Artur Carlos de Barros Basto

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Artur Carlos de Barros Basto
Abraham Israel Ben-Rosh
Barros Basto
Conhecido(a) por Dreyfus Português
Nascimento 18 de dezembro de 1887
Amarante
Morte 8 de março de 1961 (73 anos)
Porto
Nacionalidade Portugal Português
Cônjuge Lea Israel Montero Azancot
Ocupação Militar, Escritor, Líder Judaico
Principais trabalhos Herói da Primeira Guerra Mundial, Criação da Comunidade Israelita do Porto, Edificação da Sinagoga Kadoorie, Ajuda no retorno dos criptojudeus ao Judaísmo, Ajuda aos refugiados judeus na Segunda Guerra Mundial, Fundou e dirigiu o jornal Ha-Lapid
Serviço militar
Patente Capitão do Exército
Religião Judaísmo

Artur Carlos de Barros Basto OCOA (nome Hebreu: Abraham Israel Ben-Rosh) (Amarante, 18 de Dezembro de 1887 - Porto, 8 de Março de 1961) foi um militar de carreira, mas também um escritor e um filósofo que publicou várias obras relacionadas com o Judaísmo. Foi um importante líder judaico e impulsionador da criação da comunidade Judaica do Porto, cujo nome oficial é Comunidade Israelita do Porto e da edificação da Sinagoga Kadoorie. Ajudou ao retorno dos criptojudeus ao Judaísmo e os refugiados judeus na Segunda Guerra Mundial.

Vida e Obra[editar | editar código-fonte]

Quando ainda jovem, Barros Basto soube por via de seu avô, quando este se encontrava no leito de morte, que tinha antepassados Judeus. A sua família já não mantinha os preceitos judaicos e este apenas teve conhecimento da existência de Judeus em Portugal em 1904 quando leu um artigo de jornal, referente à inauguração da sinagoga Shaaré Tikva, em Lisboa.

Anos mais tarde, iniciou a sua vida militar e, quando o exército o mandou frequentar um curso na Escola Politécnica de Lisboa, o jovem Barros Basto dirigiu-se à sinagoga da cidade, numa tentativa de ser ai admitido. Os dirigentes da sinagoga não permitiram mas Barros Basto não desistiu.

Quando foi implantada a Republica, em 1910 Barros Bastos foi aquele que hasteou a bandeira republicana na cidade do Porto.

Na Primeira Guerra Mundial, já tenente do exército comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português na frente da Flandres. Pelos seus actos de bravura e honra no campo de batalha foi condecorado e promovido a capitão.

Barros Basto era um autodidacta e, após aprender hebraico foi viver uns tempos para Marrocos onde iniciou formalmente um processo de conversão ao Judaísmo (conhecido em hebreu por Geirut). Viu o seu processo concluído quando, em Tânger foi circuncidado e mais tarde submetido a um tribunal rabínico (Beit Din).[1] Passou assim a chamar-se Abraham Israel Ben-Rosh.

Regressado a Lisboa, casou-se com Lea Israel Montero Azancot, da Comunidade Israelita de Lisboa, de quem teve um filho e uma filha. Teve também vários netos e bisnetos, a sua neta Isabel Ferreira Lopes, é actual vice-presidente da Comunidade Israelita do Porto. É também tio-bisavô por afinidade da actriz Daniela Ruah.

A 25 de Junho de 1919 foi feito Oficial da Ordem Militar de Cristo e a 5 de Outubro de 1923 foi feito Oficial da Ordem Militar de Avis.[2][3]

Lea Azancot e Barros Basto

Em 1921, voltou para o Porto com a sua esposa. Nessa altura Barros Basto apercebeu-se que na cidade havia apenas menos de vinte judeus asquenazim que, como não possuíam uma sinagoga não estavam organizados e tinham de se deslocar a Lisboa sempre que, por motivos religiosos, era necessário.

Quando tomou conhecimento dessa realidade começou a pensar que a construção de uma sinagoga era necessária e, tomou iniciativa de, em 1923, registar oficialmente no Governo Civil do Porto a Comunidade Israelita do Porto e o Centro Teológico Israelita.

O actual edifício da sinagoga só começaria a ser construído anos mais tarde mas a comunidade organizou-se e arrendou uma casa na rua Elias Garcia que passou a funcionar como uma sinagoga. À medida que o tempo ia passando, iam aparecendo cada vez mais pessoas na sinagoga, estes diziam-se descendentes dos judeus forçados a converter-se no século XV, afirmavam praticar ainda, no segredo dos seus lares, algumas práticas e rituais judaicos. Estas pessoas, os criptojudeus, começaram a participar nos serviços religiosos.

Em 1927, fundou e dirigiu o jornal Ha-Lapid, órgão da comunidade Israelita do Porto. Foi publicado até 1958.

A veracidade desses criptojudeus, foi comprovada por Barros Basto e do comité de Londres que constataram que estes não mentiam sobre as suas origens pois provaram ainda manter as preces a Hashem bem como respeitarem o dia de Shabat tal como seus antepassados. É de referir também que na Acta N.º 68 da Direcção (Maâmad) da Comunidade Israelita do Porto ficou estabelecido que seria aceite na congregação qualquer pessoa que “provasse absolutamente a sua origem judaica”.

Barros Basto

Esta situação despertou interesse em Barros Basto que, por isso, decidiu visitar frequentemente aldeias e vilas de Trás os Montes e das Beiras à procura de mais pessoas interessadas em voltar ao Judaísmo.[4] Esta medida captou a atenção de algumas pessoas, principalmente de algumas comunidades judaicas, como o caso da Comunidade de Judeus Portugueses em Londres, que criou o "Portuguese Marranos Committee", uma organização com o intuito de ajudar as pessoas que queriam a voltar ao Judaísmo.

Com a mudança de regime dada nos anos 30, Barros Basto começou a ser conotado com a oposição, e não tardou até começar a ser perseguido pelo exército. Começou a ser colocado em locais cada vez mais longe do Porto, numa tentativa de assim, o afastar da Sinagoga e da Comunidade.

Em 1937, Barros Basto foi julgado pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército e foi afastado da instituição por alegadamente participar nas cerimónias de circuncisão (em hebreu, brit milá) dos alunos do instituto teológico israelita do Porto, facto que o Conselho considerou “imoral” mas que é uma prática fundamental para o povo Judeu.

Um ano depois, em 1938, Barros Basto viu o seu grande projecto a ser inaugurado, a sinagoga Kadoorie, no Porto. A sua construção foi iniciada em 1929 quando Barros Basto conseguiu reunir fundos para aquisição do terreno e construção do edifício. Esta é a sede da Comunidade Israelita do Porto e ainda hoje mantém as suas funções religiosas.

Já afastado do exército, ajudou centenas judeus fugidos da Segunda Guerra Mundial a escapar à guerra e ao Holocausto, permitindo-lhes recomeçar a sua vida noutros países. Recentemente a Comunidade Israelita do Porto assinou um protocolo com o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos com a finalidade de lhe fornecer, milhares de documentos e fichas individuais de refugiados que, com ajuda de Barros Basto puderam reconstruir as suas vidas a partir do Porto.

Faleceu em 1961, e foi enterrado no cemitério de Amarante, cidade onde nasceu, conforme o seu desejo, envergando a farda com a qual sempre serviu a sua pátria. No leito de morte exclamou que um dia lhe seria feita justiça, justiça esta que só haveria de chegar em 2012, mais de 50 anos após a sua morte.

Reabilitação[editar | editar código-fonte]

No seguimento de uma petição apresentada à Assembleia da República, pela sua neta Isabel Ferreira Lopes, a 31 de Outubro de 2011, o nome de Barros Basto foi reabilitado a 29 de Fevereiro de 2012.

A petição, aprovada por unanimidade por todos os partidos políticos veio concluir que Barros Basto, ao ser afastado do exército foi vitima de segregação político-religiosa pelo facto de ser judeu. «Barros Basto foi separado do Exército devido a um clima genérico de animosidade contra si motivado pelo facto de ser judeu» – pode ler-se no documento a que a Agência LUSA teve acesso.

Por sua vez, a Resolução da Assembleia da República n.º 119/2012, de 10-08, recomendou ao governo que procedesse a uma reintegração simbólica de Barros Basto no Exército, a título póstumo, «em categoria nunca inferior àquela a que o militar em causa teria direito se sobre o mesmo não tivesse sido instaurado o processo que levou ao seu afastamento.»[1]

Em declarações à LUSA, Isabel Ferreira Lopes, neta de Barros Basto e Vice Presidente da Comunidade Israelita do Porto afirmou que, depois da reabilitação do avô, o passo seguinte passava pela reabilitação da sinagoga do Porto: «No ano da reabilitação do fundador da Comunidade Israelita do Porto reabilitar-se-á também a sinagoga».[5]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Mea, Elvira de Azevedo e Steinhardt, Inácio - Ben-Rosh. Biografia do Capitão Barros Basto, Lisboa: Afrontamento, 1997.
  2. «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Artur Carlos de Barros Basto". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 8 de novembro de 2015 
  3. «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Artur Carlos Barros Basto". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 8 de novembro de 2015 
  4. Schwarz, Samuel. - Os cristãos-novos em Portugal no século XX. Lisboa: Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa, 1993.
  5. Vídeo online sobre sinagoga do Porto visto 90 mil vezes em menos de um mês

Ligações externas[editar | editar código-fonte]