Anhangá

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Anhangá (Tupi: Ahiag̃, Mawé: Anhang, espírito)[1][2][3], é uma figura presente na cosmovisão de diversos povos originários do Brasil e literatura indianista.

Na cultura Tupinambá[editar | editar código-fonte]

Os Tupinambás acreditavam que o Anhangá poderia assumir muitas formas diferentes. Apesar de ter considerado maior ameaça para os mortos, seria visto com frequência e mesmo os vivos podiam ter corpo e alma punidos. A mera lembrança dos sofrimentos impostos pelos Anhangá bastava para atormentá-los. Os Tupinambá afirmavam temer esse espírito maligno mais do que qualquer outra coisa.[4][5] Esse espírito foi uma das maiores preocupações ao preparar os mortos para a viagem a Guajupiá. Ofereciam-se oferendas de comida e mantinham uma fogueira para aquecer o corpo. Comida era oferecida tanto para sustentar os mortos quanto para que o Anhangá consumisse a comida ao invés do morto. O fogo tinha como objetivo fornecer calor e proteção aos mortos, mantendo o Anhangá afastado. Os vivos também encorajaram os mortos, incentivando seus falecidos pais e avós, já em Guajupiá a não deixarem seus fogos se apagarem.[4]

[5][6]

Na cultura Mawé[editar | editar código-fonte]

Jovem sataré-mawé com instrumento de ritual de passagem.

Para os Mawés, Anhangá é retratados como uns dos vários demônios seguidores de Yurupari (Jurupari).[7] Essas criaturas são conhecidas e temidas por se transformar em diversas formas para enganar as pessoas, amaldiçoá-las, possuí-las, sequestrá-las, matá-las e comê-las.[7] Anhangá não sabe nadar ou tem medo de entrar na água por medo do Sukuyu'wera, espírito protetor das águas, seu inimigo.[7]

Protetor dos animais[editar | editar código-fonte]

Animal presente em contos que apresentam Anhangá como protetor.

Segundo alguns mitos, assumia a forma de um veado branco com olhos de fogo e era o protetor da caça nas florestas, protegendo os animais contra os caçadores, sobretudo fêmeas com filhotes.[8] Quando a caça conseguia fugir, os índios diziam que Anhangá as havia protegido e ajudado a escapar.[9]

Colonialismo, Sincretismo e Indianismo[editar | editar código-fonte]

No missionarismo jesuíta[editar | editar código-fonte]

O missionário José de Anchieta, nos seus auto Tupi-Medieval dá o nome Anhangupiara, palavra criada a partir da aglutinação dos substantivos anhangá e jupiara, a um anjo, cujo significado na tradução latinizante do tupi anchietano seria inimigo dos anhangás.[10]

Outro jesuíta, António Vieira, descreveu “Añangá” no Sermão das Incontinências, como entidade dúplice cultuada pelos indígenas.[11]

Na literatura moderna e missionarismo contemporâneo[editar | editar código-fonte]

Anhangá é presente nas obras indianistas do romanticista brasileiro Gonçalves Dias. Em "O Canto do Piaga" e "Deprecação"[12] Anhangá é caracterizado como entidade cruel e impiedosa, aliado dos colonizadores.[13] Em "Caramuru", o autor apresenta Anhangá ou Anhangás tomando papel de demônios, assim como apresenta Tupã com papel de criador, na criação de um mito colonialista paralelo ao mito de criação da doutrina católica.[14]

Igrejas neopentecostais com forte presença em comunidades mawés fazem a releitura do Anhangá como anúncio do mal e manifestação demoníaca, a ser combatido por orações e cantos.[3]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Trevisan, Rosana (Coord.). “anhangá”. Michaelis: Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, São Paulo: Melhoramentos, 1998. ISBN 85-06-02759-4.
  2. «Anhangá». Michaelis On-Line. Consultado em 11 de setembro de 2020 
  3. a b Botelho, João Bosco; Weigel, Valéria Augusta C. M. (setembro de 2011). «Comunidade sateré-mawé Y'Apyrehyt: ritual e saúde na periferia urbana de Manaus». História, Ciências, Saúde-Manguinhos (3): 723–744. ISSN 0104-5970. doi:10.1590/S0104-59702011000300007. Consultado em 10 de setembro de 2020 
  4. a b Beauclair, Mariana; Scheel-Ybert, Rita; Bianchini, Gina Faraco; Buarque, Angela (julho de 2009). «Fire and ritual: bark hearths in South-American Tupiguarani mortuary rites». Journal of Archaeological Science (7): 1409–1415. ISSN 0305-4403. doi:10.1016/j.jas.2009.02.003. Consultado em 2 de setembro de 2020 
  5. a b Thevet, André, 1502-1590. (1575). La cosmographie universelle d'André Thevet, cosmographe du roy : illustrée de diverses figures des chose plus remarquables veues par l'auteur, & incogneuës de noz anciens & modernes. [S.l.]: Chez Guillaume Chandiere. OCLC 243563097 
  6. Yves, d'Evreux, 1570-1630. (1929). ... Viagem ao norte do Brasil, pelo padre Ivo d' Evreux. [S.l.]: Freitas Bastos & cia. OCLC 23224909 
  7. a b c Yamã, Yaguarê (2004). O caçador de histórias. São Paulo: Martins Fontes. 79 páginas 
  8. «Lenda do Anhangá». Rede Mocoronga. 22 de setembro de 2008. Consultado em 3 de setembro de 2020 
  9. Magalhães, Couto de, 1837-1898. (1975). O selvagem. [S.l.]: Livraria Itatiaia Editora. OCLC 2426832 
  10. Anchieta, José de, Saint, 1534-1597. (1973). Auto representada na festa de São Lourenço. [S.l.]: Serviço Nacional de Teatro, Ministério da Educação e Cultura. OCLC 4670764 
  11. Vieira, Antonio, 1608-1697. (1959). Sermões. [S.l.]: Lello & Irmão. OCLC 817618321 
  12. Dias, Antônio Gonçalves, 1823-1864. (1967). Gonçalves Dias : antología poética. [S.l.]: Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro. OCLC 33169670 
  13. Palimpsesto, Editores (1 de setembro de 2018). «Expediente da edição 28». Palimpsesto - Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ (28). ISSN 1809-3507. doi:10.12957/palimpsesto.2018.41941. Consultado em 10 de setembro de 2020 
  14. Grizoste, Weberson Fernande; André, Carlos Ascenso (2011). «A dimensão anti-épica de Virgílio e o indianismo de Gonçalves Dias». doi:10.14195/978-989-8281-90-6. Consultado em 10 de setembro de 2020