que tenha voltado à Europa, sete anos mais tarde, o que colocaria sua confiabilidade em questão.[2] Ele pode ter concluído erroneamente que aquele animal que vira em Reunião era um dodô, apenas porque achou que combinava com os relatos que leu sobre esta última ave.[7]

Interpretação antiga[editar | editar código-fonte]

Na década de 1770, o naturalista francês Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, afirmou que o dodô habitava tanto a ilha de Maurício como a ilha da Reunião. Não está claro o porquê de incluir Reunião, mas ele misturou relatos do solitário-de-rodrigues e de uma terceira ave ("oiseau de Nazareth") na mesma seção.[2] O naturalista inglês Hugh Edwin Strickland analisou as descrições antigas do "solitário" de Reunião em seu livro de 1848, The Dodo and Its Kindred, e concluiu que era distinto do dodô e do solitário-de-rodrigues.[3] O barão Edmond de Sélys Longchamps cunhou o nome científico Apterornis solitarius para o solitário de Reunião em 1848, aparentemente tornando-o a espécie-tipo do gênero, no qual ele também incluiu duas outras aves das Mascarenhas conhecidas apenas a partir de relatos de época, a galinhola-vermelha-das-maurícias e o Porphyrio coerulescens.[8] Como o nome Apterornis já havia sido usado para uma ave diferente por Richard Owen, e os outros nomes antigos foram igualmente invalidados, Bonaparte cunhou um novo binomial em 1854, Ornithaptera borbonica (Bourbon era o nome original em francês para a ilha da Reunião).[9] Nesse mesmo ano, Hermann Schlegel alocou o solitário no mesmo gênero do dodô, e nomeou-o Didus apterornis.[10] Ele o restaurou estritamente de acordo com os relatos da época, o que resultou numa ave parecida com um íbis ou com uma cegonha, em vez de um dodô.[2] Como era considerado congênere do dodô, por muito tempo o solitário de Reunião foi classificado também como membro da família de pombos Dididae.[11]

Em 1856, William Coker anunciou a descoberta de uma pintura "persa" do século XVII de um dodô branco entre aves aquáticas, a qual ele exibiu na Inglaterra. O artista foi mais tarde identificado como Pieter Withoos, e muitos proeminentes naturalistas do século XIX, posteriormente, assumiram que a imagem retratava o solitário branco da Reunião, uma possibilidade originalmente proposta pelo ornitólogo John Gould. Simultaneamente, diversas pinturas similares de dodôs brancos feitas por Pieter Holsteyn II foram descobertas na Holanda.[2] Em 1869, o ornitólogo inglês Alfred Newton argumentou que pinturas e gravuras de Withoos nas memórias de Bontekoe mostravam um dodô vivendo em Reunião que tinha sido trazido para Holanda, ao mesmo tempo em que explicou que seu bico sem ponta foi resultado da debicagem para impedi-lo de ferir pessoas. Ele também deixou de lado as inconsistências entre as ilustrações e descrições, especialmente o bico longo e fino indicado num relato contemporâneo.[12]

As palavras de Newton particularmente cimentaram a validade dessa conexão entre os pares contemporâneos, e vários deles expandiram seus pontos de vista.[2] O zoólogo holandês Anthonie Cornelis Oudemans sugeriu que as discrepâncias entre as pinturas e as antigas descrições eram devido ao fato das pinturas mostrarem uma fêmea, e que a espécie tinha, portanto, dimorfismo sexual.[13] Walter Rothschild reivindicou que as asas amarelas podem ter sido devido ao albinismo neste espécime em particular, uma vez que antigas descrições as descreveram como pretas.[11] No início do século XX, muitas outras pinturas e até mesmo restos físicos foram atribuídos a dodôs brancos, em meio a muita especulação. Alguns acreditavam que o solitário das antigas descrições era sim uma espécie semelhante ao solitário-de-rodrigues.[2] Rothschild solicitou ao artista britânico Frederick William Frohawk que fizesse uma ilustração do solitário de Reunião tanto como um dodô branco, com base na pintura de Withoos, quanto uma ave distinta com base na descrição Dubois, para seu livro de 1907 Extinct Birds.[11] Em 1953, o escritor japonês Masauji Hachisuka chegou a se referir aos dodôs brancos das pinturas como Victoriornis imperialis, e o solitário dos relatos batizou-o como Ornithaptera solitarius.[14]

Interpretação atual[editar | editar código-fonte]

Até o final da década de 1980, a crença na existência de um dodô branco em Reunião era a visão ortodoxa, e apenas alguns pesquisadores duvidavam da conexão entre os relatos do solitário e as pinturas de dodô. Eles alertaram que nenhuma conclusão poderia ser tirada sem provas sólidas, tais como fósseis, e que nada indicava que os dodôs brancos nas pinturas tinham a ver com a ilha da Reunião. Em 1970, Robert W. Storer previu que, se algum resquício fosse encontrado, eles não pertenceriam aos Raphidae, nem mesmo aos Columbidae.[2] [15]

Os primeiros resquícios subfósseis de aves na ilha da Reunião foram achados em 1974, e atribuídos a uma cegonha, Ciconia sp. Os restos mortais foram encontrados numa caverna, o que indica que haviam sido levados para lá e comidos pelos primeiros colonos. Especulou-se que os ossos pudessem ter pertencido a uma misteriosa ave de grande porte descrita por Leguat e chamada de "gigante da Leguat" por alguns ornitólogos. Hoje acredita-se que esse pássaro gigante é fruto de um relato sobre um população extinta de flamingos naquela região.[16] Em 1987, subfósseis de uma espécie de íbis, extinta em tempos históricos, foram achados na ilha da Reunião e descritos como Borbonibis latipes. Pensava-se que estava relacionada com os íbis do gênero Geronticus.[17] Em 1994, concluiu-se que restos mortais da "cegonha" pertenciam, na verdade, a esta mesma espécie de íbis. A descoberta de 1987 levou o biólogo Anthony S. Cheke a sugerir a um dos descritores, Francois Moutou, que os subfósseis podem ter sido do solitário de Reunião.[2] Esta sugestão foi publicada pelos descritores do Borbonibis em 1995, e eles também reclassificaram a ave no gênero Threskiornis, combinando com o epíteto específico solitarius, nome binomial dado por Selys-Longchamps em 1848 para o solitário. Os autores apontam que as descrições contemporâneas combinavam mais com a aparência e comportamento de um íbis do que com um membro dos Raphidae, especialmente depois que um fragmento de uma mandíbula de íbis comparativamente curta e reta foi descoberto em 1994, e porque resquícios de íbis eram abundantes em algumas localidades; teria sido estranho se os escritores da época nunca mencionassem uma ave relativamente tão comum, ao passo que eles mencionaram a maioria das outras espécies conhecidas posteriormente a partir de fósseis.[18]

A possível origem das pinturas de dodô branco do século XVII também foi examinada recentemente pelo biólogo Arturo Valledor de Lozoya em 2003, e, de forma independente, pelos especialistas na fauna das ilhas Mascarenhas Anthony Cheke e Julian Hume em 2004. As pinturas de Withoos e Holsteyn são claramente derivadas uma da outra, e Withoos provavelmente copiou seu dodô de uma das obras de Holsteyn, uma vez que estas foram provavelmente feitas primeiro. Acredita-se que todas as imagens posteriores de dodôs brancos são baseadas nessas pinturas. De acordo com os biólogos acima mencionados, parece que estas ilustrações foram derivadas de um dodô esbranquiçado contido numa pintura anteriormente não relatada. Tal obra chama-se Landscape with Orpheus and the Animals, produzida por Roelant Savery circa 1611. O dodô foi aparentemente baseado num exemplar empalhado exposto em Praga; um walghvogel (termo do holandês antigo para o dodô) descrito como tendo um "coloração esbranquiçada suja" foi mencionado num inventário de espécimes na coleção de Praga do Sacro Imperador Romano Rodolfo II, que contratou Savery na época (1607-1611). Várias imagens posteriores de Savery mostram sempre aves acinzentadas, possivelmente porque ele viu outro exemplar, desta vez normal. Cheke e Hume acreditam que o espécime pintado era branco devido ao albinismo, e que esta característica peculiar foi a razão deste indivíduo ter sido enviado à Europa.[2] Valledor de Lozoya, por sua vez, sugeriu que a plumagem clara pode ser um traço juvenil, resultado do branqueamento de exemplares taxidermizados antigos, ou simplesmente licença artística.[14]

Nenhum fóssil de aves parecidas com o dodô jamais foi encontrado na ilha da Reunião.[19] Algumas poucas fontes trazem como problemática a ideia de que o solitário era um íbis, e, inclusive, consideravam o "dodô branco" como uma espécie válida.[5] O escritor britânico Errol Fuller concorda que as pinturas do século XVII não retratam aves de Reunião, mas questionou se os subfósseis de íbis estão necessariamente ligados aos relatos do solitário. Ele observa que nenhuma evidência indica que os íbis extintos sobreviveram até o momento que os europeus chegaram à ilha da Reunião.[19] [20] Cheke e Hume têm rejeitado tais sentimentos como sendo mera "crença" e "esperança" na existência de um dodô na ilha.[2]

Evolução[editar | editar código-fonte]

O íbis-sagrado-de-madagascar é considerado o "primo" mais próximo.

A ilha vulcânica de Reunião tem apenas três milhões de anos, enquanto Maurício e Rodrigues, cada uma com sua espécie de Raphinae, o dodô e o solitário-de-rodrigues, respectivamente, possuem de oito a dez milhões de anos. É improvável que qualquer uma destas aves ainda tivesse sido capaz de voar depois de cinco ou mais milhões anos de adaptação às ilhas. Portanto, é improvável que Reunião pudesse ter sido colonizada por aves que não voam a partir dessas ilhas, e a única espécie voadora na ilha tem parentes lá.[2] Três milhões de anos é tempo suficiente para que a incapacidade de voar tenha evoluído por si só nas aves de Reunião. Mas tais espécies teriam sido dizimadas pela erupção do vulcão Piton des Neiges entre 300 e 180 mil anos atrás. A maioria das espécies recentes, portanto, provavelmente são descendentes de animais que recolonizaram a ilha a partir de Madagascar ou da África após este evento, que não é antigo o suficiente para dar tempo a uma ave se tornar incapaz de voar.[9]

Em 1995, um estudo morfológico sugeriu que os "primos" vivos mais próximos do íbis-terrestre-de-reunião são o íbis-sagrado (Threskiornis aethiopicus) da África e o íbis-pescoço-de-palha (T. spinicollis) da Austrália.[18] Também foi sugerido que ele era mais próximo do íbis-sagrado-de-madagascar (T. bernieri), e, portanto, em última análise, de origem africana.[5]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Relatos contemporâneos descreveram a espécie como tendo plumagem branca e cinza fundindo-se amarelo, pontas das asas e penas da cauda negras, pescoço e pernas longos, e capacidade de voo limitada.[19] O relato de 1674 feito por Sieur Dubois é a descrição contemporânea mais detalhada da ave,[11] aqui traduzido por Hugh Strickland em 1848:

Esboço de Hermann Schlegel (1854), retrata um ave parecida com um íbis e uma cegonha.

Solitaires. Estas aves são assim chamadas porque sempre andam sozinhas. Eles são do tamanho de um ganso grande, e são de cor branca, com as pontas das asas e cauda pretas. As penas da cauda se assemelham às de uma avestruz; o pescoço é longo, e o bico é como o de uma galinhola, porém maiores; as pernas e os pés são como os de perus. Esta ave tem de recorrer à corrida, já que voa somente muito pouco.[3]

A coloração da plumagem mencionada é semelhante a dos "primos" africanos íbis-sagrado e íbis-pescoço-de-palha, que também têm a maior parte do corpo branca e preta-brilhante. Na estação reprodutiva, as penas ornamentais na parte de trás da asa e pontas dos Africano ibis sagrado semelhante às penas de avestruz, que ecoa descrição Dubois '. Da mesma forma, um subfóssil mandíbula encontrada em 1994 mostrou que o projeto de lei do ibis Réunion foi relativamente curto e direto para um ibis, o que corresponde a comparação galinhola Dubois ».[18] Cheke e Hume têm sugerido que a palavra francesa (bécasse) a partir de descrição original Dubois, normalmente traduzido como "galinhola", também pode significar pega do mar, um outro pássaro com um longo, reto, mas ligeiramente mais robusto, conta. Eles também têm apontado que a última frase é mal traduzida, e na verdade significa o pássaro poderia ser pego correndo atrás dela.[2] A coloração brilhante da plumagem mencionada por alguns autores pode se referir a iridescência, como visto no pescoço do íbis-pescoço-de-palha.[7]

Subfósseis do íbis-terrestre-de-reunião mostram que a espécie era mais robusta, provavelmente muito mais pesada, e tinha uma cabeça maior do que a do íbis-sagrado e do íbis-palha. Mas era semelhante a eles em muitos aspectos. Protuberâncias ásperas sobre os ossos da asa do íbis-terrestre-de-reunião são semelhantes aos das aves que usam suas asas em combate. Talvez fosse incapaz de voar, mas isso não deixou vestígios osteológicos significativos; esqueletos completos não foram recolhidos, mas dos elementos peitorais conhecidos, apenas uma característica indica redução na capacidade de voo. O coracoide é alongado e o rádio e a ulna são robustos, como em aves que voam, mas uma determinado forame entre um metacarpo e o alular é de outra forma conhecido apenas a partir de aves que não voam, como alguns ratites, pinguins, e várias espécies extintas.[9] Como relatos contemporâneos são inconsistentes sobre se o solitário foi incapaz de voar ou tinha alguma capacidade de voo, Mourer-Chauvire sugeriu que este era dependente de gordura ciclos sazonais, o que significa que os indivíduos engordados-se durante as estações frias, mas eram pequenas durante as estações quentes; talvez ele não pudesse voar quando gordo, mas podia, quando não era.[18] No entanto, Dubois declarou especificamente que os solitários não tinham ciclos de engorda, ao contrário da maioria das outras aves de Reunião.[2]

Comportamento e ecologia[editar | editar código-fonte]

O íbis-pescoço-de-palha é um parente próximo que habita zonas úmidas, como a maioria dos íbis.

A espécie foi descrita por Dubois como uma ave terrestre, por conta disso acredita-se que não vivia em habitats típicos de outros íbis, como áreas alagadas. Foi proposto que isto aconteceu porque o ancestral da ave colonizou Reunião antes da formação de pântanos na ilha, e assim acabou se adaptando aos habitats disponíveis. Talvez foram impedidos de colonizar Maurício, devido à presença da galinhola-vermelha de lá, que pode ter ocupado um nicho ecológico semelhante.[5] Parece ter vivido em grandes altitudes, e talvez teve uma distribuição limitada.[4] A única menção da sua dieta e do seu habitat exato é o relato de Jean Feuilley de 1708, que é também o último registro de um indivíduo vivo:

Os solitários são do tamanho de um peru média, cinza e branco na cor. Eles habitam os topos das montanhas. A comida é apenas vermes e sujeira, tomadas ou no solo.[5]

A dieta e modo de forrageamento descritos por Feuilley correspondem aos de um íbis, ao passo que os membros dos Raphinae, o dodô e o solitário-de-rodrigues, eram frugívoros.[18] Relatos feitos pelos primeiros visitantes indicam que a espécie era encontrada próximo aos locais de desembarque dos navios, mas em 1667 habitava apenas áreas remotas de Reunião. A ave pode ter sobrevivido em terras baixas no leste da ilha até a década de 1670. Embora muitos depoimentos do final do século XVI afirmem que o íbis-terrestre-de-reunião era bom para comer, Feuilley afirmou que sua carne tinha um gosto ruim. A diferença no sabor pode ter ocorrido devido a alteração na dieta, pois a ave mudou-se para mais um terreno mais elevado e acidentado a fim escapar dos porcos que destruíam seus ninhos; uma vez que tinha capacidade limitada de voo, provavelmente construía seus ninhos sobre o solo.[5]

Muitas outras espécies endêmicas de Reunião foram extinguidas após a chegada do homem e das alterações resultantes no ecossistema da ilha. O íbis-terrestre-de-reunião viveu ao lado de outras aves recentemente extintas, como o Fregilupus varius, o Mascarinus mascarinus, o periquito-de-reunião, o Porphyrio coerulescens, a coruja Mascarenotus grucheti, o Nycticorax duboisi, e o Nesoenas duboisi. Répteis extintos incluem a tartaruga gigante Cylindraspis indica e um tipo de lagarto Leiolopisma. A Pteropus subniger e o Tropidophora carinata viveram na ilha da Reunião e Maurício, mas desapareceu de ambas as ilhas.[5]

Extinção[editar | editar código-fonte]

Os últimos exemplares viveram no topo das montanhas da ilha da Reunião.

Como a ilha da Reunião foi povoada por colonos, os últimos íbis parecem ter ficado confinados aos topos das montanhas. Predadores introduzidos como gatos e ratos tornaram-se um tormento para a ave. A caça excessiva também contribuiu para a extinção e vários relatos de época afirmam que o íbis foi amplamente caçado para servir como alimento.[4] Em 1625, John Tatton descreveu a mansidão da ave e como era fácil para caça-la, bem como a grande quantidade consumida:

Há fartura de aves terrestres tanto pequenas quanto grandes, pombos em abundância, grandes papagaios, e outras parecidas; e uma grande ave do tamanho de um peru, muito gorda, e com as asas tão curtas que não conseguem voar, são brancas, e de modos mansos: tal como todos os outros galináceos, não se incomoda nem teme um tiro. Nossos homens as abatem com com paus e pedras. Dez homens podem pegar aves suficientes para servir quarenta homens por um dia.[11]

Em 1671, Melet mencionou a qualidade culinária desta espécie, e descreveu a matança de vários tipos de aves na ilha:

Outro tipo de ave, chamada solitário, é boa (de comer) e a beleza de sua plumagem fascina especialmente pela diversidade de cores brilhantes que cintilam sobre suas asas e ao redor de seus pescoços... Há aves em tão grande confusão e tão mansas que não é necessário caça-las com armas de fogo, elas podem ser facilmente abatidas com uma pequena vara ou pedaço de pau. Durante os cinco ou seis dias que fomos autorizados a adentrar a floresta, tantas delas foram mortas que o General [de La Haye] foi obrigado a proibir que alguém fosse além de cem passos do acampamento por medo do alojamento inteiro ser destruído, alguém só precisava pegar uma ave viva e faze-la gritar para que num instante bandos inteiros se empoleirassem sobre as pessoas, de modo que muitas vezes não era preciso nem se mover para matar centenas delas. Mas, percebendo que teria sido impossível de abater uma quantidade tão grande de aves, a permissão novamente foi dada para matar, o que trouxe grande alegria a todos, porque tínhamos uma refeição muito boa sem custo algum.[4]

A última menção definitiva do "solitário" da Reunião foi feita por Feuilley em 1708, indicando que a espécie provavelmente se extinguiu em algum momento no início daquele século.[4] Na década de 1820, Louis Henri de Freycinet perguntou a um velho escravo sobre drontes (antiga palavra holandesa para dodô), e foi dito que o pássaro existiu em torno de Saint-Joseph, quando seu pai era um bebê. Isso seria talvez um século antes, mas o relato pode não ser confiável. Cheke e Hume suspeitam que os gatos selvagens inicialmente caçavam animais selvagens nas planícies e depois virou-se para zonas interiores mais elevadas, que eram provavelmente o último reduto do íbis-de-reuinão, pois eram inacessíveis aos porcos. Acredita-se que a espécie tenha sido levado à extinção em torno de 1710 e 1715.[5]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. BirdLife International (2012). Threskiornis solitarius (em Inglês). IUCN 2012. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN de 2012 Versão 3.1. Página visitada em 16/11/2015.
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q Hume, JP; Cheke AS. (2004). "The white dodo of Réunion Island: Unravelling a scientific and historical myth" (pdf) (em inglês). Archives of Natural History 31 (1): 57-79. DOI:10.3366/anh.2004.31.1.57.
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