Abaporu

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Abaporu
Autor Tarsila do Amaral
Data 1928
Técnica óleo sobre tela
Dimensões 85 cm x 72 cm
Localização Museu de Arte Latino-americana
de Buenos Aires (MALBA)

Abaporu é uma pintura a óleo da artista brasileira Tarsila do Amaral. É uma das principais obras do período antropofágico do movimento modernista no Brasil[1].

Hoje é a tela brasileira mais valorizada no mercado mundial das artes, com valor estimado de US$ 40 milhões[2]. Foi comprada pelo colecionador argentino Eduardo Costantini por US$ 2,5 milhões, em 1995 em um leilão realizado na Christies. Anteriormente pertencia ao empresário brasileiro Raul Forbes desde 1985. Atualmente, a obra encontra-se exposta no Museu de arte latino-americana de Buenos Aires (MALBA).

História[editar | editar código-fonte]

Foi pintada em óleo sobre tela, em janeiro de 1928, por Tarsila do Amaral (1886-1973)[3] como presente de aniversário ao escritor Oswald de Andrade, seu marido na época. O nome da obra foi conferido por ele e pelo poeta Raul Bopp, que indagou a Oswald ao ver o quadro: "Vamos fazer um movimento em torno desse quadro?"[4] Os dois escritores escolheram um nome para a obra, que veio a ser Abaporu, que vem dos termos em tupi aba (homem), pora (gente) e ú (comer), significando "homem que come gente" [5]. E também é uma referência para a criação da Antropofagia modernista brasileira, ou Movimento Antropofágico, que se propunha a deglutir a cultura estrangeira e adaptá-la ao Brasil.

Outras obras de Tarsila em sua fase antropofágica: A Lua (1928), O Lago (1928), Cartão Postal (1929) e Sol Poente (1929)[6].

A escolha das cores, formas e perspectiva da obra refletem o desejo de Tarsila de mostrar o Brasil de verdade. “Tarsila desembarcava do ‘Massilia’, navio de luxo vindo de Paris, trazendo na bagagem tintas bonitas, muitos vestidos elegantes e muita renovação”. [7] O quadro faz parte da fase antropofágica de Tarsila que, assim como a fase pau-brasil, é considerada uma das mais importantes dentro da vida da pintora. [8] Influenciada pelo cubismo, esse período na carreira da artista permitiu a ela fazer uma leitura visual das estruturas da sociedade brasileira. [8]

Abaporu no Brasil[editar | editar código-fonte]

Apesar de ser um dos símbolos do modernismo brasileiro, Abaporu não esteve na Semana de Arte Moderna de 1922, pois Tarsíla estava em Paris em busca de uma identidade artística[2].

Desde que Costantini adquiriu a tela em 1995, ela foi exposta no Brasil algumas vezes. Em 1998, em uma mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) que exibia obras do empresário argentino. Em 2002, esteve na Faap para a exposição Da Antropofagia a Brasília. Já em 2008, a pintura brasileira participou de Tarsila Viajante, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Mais uma vez na Faap, fez parte de Mulheres, Artistas e Brasileiras em 2011[9]. Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, o quadro esteve no Museu de Arte do Rio (MAR) na exposição A Cor do Brasil[2].

Interpretação[editar | editar código-fonte]

Gonzalo Aguillar em seu artigo “O Abaporu, de Tarsila do Amaral: saberes do pé” mencionado em Antropofagia hoje? Oswald de Andrade em cena, livro de Jorge Ruffinelli e João Cezar de Castro Rocha, pensa o Abaporu na qualidade do gênero de retrato anti-humano, pois o rosto é apagado, o corpo é animalesco, porém os pés são bastante humanos e detalhados. Para Aguillar, a gestualidade humana do quadro é parodiada. O homem do quadro é desprovido de identidade, quase desumanizado. [10]

Ortega y Gasset em A desumanização da arte trata da arte e das vanguardas modernas do início do século XX como "nova arte". Para o autor, a desumanização, que tende a se distanciar do objeto e da realidade humana deformando-a pela ruptura e destruição de seu aspecto humano, é própria desta nova escola. Ou seja, a desumanização do Abaporu é uma tendência observada no período.

Para Ortega y Gasset, Não se trata de pintar algo que seja completamente distinto de um homem, ou casa, ou montanha, mas sim de pintar um homem que pareça o menos possível com um homem, uma casa que conserve de tal o estritamente necessário para que assistamos à sua metamorfose, um cone que saiu milagrosamente do que era antes uma montanha, como a serpente sai de sua pele. O prazer estético para o artista novo emana desse triunfo sobre o humano; por isso é preciso concretizar a vitória e apresentar em cada caso a vítima estrangulada. [11]

Para Deleuze e Guattari, em "Ano-zero Rostidade", do livro Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, o rosto do homem é uma superfície e um mapa, que surge do entrecruzamento dos eixos da significância e da subjetivação, o qual adquire o nome de muro branco-buraco negro. De acordo com os estudiosos, mesmo humana, a cabeça não é forçosamente um rosto. O rosto só se produz quando a cabeça deixa de fazer parte do corpo, quando para de ser codificada pelo corpo, quando ela mesma para de ter um código corporal polívoco multidimensional- quando o corpo, incluindo a cabeça, se encontra descodificado e deve ser sobrecodificado por algo que denominaremos Rosto. [12]

A inversão da hierarquia face-restante do corpo na obra de Tarsila subverte a valorização da cultura ocidental em relação à parte superior do corpo, sobretudo, à cabeça, em uma espécie de provocação estética. [13]

Bakthin trata do baixo e alto material corporal em seu livro A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. Para ele, o traço marcante do realismo grotesco é o rebaixamento, isto é, a transferência ao plano material e corporal, o da terra e do corpo na sua indissolúvel unidade, de tudo que é elevado, espiritual, ideal e abstrato. [14]

Outra interpretação da pintura coloca em pauta a questão do trabalho. Para Nádia Battella Gotlib, a temática se manifesta na representação dos pés e das mãos da figura, os quais aparecem desproporcionalmente grandes, simbolizando o trabalho braçal realizado por grande parte da população brasileira. Enquanto isso, a cabeça, em menor evidência, representa o trabalho intelectual, relegado a uma reduzida elite econômica e acadêmica.[15]

Estética[editar | editar código-fonte]

Alguns estudiosos ligam a gestualidade do Abaporu à do O Pensador de Rodin. Nádia Regina Maffi Reckel, em sua tese "A tessitura da textualidade em Abaporu" afirma que no 'Abaporu' a re-escritura do 'Pensador' não se dá apenas pela posição corporal da personagem, mas também pela estética do fragmento e do bloco. E, se juntarmos à isso a re-escrituração de brasileiridade podemos compreender o texto por suas re-escriturações e, não apenas por sua forma ou conteúdo como é comumente lido pelos críticos de arte e educadores. [16]

Outra ligação entre as obras é exemplificada pelo fragmento de sol. No ambiente, a luz é externa, refletindo suas marcas no corpo da personagem e no cacto. O sol é uma referência ao sol brasileiro, à brasilidade da obra. [16]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Cultural, Instituto Itaú. «Modernismo no Brasil | Enciclopédia Itaú Cultural». Enciclopédia Itaú Cultural 
  2. a b c «'Abaporu' volta ao Brasil após mais de duas décadas». Pop & Arte. 3 de agosto de 2016 
  3. «Tarsila do Amaral». Wikipédia, a enciclopédia livre. 18 de junho de 2017 
  4. Enciclopédia Itaú de Artes Visuais verbete "Antropofagia"
  5. Dicionário Guarani-Tupi-Tupi antigo-Português
  6. CARNEIRO, Elisiane; SOUZA, Gabriel; MILKE, Tatiele; BECKER, Elsbeth Léia Spode (2008). «VISÕES DE MUNDO NA OBRA 'ABAPORU' DE TARSILA DO AMARAL1» (PDF). Anais no XV SIMPEP. Consultado em 25 de setembro de 2017 
  7. GOLDIB, Nádia Battella (1983). Tarsila do Amaral. São Paulo: Brasiliense. pp. p. 7 
  8. a b Amaral, Aracy (1975). Tarsila: sua obra e seu tempo. Vol. 1. [S.l.]: Perspectiva. 314 páginas 
  9. «'Abaporu', de Tarsila do Amaral, é destaque em exposição - Cultura - Estadão». Estadão 
  10. RUFFINELLI; ROCHA, Jorge; João Cezar de Castro (2011). Antropofagia hoje? Oswald de Andrade em cena. São Paulo: Realizações. pp. 688 p. 
  11. ORTEGA Y GASSET, Jose (1991). A desumanização da arte. São Paulo: Cortez. pp. p. 43 
  12. DELEUZE; GUATTARI, Gilles; Félix (1996). Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: 34. pp. p.31 
  13. GALVÃO, Raíssa Varandas. Antropofagia e inversão hierárquica no Abaporu, de Tarsila do Amaral. In: II Seminário de Pesquisas em Artes, Cultura e Linguagens Anais. Vol. 2. Juiz de Fora. 2015. p. 116.
  14. BAKHTIN, Mikhail (2008). A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: HUCITEC. pp. p.17 
  15. Gotlib, Nádia (2003). Tarsila do Amaral, a modernista. São Paulo: Senac 
  16. a b NECKEL, Nádia Régia Maffi. A TESSITURA DA TEXTUALIDADE EM “ABAPORU”. Blumenau. 2007. p. 154.