Assassinato de João Alberto Freitas

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Assassinato de João Alberto Freitas
Hora c. 23:00h (UTC−03:00)
Data 19 de novembro de 2020 (0 mês)
Local Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Coordenadas 30° 00′ 47″ S, 51° 10′ 15″ O
Participantes Magno Braz Borges, Giovane Gaspar da Silva e Adriana Alves Dutra[1]
Mortes 1 (João Alberto Silveira Freitas)
Brazil Rio Grande do Sul Porto Alegre location map.svg
Localização de Porto Alegre, onde ocorreu o assassinato, no estado do Rio Grande do Sul.

O Assassinato de João Alberto Freitas se refere ao espancamento e assassinato por asfixia de João Alberto Silveira Freitas por seguranças de uma loja da rede Carrefour, em Porto Alegre, na noite de 19 de novembro de 2020. O seu assassinato deu início a uma série de protestos antirracistas.[2][3]

A vítima

João Alberto Freitas, popularmente conhecido como João Beto, era filho de João Batista Rodrigues Freitas, motorista e pastor, e de uma industriária falecida em 2017.[4] Nasceu e passou a infância no bairro Humaitá, junto com a irmã.[4]

Residia num condomínio da Vila do IAPI, para onde tinha se mudado em 2018 junto com sua companheira, a cuidadora de idosos Milena Borges Alves.[5][6] Depois de morarem por nove anos juntos e terem firmado união estável, os dois planejavam oficializar o casamento em cartório no começo de dezembro de 2020.[7] Beto tinha quatro filhos de relacionamentos anteriores, com idades entre nove e vinte e dois anos, e uma enteada.[7] Era torcedor do Esporte Clube São José e costumava acompanhar todos os jogos do clube da zona norte de Porto Alegre.[4]

João Alberto fez cursos de mecânica de máquinas pesadas e mecânica de automóveis e trabalhou em oficinas automotivas.[8] Também trabalhou numa empresa terceirizada dos Correios.[8] Ele perdeu parte dos movimentos de uma das mãos por conta de um acidente de trabalho no Aeroporto Salgado Filho em 2002 e, desde então, fazia bicos em serviços temporários.[4] Conforme um amigo, Freitas estava trabalhando com o pai como soldador numa empresa de solda de portão.[9] Pai e filho planejavam comprar um veículo utilitário para transportar alimentos na Ceasa e aumentar a renda da família.[4]

O assassinato

Em 19 de novembro de 2020, um dia antes do Dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de quarenta anos, foi assassinado pelos seguranças Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva, um ex-militar e um policial militar temporário, numa loja do hipermercado Carrefour no bairro Passo D'Areia, em Porto Alegre.[10][11] Ambos eram contratados da empresa Vector, sendo que Silva não tinha autorização para trabalhar como segurança.[11]

Os dois seguranças conduziram o homem até o estacionamento da unidade e o espancaram, asfixiando-o por quatro minutos até a morte.[12] Conforme testemunhas, João Alberto pedia por ajuda e suplicava que o deixassem respirar.[13][14] Os seguranças impediram que outras pessoas interviessem, mesmo com gritos de que estavam matando o homem.[15] Um entregador que estava no local e filmou o homicídio relatou que os assassinos tentaram apagar o vídeo e o ameaçaram.[16] Os seguranças foram presos preventivamente acusados por homicídio triplamente qualificado: por motivo fútil, por asfixia, e por utilizarem meio que impede defesa da vítima.[17][18][1] No dia 24 de novembro, foi presa de maneira preventiva Adriana Alves, outra funcionária do Carrefour presente na cena do assassinato, acusada de omissão de socorro.[19]

O corpo de João Alberto foi enterrado em 21 de novembro. O seu caixão estava envolvido com a bandeira do Esporte Clube São José, clube da Zona Norte de Porto Alegre do qual era torcedor. Houve aplausos e pedidos de justiça.[20]

Repercussões

Protestos

Vigília em homenagem ao sétimo dia da morte de João Alberto, em frente a uma filial do Carrefour, em Brasília.

O assassinato de João Alberto provocou uma onda de manifestações em frente a lojas do Carrefour pelo país afora no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.[21] Em Porto Alegre, houve um protesto em frente à unidade da empresa Carrefour em que João Alberto foi assassinato, contando com aproximadamente 2,5 mil manifestantes. Alguns grupos adentraram a unidade, protestando por meio da depredação à loja. As principais palavras de ordem foram o "Vidas Negras Importam" e os pedidos de justiça por Beto, como era conhecido.[22][23][24]

Os protestos repetiram-se em São Paulo, onde uma filial do Carrefour foi incendiada. Houve manifestações pelas ruas da capital paulista, com muitos cartazes exigindo justiça e pedindo boicote à rede de hipermercados que já esteve envolvida em vários casos anteriores de violência.[25] No dia 21 de novembro, a inscrição "Vidas Pretas Importam" foi pintada na avenida Paulista.[26] Também ocorreram protestos em outras cidades do estado, como em Jundiaí, Osasco, Santos, Santo André e São Vicente.[27][28][29][30]

No Rio de Janeiro, uma das unidades da rede na Barra da Tijuca foi fechada à força pelos manifestantes, que ficaram em frente à loja com uma grande faixa com a frase "Parem de nos matar".[28] Participaram do ato os músicos Tico Santa Cruz, Nego do Borel e Pretinho da Serrinha, além da atriz Patrícia Pillar.[31] Protestos também ocorreram no município de Belford Roxo, também no estado do Rio de Janeiro.[32]

Em Belo Horizonte, a população também foi às ruas com cartazes com dizeres como "Carrefour racista" e "parem de nos matar". O rapper Djonga participou do ato, compartilhando a atividade em suas redes sociais.[33][34][35] Na cidade de Contagem, também em Minas Gerais, uma loja da rede Carrefour foi fechada durante os protestos no município.[36]

Em Recife, os protestos ocorreram no estacionamento de uma unidade da empresa, pedindo o boicote e escrevendo mensagens de caráter antirracista na calçada e no asfalto. A Polícia Militar de Pernambuco utilizou-se de spray de pimenta para dispersar os manifestantes, e uma pessoa foi detida.[37]

Em Salvador, ocorreram protestos no dia 22 de novembro, organizados por grupos de defesa aos direitos quilombolas e torcidas organizadas do Esporte Clube Bahia.[38]

Em Manaus um grupo de quarenta pessoas manifestou-se em 21 de novembro, em frente ao Carrefour do bairro Adrianópolis, colocando cartazes na grade em frente ao supermercado, e reunindo-se na calçada. Os manifestantes relembraram casos de racismo no Amazonas, e atos de violência contra indígenas.[39]

Sete dias depois do assassinato, as lojas do Carrefour no país abriram somente às 14h, com exceção da unidade em que João Alberto foi morto, que não operou.[40]

Declarações públicas

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, pronunciou-se publicamente para assegurar que o homicídio de Freitas seria apurado com rigor.[41] Nelson Marchezan Júnior, prefeito de Porto Alegre, prestou solidariedade à família de Freitas pela rede social Twitter. Também se manifestaram os candidatos ao segundo turno das eleições municipais de Porto Alegre, Manuela d'Ávila e Sebastião Melo.[42]

O presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, não prestou condolências à família e, em reunião do G20, um dia após o assassinato, questionou a existência de racismo no Brasil, alegando que a miscigenação é a essência do povo brasileiro e "que há quem queira destruí-la, e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de luta por igualdade ou justiça social".[43] O vice-presidente Hamilton Mourão lamentou o despreparo dos agentes de segurança do supermercado, mas também defendeu a inexistência de racismo no Brasil.[44]

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, pediu um minuto de silêncio em memória à João Alberto, durante cerimônia que anunciava parceria entre a Faculdade Zumbi dos Palmares e o Conselho Nacional de Justiça.[45] Além de Fux, os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso lamentaram a morte de João Alberto, afirmando que o caso demonstra a necessidade do combate ao racismo estrutural no Brasil.[46]

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, também lamentaram a morte e enviaram condolências à família de Freitas, e destacaram a necessidade de combate ao racismo no nível institucional.[47][48] No dia 24 de novembro, foi autorizada a criação de uma comissão externa da Câmara dos Deputados para acompanhar a investigação do assassinato de João Alberto. A comissão é coordenada pelo deputado Damião Feliciano, e composta ainda por outros cinco deputados: Benedita da Silva, Bira do Pindaré, Silvia Cristina, Áurea Carolina e Orlando Silva.[49]

A Organização das Nações Unidas manifestou, em comunicado, que o assassinato de Freitas é "um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira".[3] Uma porta-voz do Conselho de Direitos Humanos da organização pediu por uma investigação "rápida, completa, independente, imparcial e transparente" e que deva "ser examinado se o preconceito racial desempenhou um papel".[50] Em nota, a Anistia Internacional classificou o homicídio como inadmissível.[51] A imprensa internacional também repercutiu o caso, comparando-o ao assassinato de George Floyd, ocorrido meses antes nos Estados Unidos, e que provocou uma série de manifestações mundo afora.[52]

Clubes de futebol de Porto Alegre, como o Grêmio, Internacional e São José, do qual ele era torcedor, manifestaram-se após o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, pregando o combate permanente à discriminação racial.[53] O piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton postou foto de protesto contra morte em Porto Alegre com a legenda "outra vida negra perdida".[54]

Ver também

Referências

  1. a b «"Se a senhora conseguir acalmar ele, eu tiro todo mundo de cima dele", disse funcionária do Carrefour à esposa de João Alberto». GaúchaZH. 20 de novembro de 2020. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  2. «Amigos contam que homem morto em mercado de Porto Alegre estava feliz: 'Íamos ser padrinhos de casamento dele'». O Globo. 20 de novembro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  3. a b «Morte de João Alberto evidencia dimensão do racismo no Brasil, diz ONU». O Globo. 21 de novembro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  4. a b c d e «Apaixonado pelo São José, pai de quatro filhos e conhecido no mercado onde foi morto: quem era João Alberto Silveira Freitas». GZH. 20 de novembro de 2020. Consultado em 26 de novembro de 2020 
  5. «Desejo de justiça e comoção marcam enterro de João Beto em Porto Alegre». Metrópoles. 21 de novembro de 2020. Consultado em 24 de novembro de 2020 
  6. «Quem era João Beto, o negro assassinado por seguranças no Carrefour». Metrópoles. 20 de novembro de 2020. Consultado em 24 de novembro de 2020 
  7. a b «Seis dias após assassinato de João Alberto, viúva recebe primeiro contato do Carrefour». G1. Consultado em 26 de novembro de 2020 
  8. a b «Beto Freitas foi pai precoce, filho presente e marido violento com a ex». Folha de S.Paulo. 21 de novembro de 2020. Consultado em 26 de novembro de 2020 
  9. «'Era esperto, brincalhão', diz amigo de infância sobre homem negro morto espancado em supermercado no RS». G1. Consultado em 26 de novembro de 2020 
  10. «PM envolvido na morte de homem negro em Porto Alegre não tinha registro para trabalhar como segurança, diz Polícia Federal». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  11. a b «PM fazia "bico" em sua 1ª noite como segurança no Carrefour, diz advogado». noticias.uol.com.br. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  12. «Laudo inicial da perícia aponta asfixia como causa da morte de homem negro espancado em supermercado em Porto Alegre». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  13. «Perícia aponta asfixia como provável causa da morte de João Alberto Freitas». GZH. 20 de novembro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  14. «Beto Freitas foi asfixiado por 4 minutos diante de 15 testemunhas em Carrefour do RS; veja vídeo». Folha de S.Paulo. 21 de novembro de 2020. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  15. AE. «A gente gritava estão matando o cara, mas continuaram até ele parar de respirar». Correio do Povo. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  16. «Entregador que filmou agressões no Carrefour diz que seguranças tentaram apagar vídeo e relata ter sofrido ameaças». GZH. 20 de novembro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  17. «Homem negro é espancado até a morte em supermercado do grupo Carrefour em Porto Alegre». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  18. «Sete vezes em que o Carrefour atuou com descaso e violência». Brasil de Fato. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  19. «Fiscal do Carrefour é presa por envolvimento na morte de João Alberto». Exame. 24 de novembro de 2020. Consultado em 25 de novembro de 2020 
  20. Povo, Correio do. «Com aplausos e pedidos de justiça, corpo de João Alberto é sepultado em Porto Alegre». Correio do Povo. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  21. «Morte de João Alberto provoca protestos em várias cidades». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  22. «Assassinato de João Alberto: Protesto no Carrefour termina sob bombas e balas de borracha». Sul 21. 21 de novembro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  23. «Manifestantes atacam Carrefour em Porto Alegre; polícia dispersa com bombas». noticias.uol.com.br. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  24. «FOTOS: as manifestações pela morte de homem negro em supermercado de Porto Alegre». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  25. «Manifestantes fazem protesto em SP contra morte em Porto Alegre e loja do Carrefour é invadida». G1. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  26. «Inscrição 'Vidas Pretas Importam' é pintada na Avenida Paulista; veja vídeos». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  27. «Cidades registram novos protestos contra a morte de João Alberto – Jovem Pan». Cidades registram novos protestos contra a morte de João Alberto – Jovem Pan. 22 de novembro de 2020. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  28. a b «Unidade do Carrefour no Rio é fechada após protesto por morte de João Beto, em Porto Alegre». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  29. «Com histórico racista, Jundiaí (SP) realiza ato em repúdio a morte de João Alberto». Ponte Jornalismo. 24 de novembro de 2020. Consultado em 25 de novembro de 2020 
  30. «Protesto contra o racismo após assassinato de João Alberto acaba em confusão e três feridos em frente ao Carrefour». GZH. 20 de novembro de 2020. Consultado em 25 de novembro de 2020 
  31. «Manifestantes no Rio cobram justiça pela morte de homem negro em supermercado». Extra Online. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  32. «Manifestantes fazem protesto antirracista em Belford Roxo contra morte de João Alberto». Extra Online. Consultado em 25 de novembro de 2020 
  33. Augusto/Divulgação, William. «Grupo faz manifestação em BH contra morte de homem negro dentro de supermercado em Porto Alegre». HOME. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  34. Minas, Estado de; Minas, Estado de (20 de novembro de 2020). «'Fogo nos racistas': Djonga participa de caminhada e ocupa loja do Carrefour em BH». Estado de Minas. Consultado em 22 de novembro de 2020 
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  43. «Sem citar João Alberto, Bolsonaro diz que há tentativas de importar tensões alheias à nossa história - Brasil». Estadão. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  44. «'No Brasil, não existe racismo', diz Mourão sobre assassinato de homem negro em supermercado». G1. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  45. «Fux diz que João Alberto foi 'brutalmente morto' e que caso é 'triste episódio'». G1. Consultado em 22 de novembro de 2020 
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  47. «Presidente do Senado, Alcolumbre diz que assassinato de João Alberto escancara racismo no país». Metro 1. Consultado em 22 de novembro de 2020 
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  50. «ONU condena 'racismo estrutural' no Brasil após assassinato de João Alberto». O Globo. 24 de novembro de 2020. Consultado em 25 de novembro de 2020 
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  53. Povo, Correio do. «Clubes se manifestam após morte de homem negro em hipermercado de Porto Alegre». Correio do Povo. Consultado em 21 de novembro de 2020 
  54. «Lewis Hamilton posta foto de protesto contra morte em Porto Alegre:"Outra vida negra perdida"». ge. Consultado em 21 de novembro de 2020