Ana da Boêmia

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Ana da Boêmia
Representação de Ana no manuscrito do século XIV, Liber Regalis
Rainha Consorte da Inglaterra
Reinado 20 de janeiro de 1382
a 7 de junho de 1394
Coroação 22 de janeiro de 1382
Predecessora Filipa de Hainault
Sucessora Isabel de Valois
 
Marido Ricardo II de Inglaterra
Casa Luxemburgo (por nascimento)
Plantageneta (por casamento)
Nascimento 11 de maio de 1366
  Praga, Boémia, Sacro Império Romano-Germânico
Morte 7 de junho de 1394 (28 anos)
  Palácio de Sheen, Londres, Inglaterra
Sepultado em Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra
Pai Carlos IV do Sacro Império Romano-Germânico
Mãe Isabel da Pomerânia
Religião Catolicismo

Ana da Boêmia (Praga, 11 de maio de 1366Palácio de Sheen, 7 de junho de 1394) foi a primeira esposa do rei Ricardo II e rainha consorte do Reino da Inglaterra de 1382 até sua morte em 1394.[1]

Família[editar | editar código-fonte]

Ana da Boémia nasceu em Praga, na altura capital do reino da Boêmia, filha de Carlos IV, Imperador Sacro-Germânico, e da sua quarta esposa, Isabel da Pomerânia.[1]

Ana foi a filha mais velha do quarto casamento do seu pai e tinha cinco irmãos desta união: o imperador Sigismundo; o duque João de Görlitz; Carlos; Margarida da Boêmia, burgravina de Nuremberga como esposa de João III, burgrave de Nuremberga, e Henrique. Tinha ainda cinco meios-irmãos e irmãs, fruto dos casamentos anteriores do seu pai.

Ela foi educada principalmente no Castelo de Praga e passou grande parte da sua infância e adolescência sob o cuidado do seu irmão, o rei Venceslau IV da Boêmia.[2] Na sua viagem pela Flandres a caminho da sua nova vida na Inglaterra, ela foi protegida pelo seu tio, Venceslau I, de Luxemburgo.[3]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Ana e Ricardo se casaram como resultado do Grande Cisma no papado, que resultou em dois papas rivais; o Papa Urbano VI aprovou o casamento para tentar criar uma aliança mais forte contra os franceses contra o seu papa preferido, o Antipapa Clemente VII. Na época, o pai de Ana era o monarca mais poderoso da Europa, tendo sob o seu poder mais de metade da Europa e da sua população.[4]

O casamento era contra o desejo de muitos membros da nobreza inglesa, tendo ocorrido principalmente pela intervenção do conselheiro do rei, Miguel de la Pole, 1.º Conde de Suffolk.

Antes do noivado entre Ana e Ricardo, foi cogitado que o rei se cassasse com Catarina Visconti, filha de Barnabé Visconti, senhor de Milão, pois ela traria consigo um grande dote financeiro, o que não ocorreu com Ana.[2]

Quando chegou a Inglaterra, em dezembro de 1381, depois de tempestades terem atrasado a sua chegada,[2] Ana foi bastante criticada pelos cronistas da época, provavelmente devido ao acordo financeiro do seu casamento, mas era comum que as novas rainhas fossem criticadas. O Cronista de Westminster descreveu-a como "um pedaço minúsculo de pessoa"[5] e Thomas Walsingham relatou um augúrio desastroso aquando da sua chegada: os seus navios ficaram desfeitos assim que Ana desembarcou.[6]

A coroação de Ricardo II e de Ana da Boêmia no Liber Regalis.

De qualquer forma, Ricardo e Ana ficaram noivos em 2 de maio de 1381. A cerimônia de casamento ocorreu na Capela de São Estêvão, na Abadia de Westminster, em Londres, em janeiro de 1382. Este foi o quinto casamento real que teve lugar na Abadia de Westminster e o seguinte só viria a ocorrer daí a 537 anos, entre Patrícia de Connaught e Alexandre Ramsay.[7]

Nos dias que se seguiram à cerimónia, foram organizados vários torneios para celebrar a nova união e, nos meses seguintes, os novos reis visitaram o reino, tendo ficado em muitas das abadias mais importantes pelo caminho. Em 1383, Ana visitou a cidade de Norwich, onde foi construído um teto com 252 águias-negras em sua honra no Grande Hospital.[8] Ana e Ricardo tinham apenas 15 anos quando se conheceram e casaram, mas estes "dois adolescentes delicados" tiveram uma relação apaixonada e "ao longo dos anos, o rei foi verdadeiramente devoto para com a sua nova esposa".[9]

A nova rainha demorou algum tempo a conquistar o povo inglês, que não gostava dela. porém sua popularidade cresceu com o passar dos anos. Ana era conhecida por ser muito bondosa e por "interceder" em favor do povo, até mesmo na frente do rei.[10]

Ricardo e Ana estiveram casados durante 12 anos, mas não tiveram filhos. Ana morreu em 1394, aos 28 anos, de peste bubónica. A sua morte foi devastadora para Ricardo e o seu luto levou-o a demolir o Palácio de Sheen, o local onde ela morreu.[11] Os historiadores especulam que os conselhos de Ana tiveram um efeito moderador no rei, uma teoria que parece ser suportada pela conduta imprudente de Ricardo nos anos que se seguiram à morte de Ana e que acabou por lhe custar o trono.[3]

O rei se casou novamente em 1396 com Isabel de Valois, irmã de Catarina de Valois, na altura com seis anos de idade.[12]

Legado[editar | editar código-fonte]

O funeral de Ana

Ana foi enterrada na Abadia de Westminster ao lado do marido. Em 1395, Ricardo selou contratos para a construção de um monumento para ele e Ana. Isto foi uma inovação e a primeira vez em que um túmulo duplo para um enterro inglês. Foram selados dois contratos com dois pedreiros (Henry Yevele e Stephen Lote) de Londres para a construção de uma base em mármore de Purbeck e de duas efígies em tamanho real com dois latoeiros de Londres, Nicholas Broker e Godfrey Prest. Os desenhos, que foram perdidos, foram fornecidos pelos dois pares de artesãos.[13]

Atualmente, o seu túmulo em conjunto encontra-se danificado e as mãos das efígies foram cortadas. A inscrição no túmulo da rinha descreve-a como "formosa de corpo e com um rosto gentil e bonito". Quando o túmulo de Ana foi aberto em 1871, descobriu-se que muitos dos seus ossos foram roubados através de um buraco num dos lados do caixão.[14]

Ana de Boêmia ficou conhecida pela sua bondade, uma vez que intercedeu em várias ocasiões junto do rei em busca de perdão para alguns dos seus súbditos. Ela procurou perdão para participantes na Revolta dos Camponeses de 1381 e para vários transgressores.[15] Ana salvou a vida de John Northampton, um ex-Presidente da Câmara de Londres, em 1384. O seu pedido humilde convenceu Ricardo II a condenar o criminoso a uma pena de prisão perpétua em vez de o condenar à morte.[16] O ato mais famoso de intercessão de Ana foi em nome dos cidadãos de Londres na reconciliação cerimonial entre Ricardo II e a cidade de Londres em 1392. O papel da rainha também foi imortalizado na obra Reconciliation of Richard II with the City of London de Richard Maidstone, que descreve este evento.[17]

Por outro lado, Ana não cumpriu muitos dos deveres tradicionais das rainhas. Em particular, ela não teve filhos, apesar de a sua união com o rei ter durado 12 anos, algo que o seu epitáfio parece realçar ao dizer que Ana foi bondosa para com "mulheres grávidas". Até a crónica de Eversham diz: "considera-se que esta rainha, apesar de não ter gerado filhos, contribuiu para a glória e a riqueza do reino, tanto quanto conseguiu. Os nobres e o povo sofreram muito com a sua morte".[18] No entanto, o seu legado como "Boa Rainha Ana" parece sugerir que o facto de não ter tido filhos não teve importância para muitos dos seus contemporâneos.

A rainha Ana também introduziu algumas inovações na Inglaterra, como a popularização da prática de cavalgar de lado para as mulheres da Idade Média.[19] Ana também influenciou o design das carruagens na Inglaterra depois de chegar ao país numa carruagem que se presume ter sido construída em Kocs, na Hungria. Ela também introduziu o penteado apanhado em cone ao estilo boêmio que se tornou moda na Inglaterra até ao final do século XIV.

Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Ana da Boémia
Casa de Luxemburgo
Ramo da Casa de Limburgo
11 de maio de 1366 – 7 de junho de 1394
Precedida por
Filipa de Hainault
Arms of Anne of Bohemia.svg
Rainha Consorte da Inglaterra
20 de janeiro de 13827 de junho de 1394
Sucedida por
Isabel de Valois
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Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b Strickland, Agnes, Lives of the Queens of England from the Norman Conquest, (Lea & Strickland, 1841), 303, 308.
  2. a b c Hilton, Lisa (2008). Queens Consort:England's Medieval Queens. London: Phoenix. pp. 319–338. ISBN 9780753826119.
  3. a b Agnes Strickland (1841). Berengaria of Navarre. Anne of Bohemia. Lea & Blanchard. pp. 306.
  4. pixeltocode.uk, PixelToCode. «Richard II and Anne of Bohemia». Westminster Abbey (em inglês). Consultado em 25 de maio de 2021 
  5. Westminster Chronicle 1381–1394, edited by L.C. Hector and B.F. Harvey (Oxford: Clarendon Press, 1982), 25.
  6. Thomas Walsingham, The St Albans Chronicle: The Chronica Maiora of Thomas Walsingham, Vol I: 1376–1394, ed. and trans. by John Taylor, Wendy R. Childs, and Leslie Watkiss (Oxford: Clarendon Press, 2003), 572–575
  7. «HRH Prince William of Wales and Miss Catherine Middleton to wed at Abbey - Westminster Abbey». web.archive.org. 26 de março de 2011. Consultado em 25 de maio de 2021 
  8. «The Great Hospital - Bishopgate, Norwich». web.archive.org. 15 de novembro de 2010. Consultado em 25 de maio de 2021 
  9. Jones, Dan, The Plantagenets: The Warrior Kings and Queens who made England, (Viking Press: New York, 2012), 456.
  10. Pedersen, F. J. G. (2016b). "Murder, Mayhem and a Very Small Penis". American Historical Association. AHA. p. 6.
  11. «Westminster Abbey » Richard II and Anne of Bohemia». web.archive.org. 28 de agosto de 2014. Consultado em 25 de maio de 2021 
  12. Hamilton, Jeffrey (2010). The Plantagenets: History of a Dynasty
  13. «Anne of Bohemia and her contribution to Richard II's treasure». archives.history.ac.uk. Consultado em 25 de maio de 2021 
  14. «Westminster Abbey». web.archive.org. 13 de maio de 2008. Consultado em 25 de maio de 2021 
  15. Pedersen, F. J. G. (2016b). "Murder, Mayhem and a Very Small Penis". American Historical Association. AHA. p. 6.
  16. Westminster Chronicle 1381–1394, edited by L.C. Hector and B.F. Harvey (Oxford: Clarendon Press, 1982), 93
  17. «Richard Maidstone, Concordia (The Reconciliation of Richard II with London) | Robbins Library Digital Projects». d.lib.rochester.edu. Consultado em 25 de maio de 2021 
  18. Historia Vitae et Regni Ricardi II, ed. by G.B. Stow (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1977), 134
  19. Strickland, Agnes (1841). Lives of the queens of England from the Norman conquest : With anecdotes of their courts : Now first published from official records and other authentic documents, private as well as public. Harvard University. [S.l.]: Philadelphia : Lea & Blanchard