André-Charles Boulle

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Disambig grey.svg Nota: Se procura o escritor francês, veja Pierre Boulle.


André-Charles Boulle
Retrato de Henri van Soest, que durante muito tempo se pensou representar Boulle
Nascimento 11 de Novembro de 1642
Paris
Morte 29 de Fevereiro de 1732 (89 anos)
Paris
Nacionalidade francesa
Ocupação Mestre de ebanisteria e marquetaria
Influências
Influenciados

André-Charles Boulle (Paris, 11 de Novembro de 1642 — Paris, 29 de Fevereiro de 1732[1]), desenhou e produziu mobiliário para a corte de Luís XIV como mestre de ebanisteria (marcenaria fina), ficando principalmente famoso pelo seu trabalho de marqueteria de alta qualidade (mosaico ornamental composto por diferentes materiais).

A inovação introduzida nesta técnica, já anteriormente existente, é a utilização de novos materiais em combinação com uma perfeita execução da técnica. As peças de Boulle, além de utilitárias, são verdadeiras peças de joalharia, não só pelo detalhe e requinte dos padrões decorativos, como também pela utilização de valiosos materiais. O estilo das suas peças de mobiliário, formalmente dentro do estilo decorativo Luís XIV (Barroco), influenciou a estética por toda a Europa, dando nome ao que ficou conhecido como o estilo boulle (também marquetaria boulle ou técnica boulle).

Vida[editar | editar código-fonte]

Pouco se sabe sobre a vida de Boulle antes de ter iniciado a sua fase de produção de mobiliário para a corte de Versailles como ébeniste du Roi, mas é certo que a sua família já se dedicava antes à produção de mobiliário, já que o seu pai Jean Boulle, que terá imigrado da Holanda para Paris em 1610, ficou nesta cidade a trabalhar como marceneiro. Foi na oficina do seu pai que André-Charles Boulle se formou, inicialmente como pintor, como prova um dos primeiros recibos entregues pelo seu trabalho onde consta ouvrages de peinture. Crê-se que a sua reputação terá surgido quando era ainda relativamente novo.

Entre 1666 e 1676 Boulle tem a sua própria oficina e, embora receba muitas encomendas e tenha as oficinas repletas de artesãos qualificados (entre os quais os seus filhos), sofre permanentemente de falta de dinheiro. A razão que o fará cobrir-se de dívidas, e levará quase à ruína financeira, é o seu gosto por coleccionar obras de arte. A sua colecção, de grande valor e apresentando obras valiosas (como de Rubens, por exemplo), arde quase por completo num incêndio a 30 de Outubro de 1720.

Indicado por Jean-Baptiste Colbert, Boulle torna-se ebenista do rei (ébeniste du Roi) na oficina real de mobiliário no Louvre em 1672, assumindo o lugar do falecido Jean Macé van Blois. Aqui Boulle não tem de se deixar guiar pelas corporações de artesãos, que estabelecem as regras da profissão, e tem assim o privilégio e a liberdade para criar os seus próprios trabalhos de bronze e marqueteria. Até 1694, quando se dá o encerramento da oficina real, Boulle produz essencialmente para residências reais, como Versailles, Fontainebleau ou o Louvre, abastecendo os seus interiores com ricas peças de mobiliário dentro do estilo Luís XIV.

Os seus filhos, Jean Philippe, Pierre-Benoît, André-Charles II e Charles-Joseph, darão continuidade ao seu trabalho, e também às suas dívidas.

Estilo e técnica[editar | editar código-fonte]

André-Charles BOULLE, Cómoda "Mazarine", época Luís XIV.

O mobiliário criado por Boulle tem uma estrutura base simples, de linhas bem definidas, sobre a qual são depois aplicadas as peças da marqueteria. Os materiais de eleição são materiais que ofereçam um bom contraste de cor e efeito visual claro-escuro. As aplicações metálicas (latão ou bronze, geralmente dourados) são utilizadas em comunhão com madeira (geralmente polida de negro), marfim, carapaça de tartaruga, madrepérola, entre outros. Quando o motivo decorativo é mais claro que o fundo (por exemplo, em marfim) fala-se de premier-boulle, premier-effet ou première-partie; quando o motivo decorativo é mais escuro que o fundo fala-se de countre-boulle, deuxième-effet ou contre-partie. Como motivos decorativos são preferenciados os elementos da flora (flores, etc) e alguns animais, como pássaros ou borboletas.

De modo a proteger as arestas e os cantos, e também com objectivo ornamental, são ainda aplicados relevos, figuras e pés em metal.

Inicialmente, a produção é demorada devido ao trabalho de minúcia exigido para cada móvel. Mais tarde, Boulle aperfeiçoa as ferramentas de trabalho e desenvolve um método que permite cortar simultaneamente as peças do mosaico a ser usadas em mais que um móvel, acelerando consideravelmente o processo de produção.

Trabalhos mais significativos[editar | editar código-fonte]

  • Melhores trabalhos produzidos entre 1690 e 1710.
  • Pavimento em mosaico de madeira, paineis de parede do Cabinet Dauphin no Palácio de Versailles (entre 1682 e 1683). Actualmente desmontados, encontrando-se os desenhos originais de Boulle no Musée des Arts Décoratifs em Paris.
  • Consolas e cadeiras para o Cabinet des Glaces no Palácio de Versailles.
  • Pavimento interior na caixa do coche da coroa (1715) pertencente a D. João V, Rei de Portugal (1689-1750), pavimento feito em tartaruga e bronze recortado. Em exposição no Museu Nacional dos Coches, Lisboa.

Colecções[editar | editar código-fonte]

Revivalismo boulle[editar | editar código-fonte]

O estilo nunca sai verdadeiramente de moda, e, além dos seus contemporâneos que seguem o estilo (ver na tabela superior os influenciados), continuam-se a produzir cópias de peças atribuídas a Boulle, especialmente durante o estilo regência.

No século XIX inicia-se a produção industrial (em massa) deste género de mobiliário, conseguindo-se, no entanto, produzir com qualidade e exactidão. Podem-se identificar dois tipos de mobiliário boulle produzido no século XIX: o tipo que tem na marqueteria os espaços abertos preenchidos com carapaça de tartaruga, em tons avermelhados; e o tipo, de meados do século, com os espaços preenchidos a madeira negra polida.

Basicamente o processo é concluído em três fases: a construção da estrutura base em madeira simples; a colagem das placas ornamentais (madeira negra polida); e finalmente o aparafusamento das peças ornamentais metálicas sobre as anteriores.

Este mobiliário revivalista encontra-se principalmente em França, Inglaterra, Áustria e Hungria.


Galeria[editar | editar código-fonte]

Cómoda por André Charles Boulle em Vaux-le-Vicomte
Exemplar da Wallace Collection, Londres. 
Exemplar da Wallace Collection, Londres. 
Exemplar da Wallace Collection, Londres. 
As consolas baixas desenhadas por Boulle voltaram a estar na moda a partir do séc. XVII. 
Secretária incrustada com latão e tartaruga, com as típicas ferragens em bronze (Musée Condé, Chantilly). 
Secretária Mazarin, c. 1690-1700, por Boulle ou pela sua escola. 
Armário, c. 1690, marfim, metal e tartaruga 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BANGERT, Albrecht, Kleinmöbel aus drei Jahrhunderten, Typen – Stile – Meister, Keysersche, 1978, Munique, ISBN 3-87405-106-4
  • DARMSTAEDTER, Robert, VON HASE-SCHMUNDT, Ulrike, Reclams Künstlerlexicon, Reclam, 1995, Stuttgart, ISBN 3-15-010412-2
  • Vários autores, Universal Lexicon der Kunst – Von der Frühzeit zur Moderne, Gondrom, 2001, Munique

Outro material informativo[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]



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Referências[editar | editar código-fonte]

  1. NÉRÉE RONFORT (dir.), Jean (2009). André-Charles Boulle (1642-1732). Un nouveau style pour l'Europe Somogy éditions d'art / Museum für Angewandte Kunst - Frankfurt ed. Paris: [s.n.]