Antissemitismo

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Antissemitismo é o preconceito , hostilidade ou discriminação contra judeus baseada em ódio contra seu histórico étnico, cultural e/ou religioso.[1] Na sua forma mais extrema, "atribui aos judeus uma posição excepcional entre todas as outras civilizações, difamando-os como um grupo inferior e negando que eles sejam parte da(s) nação(ões) em que residem".[2] A pessoa que defende este ponto de vista é chamada de "antissemita". O antissemitismo é geralmente considerado uma forma de racismo. [3] Também tem sido caracterizada como uma ideologia política que serve como um princípio organizador e une grupos díspares que se opõem ao liberalismo [4]

O antissemitismo é manifestado de diversas formas, indo de expressões individuais de ódio e discriminação contra indivíduos judeus a violentos ataques organizados (pogroms), políticas públicas ou ataques militares contra comunidades judaicas. Entre os casos extremos de perseguição estão a chacina de 1066 em Granada, os massacres na Renânia que precederam a Primeira Cruzada de 1096, o Èdito de Expulsão da Inglaterra em 1290, os massacres dos Judeus espanhóis em 1391, as perseguições das Inquisições Portuguesa e Espanhola, a expulsão da Espanha em 1492, a expulsão de Portugal em 1497, massacres pelos Cossacos na Ucrânia de 1648 a 1657, diversos pogroms no Império Russo entre 1821 e 1906, o Caso Dreyfus em França (1894-1906) e o Holocausto perpetrado pela Alemanha Nazista, políticas oficais anti-judaicas Soviéticas, e o envolvimento árabe e muçulmano no êxodo judaico dos países árabes e muçulmanos.

Embora a etimologia possa sugerir que o antissemitismo é direcionado a todos os povos semitas, o termo foi criado no final do século XIX na Alemanha como uma alternativa estilisticamente científica para Judenhass ("Aversão a judeus"), sendo utilizada amplamente desde então.[5][6]

Etimologia e uso[editar | editar código-fonte]

Uso[editar | editar código-fonte]

Apesar do uso do prefixo anti, os termos semita e antissemita não são diretamente opostos. O antissemitismo refere-se especificamente ao preconceito contra judeus em geral, apesar do fato de existirem outros falantes de idiomas semitas (isto é, árabes, etíopes ou assírios) e de nem todos os judeus empregarem linguagem semita.[7]

O termo antissemita foi utilizado em algumas ocasiões para expressar o ódio a outros povos falantes de idiomas semitas, mas tal utilização não é amplamente aceita.[8][9]

Estudiosos defendem o uso sem hífen do termo antissemitismo para evitar provável confusão a respeito de o termo referir-se especificamente a judeus, ou a falantes de idiomas semitas como um todo.[10][11][12][13] Emil Fackenhiem, por exemplo, apoiou a utilização sem hífen para "repelir a noção de que há todo um 'semitismo' ao qual o 'antissemitismo se opõe".[14]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Considerando a etimologia da palavra, antissemitismo significaria aversão aos semitas - segundo a Bíblia, os descendentes de Sem, filho mais velho de Noé - grupo étnico e linguístico que compreende os hebreus.

Mas, de fato, a palavra antisemitismus foi cunhada, em língua alemã, no século XIX, numa altura em que a ciência racial estava na moda na Alemanha, e foi usada pela primeira vez já com o sentido de aversão aos judeus, pelo jornalista alemão Wilhelm Marr, em 1873, por soar mais "científica" do que Judenhass ("ódio aos judeus"). Há autores (como Gustavo Perednik) que preferem utilizar o termo judeofobia, significando "aversão a tudo o que é judaico".[15] e esse tem sido o uso normal da palavra desde então.[16][17]

Tanto quanto pode ser confirmado, a palavra foi impressa pela primeira vez em 1880. Nesse ano, Marr publicou "Zwanglose Antisemitische Hefte" ("Livros casuais antissemitas") e Wilhelm Scherer usou o termo Antisemiten (antissemitas) no jornal "Neue Freie Presse" de janeiro daquele ano. A palavra relacionada, "semitismo", foi cunhada por volta de 1885

Definição[editar | editar código-fonte]

Embora a definição geral de antissemitismo seja hostilidade ou preconceito contra os judeus e, de acordo com Olaf Blaschke, tenha se tornado um "termo genérico para estereótipos negativos sobre os judeus", [18] várias autoridades desenvolveram definições mais formais.

A professora estudiosa do Holocausto, Helen Fein da Universidade da Cidade de Nova Iorque, define o antissemitismo como "uma estrutura latente persistente de crenças hostis em relação aos Judeus como um coletivo, manifestado em indivíduos como atitudes e na cultura como mito, ideologia, folclore e imagens, e em ações - discriminação legal ou social, mobilização política contra os Judeus e violência coletiva ou estatal - o que resulta em / ou é projetado para distanciar, deslocar ou destruir os Judeus como Judeus".[19]

Elaborando a definição de Fein, Dietz Bering, da Universidade de Colónia, escreve que, para os antissemitas, "os judeus não são apenas parcialmente, mas totalmente maus por natureza, ou seja, os seus maus traços são incorrigíveis. Por causa dessa natureza máː (1) os Judeus têm de ser vistos não como indivíduos, mas como um coletivo. (2) Os Judeus permanecem essencialmente estranhos nas sociedades vizinhas. (3) Os Judeus trazem desastre às suas 'sociedades de acolhimento' ou no mundo inteiro, eles estão a fazer isto em segredo, logo, os antissemitas sentem-se obrigados a desmascarar o conspiratório, mau caráter Judaico. " [20]

Para Sonja Weinberg, distinto do antijudaísmo econômico e religioso, o antissemitismo em sua forma moderna mostra inovação conceitual, um recurso à "ciência" para se defender, novas formas funcionais e diferenças organizacionais. Foi anti-liberal, racialista e nacionalista. Promoveu o mito de que os judeus conspiravam para "judificar" o mundo; serviu para consolidar a identidade social; canalizou as insatisfações entre as vítimas do sistema capitalista; e foi usado como um código cultural conservador para combater a emancipação e o liberalismo. [18]

Bernard Lewis define o anti-semitismo como um caso especial de preconceito, ódio ou perseguição dirigido contra pessoas que são de alguma forma diferentes das demais. Segundo Lewis, o anti-semitismo é marcado por duas características distintas: os judeus são julgados de acordo com um padrão diferente daquele aplicado aos outros, e são acusados ​​de "mal cósmico". Assim, "é perfeitamente possível odiar e até mesmo perseguir os judeus sem necessariamente ser anti-semita" a menos que esse ódio ou perseguição exiba uma das duas características específicas do anti-semitismo. [21]

Em 2005, o Observatório Europeu do Racismo e da Xenofobia (European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia) então uma agência da União Europeia, desenvolveu uma definição mais pormenorizada, que afirma:  "o anti-semitismo é uma certa percepção dos Judeus, que pode ser expressa como ódio para com os Judeus. Manifestações retóricas e físicas do anti-semitismo são dirigidas para indivíduos judeus ou não-judeus e/ou sua propriedade, para instituições comunitárias judaicas e instalações religiosas" e também acrescenta que " tais manifestações também poderiam atingir o Estado de Israel, concebido como uma coletividade judaica," mas que a " crítica de Israel, semelhante à feita contra qualquer outro país, não pode ser considerado como antissemita." A definição também lista os modos de ataque a Israel que poderiam ser antissemitas, e afirma que negar ao povo Judeu o seu direito à auto-determinação, por exemplo, alegando que a existência do estado de Israel é um empreendimento racista, pode ser uma manifestação do antissemitismo - assim como aplicar critérios duplos, exigindo de Israel um comportamento não esperado ou exigido de qualquer outra nação democrática, ou fazendo os judeus coletivamente responsáveis pelas ações do estado de Israel.[22] Esta definição nunca foi oficializada, [23]contudo ganhou uso internacionalː foi adotada pelo Grupo de Trabalho do Parlamento Europeu sobre Anti-semitismo, [24] pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, [25] pela Campanha Contra o Anti-semitismo,[26] e pela International Holocaust Remembrance Alliance, [27] tornando-se a definição mais amplamente adotada de antissemitismo no mundo.

Raízes do antissemitismo[editar | editar código-fonte]

Desenho antissemita de Charles Lucien Léandre, reproduzindo a teoria da conspiração judaica que controlaria o mundo.

Muitos fatores motivaram e fomentaram o antissemitismo, incluindo fatores sociais, econômicos, nacionais, políticos, raciais e religiosos, ou combinações destes fatores.

  • Socioeconômicas, devido à ação de autoridades locais, governantes, e alguns funcionários da igreja que fecharam muitas ocupações aos judeus, permitindo-lhes no entanto as atividades de coletores de impostos e emprestadores, o que sustenta as acusações de que os Judeus praticam a usura.
  • Políticas, através de manifestações contra a existência do Estado de Israel, sendo muito incitado pela religião Islâmica e pelos países árabes .

Um dos grandes propagadores do antissemitismo no século XX foi o regime nazista alemão. Atualmente, o ódio ao judeu frequentemente apoia-se em ideais nazistas, ainda que o pensamento antissemita seja muito mais antigo.

História[editar | editar código-fonte]

Antiguidade[editar | editar código-fonte]

O mais antigo episódio conhecido do que poderiam ser as primeiras manifestações de antissemitismo é o passado em Elefantina, uma pequena ilha no rio Nilo, cerca de 410 AC, onde um grupo de egípcios em revolta contra o domínio persa reduziu a cinzas o templo da comunidade judaica. Contudo, Phyllis Goldstein e outros historiadores pensam que o caso difícilmente se enquadra num "antissemitismo" tal como o concebemos actualmente, antes sendo devido a um choque de culturas e desacordos políticos - os Judeus eram leais aos Persas. [28]

Os primeiros exemplos claros de sentimento antijudaico remontam ao século 3 AC, em Alexandria, [29] o lar da maior comunidade da Diáspora judaica no mundo nessa época e onde a Septuaginta, uma tradução grega da Bíblia hebraica, foi produzida. Manetho, um sacerdote e historiador egípcio da época, escreveu mordazmente sobre os judeus. Seus temas são repetidos nos trabalhos de Chaeremon, Lisímaco, Posidonio, Apollonius Molon, e em Apion e Tácito. Agatárquides de Cnido ridicularizou as práticas dos judeus e o "absurdo de sua Lei", fazendo uma referência trocista  ao facto de  Ptolemeu I Sóter ter sido capaz de invadir Jerusalém em 320 AC porque seus habitantes estavam observando o Sabat. [30]Um dos primeiros editos anti-judaicos, promulgado por Antíoco IV Epifânio , em cerca de 170-167 AC, provocou uma revolta dos Macabeus na Judéia.[31]

Em vista dos escritos antijudaicos de Manetho, o anti-semitismo pode ter-se originado no Egito e espalhou-se pela "recontagem grega dos antigos preconceitos egípcios ".[32] O antigo filósofo judeu Fílon de Alexandria descreve um ataque aos judeus em Alexandria em 38 DC., no qual milhares de judeus morreram. [33] [34]

Idade Média[editar | editar código-fonte]

No final do século VI DC, o recém católico Reino Visigótico na Hispânia emitiu uma série de decretos antijudaicos que proibiam os judeus de se casarem com cristãos, praticar a circuncisão e observar os dias santos judaicos. Continuando ao longo do século VII, tanto os reis visigóticos como a Igreja foram ativos na criação de agressão social e de   "punições cívicas e eclesiásticas " para com os judeus, que variavam entre conversão forçada, escravidão, exílio ou morte. [35] [36] Como resultado, aquando da Invasão muçulmana da Península Ibérica, no século 8, muitos judeus acolheram bem e ajudaram os conquistadores. [37]

O invasor islâmico, classificando embora judeus e cristãos como dhimmis, permitiu que os judeus praticassem sua religião mais livremente do que o poderiam fazer na Europa cristã medieval. Houve uma idade dourada da cultura Judia em Espanha, que durou até pelo menos o século XI.[38] Terminou quando vários pogroms muçulmanos contra os judeus tiveram lugar na Península Ibérica, incluindo aqueles que ocorreram em Córdoba em 1011 e em Granada em 1066.[39][40] [41] Vários decretos que ordenavam a destruição das sinagogas também foram promulgados no Egito, Síria, Iraque e Iêmen do século XI. Além disso, os judeus foram obrigados a se converter ao Islã ou enfrentar a morte em algumas partes do Iêmen, Marrocos e Bagdá várias vezes entre os séculos XII e XVIII. [42]

Os Almóadas, que tinha tomado o controle do Magrebe dos Almorávidas e dos territórios andaluzes cerca de 1147, eram muito mais fundamentalistas em comparação com seus antecessores, e eles trataram os dhimmis severamente. Confrontados com a escolha de morte ou conversão, muitos judeus e cristãos emigraram.[43] [44] alguns, como a família de Maimônides, fugiram para o leste para terras muçulmanas mais tolerantes,[43] enquanto alguns outros foram para o norte para se estabelecerem nos reinos cristãos em crescimento. [45]

Durante a Idade Média na Europa houve perseguição contra os judeus em muitos lugares, com acusações de sacrifícios humanos, expulsões, conversões forçadas e massacres. Uma das principais justificações do preconceito contra os judeus na Europa era religiosa. Marvin Perry e Frederick Schweitzer comentam que segundo os Evangelhos e a sua interpretação de séculos, os Judeus são considerados como "os assassinos de Jesus Cristo", um povo "condenado para sempre a sofrer exílio e degradação" - transformado na própria encarnação do mal.[46]

A perseguição aos Judeus atingiu seu primeiro pico durante as Cruzadas. Na Primeira Cruzada (1096) centenas ou mesmo milhares de judeus foram mortos no trajecto dos cruzados.[47] Muitos cristãos consideraram que os judeus eram também inimigos da Fé. Na Primavera de 1096, cerca de 10 000 cruzados percorreram o vale do Reno em direcção a norte (na direcção oposta a Jerusalém), e iniciaram uma série de pogroms chamados por alguns historiadores de "o primeiro holocausto". Foram massacradas comunidades judaicas em Worms, Espira e Mogúncia. A algumas comunidades era oferecida a escolha da conversão ou da morte. Muitos judeus que se recusavam a converter-se e ouviam as notícias de massacres perto das suas casas cometeram suicídios em massa.[48]

Em 1144, os judeus de Norwich foram acusados de assassínio ritual depois que um menino de cerca de doze anos (Guilherme de Norwich) foi encontrado morto esfaqueado, no que é o caso conhecido mais remoto dos alegados "libelos de sangue" - no entanto nenhum judeu foi incomodado. Thomas of Monmouth, vários anos mais tarde, escreve que Guilherme teria sido torturado e crucificado, e atribui-lhe vários milagres após a morte. [49] De acordo com a lenda, os Judeus matariam anualmente uma criança cristã na Páscoa Judaica, a fim de usar o seu sangue na confecção do matza (pão judaico sem fermento ).[50]

No decorrer dos tempos, e após o caso de Guilherme de Norwich, foram registados vários outros acontecimentos semelhantes , e desta vez com consequências terríveis para as comunidades judaicas: entre eles os de Harold de Gloucester (morto em 1168); Robert of Bury (morto em 1181 ); Werner of Oberwesel (morto em 1287); Andreas Oxner  (morto em 1462) - ; Simão de Trento (morto em 1475 ); e Gabriel de Bialystok (morto em 1690). As crianças, consideradas mártires, foram muitas das vezes santificadas - mas posteriormente os seus cultos foram abolidos, embora Gabriel de Bialystok ainda seja hoje em dia considerado santo pela Igreja Ortodoxa.[51] A lenda dos "libelos de sangue" mantém-se até aos nossos dias.

Na Segunda Cruzada ( em 1147) os judeus na Alemanha foram sujeitos a vários chacinas. Também foram submetidos a ataques das Cruzadas dos Pastores de 1251 e de 1320, bem como aos massacres de Rintfleisch em 1298. As cruzadas foram seguidas por expulsões, incluindo, em 1290, a expulsão de todos os judeus ingleses; em 1394, a expulsão de 100.000 judeus na França; e em 1421, a expulsão de milhares da Áustria. Muitos dos Judeus expulsos fugiram para a Polônia. [52]

Na Europa medieval e renascentista, um dos principais contribuintes para o aprofundamento do sentimento anti-semita e ação legal entre as populações cristãs foi a fervorosa pregação popular da reforma das ordens religiosas, os franciscanos (especialmente Bernardino de Feltre) e dominicanos (especialmente Vincent Ferrer), que percorriam a Europa e promoveram o anti-semitismo através de seus apelos inflamados. [53]

Quando a epidemia de peste negra devastou a Europa em meados do século XIV, causando a morte de uma grande parte da população, os judeus foram usados como bodes expiatórios ; foram acusados de causar a doença, deliberadamente envenenando poços. Centenas de comunidades judaicas foram destruídas em inúmeras perseguições. Embora o Papa Clement VI tentasse protegê-los, emitindo duas bulas papais em 1348, 900 judeus foram queimados vivos em Estrasburgo, ainda a Peste não tinha chegado à cidade.[54]

Em 1478 a Inquisição Espanhola foi estabelecida pelos Reis católicos Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela. . A Inquisição Espanhola , operou na Espanha e em todas as colônias e territórios espanhóis da época, perseguindo principalmente os descendentes de judeus e muçulmanos convertidos, acusados de praticar os seus anteriores credos em segredo. De acordo com estimativas modernas, cerca de 150.000 pessoas foram julgadas ​​por várias ofensas durante os cerca de três séculos (1478-1834) de duração da Inquisição Espanhola, e destes entre 3.000 e 5.000 foram executados. [55]

Muitos judeus vindos de Espanha refugiaram-se em Portugal, mas o caso repetiu-se: em 1496, o rei D. Manuel ordenou a expulsão de todos os judeus ou a sua conversão forçada.[56]

Em 1506 na cidade de Lisboa, durante dias uma multidão perseguiu, torturou e matou na fogueira centenas de judeus convertidos - homens, mulheres e crianças (mais de 4000, segundo o relato contemporâneo de Garcia de Resende ), acusados de heresia. [57][58]

Mais tarde, em 1531. o Rei D. João III pediu licença papal para organizar a Inquisição em Portugal, que acabou por ser concedida pelo Papa Paulo III. A Inquisição Portuguesa, em moldes semelhantes à espanhola, funcionou de 1536 até 1821. O número de vítimas mortais é estimado em cerca de 1500, não considerando, por exemplo, as milhares de mortes em cativeiro. Além da perseguição por heresia, eram julgados também casos de feitiçaria e "costumes depravados". A maior parte das confissões eram obtidas sob severas torturas. [59][60][61]

Idade Moderna[editar | editar código-fonte]

Durante meados do século XVII, a República das Duas Nações (ou Comunidade Polaco-Lituana) foi devastada por vários conflitos, em que a comunidade perdeu mais de um terço de sua população (mais de 3 milhões pessoas), e as perdas judaicas foram contadas em centenas de milhares. O primeiro desses conflitos foi a revolta  de Chmielnicki contra o domínio polaco, (1648-49) quando os partidários de Bogdan Khmelnitski.massacraram dezenas de milhares de judeus nas áreas orientais e meridionais que ele controlava (hoje Ucrânia). O número exato de mortos pode nunca ser conhecido, mas a diminuição da população judaica durante esse período é estimada em 100.000 a 200.000.[62]

Imigrantes europeus para os Estados Unidos (católicos e protestantes) trouxeram o antissemitismo ao país no início do século XVII. Peter Stuyvesant, o governador holandês de Nova Amsterdã, (mais tarde chamada Nova Iorque) fez planos para impedir que os judeus, "essa raça desonesta" , se estabelecessem na cidade. Durante a Era Colonial, eram limitados os direitos políticos e econômicos dos judeus. Mas após a Guerra Revolucionária Americana, os judeus ganharam direitos legais, incluindo a obtenção gradual do direito de voto. Mesmo nos seus piores momentos, contudo, as restrições aos judeus nos Estados Unidos nunca foram tão rigorosas quanto na Europa. [63][64]

Em 1679, sob o domínio de Al-Mahdi Ahmad, os judeus, acusados de violar o seu estatuto de dhimmi, foram expulsos em massa de todas as partes do Iémen para Mawza, seca e estéril, e muitos judeus morreram de fome e doenças como resultado. Até dois terços dos judeus exilados não sobreviveram. Suas casas e propriedades foram confiscadas e muitas sinagogas foram destruídas ou convertidas em mesquitas. Cerca de um ano após a expulsão, os sobreviventes foram autorizados a retornar por razões económicas. No entanto, não puderam voltar para suas antigas casas e a maioria de seus artigos religiosos tinha sido destruída. Foram recolocados em bairros judeus especiais fora das cidades. [65][66]

Em 1744, Frederico II da Prússia, limita Breslau a dez famílias judias "protegidas", sob a alegação de que, do contrário, elas o "transformarão em completa Jerusalém". Ele encoraja essa prática em outras cidades da Prússia. Em 1750, ele publica Revidiertes General Privilegium und Reglement vor die Judenschaft, que determina que os judeus "protegidos" tinham a alternativa de "abster-se do casamento ou deixar Berlim" [67][68][69]

A Imperatriz Maria Teresa da Áustria,  vista pelos historiadores como talvez a monarca  mais antijudaica do século XVIII, quis  expulsar em 1744 os judeus de Praga e, em seguida, de toda a Boémia, declarando sobre eles: "Eu não conheço maior praga do que essa raça, que por conta de sua falsidade, usura e avareza está a levar os meus súbditos à mendicância" [70]

Em 1772, a imperatriz da Rússia Catarina II forçou os judeus a entrar numa zona de assentamento especial ( Pale of Settlement) , localizada nas actuais Polônia, Ucrânia e Bielorússia - e permanecer em seus shtetls e proibiu-os de retornar às cidades que ocupavam antes da partição da Polónia. Mais tarde (após 1804) seriam banidos das aldeias e começaram a ingressar nas cidades. [71][72]

O filósofo Voltaire, apesar do seu importante papel na defesa da Liberdade, chama o povo judeu , no seu Dicionário Filosófico (Dictionnaire philosophique), "ignorante", "bárbaro" e cheio de superstições. Ao mesmo tempo, também criticou os que os perseguiam , dizendo: "mesmo assim, não devemos queimá-los na fogueira" . O escritor judeu Isaac de Pinto, indignado, escreveu-lhe uma carta aberta, lamentando os "horríveis preconceitos " aprovados pelo "maior dos génios da mais iluminada época". Voltaire respondeu desculpando-se por ter estereotipado todos os judeus, mas a sua opinião em geral sobre eles parece não se ter alterado.[73]

Martinho Lutero, monge e professor de teologia germânico , uma das figuras principais da Reforma Protestante, publicou em 1543 um pequeno livro, "Sobre os Judeus e as suas Mentiras" onde fez violentos ataques aos judeus, que segundo a sua opinião, deveriam ser expulsos da Alemanha, despojados de todos os seus bens, incendiadas suas sinagogas e escolas, suas casas derrubadas e destruídas (…) ; e afirmou ainda que "estamos em falta por não os matar" [74]

Idade Contemporânea[editar | editar código-fonte]

Em 1790, Iázide , Sultão de Marrocos, subindo ao poder, ordenou a destruição total do bairro judeu de Tetuão. Os seus exércitos saquearam, mataram e violaram. As comunidades de Larache, Arzila, Alcácer-Quibir, Taza, Fez e Meknès sofreram o mesmo destino.Todos os judeus que tinham servido ao anterior Sultão foram pendurados pelos pés nos portões de Meknés, onde permaneceram até morrer. Alguns notáveis e povo muçulmanos, porém , intervieram em favor dos judeus, escondendo muitos em suas casas e salvando muitos outros. Outras atrocidades se seguiram. Pouco antes de morrer como resultado de uma ferida recebida em uma batalha perto de Marraquexe, Al Iázide ordenou a elaboração de longas listas de notáveis ​​judeus e muçulmanos em Fez, Meknès e Mogador que seriam executados - no entanto morreu antes da ordem ser realizada.[75][76]

O historiador Martin Gilbert escreve que foi no século XIX que a posição dos judeus se agravou nos países muçulmanos. Benny Morris escreve que um símbolo da degradação judaica foi o fenômeno do apedrejamento de judeus por crianças muçulmanas. Morris cita um viajante do século 19: "Eu vi um rapazinho de seis anos de idade, com uma tropa de crianças gordas de apenas três e quatro anos, ensinando-as a atirar pedras contra um judeu, e um pequeno menino, com a maior frieza, ir até ao homem e, literalmente, cuspir na sua gabardine. A tudo isso, o judeu é obrigado a submeter-se, seria mais do que sua vida valia atacar um maometano. " [77]

Em meados do século 19, J.J. Benjamin escreveu sobre a vida dos judeus persas, descrevendo as condições e crenças que remontam ao século 16: "... eles são obrigados a viver em uma parte separada da cidade ... Sob o pretexto de serem impuros, eles são tratados com a maior severidade e se entrarem numa rua, habitada por muçulmanos, eles são atingidos pelos meninos e multidões com pedras e lixo.... " [78]

Contudo, pelo menos em Jerusalém, as condições para alguns judeus melhoravam. Moses Montefiore, em sua sétima visita em 1875, observou que novos e belos edifícios haviam surgido e; "certamente estamos nos aproximando do tempo de testemunhar a promessa santificada de Deus para Sião". Árabes muçulmanos e cristãos participavam da festa de Purim e da Páscoa; os árabes tratavam os judeus de "filhos dos árabes"; os Ulema e os Rabinos ofereciam orações conjuntas por chuva em tempo de seca. [79]

Em 1894, uma empregada de limpeza francesa descobriu um documento na embaixada alemã em Paris, que entregou aos serviços secretos. O documento ou memorando listava segredos militares franceses que o autor estava disposto a vender à Alemanha. O Capitão Alfred Dreyfus, um oficial judeu, foi considerado o principal suspeito, e apesar da fraqueza de provas, condenado a prisão perpétua na Ilha do Diabo.

Em 13 de Janeiro de 1898, o famoso romancista Emile Zola, escreve uma carta aberta ao Presidente da França, a toda a primeira página do jornal L'Aurore com o título a letras gordas: “J’Accuse!” (“Acuso!”). Zola acusava o governo francês e o Exército de conspirar para condenar Dreyfus. De facto, o verdadeiro culpado era o Major Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, que mais tarde fugiria para a Inglaterra, onde viveria tranquilo o resto dos seus dias.

As acusações de Zola e a resposta do governo (que o processou) moveram milhares de pessoas para a controvérsia. Aqueles que discordavam das conclusões de Zola foram para as ruas, onde atacaram empresas judaicas, sinagogas e lares — incluindo a residência de Dreyfus. Houve tumultos contra os judeus em cerca de 70 cidades.

Em 1899, as evidências da inocência de Dreyfus possibilitaram um segundo julgamento, que o condenou novamente. A 19 de Setembro de 1899 é amnistiado apesar de continuar a ser considerado culpado. O tribunal não declarou Dreyfus inocente até 1906 - doze anos após sua primeira condenação. Só então ele foi reintegrado no exército.

O caso Dreyfus mudou a forma como muitos judeus na Europa Ocidental se viam a si próprios e aos outros . Em 1894, Theodore Herzl, então um repórter de um jornal austríaco, cobriu a cerimónia militar em que Dreyfus foi degradado. Embora Herzl tenha reconhecido a força do anti-semitismo muito antes do caso Dreyfus, este fortaleceu seus pontos de vista. Herzl propunha uma solução: a criação de um Estado Judaico, já que os judeus eram persehguidos em toda a parte.[80]

Na então República de Weimar, sobe ao poder, em Janeiro de 1933, Adolf Hitler, após um terço da população alemã ter votado a favor do partido nazi. Hitler começou imediatamente a pôr em prática as ideias que já tinha exposto no livro Mein Kampf - "purificar" a nação dos seus elementos judaicos. Na "Noite dos Cristais" em 9 de Novembro de 1938, dá-se a expropriação e destruição de bens e propriedades judaicas e o primeiro encarceramento em massa (cerca de 30000) de judeus. `Durante o domínio nazi, é levada a cabo a Solução Final - a eliminação sistemática da população judaica, na Alemanha e nos países conquistados. Cerca de seis milhões de judeus - e também ciganos, comunistas, socialistas, católicos, homossexuais, testemunhas de Jeová e, de um modo geral, todos os opositores, foram executados até ao fim da Segunda Guerra Mundial.[81] Uma pesquisa iniciado em 2000 por Geoffrey Megargee e Martin Dean para o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, estimou em 2013 que 15 a 20 milhões de pessoas, no total, morreram ou foram aprisionadas nos milhares de campos e guetos identificados até ao momento.[82]

O antissemitismo contemporâneo[editar | editar código-fonte]

O antissemitismo nunca foi tão forte quanto na Idade Contemporânea, sendo que ele foi racionalizado para ser uma função exclusiva do Estado[83] e por outro lado nunca foi tão escondido.[carece de fontes?] Hoje o mundo passa por uma conscientização coletiva sobre todos os tipos de preconceito existentes e o espaço para o antissemitismo ficou escasso e vergonhosos para quem o usa. Os judeus tem sido comparados a germes de doenças infecciosas transmissíveis por Hitler tais quais os bacilos da tuberculose.[84] Por isso, além de suas formas clássicas, ele se apresenta em nossos tempos de duas novas formas. O Retroativo e o Descaracterizado.

  • Retroativo - Forma de usar o próprio antissemitismo para atacar o povo judeu, acusando-o de criar ou usar o antissemitismo para causar mal aos outros, criando assim um ambiente propicio para desenvolver o ódio aos judeus sem culpa.

Exemplo: Negacionismo (Acusar os judeus de criar sua própria perseguição no holocausto ou em outros eventos, com o propósito de dominar o mundo).

Filmografia[editar | editar código-fonte]

No documentário Defamation (em em português: Difamação),[85] [86] [87]o cineasta judeu israelense Yoav Shamir apresenta uma visão crítica acerca do antissemitismo, que tem servido como bandeira para certos grupos oriundos das comunidades judaicas dos Estados Unidos, frequentemente aliados aos interesses da extrema direita israelense. Para desfrutar de certos poderes e privilégios ou para justificar ações do Estado de Israel contra a população palestina, esses grupos precisariam manter vivo o antissemitismo, seja como um perigo real, seja como ameaça imaginária. Segundo o documentário, muitos judeus, religiosos ou não, não concordam com a manipulação do sofrimento de seus antepassados em benefício desses grupos de influência.[88]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Definition of anti-Semitism». Merriam-Webster Dictionary. Consultado em 14 de Junho de 2018. 
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Ligações externas[editar | editar código-fonte]