A Moratória

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A Moratória
drama
Censura ao teatro AN 809.tif

Autorização da censura para a remontagem da peça pelo Grupo Tapa em 1971
Autor Jorge Andrade
Atores Fernanda Montenegro
Milton Moraes
Sérgio Britto
Elísio de Albuquerque
Wanda Kosmo
País Brasil
Diretor Gianni Ratto
Prêmios Prêmio Saci 1955


A Moratória é uma peça teatral brasileira, de autoria do dramaturgo Jorge Andrade, e escrita no contexto da transição entre a República Velha e a Era Vargas. Estreou em 1954, numa encenação de Gianni Ratto para o Teatro Maria Della Costa em São Paulo, com interpretação marcante de Fernanda Montenegro[1].

Estilo e contexto histórico[editar | editar código-fonte]

Nas peças ao estilo de A Moratória, o autor deixa parte da capacidade interpretativa para o grupo de atores, que dão vida aos diálogos e às situações. Por esta razão, é melhor ser assistida do que lida, já que a primeira opção tem maior riqueza interpretativa. Mas se o leitor observar atentamente as rubricas do autor, conseguirá entender melhor o enredo.

A técnica principal usada por Jorge Andrade é a expectativa, focalizada em situações dramáticas, em dois tempos e espaços simultâneos e antagônicos, que, no desenrolar do enredo, possuem ações decorrentes do conflito das personagens em torno de duas expectativas: em 1929, a perda da fazenda por causa das dívidas contraídas por Joaquim e, no período pós-1930, a recuperação da mesma fazenda a a decretação da moratória pelo Governo.

Além dos conflitos de personagens, retrata, de forma bem explícita, a decadência da elite do café após a crise de 1929, acompanhada pela Revolução de 1930, encabeçada por Getúlio Vargas e a elite gaúcha. Para enriquecer o assunto, enfoca a crise da sociedade patriarcal rural e os indícios de um processo lento e definitivo de mudanças sociais na estrutura da sociedade paulista, focalizadas na inserção da mulher no mercado de trabalho, no deslocamento do centro econômico-social para as cidades e na formação do proletariado urbano.[2]

Personagens[editar | editar código-fonte]

As personagens compõem um conjunto familiar, no qual se relacionam, nem sempre de forma totalmente amigável, como é o caso de Joaquim e Marcelo. Olímpio aparece nos dois planos: como o noivo excluído, inicialmente, e depois, como a única esperança de salvação da família. Lucília, antes simples moça submissa, oscila para um grau superior, no qual assume a chefia financeira da casa e é a sucessora do pai.

Joaquim

Proprietário de fazenda na região cafeeira. Nunca fugiu ao trabalho e melhorou o que herdou de seus maiores, mas não soube administrar durante a crise e perdeu tudo. Contraiu dívidas, penhorando sua propriedade, vendeu seu café a prazo, não recebeu o pagamento e perdeu tudo. Politicamente, comporta- se como um coronel, inserido no contexto da política do café-com-leite. Sua fazenda influencia toda a região, sendo inclusive o centro social e econômico.

Helena

Esposa de Joaquim, encarnando a figura da mãe tradicional e da esposa convencional da sociedade rural brasileira, dividida entre o conflito da fazenda e a felicidade do esposo e filhos. No momento de riqueza, vive na ociosidade, mas na pobreza dedica-se fiel e fervorosamente aos compromissos da Igreja, forma encontrada por ela para amenizar o sofrimento de sua família, através das orações.

Lucília

A filha que oscila, ao longo do tempo da peça, entre uma jovem sonhadora e despreocupada que costura por lazer e uma mulher dura e responsável que sustenta financeiramente a família e aceita tudo com resignação e esperança. Representa a figura da mulher que se insere no mercado de trabalho urbano e ajuda no sustento da casa, inclusive tomando decisões.

Marcelo

O filho que é um projeto de homem, típico jovem da elite, que gasta seu tempo em farras noturnas e nenhum trabalho útil. Não se mostra habituado com nenhum trabalho e sofre bastante no frigorífico em que trabalha na segunda situação. Fora educado para substituir o pai, mas acabou se tornando um simples operário.

Olímpio

Noivo de Lucília, é advogado e tenta auxiliar no processo de nulidade. Na riqueza, é discriminado por ser filho de um rival político. Na pobreza, é exaltado, por causa do título de advogado. Representa a questão da valorização no título de doutor, muito vigente na República Velha.

Elvira

Irmã de Joaquim e esposa de Augusto, principal credor do cunhado. Em troca de café, leite e alguns alimentos, Lucília não cobra as costuras que ela encomenda. Guarda rancor e é ambiciosa.

O tempo durante o enredo[editar | editar código-fonte]

A história, se analisada temporalmente, reduz-se ao período de 1929 a 1933, marcado pelos seguintes fatos[3]:

  • a iminência de perder a fazenda
  • a perda da fazenda
  • o empobrecimento da família e o agravamento das tensões familiares em decorrência de tal fato
  • a mudança para a cidade (êxodo rural), em uma casa pequena e modesta
  • a decadência completa, causada pela não- aprovação da nulidade do processo que nem da moratória que possivelmente viria a ser decretada pelo Governo Provisório.

Referências

  1. Jorge Andrade (1954). «A Moratória». Enciclopédia Itaú Cultural. Consultado em 1 de dezembro de 2020 
  2. Décio de Almeida Prado (1996). O teatro brasileiro moderno. [S.l.]: Pespectiva. 149 páginas 
  3. Diógenes André Vieira Maciel (2019). «Encruzilhadas da Literatura e da História». Revista Fenix. Consultado em 1 de dezembro de 2020