Academia Central de Artes Nacionais

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A Academia Central de Artes Nacionais (chinês simplificado: 中央国术馆; chinês tradicional: 中央國術館; pinyinzhōng yāng guó shù guǎn; literalmente: "Academia Central de Artes Marciais"), idealizada pelo General Zhang Zhijiang (1882–1966), foi a primeira organização oficial da China a controlar os esportes e artes nacionais[1]. Ela foi inaugurada em março de 1928, em Nanquim, e em outubro do mesmo ano realizou a primeira edição dos Exames Nacionais de Guoshu (chinês tradicional: 國術; chinês simplificado: 國术; "artes nacionais"), que visava a seleção de instrutores a serem contratados.[2] Em 1948, a Academia foi fechada em definitivo, em virtude da revolução comunista e da subsequente reestruturação das políticas estatais para o esporte.[3]

General Zhang Zhijiang (1882–1966). Idealizador da Academia Central de Artes Nacionais.

O Conceito de Guoshu (國術/國术) ou "Kuoshu"[editar | editar código-fonte]

No final da Dinastia Qing foi iniciado um processo de renovação da "educação física" (tiyu, 體育) na China, com vistas ao fortalecimento físico da população e militar do país.[4] A partir da década de 1910, já no contexto da Revolução de Xinhai, as artes marciais assumiram lugar de destaque como esporte tipicamente nacional, despertando uma ideologia patriótica e anti-Qing.[5] Neste contexto, foram criadas diversas instituições de promoção das artes marciais, até então nomeadas genericamente pelo termo wuyi (武藝). Foi o caso, entre elas, da Associação Atlética Jingwu (Jingwu Tiyu Hui).[5]

Entre as décadas de 1920 e 1940, o programa de artes marciais de instituições como a Associação Atlética Jingwu inspirou o Partido Nacionalista, então hegemônico no poder, a utilizar o ensino de artes marciais em massa, fomentando o patriotismo, difundindo a sua ideologia e promovendo a saúde.[6] O projeto teve origem no exército e a própria Academia Central de Artes Nacionais foi idealizada pelo General Zhang Zhijiang. O programa do Guoshu também foi utilizado para a preparação de soldados do Exército Nacionalista, no contexto da Guerra Civil e da Segunda Guerra Sino-Japonesa.[7]

No início do século XX, estava em evidência, na China, um conjunto de propostas reformistas e "modernizadoras" do país. Destacava-se, neste contexto, por exemplo, o Movimento da Nova Cultura (新文化运动, Xīn Wénhuà Yùndòng). As artes marciais, na época, eram estigmatizadas tanto pelos grupos "modernistas" (defensores dos valores e das tecnologias do Ocidente como modelos para a China) quanto por aqueles que defendiam as práticas e crenças tradicionais da China Imperial. O seu estigma estava fortemente associado ao fracasso da Rebelião dos Boxers. A Associação Jingwu e, posteriormente, a Academia Central de Artes Nacionais buscavam renovar as artes marciais; preservando, por um lado, a sua tradição e, por outro, reinventando-a nas suas formas de treinamento, registro e organização.[8]

O Guoshu não se resumia às artes marciais, mas envolvia outros esportes nativos da China, como o "tiro com arco" (she jian, 射箭), o "jogo de peteca" (jian zi, 毽子) e outros.[9] Em relação às artes marciais (zhongguo wushu, 中國武術, ou desde então guoshu/kuoshu), o seu princípio fundamental era o ecletismo técnico, resumido numa fórmula presente desde a Associação Jingwu: "gejia quanfa jian er xizhi" (各家拳法见而习之): "observar e praticar todos os estilos de artes marciais"[10]. Além do ecletismo técnico, a aplicabilidade das técnicas e das rotinas em combates reais é outra característica importante do Guoshu, e um dos seus legados ao modo "tradicional" de treinamento das artes marciais chinesas na atualidade.[11]

Cronologia[editar | editar código-fonte]

  • 1927 - Mudança do nome oficial das artes marciais chinesas, antes denominadas wuyi (武藝), para guoshu (國术);[9]
  • Março de 1928 - inauguração dos quartéis-generais da Academia Central de Artes Nacionais, em Nanquim, então capital da República;[9]
  • Outubro de 1928 - Primeira edição dos Exames Nacionais de Guoshu no Estádio Central de Nanquim;[2]
  • 1929 - Publicação do livro Esboço da Organização da Academia Central de Artes Nacionais (Zhongyang guoshu zuzhi dagang), de Tang Hao (c. 1897–1959);[12]
  • Maio de 1930 - Visita de estudos de uma comitiva da Academia ao Japão para intercâmbios com o Budo;[13]
  • 1933 - Inauguração do Colégio Especializado em Esportes da Academia Central de Artes Nacionais de Nanquim (Nanjing guo li guoshu ti yu shi fan zhuan ke xue xiao), onde se ensinavam e praticavam outros esportes, inclusive ocidentais, como basquete, futebol, natação e outros;[14]
  • 1933 - Viagens de comitiva da Academia para divulgação do Guoshu em diversas cidades chinesas e para abertura de filiais, tais como as das seguintes cidades: Fuzhou, Zhangzhou, Xiamen, Hong Kong, Guanzhou, Nanning, Wuzhou, Liuzhou e Guilin;[14]
  • Outubro de 1933 - Segunda edição dos Exames Nacionais de Guoshu no Estádio Central de Nanquim;[15]
    O massacre japonês em Nanquim é dos episódios mais dramáticos da Segunda Guerra Sino-japonesa. Por conta dele, a Academia Central de Artes Nacionais teve que buscar outra sede a partir de 1937.
  • 1934 - Proibição da admissão feminina na Academia;[15]
  • 1935 - Visita de uma comitiva da Academia aos EUA e a diversos países da Europa para estudar os seus modelos de educação física;[14]
  • Outubro de 1935 - Realização dos Jogos Nacionais de Guoshu no estádio de Xangai;[15]
  • Janeiro de 1936 - Excursões para demonstração de Guoshu no exterior, como em Singapura, Kuala Lumpur, Penang e Manila;[13]
  • 1936 - Demonstrações de Delegação Olímpica de Guoshu da Academia nos Jogos Olímpicos de Berlim e exibições em outras cidades alemãs, como Hamburgo, Frankfurt e Munique;[16]
  • 1937 - Bombardeio e invasão japonesa de Nanquim pelos japoneses no contexto da Segunda Guerra Sino-japonesa;[17]
  • 1937–1945 - Em função da guerra, mudanças frequentes das sedes da Academia para localidades como Changsha, Kunming e Chongqing até estabelecer-se, em definitivo, em Tianjin, no ano de 1945;[17]
  • 1945–1948 - Depois de um período de dificuldades administrativas, foi fechada em definitivo quando o Partido Comunista chegou ao Poder, em 1948.[17]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

ACEVEDO, William; GUTIÉRREZ, Carlos; CHEUNG, Mei. O Kung Fu durante o Período Republicano. In: Breve História do Kung Fu, São Paulo: Madras, 2011. pp. 107-128.

JOERN, Albert Travis. The repositioning of traditional martial arts in Republican China. Dissertação de Mestrado (em Artes). Montreal: McGill University, 2012.

MINGDA, Ba. Reconstructing China's Indigenous Physical Culture. In: Journal of Chinese Martial Studies, n. 01: 08-35, 2009.

MONTEIRO, Fabrício P. Diálogos entre "tradição" e "modernidade": Associação Jingwu e Academia Central de Artes Nacionais. In: História das Artes Marciais Chinesas: tradição, memórias e modernidade, Uberlândia: Assis, 2014. pp. 50-57.

MORRIS, Andrew D. Marrow of the Nation: a history of sport and physical culture in Republican China, Berkeley: University of California Press, 2004.

Referências

  1. MINGDA, Ba. Journal of Chinese Martial Studies 01.2009 (em inglês). [S.l.]: Chinese Martial Studies. 25 páginas 
  2. a b ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. pp. 116–117 
  3. ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. 122 páginas 
  4. MORRIS, Andrew D. (2004). Marrow of the Nation: A History of Sport and Physical Culture in Republican China (em inglês). Berkeley: University of California Press. pp. 185–186. ISBN 9780520240841 
  5. a b MORRIS, Andrew D. (2004). Marrow of the Nation: A History of Sport and Physical Culture in Republican China (em inglês). Berkeley: University of California Press. 186 páginas. ISBN 9780520240841 
  6. MONTEIRO, Fabrício (2014). História das Artes Marciais Chinesas. Uberlândia: Assis. 53 páginas 
  7. ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São paulo: Madras. pp. 124–128 
  8. JOERN, Albert Travis (2012). The Repositioning of Traditional Martial Arts in Republican China (Dissertação de Mestrado em Artes). Montreal: McGill University. pp. i–ii 
  9. a b c ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. 114 páginas 
  10. MONTEIRO, Fabrício (2014). História das Artes Marciais Chinesas. Uberlândia: Assis. 55 páginas 
  11. MONTEIRO, Fabrício (2014). História das Artes Marciais Chinesas. Uberlândia: Assis. pp. 55–57 
  12. ACEVEDO, GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. 115 páginas 
  13. a b ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. 119 páginas 
  14. a b c ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. 120 páginas 
  15. a b c ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. 118 páginas 
  16. ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. pp. 120–121 
  17. a b c ACEVEDO; GUTIÉRREZ; CHEUNG, William; Carlos; Mei (2011). Breve História do Kung Fu. São Paulo: Madras. 122 páginas