Acidentalismo

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O Acidentalismo - da filosofia à arte[editar | editar código-fonte]

contexto filosófico[editar | editar código-fonte]

O ACIDENTALISMO enquanto ideia filosófica teve ligeiras abordagens ao longo da história. Muito usado como um sistema de pensamento que nega o nexo causal, defende que os acontecimentos se sucedem ao acaso ou por acaso (não na matemática, mas no sentido popular). Na metafísica, ACIDENTALISMO nega a doutrina de que tudo o que acontece resulta de uma causa definida. Neste contexto, é sinónimo de tiquismo (τύχη, acaso), um termo usado por Charles Sanders Peirce (para muitos o pai do pragmatismo) para as teorias que fazem do puro acaso um factor objectivo e determinante no processo do Universo. Acaso,segundo Peirce, significa “ausência das causas, quebra de lei, espaços vazios nagramaticalidade do cosmos, ruídos na cadeia redundante dos fenômenos.”[1]

Segundo o artigo de Francisco Limpo de Faria Queiroz: "Em vez de usar o termo existência, que confunde muitos dos seus leitores, Heidegger deveria ter usado in-sistência e dizer que «a essência do "ser aí" está na sua in-sistência», na interioridade do "ser" . A frase «a essência do homem está na sua existência» é interpretada, na filosofia de Jean-Paul Sartre, de forma inversa à de Heidegger: como ACIDENTALISMO, construtivismo da essência, sempre incompleta, esboçada, através da acção objectiva. Para Sartre, a essência do homem não existe a priori, nasce da acção. Mas para Heidegger a essência do homem existe a priori, nasce, não da acção mas do "ser" transcendental e, obviamente, tempera-se e consolida-se na acção. Por isso existencialismo, em Heidegger, é essencialismo. E em Sartre, é ACIDENTALISMO, libertismo." [2]

Richard A. Shweder, numa crónica para o jornal New York Times afirmava: "A antítese ao essencialismo pode ser chamada de acidentalismo. Os acidentalistas acreditam que a única diferença natural entre homens e mulheres é o sexo (o peniano versus o vulvar, como diria o Sr. Stoltenberg). Todo o resto é gênero e, quando se trata de gênero, tudo fica artificial. Segundo os acidentalistas, a tipificação sexual das tarefas, dos gostos e talentos não é natural, manifesta ou dada por força divina. As definições do que significa ser um homem (ou uma mulher) mudam. Para o acidentalista realmente supercomprometido, gênero é coisa superficial. Esperemos que em algum lugar a meio caminho entre o essencialismo e o acidentalismo haja algum senso comum."[3]

O Acidentalismo defende que as acções e todos os movimentos cósmicos existenciais são derivados do acto de ESTAR e não do SER. Tudo acontece porque estamos e não porque existimos. Essencialmente, o acidentalismo busca a compreensão da realidade para o facto de que acções, eventos ou ideias possam ocorrer sem parecerem um resultado de algum factor já perceptível ou reconhecido. Ao afastar-se do nexo causal e reconhecendo que os eventos podem e, por vezes, parecem ter lugar de nada mais do que o puro acaso, o conceito tenta fornecer um nome para estes tipos de eventos fortuitos: Acidentalismo.

O ACIDENTALISMO - Corrente Artística[editar | editar código-fonte]

O Acidentalismo é um conceito estético-filosófico nascido duma corrente artística envolvendo as artes plásticas, música, cinema, performance e literatura. Apesar de pequenos ensaios no final dos anos 80 e todos os 90, este conceito foi oficialmente registado em 2000 pelo músico-pintor Victor Torpedo, durante a primeira fase da banda punk-rock The Parkinsons, sediada em Londres, Inglaterra, e da qual Victor foi fundador e guitarrista. Um outro elemento fundador, o baixista Pedro Chau, teve um papel decisivo na divulgação do conceito, na altura ainda embrionário. A dupla de pintores Sardine&Tobleroni (Victor Torpedo e Jay Rachsteiner) foram os primeiros artistas a nível mundial a declararem-se abertamente acidentalistas, admitindo que o conceito do Acidentalismo teve reflexos significativos tanto na estética plástica aplicada nas suas obras, bem como na forma de as conceber.

Em 2008, e no cinema, o Acidentalismo é abordado pela primeira vez pelo Belga Kamagurka (Luc Zeebroek) (Nieuwpoort, Bélgica, 05 de maio de 1956), cartunista, dramaturgo, pintor, humorista, cantor cómico e produtor de televisão, conhecido pela natureza absurda da sua obra que culmina e triunfa no Acidentalismo.

Em 2008 Kamagurka faz um projecto artistico chamado "Kamalmanak" . A idéia assenta no principio de fazer uma pintura para cada dia , em 2008 - que é um ano bissexto - para que no final resultem 366 pinturas. O projecto é patrocinado pelo empresário Marc Coucke , membro do conselho de administração da empresa Omega Pharma. Coucke, um apaixonado pela arte, sempre assumiu grande admiração pela arte de Luc Zeebroek . Durante o projeto Kamalmanak, Kamagurka começou a fazer curtas-metragens para o canal digital holandês NRC TV. Enquanto filmava um desses curtas-metragens, Luc Zeebroek assume o movimento artístico Acidentalista. Mais tarde, e na pintura, começa a pintar uma serie de retratos acidentalistas. Kamagurka pinta um retrato de alguém que surge dentro da sua mente. De seguida, divulga este retrato na televisão, jornais e internet, com as seguintes perguntas: "Esta pessoa é você?" ou " Você conhece alguém que se parece com este retrato?" Se alguma pessoa se assemelha ao retrato pintado por acidente da imaginação de Kamagurka, pode enviar uma foto. A pessoa que mais se assemelha ao retrato pintado pelo artista é depois oficialmente reconhecida pelo mesmo. É assim que funciona o acidentalismo para Luc Zeebroek.[4] [5]

Alguns anos mais tarde, já por volta de 2010, o conceito ganhou contornos oficiais na cidade de Coimbra, em Portugal, tendo sido rejuvenescido pelo músico Bruno Pedro Simões (músico da banda Sean Riley & The Slowriders) e pelo actor e escritor Paulo Lima. Os dois lançaram o Manifesto Acidentalista, onde a ideias-chave do conceito são descritas e apresentadas publicamente: a aleatoriedade e teoria do caos controlam todos os aspectos de alguns sons e parâmetros de efeitos e até mesmo a estrutura melódica e harmónica do trabalho, resultando em sons irreversíveis, massas de energia produzidas uma única vez e impossíveis de reproduzir matematicamente uma segunda vez.

Duas figuras ligadas ao eixo cultural Londres-Coimbra, o ensaísta Luís Peres e o músico Pedro Calhau (Bunnyranch), foram associados ao Acidentalismo em vários momentos das suas vidas, nomeadamente através das performances espontâneas «Curva da Banana Forever» ou também «Querida Piç#, faz-te à vida!». Estas duas intervenções foram consideradas "Acidentalismo Puro" por Bruno Pedro Simões e Paulo Lima que iam aplicando o acidentalismo desde 1993 na banda Tu Metes Nojo, um híbrido de teatro e música com o Caos em duelo permanente com o Srº de Toda a Calma. Só em 2010 - e com a criação do Manifesto Acidentalista - é que Bruno Pedro Simões e Paulo Lima assumem o estatuto de acidentalistas nas suas actividades artísticas.

Já em 2013, o escritor Paulo Lima admite publicamente que a sua obra "ORIGEM e RUÍNA" e o seu estilo de narrativa cíclica é fruto de um "puro acidentalismo". [6] . Neste contexto, Paulo Lima desenvolve uma conceito teatral baseado nos conceitos do acidentalismo, de nome «Uma Lição de Literatura», onde apresenta o seu livro "Origem e Ruína". Trata-se de uma pequena performance de stand up comedy que visa divertir o público através de um par de personagens antagónicos, uma vez que se trata de um insólito encontro entre “um artista de esquerda em crise de meia idade; e um tipo que tem a mania que é um génio e anda sempre vestido com calças do Benfica.

O Acidentalismo, enquanto fenómeno e corrente artística começa a absorver vários artistas em simultâneo e espontâneamente, como é o caso do músico electrónico e artista multimedia, Computo (Joe Caputo). Computo é um compositor de música electrónica / performer a partir de Los Angeles , CA. Utiliza software - incluindo programas que ele mesmo projecta - e onde incorpora todos os tipos de tecnologia analógica e digital. Computo afirma que "nasceu das cinzas de um terrível acidente", enfatizando que Computo não é mais homem do que Joe Caputo ser uma máquina ... Depois de uma digressão europeia e de ter tocado com lendas do jazz como Wynton Marsalis e do baterista Kenwood Dennard na fatídica noite do acidente, Joe estava em casa, a dormir sob as torres monolíticas do seu equipamentos de estúdio. De alguma forma as torres caíram, esmagando sob Joe quase uma tonelada de produtos e componentes electrónicas . Depois do acidente, Joe ficou mais máquina do que homem, tendo no lugar da sua cabeça um monitor de computador permanentemente fundido ao seu corpo. Na neblina do acidente, Computo começou compulsivamente a sua construção electrónica. Construiu uma série de instrumentos, incluindo o Guitum (um instrumento de percussão electrónico programável e trabalhado a partir de uma velha guitarra). A 23 de Março de 2010 edita a sua grande obra acidental:Computo - Accidentalism[7]

No epicentro do Acidentalismo, a cidade de Coimbra, Portugal, vive momentos de grande agitação, gerando vários eventos Acidentalistas e abrangendo as mais variadas formas de expressão artística, tendo Pedro Chau, Bruno Pedro Simões e Paulo Lima um papel preponderante na sua divulgação. Exemplo disso são as "Noites Acidentalistas" que Bruno Pedro Simões e Pedro Chau realizam com regularidade no clube acidentalista "Useless Club" e os Subway Riders de Carlos Dias (Carlos Subway), que nunca se assumindo como acidentalista, trabalha com Victor Torpedo (aqui sob o nome Victor Subway) desde o final dos anos 80.

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Referências

  1. "Salatiel,José Renato | São Paulo 2008 | Sobre o conceito de ACASO na filosofia de Charles S. Peirce"
  2. Queiroz,Francisco Limpo de Faria | 1 de Dezembro de 2010 "A equívoca definição de «Existência» na doutrina de Heidegger de .
  3. Shweder, Richard A.| 09 de Janeiro de 1994 | Crónica para o New York Times] | "What Do Men Want? A Reading List For the Male Identity Crisis"
  4. "Kamagurka vraagt: Bent u dit misschien? - Entertainment - Algemeen - bndestem". Bndestem.nl. Retrieved 12 February 2011.
  5. "Kamagurka in Cobramuseum - Kunst - algemeen - Gelderlander". Gelderlander.nl. Retrieved 12 February 2011.
  6. Chiado Editora, ISBN: 978-989-51-0843-5, Lisboa, Dezembro de 2013
  7. Computo "Accidentalism" - Março de 2010

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Artigos[editar | editar código-fonte]

MOSZCZYNSKA, JOANNA | Lisboa, 2009 |

"UM HOMEM CÉLEBRE": O Acaso Como Figura Extrema de Relação Entre Contingência e Destino"

Links externos[editar | editar código-fonte]