Anos de chumbo

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A expressão anos de chumbo foi aplicada inicialmente a um fenômeno da Europa Ocidental, relacionado com a Guerra Fria e com a estratégia da tensão. Designa o período compreendido aproximadamente entre o pós-1968 e o fim dos anos 1970, na Alemanha, ou meados dos anos 1980, na França e na Itália — anos marcados por violência política, guerrilha revolucionária armada e terrorismo de Extrema esquerda e de extrema direita, bem como pelo endurecimento do aparato repressivo dos estados democráticos da Europa Ocidental.

Posteriormente a expressão passou a designar esse período de radicalização política, também fora da Europa — particularmente nos países do Cone Sul.

Origem da expressão[editar | editar código-fonte]

O uso expressão "anos de chumbo" para designar o período foi adotado em vários países (anni di piombo, années de plomb, years of lead), inclusive no Brasil, e deriva do título do filme "Die bleierne Zeit" (em português, literalmente, "Tempos de chumbo"), de 1981, da cineasta alemã Margarethe Von Trotta. O filme lhe valeu o Leão de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Veneza e é inspirado na história das irmãs Christiane e Gudrun Ensslin: Gudrun era da liderança do Baader-Meinhof e morreu - assim como Andreas Baader, Ulrike Meinhof, Holger Meins e Jan-Carl Raspe - dentro da prisão de segurança máxima de Stammheim, em 1977. O título do filme, por sua vez, é uma citação do poema de Hölderlin, "Passeio ao campo" (Der Gang aufs Land, 1800).[1]

Anos de chumbo no Brasil[editar | editar código-fonte]

Os Anos de Chumbo foram o período mais repressivo da ditadura militar no Brasil, estendendo-se basicamente do fim de 1968, com a edição do AI-5 em 13 de dezembro daquele ano, até o final do governo Médici, em março de 1974. Alguns, reservam a expressão "anos de chumbo" especificamente para o governo Médici.[2] O período se destaca pelo feroz combate entre a extrema-esquerda versus extrema-direita, de um lado, e de outro, o aparelho repressivo policial-militar do Estado, eventualmente apoiado por organizações paramilitares e grandes empresas, tendo como pano de fundo, o contexto da Guerra Fria.[carece de fontes?]

Durante esse período, houve o desaparecimento e morte de centenas de militantes civis e ativistas envolvidos em atividades consideradas subversivas pelo governo militar ditatorial. Outros desses militantes foram obrigados a viver na clandestinidade ou pedir asilo político em outros países. Nessa época, a liberdade de imprensa, de expressão e manifestação foram cerceadas. Alguns veículos, como a Rede Globo e a editora Manchete, são acusados de terem compactuado com o governo, na tentativa de transmitir a imagem de que uma revolução não estava em curso —enquanto a imprensa que se opunha ao militarismo tinha de driblar a Censura para fazer uma crítica velada ao governo em veículos como o jornal O Pasquim, entre outros.

Os "Anos de Chumbo" foram também os anos do chamado milagre econômico brasileiro, período de intenso crescimento econômico e de posterior endividamento. De 1968 a 1973 o PIB do Brasil cresceu acima de 10% ao ano, em média.

Os anos de chumbo na Europa[editar | editar código-fonte]

Na Europa, os "anos de chumbo" se referem, grosso modo, aos anos 1970, embora alguns atos de violência política tenham sido cometidos na década anterior e também na seguinte. Trata-se de período marcado por numerosas ações terroristas, tanto de esquerda quanto de direita - sobretudo na Itália, na Grécia e na Alemanha - que os historiadores contemporâneos ainda não esclareceram completamente

Dentre os mais notórios grupos armados de esquerda, estão o alemão Rote Armee Fraktion, RAF (Fração do Exército Vermelho, 1970-1988), mais conhecido como Baader-Meinhof, o francês Ação direta e as Brigadas Vermelhas italianas. Eventualmente, esse "terrorismo vermelho" se utilizou do conceito de propaganda pelo ato, desenvolvido nos meios anarquistas do fim do século XIX, conquanto alguns ataques da RAF contra as bases da OTAN fizessem parte de uma estratégia de apoio aos movimentos de descolonização, notadamente, o Viet-minh.

Os grupos de extrema direita não tiveram a mesma exposição midiática, e duvidava-se até mesmo da sua existência, até o início dos anos 1980, quando passaram a ser referidos mesmo nos círculos oficiais, e, a partir de então, frequentemente relacionados às células stay-behind e especialmente à rede Gladio. Dentre esses grupos, destacam-se o Ordine Nuovo e a Avanguardia Nazionale.

Alemanha[editar | editar código-fonte]

Na Alemanha Ocidental, a Fração do Exército Vermelho (Baader-Meinhof) participa de atentados, alguns contra bases da OTAN, cometidos à época da guerra do Vietnam. O grupo também sequestrou e matou um membro do patronato alemão e antigo integrante da SS Hanns-Martin Schleyer.

A RAF (Fração do Exército Vermelho) foi a principal e mais estruturada organização de extrema esquerda alemã, e desde meados dos anos 1970, contava com apoios na Bélgica, notadamente da parte de Pierre Carette - futuro dirigente das Células Comunistas Combatentes (Cellules communistes combattantes, CCC), que nos anos de 1984 e 1985, perpetraram 28 atentados no território belga. Com a francesa Action Directe, a RAF representará a corrente não marxista-leninista da guerrilha urbana, na Europa Ocidental.

França[editar | editar código-fonte]

A Ação Direta (Action Directe, AD, 1979-1987) foi uma organização de luta armada ativa na França, fundada por antigos militantes dos Gari, Grupos de ação revolucionária internacionalistas (Groupes d'action révolutionnaire internationalistes) e dos Napap — Núcleos armados pela autonomia popular (Noyaux armés pour l'autonomie populaire). Anti-imperialista de tendência marxista antileninista, a AD também se beneficiará de algumas bases clandestinas na Bélgica.

Grécia[editar | editar código-fonte]

Na Grécia, o regime dos coronéis, que se havia instalado desde o golpe de estado de 1967, enfrenta atentados de alguns grupos armados, dentre os quais a Organização revolucionária 17 de Novembro, que só foi foi extinta em 2003.

Itália[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Anos de chumbo (Itália)

Segundo o historiador Pierre Milza, depois de trinta anos, a interpretação do fenômeno do terrorismo que transtornou a República Italiana entre 1969 e o fim dos anos 1980 continua sendo uma tarefa difícil, tantos são os atores e tantas são as questões de política interna e internacional envolvidas. Globalmente, segundo o historiador, o fenômeno traduz um confronto entre as democracias liberais e o "socialismo real".[3]

A Itália foi abalada durante duas décadas por ações terroristas reivindicadas por grupos, inicialmente de extrema direita e depois, de extrema esquerda. As Brigadas Vermelhas - BR (Brigate rosse, 1970), a mais conhecida das organizações desse período, são simultaneamente um movimento político implantado nas fábricas e uma organização de luta armada. Identificadas com a corrente marxista-leninista pela fundação do Partido Comunista Combatente (PCC), elas serão referência para o CCC na Bélgica. Atualmente, embora muito enfraquecidas, as BR ainda existem, sendo a mais antiga organização de guerrilha da Itália.

Segundo Agamben, "a classe política italiana, com raríssimas exceções, nunca admitiu francamente que tenha havido na Itália algo como uma guerra civil, tampouco concedeu à batalha desses anos de chumbo um caráter autenticamente político. Os delitos que foram cometidos durante essa época eram, por conseguinte, delitos de direito comum e continuam sendo. Essa tese, com certeza discutível no plano histórico, poderia no entanto passar por inteiramente legítima, se não fosse desmentida por uma contradição evidente: para reprimir esses delitos de direito comum, essa mesma classe política recorreu a uma série de leis de exceção que limitavam seriamente as liberdades constitucionais e introduziram na ordem jurídica princípios que sempre foram considerados alheios a essa ordem. Quase todos os que foram condenados, foram incomodados e perseguidos com base nessas leis especiais. Porém, a coisa mais inacreditável é que essas mesmas leis ainda estão em vigor e projetam uma sombra sinistra na vida de nossas instituições democráticas." [4]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Komm! ins Offene, Freund! zwar glänzt ein Weniges heute/ Nur herunter und eng schließet der Himmel uns ein./ Weder die Berge sind noch aufgegangen des Waldes/ Gipfel nach Wunsch und leer ruht von Gesange die Luft. / Trüb ists heut, es schlummern die Gäng' und die Gassen und fast will / Mir es scheinen, es sei, als in der bleiernen Zeit... ("Vem, amigo, até o campo!/ Pouco luminoso está o dia hoje e o céu fecha-se sobre nós./ Nem os montes nem as árvores da floresta se abrem como gostaríamos e o ar repousa, vazio de cânticos. / O dia está sombrio, dormitam as travessas e as vielas e quase me parece atravessarmos um tempo de chumbo...". Elegias. Trad. de Maria Teresa Dias Furtado).
  2. Folha Online, 30 de dezembro de 2008 - AI-5 deu início aos "Anos de Chumbo" da ditadura militar
  3. Pierre Milza Histoire de l'Italie, Fayard, 2006, p. 959-960.
  4. AGAMBEN, Giorgio Do bom uso da memória e do esquecimento In: NEGRI, Toni. Exílio (seguido de valor e afeto). Trad. Renata Cordeiro. São Paulo, Editora Iluminuras Ltda, 2001.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]