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A Noite Escura da Alma

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São João da Cruz.

A noite escura da alma (em castelhano: La noche oscura del alma) representa uma fase de purificação passiva no desenvolvimento místico do espírito do indivíduo, de acordo com São João da Cruz, poeta, místico, sacerdote e frade carmelita espanhol do século XVI.[1]

João descreve o conceito em seu tratado Noite Escura (em castelhano: Noche Oscura), um comentário realizado sobre seu poema homônimo. Segue-se à segunda fase, a iluminação em que se sente a presença de Deus, mas esta presença ainda não é estável. O próprio autor não deu título ao seu poema, que, juntamente com este comentário e a Subida do Monte Carmelo (em castelhano: Subida del Monte Carmelo), constitui um tratado sobre a purificação ativa e passiva dos sentidos e do espírito, conduzindo à união mística.[1]

Atualmente, o termo "noite escura da alma" se tornou uma forma popular de se descrever uma crise de fé, ou um período doloroso e de dificuldades na vida de uma pessoa.[2]

Data e tema

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O poema de São João da Cruz, em oito estrofes compostas por cinco linhas cada, narra a jornada da alma até sua união mística com Deus. O período e o local exatos de sua composição são incertos, mas é provável que o poema tenha sido escrito entre 1577 e 1579. Sugeriu-se que o poema tenha sido composto enquanto João estava preso em Toledo, embora as poucas afirmações explícitas a este respeito não sejam convincentes, e tenham sido obtidas indiretamente.[3]

A jornada é denominada "noite escura" em parte porque a escuridão representa o fato de que o destino "Deus" é irreconhecível, tal como no clássico místico do século XIV, A Nuvem do Não Saber; ambas as obras sendo derivadas dos trabalhos de Pseudo-Dionísio, o Areopagita no século VI.[carece de fontes?] Ademais, o caminho em si mesmo também é irreconhecível. A "noite escura" não se refere às dificuldades da vida em geral,[4] embora a frase tenha sido interpretada desta maneira.

La noche oscura del alma[5]

En una noche oscura
Con ansias en amores inflamada,
¡Oh dichosa ventura!
Sali sin ser notada,
Estando ya mi casa sosegada.

A oscuras, y segura
Por la secreta escala disfrazada,
¡Oh dichosa ventura!
A oscuras y encelada
Estando ya mi casa sosegada.

En la noche dichosa
En secreto, que nadie me veia,
Ni yo miraba cosa,
Sin otra luz, y guia,
Sino la que en el corazón ardia.

Aquesta me guiaba
Más cierto que la luz del mediodia,
A donde me esperaba,
Quien yo bien me sabia,
En parte, donde nadie parecia.

¡Oh noche que guiaste,
Oh noche amable más que el alborada;
Oh noche que juntaste
Amado con amada,
Amada en el Amado transformada!

En mi pecho florido,
Que entero para él sólo se guardaba,
Allí quedó dormido,
Y yo le regalaba,
Y el ventalle de cedros aire daba.

El aire de la almena,
Cuando yo sus cabellos esparcia,
Con su mano serena
En mi cuello heria,
Y todos mis sentidos suspendia.

Quedéme, y olvidéme,
El rostro recliné sobre el Amado,
Cesó todo, y dejéme,
Dejando mi cuidado
Entre las azucenas olvidado.

A noite escura da alma[6]

Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada,
Oh, ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh, ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia,
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia.

Oh, noite que me guiaste!
Oh, noite mais amável que a alvorada!
Oh, noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!

Em meu peito florido
Que, inteiro para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado

Poema e Tratado de São João da Cruz

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O poema de São João da Cruz narra a jornada da alma desde a sua morada carnal até a união com Deus. A jornada é referida como “Noite Escura”, pois a escuridão representa as dificuldades da alma em desapegar-se do mundo e atingir a luz da união com o Criador. Há vários níveis nesta escuridão atados em sucessivos estágios. A ideia principal do poema pode ser vista como sendo a dolorosa experiência que as pessoas têm de suportar ao buscar crescimento espiritual e a união com Deus.

A obra é dividida em dois livros que se referem a dois estágios da escuridão da noite. O primeiro é a purificação dos sentidos. O Segundo e o mais intenso de ambos é o da purificação do espírito, que é também o mais difícil de ser atingido. A “Noite Escura da Alma” ainda descreve os dez níveis na progressão em direção ao amor místico, tal como fora descrito por São Tomás de Aquino e, em parte, por Aristóteles. O poema foi escrito no período em que João da Cruz esteve preso devido a seus irmãos carmelitas não aceitarem suas reformas na Ordem do Carmo. O tratado foi escrito posteriormente e consiste em um comentário teológico sobre o poema, explicando cada um dos níveis mencionados em seus versos.

Termo espiritual na tradição cristã

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O termo “Noite Escura (da alma)” é usado no cristianismo para referir-se à crise espiritual na jornada rumo à união com Deus, como a que é descrita por São João da Cruz. Grosso modo, a crise consiste na ausência de Deus na vida daquele que crê. Tipicamente para um crente que se encontra na noite escura da alma, disciplinas espirituais como a prece e forte devoção a Deus, subitamente parecem perder todo o valor empírico; a prece tradicional passa a ser extremamente difícil e não gratificante por um longo período durante a noite escura. O indivíduo sente como se de repente Deus o tivesse abandonado ou como se sua vida de prece tivesse entrado em colapso. É importante notar, contudo, que a presença de dúvida não é o mesmo que o abandono de Deus.

Há uma forte tradição bíblica de autênticas crises diante de Deus. Os Salmos 13, 22 e 44, por exemplo, mostram o rei Davi passando por uma séria crise e angustiado diante de Deus, ainda assim, isso não é condenado nem mencionado como falta de fé, mas sim como a única medida de fé que David poderia ter em face ao aparente fulminante abandono. O Salmo 88 é um dos poucos escritos inteiramente neste reino de escuridão.

Ao invés de resultar em permanente devastação, a noite escura é considerada uma bênção disfarçada, pela qual o indivíduo é despojado (na noite escura dos sentidos) do êxtase espiritual associado com atos de virtude. Embora os indivíduos possam, por um momento parecer declinar em suas práticas de virtude, na realidade, eles se tornam mais virtuosos, uma vez que passam a ser virtuosos menos devido às recompensas espirituais (êxtases nos casos da primeira noite) e mais devido a um verdadeiro amor a Deus. Este é o purgatório, a purgação da alma, que traz pureza e união com Deus.

Santa Teresinha de Lisieux, uma carmelita francesa do século XIX, sofreu experiência semelhante. Centrando-se em dúvidas sobre a vida após a morte, ela teria dito a suas colegas freiras, "Se você soubesse em que escuridão eu estou mergulhada".

Apesar desta crise ser geralmente de natureza passageira, pode durar por longos períodos. A "noite escura" de São Paulo da Cruz, no século XVIII durou 45 anos, até que ele estivesse totalmente recuperado.

A "noite escura" de Santa Teresa de Calcutá também foi duradoura. Ela, de acordo com cartas publicadas em 2007, disse a respeito de sua própria crise "pode ser o caso mais longo registrado", com início em 1948, durando quase até sua morte, em 1997, com apenas breves intervalos de alívio entre. Padre Frei Franciscano Bento Groeschel, amigo de Madre Teresa durante grande parte de sua vida, afirma que "a escuridão a deixou" no final da vida.

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A Noite Escura da Alma (em inglês Dark Night of the Soul) é o nome dado a um álbum gravado pela banda de rock alternativo Sparklehorse com produção de Danger Mouse e em parceria com David Lynch.

A cantora canadense Loreena McKennitt transformou o poema Dark Night of the Soul em música no álbum The Mask and Mirror

A banda americana de metal Fear Factory usou o termo dark night of my soul na última faixa ("Timelessness") do álbum intitulado Obsolete.

Referências

  1. a b Schneiders, Sandra M. (2005). «John of the Cross». In: Jones, Lindsay. MacMillan Encyclopedia of religion. [S.l.]: MacMillan. 
  2. Peteet, John R.; Moffic, H. Steven; Hankir, Ahmed; Koenig, Harold G. (2 de setembro de 2021). Christianity and Psychiatry (em inglês). [S.l.]: Springer Nature. p. 57. ISBN 978-3-030-80854-9. Consultado em 12 de dezembro de 2025 
  3. SS. Sacramento, Lucinio del (1954). «Nota Introductoria a la 'Subida' y la 'Noche'». Vida y Obras completas de San Juan de la Cruz 5ª ed. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos. p. 358 
  4. «The Dark Night of the Soul - Michael Mirdad». Michael Mirdad (em inglês). 13 de dezembro de 2018. Consultado em 12 de dezembro de 2025 
  5. John of the Cross, Saint; Silverio, of St Teresa (1929). Obras de San Juan de la Cruz. Princeton Theological Seminary Library. [S.l.]: Burgos : Tip. de "El Monte Carmelo". Consultado em 12 de dezembro de 2025 
  6. São João da Cruz (1988). Obras Completas de São João da Cruz. trad.Carmelitas Descalças de Fátima (Portugal) e do Convento de Santa Teresa (Rio de Janeiro) 2ª ed. Petrópolis: Editora Vozes 

Bibliografia

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Ligações externas

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