Alberto Caeiro

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Alberto Caeiro da Silva[1] (Lisboa, 16 de Abril de 1889[2] ou Agosto de 1887[3]Junho de 1915[4]) foi uma figura (heterónimo) criada por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingénuo dos restantes heterónimos (Álvaro de Campos e Ricardo Reis) e do seu próprio autor, apesar de apenas ter feito a instrução primária.

Foi um poeta ligado à natureza, que despreza e repreende qualquer tipo de pensamento filosófico, afirmando que pensar obstrui a visão ("pensar é estar doente dos olhos"). Proclama-se assim um anti-metafísico. Afirma que, ao pensar, entramos num mundo complexo e problemático onde tudo é incerto e obscuro. À superfície é fácil reconhecê-lo pela sua objetividade visual, que faz lembrar Cesário Verde, citado muitas vezes nos poemas de Caeiro por seu interesse pela natureza, pelo verso livre e pela linguagem simples e familiar. Apresenta-se como um simples "guardador de rebanhos" que só se importa em ver de forma objetiva e natural a realidade. É um poeta de completa simplicidade, e considera que a sensação é a única realidade.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Pintura de Silva Porto

Segundo a cronologia mais divulgada, nasceu em 16 de Abril de 1889, em Lisboa. Órfão de pai e mãe, não exerceu qualquer profissão e estudou apenas até a 4º classe. Viveu grande parte da sua vida pobre e frágil no Ribatejo, na quinta da sua tia-avó idosa, e aí escreveu O Guardador de Rebanhos e depois O Pastor Amoroso. Voltou no final da sua curta vida para Lisboa, onde escreveu Os Poemas Inconjuntos, antes de morrer de tuberculose, em 1915, quando contava apenas vinte e seis anos.

Alberto Caeiro descrito por Álvaro de Campos
Vejo-o diante de mim, vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não têm medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo-nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava — como se falar fosse, para este homem, menos que existir — era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam — flores, campos largos, águas com sol — um sorriso de existir, e não de nos falar.
Álvaro de Campos, "Notas para Recordação do Meu Mestre Caeiro (algumas delas)".[5]

Ideologias[editar | editar código-fonte]

  • Mestre dos outros heterónimos e do próprio Fernando Pessoa Ortónimo porque, ao contrário destes, consegue submeter o pensar ao sentir, o que lhe permite:
    • viver sem dor;
    • envelhecer sem angústia e morrer sem desespero;
    • não procurar encontrar sentido para a vida e para as coisas que o rodeiam;
    • sentir sem pensar;
    • ser um ser uno (não fragmentado);;
  • Poeta do real objetivo, pois aceita a realidade e o mundo exterior como são com alegria ingénua e contemplação, recusando a subjetividade e a introspecção. O misticismo foi banido do seu universo.[6]
  • Poeta da Natureza, porque anda pela mão das Estações[7] e integra-se nas leis do universo como se fosse um rio ou uma árvore,[8] rendendo-se ao destino e à ordem natural das coisas.
  • Temporalidade estática, vive no presente, não quer saber do passado ou do futuro.[9] Cada instante tem igual duração ao dos relâmpagos, ou à das flores, ou ao do sol e tudo o que vê é eterna novidade;[10] É um tempo objetivo que coincide com a sucessão dos dias e das estações. A Natureza é a sua verdade absoluta.
  • Antimetafísico, pois deseja abolir a consciência dos seus próprios pensamentos (o vício de pensar), pois deste modo todos seriam alegres e contentes.[11]
  • Crença que as coisas não têm significação: têm existência, a sua existência é o seu próprio significado.[12]

Obra[editar | editar código-fonte]

Ao todo tem 104 poemas, 49 em O Guardador de Rebanhos, 6 em O Pastor Amoroso e 49 em Poemas inconjuntos.

Pintura de Silva Porto

Temas[editar | editar código-fonte]

Os seguintes temas são os mais abordados ao longo da sua poesia e os seus respectivos chavões de identificação.

  • Subjetivismo:
    • atitude anti lírica;
    • atenção à eterna novidade do mundo;[10]
    • poeta da Natureza;
  • Sensacionismo:
    • poeta das sensações verdadeiras;
    • poeta do olhar;
    • predomínio das sensações visuais e auditivas;
  • Antimetafísico:
    • recusa do pensamento e da compreensão (pensar é estar doente dos olhos)[13]
    • recusa do mistério e do misticismo;
  • Panteísmo naturalista:
    • Deus está na simplicidade e em todas as coisas.[14]

Predefinição:Quadro citação

Estilo[editar | editar código-fonte]

Outros heterónimos[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. "Prefácio" de Ricardo Reis à obra de Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 25. Editorial Presença, 1994. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.)
  2. Carta astral de Alberto Caeiro, manuscrita por Fernando Pessoa, in Teresa Rita Lopes (pesquisa, organização e texto), Fernando Pessoa: Vivendo e Escrevendo, p.31. Assírio & Alvim, 1998. Na carta a Adolfo Casais Monteiro datada de 13 de Janeiro de 1935, Fernando Pessoa apenas indica o ano; no "Prefácio" de Ricardo Reis anteriormente citado, o dia exacto foi deixado em branco.
  3. Data indicada por Thomas Crosse (um inglês divulgador da obra de Caeiro), outra personagem literária criada por Fernando Pessoa. In Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer, vol. II, p. 439. Editorial Estampa, 1990.
  4. Mês indicado por Thomas Crosse, op. cit. Na carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro e no "Prefácio" de Ricardo Reis apenas é indicado o ano.
  5. Presença nº 30, Coimbra, jan.-fev. 1931.
  6. O Guardador de Rebanhos, Poema trigésimo nono. (1-3)
  7. O Guardador de Rebanhos, Poema Primeiro. (3-6)
  8. O Guardador de Rebanhos, Poema trigésimo nono. (4-5)
  9. O Guardador de Rebanhos, Poema décimo. (9-13) (
  10. a b O Guardador de Rebanhos, Poema segundo. (5-7,12-13)
  11. O Guardador de Rebanhos, Poema primeiro. (22-28)
  12. O Guardador de Rebanhos, Poema trigésimo nono. (16-17)
  13. O Guardador de Rebanhos, Poema segundo. (15-18)
  14. O Guardador de Rebanhos, Poema décimo quarto. (5-6)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Fernando Pessoa (2009). Poesia de Alberto Caeiro. [S.l.]: Assírio & Alvim. ISBN 978-972-37-0654-3 
  • Lopes, Teresa Rita (1991). Pessoa por Conhecer. [S.l.]: Ed. Estampa. ISBN 978-972-33-0768-9 
  • Lourenço, Eduardo (1993). Fernando, Rei da Nossa Baviera. [S.l.]: I.N - C.M. ISBN 978-972-27-0655-1 
  • Padrão, Maria da Glória (1981). A Metáfora em Fernando Pessoa. [S.l.]: Ed. Limiar 

Leituras adicionais[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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