Abba Arika

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Abba Arika
Nascimento 175
Morte 247 (72 anos)
Sura
Ocupação Rabino

Acharoním Rishonim Gueonim Savoraíta Amoraíta Tanaíta Zugot

Abba Arika (175 – Sura, 247) (aramaico talmúdico: אבא אריכא, nascido Abba bar Aybo, em hebraico: רב אבא בר איבו) foi um judeu talmudista que viveu na Babilônia sassânida, conhecido como um amoraíta (comentador da Lei oral) do século III, que fundou em Sura o estudo sistemático das tradições rabínicas. Usando a Mishná como texto, levou à compilação do Talmude. Com ele, teve início o longo período de predomínio das grandes academias da Babilônia (Oesterley & Box 1920), por volta do ano 220. É comumente conhecido como Rav (ou Rab, em hebreu: רב).

Visão geral[editar | editar código-fonte]

O seu sobrenome, "Arika" (em português: "Alto", aparece apenas uma vez—Ḥullin 137b), deve-se à sua altura, que, de acordo com um registro fiável, excedia a de seus contemporâneos. Outros dizem que a grafia correta é "Areka", por considerá-lo um título honorífico, "Professor" (Weiss, Dor, iii. 147; Jastrow, Dicionário s.v.). Na literatura tradicional, ele é conhecido quase que exclusivamente como Rav, "o Mestre", (tanto por seus contemporâneos, quanto pela posteridade que reconhecem nele um mestre), assim como seu professor, Judá I, era conhecido simplesmente como rabino. É chamado de rabino Abba apenas na literatura tanaíta (por exemplo, Tosefta, Beẓah i. 7), onde vários de seus discursos estão preservados. Ele ocupa uma posição intermediária entre os tanaítas e os amoraítas, e é reconhecido o direito, raramente concedido a alguém que é apenas amoraíta, de disputar a opinião de um tana "professor" (Bava Batra 42a, e em outros lugares).[1]

Rav descendia de uma importante família babilônica, que afirmava ter a sua origem em Simei, irmão do Rei Davi (Sanhedrin 5a; Ketubot 62b). Seu pai, Aibo, era irmão de Chiya, que viveu na Palestina, e foi um estudioso muito estimado no círculo colegiado do patriarca Judá I. De suas associações na casa de seu tio, e mais tarde como discípulo de seu tio e membro da academia de Séforis, Rav adquiriu um conhecimento extraordinário da sabedoria tradicional, que o tornou seu principal expoente em sua terra natal. Enquanto Judá I ainda vivia, Rav, tendo sido devidamente ordenado como professor, embora com algumas restrições (Sanhedrin l.c.), retornou à Babilônia, onde logo iniciou uma carreira que estava destinada a marcar uma época no desenvolvimento do judaísmo babilônico.[1]

Início da Era talmúdica[editar | editar código-fonte]

Nos anais das escolas da Babilônia, o ano de sua chegada é registrado como o ponto de partida na cronologia da era talmúdica. Era o ano 530 dos selêucidas e o ano 219 da era comum. Como local para exercer a sua atividade, Rav escolheu primeiramente Nehardea, onde o exilarca (governante do povo hebreu no exílio) o nomeou agorânomo, ou mestre-do-mercado, e o rabino Chila fez-lhe professor (amoraíta) de seu colégio (Talmude de Jerusalém Bava Batra v. 15a; Yoma, 20b). Depois se mudou para Sura, às margens do rio Eufrates, onde fundou a sua própria escola, que logo se tornou o centro intelectual dos judeus na Babilônia. Como um professor de renome da Lei e com um grande número de discípulos, que vieram de todos os setores do mundo judaico, Rav viveu e trabalhou em Sura até a sua morte. Samuel, outro discípulo de Judá I, na mesma ocasião, trouxe para a academia em Nehardea um alto grau de prosperidade; contudo, foi na escola de Rav que a aprendizagem dos judeus na Babilônia encontrou o seu permanente lar e centro. A atividade de Rav tornou a Babilônia independente da Palestina, e deu-lhe a posição predominante que estava destinada a ocupar durante vários séculos.[1]

Como professor[editar | editar código-fonte]

O método de tratamento do material tradicional do qual o Talmude teve a sua origem foi estabelecido na Babilônia por Rav. Esse método tem a Mishná ("repetição", "ensinamento") de Judá ha-Nasi como um texto ou fundação, acrescentando-lhe as outras tradições tanaíticas, e decorrem todos eles das explicações teóricas e aplicações práticas da Lei religiosa. Os pareceres legais e rituais registrados em nome de Rav e seus debates com Samuel constituem o corpo principal do Talmude Babilônico. Seus numerosos discípulos, alguns dos quais eram muito influentes e que, em sua maior parte, eram também discípulos de Samuel, na sua qualidade de instrutores e através de suas discussões, ampliaram e continuaram o trabalho de Rav. Nas escolas da Babilônia, Rav era merecidamente tratado como "o nosso grande mestre". Rav também exerceu grande influência em prol das condições morais e religiosas de sua terra natal, não só indiretamente, através de seus discípulos, mas diretamente devido ao rigor com que reprimiu os abusos em assuntos sobre casamento e divórcio, e denunciou a ignorância e a negligência em assuntos de observância dos rituais.[1]

Ensino ético[editar | editar código-fonte]

Rav, ao relatar a tradição, encontrou um campo aberto, negligenciado e tratou então de cercá-lo (Ḥullin 110a). Uma atenção especial foi dada por ele à liturgia da sinagoga. Ele tem a fama de ser o autor de uma das melhores composições do livro de orações e louvores judaicos, o Musaf, serviço de oração do Ano Novo. Nesta nobre oração são evidenciados os profundos sentimentos religiosos e exaltados pensamentos, bem como a habilidade de utilizar a língua hebraica de uma forma natural, expressiva e clássica (Talmude de Jerusalém, Rosh Hashanah i. 57a). Os muitos ditos homiléticos e éticos (históricos) registrados dele mostram habilidade semelhante. Como agadista, Rav não é superado por nenhum dos amoraítas babilônicos. É o único dos professores da Babilônia, cujas declarações agadísticas se aproximam em número e conteúdo dos agadistas palestinos. O Talmude de Jerusalém tem preservado um grande número de seus enunciados halacháquicos e agadísticos; e os Midrashim palestinos também contêm muitos dos seus aggadot. Rav empregou discursos homiléticos, tanto na Beth midrash (sala de estudos), quanto nas sinagogas. Ele gostava especialmente de tratar nas suas homilias dos eventos e personagens da história bíblica; e muitos ornamentos bonitos e genuinamente poéticos do registro bíblico, que se tornaram domínio comum da agadá, são suas criações. A sua agadá, em comparação com a de outros, é particularmente mais rica em pensamentos sobre a vida moral e as relações dos seres humanos. Algumas dessas afirmações podem ser citadas aqui: (Shabbat 10b)

  • "Os mandamentos da Torá foram dados apenas para purificar a moral dos homens" (Gênesis Rabá 44).
  • "O que não pode ser adequadamente feito em público é proibido, mesmo na câmara mais secreta" (Shabbat 64b).
  • "É bom que as pessoas se ocupem com o estudo da Lei e a realização de obras de caridade, mesmo quando não totalmente desinteressadas; porque o hábito de fazer a coisa certa, finalmente tornará a intenção pura" (Pesahim 50b).
  • "O homem será chamado a prestar contas por ter se privado das coisas boas que o mundo lhe ofereceu" (Talmude de Jerusalém Kiddushin final).
  • "Quem não tem piedade de seus companheiros não é filho de Abraão" (Beitzah 32b).
  • "É melhor lançar-se numa fornalha do que publicamente expor à vergonha uma criatura companheira" (Bava Metzia 59a).
  • "Nunca se deve desposar uma mulher sem antes tê-la visto; pode-se descobrir posteriormente nela um defeito, pelo qual poderá detestá-la e assim transgredir o mandamento: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo' "(Kiddushin 41a).
  • "Um pai jamais deve preferir um filho a outro; o exemplo de José mostra que poderá trazer más consequências".[1]

Reprovação do ascetismo extremo[editar | editar código-fonte]

Rav amava o livro do Eclesiástico (Sirácida), e advertiu seu discípulo Hamnuna contra o ascetismo injustificável citando recomendações contidas nele, que, considerando a transitoriedade da vida humana (Eruvin 54a), não se deve desprezar as coisas boas deste mundo. Para as alegrias celestiais do futuro, ele costumava referir-se com as seguintes palavras poéticas: (Berakhot 17a)

"Não há nada na terra, para comparar com a vida futura. No mundo vindouro não haverá o que comer ou beber, nem comércio, nem trabalho, nem ódio, nem inveja; mas os justos se sentarão com a coroa na cabeça, e se alegrarão no esplendor da Presença Divina".[1]

Rav também dedicou muita atenção às especulações místicas e transcendentais que os rabinos fazem com o relato bíblico da criação (Gênesis 1, Ma'aseh Bereshit), com a visão do carro misterioso de Deus (Ezequiel 1, Ma'aseh Merkabah), e com o Divino Nome. Muitas de suas importantes declarações atestam a sua tendência nesta direção (Ḥagigah 12a, Ḳiddushin 71a).[1]

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Não há registros no que diz respeito à posição social e à história pessoal de Rav. Parece provável que fosse um homem rico; porque parece ter-se ocupado por um tempo com o comércio e depois com a agricultura (Ḥullin 105a). Que ele era muito respeitado pelos gentios, assim como pelos judeus da Babilônia é provado pela amizade que existia entre ele e o último rei parto, Artabano (Avodah Zarah 10b). Ficou profundamente afetado com a morte de Artabano (226) e a queda da dinastia arsácida, e parece não ter buscado a amizade de Artaxes I, fundador da dinastia sassânida, embora Samuel de Nehardea provavelmente o tenha feito. Rav tornou-se intimamente relacionado, através do casamento de uma de suas filhas, à família do exilarca. Seus filhos, Mar Ukba e Neemias, foram considerados pessoas da mais alta aristocracia. Rav teve muitos filhos, vários dos quais são mencionados no Talmude, sendo o mais velho, Chiya, o mais mencionado. Este, no entanto, não sucedeu seu pai como chefe da academia: este posto foi ocupado pelo discípulo de Rav, Rav Huna. Dois de seus netos ocuparam sucessivamente o cargo de exilarca (resh galuta) (Ḥullin 92a).[1]

Rav morreu numa idade avançada, profundamente lamentado por numerosos discípulos e todo o povo judeu da Babilônia, que tinha ascendido de uma comparativa insignificância para a posição de liderança no judaísmo (Shabbat 110a, Mo'ed Ḳatan 24a).[1]

Notas

Referências

Wikisource  "'Abba 'Arika". Encyclopædia Britannica (11th). (1911). Ed. Chisholm, Hugh. Cambridge University Press. 

  • Este artigo incorpora texto da Enciclopédia Judaica (Jewish Encyclopedia) (em inglês) de 1901–1906 (artigo "Abba Arika"), uma publicação agora em domínio público.
  • Oesterley, W. O. E.; Box, G. H. (1920), A Short Survey of the Literature of Rabbinical and Mediæval Judaism, Nova York: Burt Franklin .
  • Jacob Samuel Zuri: Rab. Biografia Talmudit, Jerusalém 1925
  • Rudolf Felten: Die Stellung Rabs in der haggadischen Überlieferung, Colônia 1972
  • Israel Konovitz: Rab - Samuel, Jerusalém 1974

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  1. Isaac Hirsch Weiss, em Kokbe Yiẓḥaḳ, No. 8, pp. 22-30; No. 9, pp. 49-55; No. 10, pp. 16-21;
  2. Isaac Hirsch Weiss, Dor, iii. 147-161;
  3. Abr. Lewysohn, em Kobak's Jeschurun (parte em hebreu), vi. 114-120 e vii. 6-16;
  4. Jos. Umanski, em Gräber's Oẓar ha-Sifrut, v. 159-212;
  5. M. I. Mühlfelder, Rabh, Ein Lebensbild, 1871;
  6. Bacher, Ag. Bab. Amor. pp. 1-33;
  7. Reifmann, em Ha-Maggid, 1871, No. 12;
  8. D. Kahana, em Ha-Shiloaḥ, 1898, pp. 432-440;
  9. M. S. Antokolski, em Ha-Asif, ii., com notas de Straschun.