After Virtue

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After Virtue
Depois da Virtude (BR)
Autor(es) Alasdair MacIntyre
Idioma inglês
País  Reino Unido
Assunto Filosofia Moral
Gênero ensaio filosófico
Editora Gerald Duckworth & Co. Ltd.
Lançamento 1981
ISBN 0268035040
Edição brasileira
Tradução Jussara Simões
Editora EDUSC
Lançamento 2001
ISBN 85-7560-089-X

After Virtue ("Depois da Virtude") é um livro sobre filosofia moral, escrito por Alasdair MacIntyre. "After Virtue" em inglês pode ter um duplo significado: depois da virtude ou perseguindo a virtude, mas o título do livro foi traduzido no Brasil como "Depois da Virtude"[1].

Na obra, MacIntyre oferece uma visão desacreditada sobre o estado do discurso moral moderno, considerando que ele fracassa em ser racional e, ao mesmo tempo, não é capaz de admitir-se irracional. Ele sustenta que formas mais antigas de discurso moral estavam em melhor estado, e destaca, especialmente, a filosofia moral de Aristóteles como exemplar. After Virtue está entre os mais importantes textos no contexto do reavivamento recente da ética das virtudes.

Sumário[editar | editar código-fonte]

MacIntyre sustenta que After Virtue tem sete principais argumentos.[2] O livro inicia com uma alegoria sugestiva da premissa do romance de ficção científica "Um cântico para Leibowitz": um mundo em que todas as ciências se desmantelaram rápida e totalmente. MacIntyre pergunta como as ciências se pareceriam se fossem remontadas das reminiscências do conhecimento científico que sobreviveu à catástrofe e sustenta que as novas ciências, embora similares às antigas na superfície, seriam, na verdade, desprovidas de conteúdo científico real, porque as principais suposições e atitudes já não estariam presentes. O autor declara que a sua hipótese é, justamente, que, no mundo atual, a linguagem da moralidade está no mesmo estado de desordem do que a linguagem da ciência natural no mundo imaginário que descreveu. Especificamente, o autor aplica essa hipótese para elaborar a noção de que estruturas morais que emergiram do Iluminismo eram filosoficamente condenadas desde o começo, já que se formaram usando a supramencionada incoerência da linguagem da moralidade. MacIntyre sustenta que este fracasso envolve o trabalho de muitos filósofos morais do Iluminismo e pós-iluminismo, inclusive Kierkegaard, Marx, Kant e Hume. Esses filósofos, segundo o autor, fracassam por causa de determinadas características compartilhadas derivadas de seu contexto social altamente específico. Esse contexto é o abandono pelo Iluminismo do aristotelismo e, em particular, do conceito aristotélico de teleologia. A ética antiga e medieval, para o autor, repousaria completamente na ideia teleológica de que a vida humana tem um determinado fim ou caráter e que os seres humanos não podem atingir essa finalidade natural sem uma preparação. A ciência renascentista rejeitou a física teleológica de Aristóteles como uma explicação desnecessária e incorreta, o que levou a filosofia do Renascimento a rejeitar, similarmente, a ética de Aristóteles. Mas, desprovida da teleologia, a ética, como um corpo de conhecimento, foi expurgada de seu conteúdo central e apenas restou essencialmente como uma lista vocabular com poucas definições e nenhum contexto. Com uma estrutura tão incompleta sobre a qual fundamentar a compreensão moral, os filósofos do Iluminismo e seus sucessores já estavam condenados a fracassar desde o começo[3].

MacIntyre ilustra esse ponto através de um exemplo de pessoas que teriam experimentado uma incoerência similar em sua própria tradição moral e ética: a população da Polinésia do Pacífico Sul e seus tabus. O rei Kamehameha II removeu os tabus das pessoas para modernizar a sociedade e encontrou pouca - ou nenhuma - resistência. Os polinésios não tiveram problema em abandonar suas traduções culturais que vinham de longa data e MacIntyre argumenta que isso ocorreu porque os tabus, embora significativos para os habitantes daquelas ilhas, foram tolhidos pelos séculos de seu propósito espiritual e didático subjacentes, tendo-se tornado um conjunto de proibições arbitrárias. O fato de Kamehameha II ter conseguido aboli-los tão facilmente e sem oposição seria uma evidência, de acordo com MacIntyre, de sua incoerência. Uma incoerência similar, ele sustenta, atormenta o projeto ético desde o Iluminismo.[3]

Outra razão que MacIntyre dá para a natureza já condenada do Iluminismo é o fato de que ele atribuiu gerenciamento moral ao indivíduo. Ele sustenta que isso fez com que a moralidade passasse a ser vista como nada além da opinião de um homem e, portanto, a filosofia tornou-se um fórum de princípios e regras inexplicavelmente subjetivos. O fracasso do projeto Iluminista, por causa do abandono de uma estrutura teleológica, mostrar-se-ia pela inadequação do emotivismo moral, que MacIntyre acredita refletir precisamente o estado da moralidade moderna[3].

O autor oferece uma crítica forte a Friedrich Nietzsche, a quem chama de "Rei Kamehameha II da tradição europeia", em referência à alegoria polinésia. Embora ele discorde da visão não igualitária e elitista da humanidade proposta por Nietzsche, ele reconheceu a validade da crítica do autor alemão à moralidade do Iluminismo como uma explicação da degeneração para o emotivismo, e que, como Kamehameha II, Nietzsche identificou os imperativos morais de seu tempo como arbitrários e incoerentes, ao demandar a sua abolição.[3]

O crítico do século XIX que influenciou mais largamente MacIntyre, no entanto, foi Marx - de fato, After Virtue originou-se nos planos de MacIntyre de escrever um livro consertando às fraquezas morais do marxismo. Sua crítica ao capitalismo e à ideologia liberal e o Estado burocrático (incluindo o que, em "After Virtue" ele condenou como capitalismo de Estado da URSS) não é expressa em termos marxistas tradicionais. Ao contrário, é escrito como uma defesa de "práticas" sociais ordinárias e o "bem interno às práticas". A sua busca ajuda a dar à narrativa estrutura e inteligibilidade às nossas vidas, mas esses bens devem ser defendidos contra a sua corrupção pelas "instituições", que buscam "bens externos" tais como dinheiro, poder e status (capítulos 14-15).[3]

MacIntyre procura encontrar uma alternativa à filosofia de Nietzsche e, finalmente, conclui que somente o pensamento aristotélico clássico pode aspirar a salvar a humanidade ocidental. Enquanto Nietzsche parece incluir a ética e a política aristotélicas em seus ataques à "dissimulação degenerada da vontade de poder", MacIntyre sustenta que isso não pode ser feito por causa de importantes diferenças entre a estrutura e as hipóteses da filosofia aristotélica e pós-iluminista. Esses incluem:

  • A hipótese de Aristóteles segundo a qual o homem é o que é e que isso é distinto do homem-tal-como-deveria-ser. O Iluminismo, de outro lado, não oferece qualquer quadro metafísico que tome o lugar da teleologia.
  • A tese de Aristóteles de que as regras são baseadas nas virtudes, que são derivadas de uma compreensão do "telos". O Iluminismo reverteu isto e predicou as virtudes de uma compreensão de princípios subjetivos  (mas que se apresenta como universal).
  • A afirmação de Aristóteles de que virtude e moralidade são partes integrantes da sociedade, já que uma compreensão do telos deve ser social e não individual. No Iluminismo, no entanto, as sociedades perderam sua autoridade moral e o indivíduo tornou-se o intérprete fundamental das questões morais[3].

MacIntyre opõe-se ao retorno de Nietzsche à ética aristocrática da Grécia homérica com a abordagem teleológica à ética explorada por Aristóteles. A crítica de Nietzsche à teoria moral do Iluminismo não funciona contra uma ética teleológica. Para MacIntyre, Nietzsche substitui as ficções do individualismo iluminista com uma porção de ficções individualistas próprias. O übermensch nietzschiano, sua solução para as mentiras do Iluminismo, expõe o fracasso do projeto epistemológico do Iluminismo e da sua busca de uma moralidade universal. Nietzsche negligencia o papel da sociedade na formação e compreensão da tradição e moralidade e o grande homem teorizado por ele não pode entrar em relações mediados pelo apelo a padrões, bens ou virtudes compartilhados; ele é a sua única autoridade moral e sua relação com os outros tem de ser exercícios dessa autoridade. Isto condena ao solipsismo moral, que constitui a grandeza de Nietzsche[3].

O livro termina colocando a questão "Nietzsche ou Aristóteles?", embora MacIntyre reconheça que o livro não dê base suficiente para uma resposta definitiva que é Aristóteles, não Nietzsche, que é a melhor solução para os problemas que diagnosticou. Os fundamentos são desenvolvidos nas obras subsequentes de MacIntyre, em que ele elabora uma revisão sofisticada da tradição filosófica do aristotelismo[3].

No fim, no entanto, MacIntyre nos diz que nós estamos esperando não por Godot, mas por São Bento. MacIntyre atribui uma forte crítica à filosofia política individualista, tal como a proposta por Uma Teoria da Justiça de John Rawls e "Anarquia, Estado e Utopia" de Robert Nozick. Para MacIntyre, a moral e as virtudes só podem ser compreendidas através de sua relação com a comunidade de que elas vêm. Enquanto Rawls nos diz para conceber a justiça através de uma abstração de nós mesmos de onde estamos (através do véu da ignorância, por exemplo), MacIntyre discorda. A crença de que para compreender quem somos devemos entender de onde viemos permeia After Virtue.[3]

Recepção[editar | editar código-fonte]

George Scialabba descreve After Virtue como sendo uma forte crítica à modernidade, mas alega que MacIntyre "falhou" na conclusão do argumento, quando esboçou as características de que a vida virtuosa deve ser como nas condições da modernidade.[4] Em particular, Scialabba opôs-se àa afirmação de MacIntyre que a vida boa para os seres humanos consiste em contemplar a boa vida para os seres humanos; Scialabba achou este trecho insuficiente e decepcionante. Scialabba também argumentou que, embora ele tenha apreciado a insistência de MacIntyre sobre a participação na vida da comunidade como a melhor defesa contra os perigos da modernidade, essa insistência não se justificava com qualquer discussão de como a vida da comunidade pode ser conciliada com o espírito crítico que Scialabba entende ser uma das grandes conquistas da modernidade e do empreendimento filosófico[4].

Em uma review para Political Theory, William E. Connolly argumenta que MacIntyre vê Nietzsche como "o adversário a ser derrotado, mas a voz de Nietzsche não é ouvida com clareza". Connolly objeta que a defesa da virtude de MacIntyre não leva em conta a crítica de Nietzsche; MacIntyre também fracassa em construir uma abordagem do telos que não se sustente na biologia - o que ele próprio queria evitar. Tal teoria não leva em conta o fato que nós nos constituímos também em um corpo[5].

Anthony Ellis, no periódico Philosophy, argumentou que o projeto filosófico positivo de MacIntyre não é explicado, assim como poderia ter sido: é "de opacidade assustadora, embora tentadoramente interessante". Ellis também afirma que a discussão de Rawls e Nozick em After Virtue "é ligeira e assertiva".[6]

Em Review of Metaphysics, Christos Evangeliou disse que se o leitor "esperava encontrar concretamente neste livro como uma tradição aristotélica revivida deve funcionar para moldar ética e racionalmente o mundo moderno que se apresenta irracional e desordenado", ele "pode ficar um pouco desapontado em suas expectativas"[7].


Francis Wheen incluiu uma breve crítica ao After Virtue em seu próprio livro How Mumbo-Jumbo Conquered the World. O impulso do livro de Wheen era uma defesa dos princípios do Iluminismo contra várias vertentes de irracionalismo, e que Wheen identifica After Virtue e MacIntyre como constituintes da tal vertente. Alguns críticos identificaram a depreciação de Wheen como um dos poucos problemas de seu Mumbo-Jumbo. Enquanto MacIntyre é certamente um crítico feroz do Iluminismo, Wheen recusou-se a se engajar na discussão do autor, mas rejeitou sua obra sob o fundamento de que qualquer objeção ao Iluminismo deveria ser qualificada como uma hipótese "mumbo-jumbo", isto é, absurda, sem sentido[8].

Referências

  1. MACINTYRE, Alasdair (2001). Depois da virtude. Bauru: EDUSC 
  2. Alasdair MacIntyre, "The Claims of After Virtue", in Kelvin Knight (ed.), The MacIntyre Reader (University of Notre Dame Press, 1998), 69-72.
  3. a b c d e f g h i MacIntyre, Alasdair (21 de outubro de 2013). After Virtue (em inglês). [S.l.]: A&C Black. ISBN 9781623565251 
  4. a b George Scialabba's review of After Virtue
  5. Connoly, W. E. (1982). «After Virtue». Political Theory. 10 (2): 315-319 
  6. Ellis, A. (1982). «After Virtue: A Study in Moral Theory». Philosophy. 57 (222): 551–553. doi:10.2307/4619611 
  7. Evangeliou, Christos (1983). «Review of After Virtue». The Review of Metaphysics. 37 (1): 132–134 
  8. «Balderdashing Into Doom (washingtonpost.com)». www.washingtonpost.com. Consultado em 23 de julho de 2018.