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Artes marciais brasileiras

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Artes marciais brasileiras referem-se a diversas formas de combate desenvolvidas ou adaptadas no Brasil, incluindo lutas tradicionais indígenas, como o huka-huka e o RáRá; expressões afro-brasileiras, como a capoeira e o maculelê. O país também se destacou por confrontos entre diferentes estilos de luta e pelo desenvolvimento de estilos de grappling (luta agarrada), como o jiu-jitsu brasileiro e a luta livre esportiva, por décadas vistos como concorrentes, esses eventos e essas duas artes deram origem ao vale-tudo e foram fundamentais na formação das artes marciais mistas (MMA), hoje um fenômeno global de entretenimento. Tanto vale-tudo quanto MMA designam formas híbridas de arte marcial e os eventos esportivos em que esses estilos se enfrentam, representando a fusão entre tradição marcial e espetáculo contemporâneo, e destacando a forte influência brasileira nesse cenário.

Origem e diversidade

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O Brasil é um país de grande diversidade étnica e cultural, o que se reflete na variedade das manifestações de práticas corporais de modo geral e nas de lutas, artes marciais e esportes de combate de forma específica. Muitas dessas práticas se desenvolveram em comunidades indígenas ou afrodescendentes, como expressões de resistência,[1] identidade e sociabilidade.[2]

Principais artes marciais brasileiras

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San Salvador, Bahia, 1835, by Rugendas

Originada nas comunidades afrodescendentes durante o período colonial, por pessoas escravizadas, a capoeira combina elementos de luta, dança, música e jogo. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade,[3] essa manifestação expressa resistência e identidade cultural. Acredita-se que a capoeira evoluiu no Brasil a partir de uma arte marcial tradicional angolana chamada engolo, que foi introduzida no Brasil por negros escravizados de Angola. Na década de 1950, o artista angolano Albano Neves e Sousa observou semelhanças entre a capoeira e o engolo, uma conexão que passou a ser considerada por muitos estudiosos desde então, embora ainda não haja um consenso entre os pesquisadores.[4][5]

Jiu-jitsu brasileiro

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Torneio de jiu-jitsu brasileiro realizado na Argentina em 2018.

Apesar de levar o nome jiu-jitsu, a modalidade conhecida como jiu-jitsu brasileiro difere do tradicional ju-jutsu japonês. Desenvolvido no Brasil por mestres como Hélio Gracie, Carlos Gracie, Luiz França [6] e Oswaldo Fadda,[6] o estilo nacional tem ênfase no combate no solo e no uso de alavancas.[7] A influência veio do judô, na época ainda conhecido como "Kano jiu-jitsu", por meio de Mitsuyo Maeda, aluno do fundador Jigoro Kano, que treinou Carlos Gracie e contribuiu para a formação do estilo que se tornaria o jiu-jitsu brasileiro.[8] A arte marcial desenvolvida pela família Gracie no início do século XX tornou-se uma das formas mais praticadas de jiu-jitsu no mundo, superada apenas pelo próprio judô em difusão.

Vale-tudo

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Quadro de uma tira publicada na revista O Malho em 1909, mostrando Ciríaco contra Sada Miyako. Arte de Alfredo Storni. Renzo Gracie (em branco) chuta a cabeça do lutador de luta livre Eugênio Tadeu, golpe conhecido como Tiro de Meta no evento de vale-tudo Pentagon Combat em 1997.

Forma de combate com poucas restrições e sem regras rígidas, o termo vale-tudo surgiu nos anos 1920 em espetáculos de circo,[9][10] No entanto, há registros de desafios anteriores: em 1909, o capoerista Francisco da Silva Ciríaco derrotou o lutador de jiu-jitsu japonês Sada Miyako, em um dos primeiros confrontos documentados desse tipo no Brasil.[11] Fortemente influenciado pelo jiu-jitsu desenvolvido pela família Gracie.[12] Conhecido nos Estados Unidos como No Holds Barred (NHB), o vale-tudo é um esporte de combate desarmado e de contato total, com regras bastante reduzidas. Além disso, o termo "vale-tudo" também passou a ser usado para se referir a formas híbridas de artes marciais,[13] que podiam incluir desde o jiu-jitsu e o boxe até a própria capoeira.[14] Tornou-se popular no Brasil ao longo do século XX e eventualmente evoluiu para as artes marciais mistas (MMA), que organizam essas lutas em eventos com regras mais definidas,[15] mas ainda mantendo o caráter híbrido e competitivo das origens,[16] MMA é também entendido como uma arte marcial híbrida, pois combina técnicas de diversas modalidades, formando um sistema de combate completo e adaptável.

Luta livre esportiva

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A luta livre esportiva é um estilo de combate inspirado no catch wrestling, criado nos anos 1920 por Euclydes Hatem, conhecido como mestre Tatu. A modalidade rivalizou com o jiu-jitsu Gracie, tendo como marcos a vitória de Tatu sobre George Gracie em 1942[17] e, em 1968, o triunfo de Euclides Pereira sobre Carlson Gracie.[18]

A luta livre esportiva não deve ser confundida com a luta livre profissional, que apresentava lutas coreografadas e teatrais, popularizadas pelo programa Telecatch da TV Excelsior Rio de Janeiro nos anos 1960.[19] esse formato foi fortemente influenciado por shows de entretenimento dos Estados Unidos e pela estética dos mascarados da lucha libre mexicana.[20][21] Por isso, é comum o uso do termo telecatch para se referir a essa vertente mais performática.[22] Assim como o jiu-jitsu Gracie, a luta livre esportiva é vista como uma das inspirações do vale-tudo e uma das baseas do moderno MMA.[23][24] Embora a luta profissional tenha sido alvo de críticas em décadas passadas por seu caráter encenado,[25] atualmente há uma crescente migração de artistas entre modalidade, com lutadores do MMA participando de shows de luta profissional e,[26] em alguns casos, lutadores de luta profissional migrando para o UFC e eventos de combate real.[27]

Huka-huka

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Prática corporal tradicional do povo Yawalapiti, realizada em rituais do Alto Xingu. Envolve o combate físico entre dois homens, como forma de competição simbólica.[28][29]

Forma de luta tradicional dos Kaingang, associada a ritos de passagem e identidade social. O RáRá tem valor educativo e simbólico na cosmologia do povo.

Luta marajoara

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Prática corporal tradicional do arquipélago do Marajó, no estado do Pará, a luta marajoara é um estilo de combate corpo a corpo com raízes nas culturas indígenas da região, posteriormente influenciado por elementos africanos e europeus. Realizada em festividades populares e rituais comunitários, ela combina força, técnica e teatralidade. Seu formato competitivo segue regras específicas de desequilíbrio do oponente, e a prática é considerada um símbolo de identidade cultural marajoara, transmitido entre gerações como forma de valorização da tradição local.[30]

Características comuns

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  • Ênfase em resistência física e disciplina;
  • Variação entre práticas ritualísticas e esportivas;
  • Fortes vínculos com identidade cultural e etnicidade;
  • Transmissão intergeracional oral e prática.

Diferenças com artes marciais estrangeiras

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Enquanto muitas artes marciais orientais se desenvolveram com forte influência filosófica e institucional, no Brasil muitas práticas surgiram em contextos de resistência cultural, como o quilombo, a aldeia ou o terreiro, envolvendo elementos religiosos, festivos e políticos.

Reconhecimento, institucionalização e ensino

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Algumas artes marciais brasileiras já são reconhecidas oficialmente por entidades esportivas[31][32] e educacionais.[3] Outras, como o RáRá[2]e o huka-huka, permanecem como práticas tradicionais em comunidades específicas, embora estejam sendo progressivamente incorporadas em programas escolares e pesquisas acadêmicas.

No contexto educacional, as artes marciais brasileiras são mencionadas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como dois objetos de conhecimento: lutas de matriz indígena e lutas do Brasil. Esses conteúdos integram a unidade temática “lutas”, proposta para ser abordada nas séries finais da educação básica, contribuindo para o reconhecimento e valorização dessas manifestações culturais no ambiente escolar.[33]

Referências

  1. SOARES, Carlos Eugênio Líbano (2004). Capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808 - 1850). Unicamp: Editora da Unicamp
  2. 1 2 Juvêncio, Nosá Ferreira; Rodrigues, Isabel Cristina; Junior, Carlos Herold (22 de maio de 2025). «Valores históricos e culturais da luta tradicional RáRá do povo Kanhgág». Revista Territorial (ISSN 2317-0360): 281–310. ISSN 2317-0360. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 22 de fevereiro de 2026
  3. 1 2 «Roda de Capoeira é mais novo Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade». 26 de novembro de 2014. Cópia arquivada em 6 de março de 2026
  4. Matthias Röhrig Assunção e Mestre Cobra Mansa (março de 2008). «Elo Perdido». Sociedade Amigos da Biblioteca Nacional. Revista de História da Biblioteca Nacional
  5. Assunção, Matthias Röhrig (16 de novembro de 2020). «Engolo e capoeira. Jogos de combate étnicos e diaspóricos no Atlântico Sul». Tempo: 522–556. ISSN 1413-7704. doi:10.1590/TEM-1980-542X2020v260302. Consultado em 5 de junho de 2025
  6. 1 2 «Oswaldo Fadda» (em inglês). BJJ Heroes. Consultado em 29 de julho de 2026. Cópia arquivada em 22 de julho de 2026
  7. Gracie, Renzo; Danaher, John (2003). Mastering Jujitsu (em inglês). Champaign: Human Kinetics. ISBN 0-7360-4404-3
  8. «A história do jiu-jítsu brasileiro». Folha de S. Paulo. Consultado em 5 de junho de 2025
  9. «A história do MMA e vale-tudo pré-boom do UFC | Graciemag». www.graciemag.com. 16 de novembro de 2016. Consultado em 5 de junho de 2025
  10. «Jiu Jitsu». Time. 24 de setembro de 1928. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 15 de outubro de 2007
  11. Silva, Marcelo Moraes e (26 de fevereiro de 2024). «A construção de um improvável herói esportivo: o capoeira Cyriaco (1909-1925)». Tempo: e300104. ISSN 1413-7704. doi:10.1590/TEM-1980-542X2024v300104. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2024
  12. GRACIE, Reila (2008). Carlos Gracie: o criador de uma dinastia. Rio de Janeiro: Record
  13. PVT (12 de setembro de 2019). «Marco Ruas relembra o surgimento do nome Ruas Vale-Tudo no UFC 7». Portal do Vale Tudo. Consultado em 6 de janeiro de 2022
  14. «Área de Luta: o uso da capoeira nos combates». sportv.com. 12 de maio de 2011. Consultado em 10 de junho de 2025
  15. «wnyt.com - Ultimate Fighting wants to come to NY». web.archive.org. 9 de maio de 2008. Consultado em 31 de março de 2023
  16. Guterman, Tulio. «Influência do Vale-Tudo nos atletas atuais de MMA». www.efdeportes.com. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 13 de setembro de 2017
  17. «CBLLE - Confederação Brasileira de luta livre Esportiva». Cópia arquivada em 13 de maio de 2026
  18. Snowden, Jonathan; Shields, Kendall (novembro de 2010). The MMA Encyclopedia (em inglês). [S.l.]: ECW Press. Consultado em 10 de junho de 2025. Cópia arquivada em 9 de julho de 2025
  19. Garcia, Roosevelt (31 de março de 2017). «TeleCatch, o MMA das antigas». Veja São Paulo. Consultado em 5 de junho de 2025
  20. Russio, Marcelo; Albuquerque, Adriano; Rodrigues, Evelyn; Bianchi, Léo (14 de novembro de 2014). «Tradicional no México, a "lucha libre" tem um misterioso ídolo brasileiro». SporTV. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 10 de junho de 2025
  21. «Fantomas e Múmia fizeram luta histórica». Folha de S.Paulo. 8 de maio de 2000. Cópia arquivada em 7 de junho de 2025
  22. «Estrela do MMA migra para telecatch em busca de mais dinheiro e audiência». Folha de S.Paulo. 17 de novembro de 2018. Consultado em 7 de junho de 2025
  23. «Em meio a pedidos, livro 'Biomecânica da Luta' de Roberto Leitão tem segunda edição confirmada». TATAME. 16 de maio de 2025. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 23 de junho de 2025
  24. «Roberto Leitão lembra polêmica com Carlson Gracie: "Não levou o braço"». SportTV. 8 de outubro de 2014. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 22 de fevereiro de 2025
  25. «Gracie se diz preocupado com falsos lutadores que prejudicam o jiu-jitsu». Jornal do Brasil. 17 de junho de 1971
  26. «Fora do UFC desde março, Junior Cigano estreia em liga de telecatch nos EUA». ge. 8 de outubro de 2021. Consultado em 15 de junho de 2025. Cópia arquivada em 15 de junho de 2025
  27. «Tudo combinado? : Lutadores com passagem pelo UFC que também tiveram aparições no telecatch». www.uol.com.br. Consultado em 15 de junho de 2025. Cópia arquivada em 15 de junho de 2025
  28. Valente, Francisco Luís Auricélio; Goveia, Jean Carlos de; Pinto, Guilherme Moreira Caetano; Vargas, Leandro Martinez (6 de junho de 2022). «Estudo sobre Huka-huka: uma luta de matriz indígena brasileira». Caderno de Educação Física e Esporte: e–28608. ISSN 2318-5090. doi:10.36453/cefe.2022.28608. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 30 de abril de 2025
  29. «História do Huka-huka». Ministério da Cultura. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 14 de março de 2026
  30. Campos, Italo Sergio Lopes; Antunes, Marcelo Moreira (20 de outubro de 2021). «LUTA MARAJOARA: DIÁLOGOS COM O ESPORTE, SAÚDE E EDUCAÇÃO». Cenas Educacionais: e11870–e11870. ISSN 2595-4881. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 1 de julho de 2026
  31. «Confederação de Capoeira Desporto do Brasil – CCDB – Confederação de Capoeira Desporto do Brasil». Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 18 de maio de 2026
  32. «CBJJ | Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu». CBJJ | Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 1 de julho de 2026
  33. Santos, Leandro; Vargas, Fátima M. Flôres de; Justamand, Michel (26 de outubro de 2021). «LUTA CORPORAL INDÍGENA: CONTRIBUIÇÕES À BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC)». Somanlu: Revista de Estudos Amazônicos (2): 55–63. ISSN 2316-4123. Consultado em 5 de junho de 2025. Cópia arquivada em 13 de fevereiro de 2026