Apelo à natureza

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Um apelo à natureza é um tipo de argumento que depende de uma certa compreensão da natureza como base de raciocínio do argumento. Apelar à natureza em um argumento é argumentar a partir de uma ou mais premissas implicadas pelo conceito de natureza.

A expressão "apelar à natureza" pode referir-se a um argumento individual ou a um conjunto de argumentos que envolve certos entendimentos ou opiniões sobre a natureza.

Origens[editar | editar código-fonte]

O significado e importância de vários entendimentos e conceitos de "natureza" têm sido assunto de discussão contínua e historicamente, na ciência e na filosofia. Na Grécia Antiga, "as regras da natureza não eram [simplesmente] consideradas como descrições generalizadas do que realmente acontece no mundo natural... mas como normas que as pessoas deveriam seguir... Assim, o apelo à natureza tendeu ao significado de apelo à natureza do homem, tratada como uma fonte de normas de conduta. Para os gregos, isso representou uma observação e exploração consciente em uma área onde, de acordo com sua tradição e pensamento, está a verdadeira fonte de normas de conduta."[1]

Filósofos como São Tomás de Aquino afirmavam que o "bem" era um processo de atualização onde o princípio formal de um objeto natural completava sua causa final (propósito) de tal modo que o propósito de uma árvore é desenvolver outra árvore ou o de uma bola quicante é quicar. O princípio formal, para Aquino, era definido por Aristóteles, como "aquilo que faz de uma coisa o que ela é." Assim, a fonte de poder para chegar aos fins de todos os objetos naturais encontra-se na causa formal do objeto.

Desenvolvimentos modernos[editar | editar código-fonte]

Nos tempos modernos, filósofos tem desafiado a noção de que o estado de natural dos seres humanos deveria determinar ou ditar sua existência normativa. Por exemplo, Rousseau sugeriu, famosamente, que "nós não sabemos o que nossa natureza nos permite ser."[2] Mais recentemente, Nikolas Kompridis aplicou o axioma de Rousseau em debates sobre intervenção genética (ou outros tipos de intervenção) na base biológica da vida humana, escrevendo:

Existe um domínio de liberdade humana não ditado pela nossa natureza biológica, mas [isso] é um pouco enervante, porque deixa desconfortavelmente aberto a que tipo de seres os seres humanos poderiam tornar-se... Colocando de outro modo: o que estamos preparados a permitir que nossa natureza seja? E sobre qual base deveríamos dar nossa permissão?

Nikolas Kompridis escreveu que a visão naturalista das coisas vivas, articulada por um cientista como "máquinas cujos componentes são bioquímicos" [3] Rodney Brooks ameaça fazer de um entendimento normativo do ser humano, o único entendimento possível. Ele escreveu, "quando nos consideramos 'máquinas cujos componentes são bioquímicos', não só presumimos saber o que nossa natureza nos permite ser, mas também que esse saber nos permite responder a questão de o que tornar-se-á a partir de nós... Essa não é uma questão que deveríamos responder, mas sim uma questão para qual devemos nos manter abertos." [4]

Filósofos como Jacques Derrida e Bruno Latour, também questionaram compreensões herdadas sobre a natureza em suas obras.

Argumento racional[editar | editar código-fonte]

Opiniões diferem a respeito do apelo à natureza em argumentativa racional. Às vezes, pode ser considerado como uma regra de polegar, que admite algumas exceções, mas mesmo assim prova-se útil em um ou mais assuntos específicos (ou em geral).

Um apelo à natureza pode, às vezes, ser considerado uma falácia de relevância, que rejeita a alegação de que algo é bom ou certo porque é natural, ou que algo é mal ou errado porque não é natural ou é artificial. Nesse tipo de falácia informal[5] , "natureza" implica um estado desejável ou ideal de ser[6] , um estado de como as coisas são ou deveriam ser: nesse sentido, um apelo à natureza lembra um apelo à tradição.

Forma geral desse tipo de argumento:[7]

N é natural.
Logo, N é bom ou correto.
A é artificial.
Logo, A é mal ou errado.

Em alguns contextos, os significados de "natureza" e "natural" podem ser vagos, levando a associações não intencionais com outros conceitos. A palavra "natural" pode também ser um termo carregado, assim como a palavra "normal", em alguns contextos, pode carregar um julgamento de valor implícito. Um apelo à natureza seria, assim, uma falácia de petição de princípio, porque a conclusão é logicamente acarretada pela premissa.[7]

O cético Julian Baggini argumenta: "Mesmo que pudéssemos concordar que algumas coisas são naturais e outras não, o que se segue disso? A resposta é: nada. Não há razão factual para supor que o que é natural é bom (ou ao menos, melhor) e o que não é natural é ruim (ou pelo menos, pior)."[8]

Muitas agências distinguem entre casos naturais e não naturais, a USFDA, por exemplo, afirma que "Ingredientes naturais são derivados de fontes naturais... Outros ingredientes não são encontrados na natureza e logo devem ser sinteticamente produzidos como ingredientes artificiais."[9] Também afirma que sob seus regulamentos, "ingredientes alimentícios estão sujeitos aos mesmos padrões estritos de segurança independentemente de serem derivados natural ou artificialmente."

Argumentos similares[editar | editar código-fonte]

Em 1903, no Principia Ethica, de G.E. Moore, Moore discute outro conceito notável que ele chama de falácia naturalista, e alega que na ética, muitos apelos à natureza são feitos sem definir-se o que supostamente é bom sobre a natureza ou propriedades naturais, apenas assumindo que são boas. ' A formulação de Moore da falácia naturalista pode ser problemática, parcialmente porque, segundo sua própria descrição, Moore estava falando sobre uma forma de reducionismo que pode ser encontrada em muitas perspectivas filosóficas, não apenas em argumentos naturalistas.[10] [11]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Saunders, Jason Lewis (26 de outubro de 2008). "Western Philosophical Schools and Doctrines: Ancient and Medieval Schools: Sophists: Particular Doctrines: Theoretical issues (Doutrinas e Escolas Filosóficas Ocidentais: Escolas Antigas e Medievais: Sofistas: Doutrinas Particulares: Problemas Teóricos)". Encyclopaedia Britannica. Consultado em 7 de fevereiro de 2011. 
  2. Jean-Jacques Rousseau, Emile: or, On education, USA: Basic Books, 1979, 62
  3. “The current scientific view of living things is that they are machines whose components are biochemicals.” Rodney Brooks, "The relationship between matter and life", Nature 409 (2010), 410.
  4. Nikolas Kompridis, "Technology's Challenge to Democracy: What of the Human?", Parrhesia Number 8 (2009), 23-31.
  5. Groarke, Leo (2008). "Informal Logic". Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2008).  “[... 3. Fallacy Theory ...] Early work in informal logic does not favour a systematic attempt to assess the strength and properties of good deductive, inductive, conductive, etc. arguments. Instead, it favours fallacies as a tool in the analysis of informal reasoning. According to traditional accounts, a fallacy is a pattern of poor reasoning which appears to be (and in this sense mimics) a pattern of good reasoning (see Hansen [2002]). Such accounts are problematic, especially because it is difficult to identify when poor reasoning "appears" to be good. What "appears good" to one person may not appear so to another. In assessing ordinary arguments, most contemporary commentators avoid such issues by understanding fallacies more simply, as common patterns of poor reasoning which can usefully be identified in the evaluation of informal reasoning.” 
  6. Woman's rights and duties considered with relation to their influence on society and on her own condition, by a woman. London: John W. Parker, 1840. p. 6. vol. Vol. I.
  7. a b Curtis, Gary N. (15 de novembro de 2010). Fallacy Files — Appeal to Nature. fallacyfiles.org. Página visitada em 13 de fevereiro de 2011.
  8. Baggini, Julian. Making sense: philosophy behind the headlines. [S.l.]: Oxford University Press, 2004. 181–182 p. ISBN 978-0-19-280506-5
  9. http://www.fda.gov/food/foodingredientspackaging/ucm094211.htm#qanatural
  10. http://plato.stanford.edu/entries/moral-non-naturalism/#NatFal
  11. http://www.iep.utm.edu/fallacy/#Naturalistic

Links externos[editar | editar código-fonte]