Ação Revolucionária Armada

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A Ação Revolucionária Armada, ou ARA, foi o braço armado do Partido Comunista Português, que esteve em atividade de 1970 a 1973, sobre a ditadura do Estado Novo então liderada por Marcello Caetano.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Surgiu publicamente em outubro de 1970 com a publicação de um comunicado em que reivindicava a sua primeira ação armada, em 26 deste mês, contra o navio Cunene, um navio de transporte utilizado na logística das guerras coloniais de Portugal em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, e suspendeu a luta armada em 1 de maio de 1973.[2][3]

A Ação Revolucionária Armada - ARA - foi criada pelo Partido Comunista Português com o objetivo de lutar contra as guerras coloniais desencadeadas por Portugal e impulsionar a luta pelo derrubamento da ditadura fascista portuguesa implantada em 1926.

O levantamento da organização iniciou-se em 1964,com ações de carácter logístico, recolha de explosivos, armas e locais para o seu armazenamento assim como recrutamento de ativistas. Este trabalho foi dirigido por Rogério de Carvalho (1920-1999), membro do Comité Central do PCP a viver na clandestinidade na região de Lisboa e por Raimundo Narciso (1938 - ), estudante de engenharia do Instituto Superior Técnico e teve a participação de António Pedro Ferreira, então tenente miliciano do Exército e estudante de Economia e do tenente paraquedista do quadro permanente, Cassiano Bessa, colocado no Regimento de Paraquedistas em Tancos. A atividade de organização teve um novo impulso em janeiro de 1965 com a deslocação a Moscovo e a Cuba de Rogério de Carvalho e de Raimundo Narciso que, sem estar detetado pela PIDE, passara à clandestinidade, a pedido do PCP, em 1964 para a criação da "organização das ações especiais" que viria a ter o nome de Ação Revolucionária Armada - ARA.

A criação da ARA, foi muito longa e plena de vicissitudes decorrentes das difíceis condições de luta na clandestinidade. Assim, por exemplo, Rogério de Carvalho foi preso em Lisboa logo em dezembro de 1965, só sendo libertado pela revolução de 1974. Raimundo Narciso continuou na clandestinidade, mas sem ligação com a direção do partido que, em virtude das muitas prisões, entretanto havidas, só conseguiu restabelecê-la em agosto de 1966, através de Ângelo Veloso, membro do CC do PCP.

A ARA, criada e seguindo as orientações do PCP tinha, no entanto, uma estrutura autónoma e muito compartimentada, dirigida, na fase operacional, por um Comando Central de três elementos, Jaime Serra, Francisco Miguel, e Raimundo Narciso. Jaime Serra era um dos mais responsáveis dirigentes do PCP, com muitos anos de prisão e de clandestinidade. Francisco Miguel era membro do CC do PCP e já sofrera 21 anos e meio de prisão e fora o último prisioneiro português a abandonar o campo de concentração do Tarrafal.

A PIDE só concluiu que a ARA seria uma organização do PCP após a sabotagem da frota de aviões e helicópteros no interior da Base Aérea de Tancos por considerar que nenhuma outra organização antifascista teria capacidade e meios para uma ação de tal envergadura.

Uma característica peculiar da ARA e rara neste tipo de organizações, noutros países, como, aliás sucedera com outras organizações que combateram com armas a ditadura portuguesa, como a LUAR anterior à ARA e as Brigadas Revolucionárias surgidas uns anos depois da ARA, era o facto de todas terem a preocupação de não causar danos pessoais com as suas ações. De facto, no que diz respeito à ARA, apenas na ação contra a escola técnica da PIDE, em 1970, houve uma morte, a de um jovem transeunte vitimado acidentalmente pela explosão, alta madrugada, da bomba colocada à porta da referida escola.

A ARA foi responsável por quinze operações de entre as quais se destacam a destruição de helicópteros e aviões dentro da base militar de Tancos ou a sabotagem ao COMIBERLANT - Comando Ibérico da Área Atlântica da NATO.

Operações[editar | editar código-fonte]

  • 26 de outubro de 1970 - Bomba no navio Cunene, ao serviço das guerras coloniais.
  • 21 de novembro de 1970 - Três ações simultâneas. Escola Técnica da PIDE/DGS, em Sete Rios, em Lisboa;
  • 21 de novembro de 1970 - Centro Cultural dos EUA, na Av. Duque de Loulé, em Lisboa.
  • 21 de novembro de 1970 - material de guerra destinado às guerras coloniais, no Cais da Fundição, no porto de Lisboa.
  • 8 de março de 1971 - Destruiu de 28 aviões e helicópteros, com engenhos explosivos e incendiários, na base aérea de Tancos.
  • 3 de junho de 1971 - Sabotagem da central de telecomunicações nacionais e internacionais, em Lisboa, durante a conferência ministerial da NATO.
  • 3 de junho de 1971 - Corte da rede elétrica de alta tensão em Sacavém em simultâneo com o corte das telecomunicações.
  • 3 de junho de 1971 - Corte da rede elétrica de alta tensão em Belas em simultâneo com o corte das telecomunicações.
  • 3 de outubro de 1971 - Assalto ao Paiol na Serra da Amoreira.
  • 27 de outubro de 1971 - Sabotagem do Quartel General do Comiberlant três dias antes da sua inauguração.
  • 12 de janeiro de 1972 - Sabotagem de Material de Guerra que seguia para a guerra colonial no navio Muxima.
  • 9 de agosto de 1972 - Cortes de torres da rede elétrica de alta tensão em Alhandra, (Lisboa) no dia da "eleição" do Presidente da República Américo Tomaz.
  • 9 de agosto de 1972 - Cortes de torres da rede elétrica de alta tensão em Belas região (Lisboa)
  • 9 de agosto de 1972 - Cortes de torres da rede elétrica de alta tensão na região de Coimbra.
  • 9 de agosto de 1972 - Cortes de torres da rede elétrica de alta tensão na região do Porto. Todas as operações eram selecionadas, discutidas e avaliadas em reuniões do comando central da ARA onde era decidida a escolha dos executantes assim como quem, do Comando Central, dirigiria a execução das operações no terreno. Destas 15 operações Raimundo Narciso dirigiu a execução de 11, Francisco Miguel de 3 e Jaime Serra de 1.

Estrutura[editar | editar código-fonte]

Comando Central[editar | editar código-fonte]

  • Jaime Serra
  • Raimundo Narciso
  • Francisco Miguel

Principais Operacionais[editar | editar código-fonte]

  • Carlos Coutinho
  • Gabriel Pedro
  • Manuel Guerreiro
  • Angelo de Sousa
  • Manuel Policarpo Guerreiro
  • António João Eusébio
  • Ramiro Morgado
  • António Pedro Ferreira
  • Francisco Presúncia
  • Alberto Serra
  • Amado Ventura da Silva
  • Jorge Trigo de Sousa
  • Mário Abrantes da Silva
  • Victor Eça
  • José Brandão

Referências[editar | editar código-fonte]

Citações

  1. Leite 2003, pp. 1304-1305.
  2. Leite 2003, p. 1304.
  3. Leite 2003, p. 1305.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes académicas[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • NARCISO, Raimundo. A. R. A. Acção Revolucionária Armada: A História Secreta do Braço Armado do PCP. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000. ISBN 972-20-1842-6
  • SERRA, Jaime. As Explosões que Abalaram o Fascismo: O que foi a ARA (Acção Revolucionária Armada). Lisboa: Editorial Avante, 1999. ISBN 972-550-270-9

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]