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Abedalá ibne Ubai

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Abedalá ibne Ubai ibne Salul (em árabe: عبد الله بن أبي بن سلول; romaniz.: ʿAbd Allāh ibn Ubayy ibn Salūl; m. 631) foi um chefe dos cazerajitas de Medina e um dos mais influentes líderes árabes da cidade no período imediatamente anterior à Hégira. Segundo a tradição islâmica, encontrava-se prestes a assumir a liderança política de Medina quando a chegada de Maomé alterou profundamente o equilíbrio de poder local. Embora tenha aderido formalmente ao islã após a Batalha de Badre, tornou-se conhecido nas fontes muçulmanas como o principal líder dos hipócritas (munāfiqūn), grupo acusado de se opor internamente a Maomé e à comunidade muçulmana. Ao longo da vida de Maomé, participou de diversos episódios decisivos da história da primeira comunidade islâmica. Intercedeu em favor dos cainucaítas, retirou-se com parte de seus seguidores antes da Batalha de Uude, procurou incentivar a resistência dos nadiritas, explorou as tensões entre emigrantes e auxiliares durante a Campanha dos Mustaliquitas e foi apontado pelas fontes tradicionais como o principal responsável pela divulgação da Calúnia, a acusação de adultério contra Aixa. Esses episódios consolidaram sua reputação como o mais destacado adversário interno de Maomé. Apesar da oposição que lhe é atribuída, Maomé adotou uma atitude de contenção em seu relacionamento com Abedalá, recusando-se repetidamente a puni-lo para evitar conflitos entre os habitantes de Medina. Após sua morte, em 9 A.H. (631), Maomé chegou a fornecer sua própria túnica para servir de mortalha e presidiu sua oração fúnebre, atitude posteriormente relacionada pelas fontes à revelação de versículos que proibiram a oração pelos hipócritas.

Abedalá ibne Ubai ibne Salul era chefe de um ramo do clã dos aufitas, pertencente à tribo dos cazerajitas, e uma das principais lideranças de Iatrebe antes da Hégira. Participou do primeiro dia das Guerras Sacrílegas de Iatrebe, mas deixou de combater nos confrontos seguintes, incluindo a Batalha de Buate, após romper com Anre ibne Anumane Albaiadi devido ao assassinato de reféns judeus ordenado por este. Segundo a tradição islâmica, encontrava-se prestes a ser reconhecido como líder de Iatrebe quando a chegada de Maomé à cidade frustrou esse projeto, circunstância que teria marcado sua posterior relação com Maomé.[1][2] Após a Batalha de Badre, quando a vitória dos muçulmanos tornou inviável a permanência da oposição pagã em Medina, aderiu formalmente ao islã.[3] As fontes, contudo, afirmam que sua conversão nunca foi sincera e o apresentam como o principal líder dos chamados hipócritas (munāfiqūn), grupo que se opunha internamente a Maomé.[1][2] Antes disso, diversos episódios já haviam evidenciado sua hostilidade a Maomé. Em certa ocasião, quando Maomé se dirigia à casa de Sade ibne Ubada, encontrou um grupo composto por muçulmanos, pagãos e judeus entre os quais estava Abedalá. Ao aproximar-se a montaria de Maomé, este cobriu o nariz com a roupa e pediu que não levantassem poeira. Após ouvir a recitação do Alcorão e o convite ao islã, respondeu que Maomé deveria limitar sua pregação aos que espontaneamente o procurassem. Segundo as tradições, pouco depois da Hégira os líderes coraixitas chegaram a escrever-lhe, instando-o a expulsar ou matar Maomé sob ameaça de guerra. Embora tenha discutido a proposta com seus partidários, desistiu da iniciativa após ser advertido pelo próprio Maomé de que tal decisão prejudicaria antes os habitantes de Medina do que os muçulmanos.[3]

Sua primeira grande divergência política com Maomé ocorreu durante o cerco aos cainucaítas. Como esse grupo judaico mantinha antiga aliança com os cazerajitas, Abedalá intercedeu energicamente em seu favor, insistindo na importância militar de seus aliados e obtendo que fossem expulsos da cidade, em vez de executados.[2] O episódio é relacionado pelas fontes tradicionais aos versículos 51 e 52 da sura Almaida. Às vésperas da Batalha de Uude, apoiou a proposta inicial de Maomé de defender Medina a partir de suas fortificações. Quando Maomé decidiu sair ao encontro dos coraixitas, Abedalá desaprovou a mudança de estratégia e retirou-se do exército com cerca de trezentos seguidores, alegando que sua opinião fora ignorada.[3] A tradição islâmica relaciona essa retirada aos versículos 166 a 168 da sura al-i-Imran, interpretando-a como demonstração de covardia e falta de fé. Nos dois anos seguintes, sua oposição tornou-se mais ativa. Procurou convencer os nadiritas a desobedecer à ordem de abandonar Medina, prometendo-lhes auxílio militar que jamais se concretizou, episódio mencionado na sura al-Hashr. Durante a Campanha dos Mustaliquitas, explorou uma disputa entre emigrantes e auxiliares para enfraquecer a posição de Maomé, chegando a defender a expulsão dos emigrantes de Medina.[2]

Logo em seguida, desempenhou papel central na divulgação da Calúnia, a calúnia contra Aixa, sendo identificado pelas fontes tradicionais como seu principal instigador.[4] Embora Maomé tenha reunido seus seguidores para discutir a possibilidade de puni-lo, a reação revelou que Abedalá já havia perdido grande parte de sua influência política, e nenhuma medida foi tomada contra ele. Depois desses acontecimentos, deixou de desempenhar papel relevante na oposição a Maomé. Participou da Expedição de Hudaibia, mas não acompanhou a Expedição de Tabuque, provavelmente em razão da enfermidade que o levaria à morte pouco depois.[2] Faleceu após cerca de vinte dias de doença, em 9 A.H. (631). A pedido de seu filho, Abedalá ibne Abedalá ibne Ubai, Maomé forneceu a própria túnica para servir de mortalha e dirigiu sua oração fúnebre, apesar das objeções de Omar ibne Alcatabe. Pouco depois, a revelação do versículo 84 da sura at-Tawba passou a proibir que se realizassem orações fúnebres ou súplicas em favor dos hipócritas.[4] Apesar da reputação de seu pai, seu filho e várias de suas filhas tornaram-se muçulmanos respeitados.[2]

Referências

  1. 1 2 Koçyiğit 1988, pp. 139–140.
  2. 1 2 3 4 5 6 Watt 1986, p. 53.
  3. 1 2 3 Koçyiğit 1988, p. 139.
  4. 1 2 Koçyiğit 1988, p. 140.

Bibliografia

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  • Watt, W. Montgomery (1986). «ʿAbd Allāh b. Ubayy». A–B. The Encyclopaedia of Islam. I 2 ed. Leiden: E. J. Brill. 438 páginas