Acínace

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Dario I com uma acínace ao colo

O acínace (em grego clássico: ἀκινάκης; romaniz.: acináces) ou ainda acínaca (do apócrifo persa antigo akīnakah, Língua sogdiana kynʼk), trata-se de um tipo particular de espada curta ou adaga, usada principalmente no primeiro milénio a.C. no Mediterrâneo Oriental, especialmente pelos Medos [1] ,Citas e Persas, e posteriormente pelos Gregos. Os Romanos julgavam que esta arma teria origem nos Medos, mas a sua origem mais provável será Cita.[2][3]

Feitio[editar | editar código-fonte]

Os acínaces normalmente têm uma lâmina recta com um comprimento de cerca de 36 a 46 centímetros, são afiados nos dois gumes e ponta afiada[4], exibem um guarda-mão cruciforme, rectangular ou arredondado. Têm um comprimento total de cerca de 50 a 60 centímetros.[5]

Têm, portanto, características análogas às espadas micénicas, sendo certo que os acínaces eram feitos de ferro e não de bronze, o que os tornava mais leves, sem acarretar prejuízo para a durabilidade do gume.[5]

Embora não haja existido um feitio universal, o chape podia ser lobulado com a empunhadura semelhante à de uma adaga colhona e o pomo podia estar cindido [6], entre outros tipos de variantes. A bainha também era muito distintiva e ornamentada, normalmente assentava no talim à cintura do portador, para permitir uma sacada mais rápida e, destarte, obter uma posição mais favorável, acompanhada do factor surpresa.[7][4]

Relevo de um soldado persa com uma acínace à ilharga

Identificação[editar | editar código-fonte]

Os textos antigos pouco se pronunciam a respeito dos acínaces, salvo de que seriam um tipo de espada persa. Por virtude disto, os autores latinos, ao longo da história, tenderam para equivaler a palavra «acínace» a qualquer tipo de arma que os Persas estivessem a empunhar à época.[5] Destarte, figura amiúde no latim medieval com o significado de cimitarra ou como alfange, significado esse que ainda hoje persiste em inúmeros dicionários [8].

Paulus Hector Mair, o famoso mestre de esgrima alemão do século XVI, chegou ao ponto de usar o termo acínace para se referir a um bracamarte tesak, arma checa, simplesmente porque ambas exibem semelhanças aos alfanges.[9] De igual modo, os Jesuitas também chegaram a chamar "acínaces" às catanas japonesas.[10][5]

Acínace no Museu Nacional Iraniano

O acínace não é um sabre persa, o sabre persa (xanxir) é uma arma relativamente recente e não existiu durante a Antiguidade Clássica. Os persas da época do Império Aqueménida utilizavam vários tipos de espadas. [11]A arte persa clássica representava os guardas reais e demais nobreza, empunhando adagas diagonais e exornadas.[12] A arte grega clássica, por seu turno, representava amiúde os soldados persas a brandir o cópis (semelhante à falcata ibérica, sua possível sucessora).[13] Assim, não é fácil discernir quais são os acínaces, logo à partida.[14]

Uma indicação histórica útil no rastreio dos acínaces são os relatos, gregos e romanos, que mencionam a prática persa do rei em presentear com um acínace àqueles que ganhavam o seu favor. Sabemos que, neste cômputo, se falará do acínace enquanto adaga.[15][16]

Os acínaces, oferecidos pelo rei Xerxes I da Pérsia, eram usados em actos de contrição rituais, dedicados às divindades marinhas, de acordo com os relatos de Heródoto (História, VII, 54), na passagem que sucede ao episódio conhecido como a «Flagelação do Helesponto».[17]

Há um trecho deveras elucidante de Flávio Josefo, na obra "Antiguidades Judaicas", em que se descrevem as armas usadas pelos sicários [18], comparando-as aos acínaces:

Os chamados sicários, que eram um tipo de bandido, naquela altura estavam em vias de ascender ao maior número de efectivos nas suas hostes, de sempre. Serviam-se de espadas pequenas, que em tamanho eram semelhantes aos acínaces persas, mas tinham uma curvatura que lembrava as sicas romanas e foi daí que foram alcunhados "sicários".

Referências

  1. «Medes and Persian swords». Members.ozemail.com.au. Consultado em 30 de janeiro de 2012. Cópia arquivada em 4 de fevereiro de 2012 
  2. Quesada Sanz, F. «¿Qué hay en un nombre? La cuestión del gladius hispaniensis» (PDF). Consultado em 7 de Agosto de 2019 
  3. Quesada Sanz, Fernando (1997). Gladius Hispaniensis: An Archaeological View from Iberia. Oxford: Oxbow books. 20 páginas 
  4. a b Blair, Claude and Tarassuk, Leonid, eds. (1982). The Complete Encyclopedia of Arms and Weapons. p.17. Simon & Schuster. ISBN 0-671-42257-X.
  5. a b c d M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao Século XXI. São Paulo: Draco. pp. 72–73 
  6. [1] Arquivado em April 12,2008, no Wayback Machine.
  7. https://www.livius.org/a/1/iran/sword.jpg
  8. http://aulete.com.br/ac%C3%ADnace
  9. M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas - Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao Século XXI. São Paulo: Draco. p. 53. 176 páginas 
  10. Blair, Claude and Tarassuk, Leonid, eds. (1982). The Complete Encyclopedia of Arms and Weapons. p.17. Simon & Schuster. ISBN 0-671-42257-X.
  11. Droysen, Hans (1893). Realencyclopädie der classischen Altertumswissenschaft - Band I. Norderstedt, Schleswig-Holstein, Germany: Hansebooks. 1168 páginas 
  12. Evangelista, Nick (1995). The Encyclopedia of the Sword. Westport, Connecticut, United States: Greenwood Publishing Group. 690 páginas 
  13. Laibe, Thomas (2015). The Sword: Myth & Reality: Technology, History, Fighting, Forging, Movie Swords. Atglen, Pennsylvania, United States: Schiffer Publishing. p. 23. 240 páginas 
  14. Blair, Claude and Tarassuk, Leonid, eds. (1982). The Complete Encyclopedia of Arms and Weapons. p.43. Simon & Schuster. ISBN 0-671-42257-X.
  15. Heródoto, Historia VII.54.2-3
  16. Carmina, 1, 27, 5.
  17. Heródoto, Historia VII.54.2-3
  18. Cf. Valério Flaco, Argonáuticas, VI, 701.