António Egas Moniz

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António Egas Moniz Medalha Nobel
Nascimento 29 de novembro de 1874
Vilarinho do Bairro, Avanca, Estarreja, Portugal
Morte 13 de dezembro de 1955 (81 anos)
Lisboa, Portugal
Campo(s) Medicina, neurologia, política, literatura

António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz GCSEGCB (nascido António Caetano de Abreu Freire de Resende; Estarreja, Avanca, Vilarinho do Bairro, 29 de novembro de 1874Lisboa, 13 de dezembro de 1955) foi um médico, neurologista, investigador, professor, político e escritor português.

Responsável pelo desenvolvimento da leucotomia pré-frontal, foi por isso galardoado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1949, partilhado com o fisiologista suíço Walter Rudolf Hess.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Estátua de Egas Moniz, por Euclides Vaz, frente à Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Hospital de Santa Maria.

Nascido António Caetano de Abreu Freire de Resende no seio de uma família aristocrata rural, era filho único de Fernando de Pina de Resende de Abreu Freire (Idanha-a-Nova, Idanha-a-Nova, 15 de abril de 1828 - Lourenço Marques, 29 de março de 1890) e de sua mulher (Estarreja, Salreu, 22 de Junho de 1870) Maria do Rosário de Oliveira de Almeida e Sousa (Anadia, Vilarinho do Bairro, 19 de junho de 1840 - Estarreja, Pardilhó, 19 de novembro de 1896).

O seu tio paterno e padrinho, o padre Caetano de Pina Resende Abreu e Sá Freire, insistiu que adoptasse o apelido Egas Moniz, em virtude de estar convencido de que a família Resende descenderia em linha directa de Egas Moniz, o aio de Dom Afonso Henriques.

Em Lobão da Beira conheceu Elvira de Macedo Dias (Rio de Janeiro, Sacramento, 14 de julho de 1884 - 1965), filha de José Joaquim Dias e de sua mulher Matilde Flora de Macedo, com quem se casou a 7 de fevereiro de 1901, em Canas de Sabugosa. O casal não teve filhos.

A 14 de março de 1939, aos 64 anos, sofreu um atentado no seu consultório, por parte de um doente mental, engenheiro agrónomo de 28 anos, que, no culminar de uma crise de paranóia, o alvejou com oito tiros, dos quais cinco o atingiram na mão direita, no tórax e na coluna vertebral.[1] Foram-lhe retiradas três balas, mas uma ficou alojada na coluna dorsal. Apesar da gravidade dos ferimentos, Egas Moniz recuperou por completo, sem qualquer sequela física, ao contrário do que algumas vezes se tem escrito.[2]

Formação e atividade académica[editar | editar código-fonte]

Completou a instrução primária na Escola do Padre José Ramos, em Pardilhó, e o Curso Liceal no Colégio de S. Fiel, dos Jesuítas, em Louriçal do Campo, concelho de Castelo Branco. Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, onde começou por ser lente substituto, leccionando anatomia e fisiologia. Em 1911 foi transferido para a recém-criada Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa[3] onde foi ocupar a cátedra de neurologia como professor catedrático. Jubilou-se em 1944.

Em 1950 é fundado, no Hospital Júlio de Matos, o Centro de Estudos Egas Moniz, do qual é presidente. O Centro de Estudos é, em 1957] transferido para o serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria onde existe ainda hoje compreendendo, entre outros, o Museu Egas Moniz (onde se encontra uma restituição do seu gabinete de trabalho com as peças originais, vários manuscritos, entre outros).

Egas Moniz contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da medicina ao conseguir pela primeira vez dar visibilidade às artérias do cérebro. A Angiografia Cerebral, que descobriu após longas experiências com raios X, tornou possível localizar neoplasias, aneurismas, hemorragias e outras mal-formações no cérebro humano e abriu novos caminhos para a cirurgia cerebral.

A 5 de Outubro de 1928 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência e a 3 de Março de 1945 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.[4]

Atividade política e literária[editar | editar código-fonte]

Egas Moniz teve também papel ativo na vida política. Foi fundador do Partido Republicano Centrista, dissidência do Partido Evolucionista; apoiou o breve regime de Sidónio Pais, durante o qual exerceu as funções de Embaixador de Portugal em Madrid (1917) e Ministro dos Negócios Estrangeiros (1918); viu entretanto o seu partido fundir-se com o Partido Sidonista. Foi ainda um notável escritor e autor de uma notável obra literária, de onde se destacam as obras "A nossa casa" e "Confidências de um investigador científico". É também autor de um notável ensaio de crítica literária, "Júlio Dinis e a sua obra" (1924), onde demonstra que o escritor Júlio Dinis se inspirou em personagens reais oriundas de Ovar na criação das figuras principais dos seus romances "A Morgadinha dos Canaviais" e "Pupilas do Senhor Reitor". Egas Moniz também escreveu sobre pintura e reuniu uma notável colecção de pintura naturalista, atualmente aberta ao público na Casa-Museu Egas Moniz, em Estarreja, onde se destacam obras de Silva Porto, José Malhoa e Carlos Reis, além de peças de louça, prata e mobiliário de variada proveniência, testemunho o seu grande interesse e apurado gosto pelas artes plásticas e decorativas[5].

Pacientes famosos[editar | editar código-fonte]

Fernando Pessoa, consultou-o em 1907, queixando-se de neurastenia e de medo de enlouquecer, à semelhança de Dionísia, a sua avó paterna. Egas Moniz, não lhe encontrando nada de anormal, recomendou-lhe aulas de ginástica sueca com Luís Furtado Coelho, treinador pessoal do infante D. Manuel. «Para ser cadáver, só me faltava morrer. Em menos de três meses e três lições por semana, Furtado Lima [sic] pôs-me em tal estado de transformação que, diga-se com modéstia, ainda hoje existo - com vantagem para a civilização europeia, não me compete a mim dizer.», diria Pessoa mais tarde.[6]

Também Mário de Sá-Carneiro consultou Egas Moniz, queixando-se de sofrer de desdobramento físico e psicológico. Egas Moniz lembrou-se então de um poema que lera e que descrevia aquele estado. E, surpreendentemente, respondeu-lhe Sá-Carneiro ser ele precisamente o autor desse poema. Egas Moniz confidenciaria a um aluno seu que o poema denotava ter sido escrito por um esquizofrénico.[7]

Obra[editar | editar código-fonte]

Atividade científica[editar | editar código-fonte]

Como investigador, Egas Moniz, contando com a preciosa colaboração de Pedro Almeida Lima, gizou duas técnicas: a leucotomia pré-frontal e a angiografia cerebral. Deve-se ainda a este autor a descrição do trajeto da artéria carótida interna no interior do osso temporal, tomando o mesmo a designação de Sifão carotídeo ou Sifão de Egas Moniz.

Prémio Nobel[editar | editar código-fonte]

António Egas Moniz foi proposto cinco vezes (1928, 1933, 1937, 1944 e 1949) ao Nobel de Fisiologia ou Medicina, sendo galardoado em 1949. A primeira delas acontece alguns meses depois de ter publicado o primeiro artigo sobre a encefalografia arterial e, subsequentemente, ter feito, no Hospital de Necker, em Paris, uma demonstração da técnica encefalográfica. Este imediatismo não era uma coisa absolutamente ridícula pois, na verdade, «a vontade de Alfred Nobel era precisamente a de galardoar trabalhos desenvolvidos no ano anterior ao da atribuição do Prémio».[8]

Controvérsia[editar | editar código-fonte]

A técnica desenvolvida por Egas Moniz foi a leucotomia pré-frontal – correspondente a um corte controlado de ligações na massa branca profunda de ambos os lados do córtex pré-frontal.[9] Embora esta operação seja distinta da denominada lobotomia (a operação concebida por Moniz provocava lesões cerebrais limitadas, ao passo que a lobotomia frontal era normalmente um trabalho de talho que provocava lesões extensas [10]), a verdade é que foi muitas vezes com ela confundida. A lobotomia deixou de ser praticada na década de 1960, após forte controvérsia. Devido à associação que frequentemente era feita entre a lobotomia e o inventor da leucotomia pré-frontal, familiares de pacientes que sofreram aquela intervenção cirúrgica exigiram que fosse anulada a atribuição do Prémio Nobel feita a António Egas Moniz.

Investigadores portugueses colaboradores de Egas Moniz[editar | editar código-fonte]

Publicações[editar | editar código-fonte]

  • Alterações anátomo-patológicas na difteria, Coimbra, 1900.
  • A vida sexual (fisiologia e patologia), 19 edições, Coimbra, 1901.
  • A neurologia na guerra, Lisboa, 1917.
  • Um ano de política, Lisboa, 1920.
  • Júlio Diniz e a sua obra, 6 edições, Lisboa, 1924.
  • O Padre Faria na história do hipnotismo, Lisboa, 1925.
  • Diagnostic des tumeurs cérébrales et épreuve de l'encéphalographie artérielle, Paris, 1931.
  • L'angiographie cérébrale, ses applications et résultats en anatomic, physiologie te clinique, Paris, 1934.
  • Tentatives opératoires dans le traitement de certaines psychoses, Paris, 1936.
  • La leucotomie préfrontale. Traitement chirurgical de certaines psychoses, Turim, 1937.
  • Clinica dell'angiografia cerebrale, Turim, 1938.
  • Die cerebrale Arteriographie und Phlebographie, Berlin, 1940.
  • Ao lado da medicina, Lisboa, 1940.
  • Trombosis y otras obstrucciones de las carótidas, Barcelona, 1941.
  • História das cartas de jogar, Lisboa, 1942.
  • Como cheguei a realizar a leucotomia pré-frontal, Lisboa, 1948.
  • Die präfrontale Leukotomie, Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, 1949.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Autoria de Egas Moniz
Sobre Egas Moniz
Edições comemorativas
  • A revista A Medicina Contemporânea dedica o seu número 12 do ano LXXII (Dezembro de 1954) ao Professor Egas Moniz, em comemoração do seu octogésimo aniversário com vários artigos originais sobre a vida e a obra do homenageado.
  • A revista da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (n.º3, Maio-Junho 2006) publica um conjunto de intervenções a propósito do cinquentenário da morte do Professor Egas Moniz (disponível aqui)
Biografia
  • Antunes, João Lobo. Egas Moniz, Uma Biografia. Lisboa, Gradiva, 2010.
Artigos
  • Barahona Fernandes, Henrique João. Egas Moniz, pioneiro de descobrimentos médicos. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1983
  • Serra, I. & Maia, E. Egas Moniz e a investigação científica. in José Pedro Sousa-Dias (coord.), Estudos sobre a Ciência em homenagem a Ruy E. Pinto. Alemanha: Instituto Rocha Cabral e Shaker Verlag, 2006, pp. 115–128
Homenagens

Referências

  1. Jornal "O Século", de 15-03-1939.
  2. Antunes, João Lobo. Egas Moniz, Uma Biografia. Lisboa, Gradiva, 2010, p. 253
  3. Moniz, António Caetano de Abreu Freire Egas
  4. «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 20 de março de 2016 
  5. Manuel Valente Alves (2014). «Abel Salazar, Egas Moniz e as Duas Culturas.» (PDF). Academia Nacional de Medicina de Portugal. Consultado em 21 de Junho de 2015 
  6. Fernando Pessoa e a ginástica sueca
  7. Coelho, E. Macieira. Da Medicina e das Belas Letras: Mário de Sá-Carneiro, O Poeta, Ele e o Outro, in Acta Médica Portuguesa 2001; 14: 33-42
  8. Correia, Manuel (2006). Egas Moniz e o Prémio Nobel - Enigmas, paradoxos e segredos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. ISBN 9789728704957. Consultado em 20 de novembro de 2014 
  9. Damásio, António (2011). O erro de Descartes - emoção, razão e cérebro humano. Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 92–93 
  10. Damásio, António (2011). O erro de Descartes - emoção, razão e cérebro humano. Lisboa: Círculo de Leitores. 95 páginas 
  11. João Rui Pita (4 de Novembro de 2013 (última atualização)). «Egas Moniz nos Selos Portugueses: o Homem, o Universitário e o Cientista». in Cábula Filatélica N.º 14. Consultado em 14 de Janeiro de 2015  Verifique data em: |data= (ajuda)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Precedido por
Paul Hermann Müller
Nobel de Fisiologia ou Medicina
1949
com Walter Rudolf Hess
Sucedido por
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Carlos Malheiro Dias
Lorbeerkranz.png Sócio correspondente da ABL - cadeira 2
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Reinaldo dos Santos