Aclamação de Amador Bueno

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Oscar Pereira da Silva - 1931 - Aclamação de Amador Bueno.jpg
Amador Bueno não aceitando a coroa, foi perseguido pelos paulistas e se refugiou no mosteiro de São Bento, em São Paulo. Óleo de Oscar Pereira da Silva
Conflitos na História do Brasil
Período Colonial
Movimentos Nativistas
Aclamação de Amador Bueno: 1641
Revolta da Cachaça: 1660-1661
Conjuração de "Nosso Pai": 1666
Revolta de Beckman: 1684
Guerra dos Emboabas: 1708-1709
Revolta do Sal: 1710
Guerra dos Mascates: 1710-1711
Motins do Maneta: 1711
Revolta de Filipe dos Santos: 1720
Movimentos Emancipacionistas
Inconfidência Mineira: 1789
Conjuração Carioca: 1794
Conjuração Baiana: 1796
Conspiração dos Suassunas: 1801
Revolução Pernambucana: 1817
Guerras indígenas
Confederação dos Tamoios: 1555-1567
Guerra dos Aimorés: 1555-1673
Guerra dos Potiguares: 1586-1599
Levante dos Tupinambás: 1617-1621
Confederação dos Cariris: 1686-1692
Revolta de Mandu Ladino : 1712-1719
Guerra dos Manaus: 1723-1728
Resistência Guaicuru: 1725-1744
Guerrilha dos Muras: todo o século XVIII
Guerra Guaranítica: 1753-1756

A Aclamação de Amador Bueno ou Revolta de Amador Bueno, ocorrida em 1641, na vila de São Paulo, é tida como a primeira manifestação de caráter nativista do Brasil colônia.

História[editar | editar código-fonte]

A escravidão indígena, que cresceu durante a União Ibérica, estava ameaçada em 1640.

Durante a chamada União Ibérica, os moradores da Capitania de São Vicente, principalmente da vila de São Paulo, puderam ampliar para dentro da América Espanhola (de acordo com o tratado de Tordesilhas) o território de livre atuação das entradas de apresamento, que inclusive atacavam missões jesuíticas. Nesse período também floresceu o comércio e o contrabando com a região do rio da Prata.

Em dezembro de 1640, com a coroação de D. João, Duque de Bragança que marcou a Restauração da Independência portuguesa, os paulistas temiam que Portugal destruísse essa fonte de riqueza, impedindo o contrabando e proibindo o aprisionamento e a venda do índio, pois o governo português obtinha altos lucros com o tráfico negreiro. Ao proibir a escravidão indígena, a metrópole estaria forçando os colonos a utilizar mão-de-obra escrava negra. Além disso, os comerciantes paulistas sabiam que seus negócios com Buenos Aires seriam prejudicados. A aclamação do duque de Bragança como novo rei de Portugal, portanto, representava um duro golpe para os comerciantes paulistas e os espanhóis estabelecidos em São Paulo.[1]

Querendo manter a cidade sob domínio castelhano mas temendo revelar sua intenção, os espanhóis escolheram usar de um artifício: fingirem-se eivados de amor pela terra para então propor aos amigos, aliados e parentes a escolha de um rei paulista, convencendo paulistas e europeus pouco instruídos de que eles podiam se recusar a reconhecer o novo rei português, já que ainda não haviam jurado-lhe obediência. Também argumentavam que os paulistas e os europeus ali sediados tinham qualidades pessoais que os habilitavam para maiores impérios e que a vantajosa localização da cidade e o controle que tinham sobre milhares de indígenas e escravos os manteriam a salvo de invasores.[1]

Escolheram para rei o fazendeiro Amador Bueno da Ribeira - o mais rico habitante do lugar, capitão-mor e ouvidor, irmão de bandeirantes.[2]

Desfecho[editar | editar código-fonte]

Mosteiro de São Bento, onde Amador Bueno se refugiou após rejeitar a proposta de aclamação.

Amador Bueno ficou pasmo com a proposta e a rejeitou, considerando-a um "atentado criminoso". Foi então ameaçado de morte caso não quisesse empunhar o cetro, e saiu de casa escondido para refugiar-se no Mosteiro de São Bento. Apoiadores da proposta correram atrás dele, gritando "Viva, Amador Bueno, nosso rei!", ao que o eleito respondia "Viva D. João IV, nosso rei e senhor, pelo qual darei a vida!". Para não perderem as comodidades conquistadas em São Paulo, os espanhois e apoiadores da proposta declararam então arrependimento e enfim prestaram juramento ao rei D. João IV.[1]

O gesto acabou não tendo consequências sérias, pois São Paulo era uma região marginalizada economicamente e não tinha condições de continuar a luta contra Portugal. O episódio histórico serviu, entretanto, para demonstrar o descontentamento de alguns colonos com a dominação portuguesa.

Legado[editar | editar código-fonte]

O episódio foi o primeiro gesto de autonomia ocorrido na colônia e, não por acaso, surgiu em São Paulo, terra de pouco contato com Portugal e de muita miscigenação com indígenas e estrangeiros.[3]

Fontes[editar | editar código-fonte]

Há poucas fontes relativas ao episódio.[4] O principal relato conhecido é o de Frei Gaspar da Madre de Deus, "Memórias para a História da Capitania de São Vicente".[5]

Para Monteiro, a questão indígena foi o motivo básico das ações do movimento.[6] Entretanto, outros historiadores têm interpretação distinta. Afonso d'Escragnolle Taunay, nos Ensaios Paulistas, diz à página 631:

Referências

  1. a b c Madre de Deus 1975, p. 138-141.
  2. Rodrigo Bentes Monteiro (12 de setembro de 2007). «O rei de São Paulo». Revista de História da Biblioteca Nacional. Consultado em 18 de setembro de 2014 
  3. Holanda 1986, p. 68.
  4. Freitas 2011, p. 6.
  5. Monteiro 1999, p. 22-23.
  6. Monteiro 1995, pp. 251-252.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bastos, Pedro Ivo de Assis. História do Brasil. São Paulo: Editora Moderna, [AAAA].
  • Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.
  • Madre de Deus, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente. São Paulo/Belo Horizonte: EDUSP/Itatiaia, 1975.
  • Monteiro, John Manuel. Negros da Terra. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
  • Monteiro, Rodrigo Bentes. A rochela do Brasil: São Paulo e a aclamação de Amador Bueno como espelho da realeza portuguesa. São Paulo: [s.n.], 1999. 21-44 p.
  • Taunay, Afonso d'Escragnolle. O Epos bandeirante e São Paulo Vila e Cidade. São Paulo: Editoria Anhembi, 1958.