Amir ibne Alas

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Amr ibn al-As)
Ir para: navegação, pesquisa
Disambig grey.svg Nota: Amr redireciona para este artigo. Para outros significados, veja Amr (desambiguação).
ʿAmr ibn al-ʿĀṣ
Nascimento antes de 573? [nt 1]
Meca
Morte 6 de janeiro de 664 (91 anos) [nt 1]
Fustat (Cairo)
Etnia Árabe (coraixita)
Progenitores Mãe: Laila binte Harmalá
Pai: Alabas ibne Uail
Ocupação General e sahaba (companheiro de Maomé)
Principais trabalhos
  • Comandante militar coraixita
  • Comandante do exército que conquistou o Egito
  • Fundador do Cairo e da primeira mesquita em África
Religião Islão
Pátio da Mesquita de Amir, fundada por Amir ibne Alas no Cairo em meados do século VII

Amir ibne Alas ou Amir ibne Alaas (em árabe: عمرو بن العاص‎; transl.: ʿAmr ibn al-ʿĀṣ; ca. 5736 de janeiro de 663)[nt 1] foi um general árabe muçulmano, um dos sahaba (companheiros de Maomé) e um político influente. Embora tenha começado por ser um dos líderes coraixitas que combateram o Islão, depois da sua conversão ao Islão em 629 subiu rapidamente na hierarquia militar muçulmana. Distinguiu-se na conquista árabe do sudoeste da Palestina, mas ficou famoso principalmente por ter liderado a conquista do Egito, onde fundou Fustat, antecessora do atual Cairo como capital provincial e em cujo centro construiu a mesquita que tem o seu nome, a primeira mesquita de África. Além de militar brilhante, Amir foi também um político astuto e influente e foi ele quem organizou o governo do Egito, nomeadamente o sistema de impostos e de justiça.[1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Amir nasceu em Meca e era membro da nobreza do clã Banu Sahm, da tribo dos coraixitas (Quraysh). A sua mãe era Laila binte Harmalá, também conhecida como Al-Nabiga.[2] e o seu pai, Alaas ibne Uail, era o chefe dos Banu Sahm.[3]

Antes de iniciar a sua carreira militar, Amir era um mercador que acompanhava caravanas ao longo das rotas comerciais do Médio Oriente, Ásia e Egito.[4] Ao contrário do seu irmão Hixam, que foi um dos primeiros seguidores de Maomé, contra a vontade do pai, e à semelhança dos outros líderes coraixitas, Amir começou por ser convictamente hostil em relação ao Islão. Foi ele quem chefiou a delegação enviada pelos coraixitas ao negus (rei) da Abissínia (Etiópia) com o pedido para expulsar de volta os muçulmanos que lá se tinham refugiado para evitarem as perseguições em Meca ("Migração para a Abissínia" ou "Pequena Hégira").[nt 2] O rei etíope (não há certeza se este era Axama ibne Abjar ou Armah, que podem ter sido a mesma pessoa) recusou-se a satisfazer o pedido dos coraixitas e recusou os presentes que eles lhe enviavam. Depois da fuga de Maomé para Medina (Hégira), Amir participou em todas as batalhas dos coraixitas contra os muçulmanos, tendo comandado um dos contingentes coraixitas na batalha de Uhud.[3]

Durante a vida de Maomé[editar | editar código-fonte]

Na companhia de Calide ibne Ualide, cavalgou de Meca para Medina onde ambos se converteram ao Islão.[3] Segundo algumas fontes (contraditas por outras), Amir seria casado com Um Cultum binte Ucba, filha do líder coraixita Ucba ibne Abu Muaiate e irmã de Ualide ibne Ucba, companheiro do profeta,[5] mas divorciou-se após se ter convertido.

Amir tornou-se rapidamente um destacado comandante do exército de Maomé,[3] tendo comandado Abu Baquir, Omar e Abu Ubaidá ibne Aljarrá na campanha de Dhat as-Salasil (também chamada "Expedição de Abu Ubaida ibne Aljarrá", "Expedição das Folhas" ou "do Peixe"). Além de comandante militar, Amir era também o líder religioso dos seus homens, dirigindo os serviços religiosos à frente dos seus oficiais.[6]

Amir foi enviado a Omã e ali teve um papel determinante na conversão dos líderes daquele país, Jayfar e `Abbad ibn Al-Juland. Foi governador daquela região até pouco tempo depois da morte de Maomé em 632.[3]

Durante os reinados de Abu Baquir e Omar[editar | editar código-fonte]

Durante o reinado de Abu Baquir como califa, a seguir à morte de Maomé, Amir foi enviado com os exércitos árabes que invadiram a Palestina. Acredita-se que o seu papel na conquista da região foi muito importante e sabe-se que esteve no cerco de Damasco de 634 e nas batalhas de Ajnadayn (634) e de Jarmuque (636).[1]

Após o êxito das campanhas contra os bizantinos na Síria, Amir sugeriu a Omar marchar sobre o Egito e Omar concordou. A verdadeira invasão começou no final de 640, quando Amir atravessou a península do Sinai com 3 500 a 4 000 homens. Os relatos dizem que ele passou o feriado da peregrinação em Alarixe de 12 de dezembro de 640.[nt 3] Depois de tomar a pequena cidade fortificada de Pelúsio (al-Farama) e repelir um ataque de surpresa dos bizantinos perto de Bilbeis (outra cidade fortificada), Amir dirigiu-se à Fortaleza de Babilónia[carece de fontes?] (no que é atualmente a zona chamada de Cairo Copta).

Depois de algumas escaramuças a sul dessa área, Amir marchou sobre Heliópolis com reforços de 12 000 homens que tinham chegado a 6 de junho de 640 vindos da Síria. Aí defrontou-se com as forças bizantinas no Egito, comandadas por Teodoro Tritírio.[nt 4] A batalha de Heliópolis, travada a 6 de julho de 640, foi resolvida forma relativamente rápida, saldando-se por mais uma vitória dos muçulmanos que abriu caminho à queda de grande parte do Egito nas mãos dos muçulmanos. No entanto, a fortaleza só se rendeu após vários meses de cerco. Alexandria, a capital da província romano-bizantina há mais de mil anos, rendeu-se alguns meses mais tarde. No final de 641 foi assinado um tratado de paz nas ruínas de um palácio de Mênfis.[4] Apesar do bizantinos terem recuperado brevemente parte dos territórios perdidos em 645, foram novamente derrotados na batalha de Nikiou, travada em maio de 646, após o que o país permaneceu firmemente sob o controlo dos árabes.[carece de fontes?]

Tendo sido nomeado governador da província recém-conquistada por Omar,[3] Amir precisava de uma nova capital, Sugeriu que se instalasse um governo na grande e bem equipada cidade de Alexandria, na orla ocidental do Delta do Nilo. No entanto, Omar recusou, dizendo que não queria a capital separada dele por um curso de água. Assim, em 641, Amir fundou uma nova cidade — Fustat — na margem oriental (direita) do Nilo, centrada na sua própria tenda, que estava montada junto à Fortaleza da Babilónia. Amir mandou também erigir uma mesquita no centro da sua nova cidade. Essa mesquita foi a primeira do continente africano. A Mesquita de Amir ainda existe atualmente na parte antiga do Cairo ("Mácer al-Adima" - Masr el-Adima), apesar de ter sido reconstruída extensivamente ao longo dos séculos e nada reste da sua estrutura original.[carece de fontes?]

Embora alguns egípcios não tenham apoiado as tropas bizantinas durante a conquista árabe, algumas aldeias começaram a organizar-se contra os novos invasores. Depois da batalha de Nikiou, em 646, as tropas árabes destruíram muitas aldeias egípcias na sua marcha para Alexandria durante uma revolta que estalou contra os invasores no Delta. A resistência dos egípcios parece ter ocorrido aldeia a aldeia,[necessário esclarecer] sem um comando unificado central, o que deve ter contribuído para o seu falhanço.[carece de fontes?]

Maomé tinha dito uma vez a Amir — «quando conquistares o Egito, sê bondoso para o seu povo, pois eles são os teus amigos e parentes protegidos» (a mulher ou escrava favorita de Maomé, Maria, a Copta, era egípcia).[carece de fontes?]

Destruição da Biblioteca de Alexandria[editar | editar código-fonte]

É usual apontar-se Amir ibne Alas como o protagonista da destruição da Biblioteca de Alexandria, embora desde o século XVIII isso seja tema de controvérsia entre os historiadores, nomeadamente devido às contradições das poucas fontes históricas conhecidas, todas datadas de pelo menos 500 anos depois do século VII. Aconselhado por Omar, a quem teria pedido instruções, Amir teria distribuído os livros da biblioteca pelos banhos de Alexandria para servirem de combustível de aquecimento. A queima dos livros ter-se-ia prolongado por seis meses. É famosa a resposta supostamente enviada a Amir por Omar em relação à biblioteca: «se esses livros estiverem de acordo com o Alcorão, então não precisamos deles para nada; e se eles se opõem ao Alcorão, destrói-os.»[7][8][9]

Reinados de Otomão, Ali e Moáuia[editar | editar código-fonte]

Postal do início do século XX da área onde foi fundada Fustat, no Cairo Antigo

Em 644 Otomão tornou-se califa depois do assassinato de Omar. Amir continuou como governador do Egito durante os primeiros tempos do reinado de Otomão mas este acabaria por destituí-lo, nomeando no seu lugar o seu irmão adotivo Abdulá ibne Saade. Amir ficou muito ofendido com a sua destituição e foi encontrar-se com Otomão a Medina, uma reunião que azedou ainda mais as relações entre eles. Amir passou então a criticar duramente o governo de Otomão e teve um paper destacado na instigação do descontentamento contra Otomão. Na revolta que estalou contra este, os egípcios estiveram na linha da frente e uma das razões para isso era a demissão de Amir. Este não escondia a sua oposição ao califa e desafiava-o abertamente, dizendo que levantaria todo o império muçulmano contra ele. Quando a revolta ganhou força em Medina, Amir retirou-se para a Palestina e era aí que se encontrava quando Otomão foi assassinado.[3]

Após o assassínio de Otomão, Ali foi eleito califa. Amir manteve-se neutro na Palestina, provavelmente na expetativa de lhe ser novamente entregue o governo do Egito. No entanto, Ali entregou o cargo a Cais ibne Saade, que se revelaria um bom governador, que manteve o Egito seguro e fiel a Ali. Entretanto Moáuia ibne Abi Sufiane conseguiu criar desconfiança entre Ali e Cais e este acabou por ser deposto. Mais uma vez, Amir aspirou ao cargo, mas Ali nomeou Maomé ibne Abi Baquir, o que levou Amir, despeitado a aproximar-se de Moáuia.[3]

Moáuia estava ciente de que para os seus planos de derrubar Ali fossem bem sucedidos, teria que garantir que o Egito não apoiaria Ali contra ele. Por isso tecido a trama de intrigas que levou à destituição de Cais. Maomé Abu Baquir tinha um carácter impulsivo e tempestuoso e adequava-se aos planos de Moáuia provocar distúrbios no Egito. Para isso precisava de alguém com influência na província e concluiu que Amir era a pessoa mais bem colocada para retirar o controlo do Egito a Ali. Por isso, convidou-o para Damasco, onde o recebeu quase como um rei. Os dois aliaram-se, tendo Moáuia dado o comando do seu exército a Amir e prometido que o faria governador do Egito caso ele conseguisse conquistar aquela província. Esta aliança entre Amir e Moáuia provou ser um grande revés para Ali naquilo que ficou conhecido como Primeira Fitna (ou "Primeira Guerra Civil Islâmica"), entre Ali e Moáuia.[3] Foi Amir quem, em nome de Moáuia, chefiou as negociações com Ali, representado por Abu Muça al-Axari. Amir esteve também na batalha de Siffin, travada em julho de 657 entre as tropas de Ali e de Moáuia[1]

Amir ibne Alas encontrava-se em Fustat como governador do Egito em nome de Moáuia quando morreu em 6 de janeiro de 664.[nt 1]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d O artigo traduzido refere 664 como o ano da morte de Amir, não apresentando fontes, o que contradiz a Encyclopædia Britannica, que refere 663 (sem dia nem mês).[1] A estimativa do ano em que nasceu baseia-se no facto de haver fontes que afirmam que morreu com mais de 90 anos.
  2. Um dos exilados era o irmão de Amir, Hixam.
  3. O artigo traduzido contradiz-se nesta data, já que refere que os reforços muçulmanos vindos da Síria juntaram-se a Amir a 6 de junho de 640 e a batalha de Heliópolis ocorreu a 6 de julho de 640. Possivelmente a invasão começou no final de 639 e não em 640.
  4. A crer no artigo «Theodore Trithyrius» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão), Teodoro Tritírio morreu na batalha de Jarmuque em agosto de 636, pelo que não poderia ter enfrentado o exército muçulmano em 641.

Bibliografia complementar[editar | editar código-fonte]

  • Butler, Alfred J. (1978). The Arab Conquest of Egypt and the Last Thirty years of Roman Dominion (em inglês) (Oxford [s.n.]). 

Referências

  1. a b c d «ʿAmr ibn al-ʿĀṣ». www.britannica.com (em inglês). Encyclopædia Britannica. Arquivado desde o original em 18 de setembro de 2010. Consultado em 7 de novembro de 2011. 
  2. Balagha, Nahjul. «Sermon 179 - Condemning his disobedient men». Sermons, Letters, and Sayings of Ameer al-Mu'mineen, the Commander of the Faithful, Imam Ali ibn Abi Talib (a.s.) (em inglês). Al-Islam.org - Ahlul Bayt Digital Islamic Library Project. Arquivado desde o original em 1 de novembro de 2007. Consultado em 7 de novembro de 2011. 
  3. a b c d e f g h i «Amr Bin Al-Aas». Witness-Pioneer.org (em inglês). 2002. Arquivado desde o original em 28 de outubro de 2008. Consultado em 7 de novembro de 2011. 
  4. a b Beattie, Andrew. Cairo: A Cultural History (em inglês) [S.l.: s.n.] p. 94-95. 
  5. «Umm Kulthum bint Uqba». www.eslam.de (em alemão). Enzyklopädie des Islam. 2006. Arquivado desde o original em 1 de novembro de 2007. Consultado em 7 de novembro de 2011. 
  6. «Abu Bakr as Leader in Prayers (s)». Restatement of History of Islam (em inglês). Al-Islam.org - Ahlul Bayt Digital Islamic Library Project. Arquivado desde o original em 1 de novembro de 2007. Consultado em 7 de novembro de 2011. 
  7. Poulain, Martine (1993). «Recensão bibliográfica de "Vie et destin de l'ancienne Bibliothèque d'Alexandrie", de M. Abbadie». bbf.enssib.fr (em francês). Bulletin des bibliothèques de France. Arquivado desde o original em 9 de abril de 2009. Consultado em 9 de novembro de 2011. 
  8. Cottrell, Emily (24 de setembro de 2010). «Al-Qifti on the destruction of the library of Alexandria». www.roger-pearse.com (em inglês). Blog de Roger Pearse. Arquivado desde o original em 11 de maio de 2011. Consultado em 9 de novembro de 2011. 
  9. Pococke, Edward (1663). Bar Hebraeus: Historia Compendiosa Dynastiarum (em latim; trad. do árabe) (Oxford [s.n.]). p. 114,181. . Em latim: «Quod ad libros quorum mentionem fecisti: si in illis contineatur, quod cum libro Dei conveniat, in libro Dei [est] quod sufficiat absque illo; quod si in illis fuerit quod libro Dei repugnet, neutiquam est eo [nobis] opus, jube igitur e medio tolli.” Jussit ergo Amrus Ebno’lAs dispergi eos per balnea Alexandriae, atque illis calefaciendis comburi; ita spatio semestri consumpti sunt. Audi quid factum fuerit et mirare.»