Atentados de 11 de março de 2004 em Madrid

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Atentados de 11 de março de 2004
Estação de Atocha (Madrid), um dos lugares onde os ataques ocorreram.
Local Madrid, Comunidade de Madrid
Flag of Spain.svg Espanha
Data 11 de março de 2004
07:36 - 07:40 (UTC+1)
Tipo de ataque Terrorismo
Mortes 191 mortos
Feridos 2.050[1]
Responsável(is) Célula terrorista inspirada na al-Qaeda
Suspeito(s) Daoud Ouhnane
Jamal Zougam

Os atentados de 11 de março de 2004, também conhecidos como 11-M, foram atentados terroristas coordenados, quase simultâneos, contra o sistema de trens suburbanos da Cercanías, em Madrid, Espanha, na manhã de 11 de março de 2004, três dias antes das eleições gerais espanholas. As explosões mataram 191 pessoas e feriram 2 050.[1] A investigação oficial por parte do judiciário espanhol constatou que os ataques foram dirigidos por uma célula terrorista inspirada na al-Qaeda,[2] [3] apesar de nenhuma participação direta do grupo extremista ter sido estabelecida.[4] [5] Embora de não terem tido nenhum papel no planejamento ou na execução dos ataques, os mineiros espanhóis que venderam os explosivos para os terroristas também foram presos.[4] [6]

A controvérsia sobre a autoria dos bombardeios por parte do governo surgiu depois que os dois principais partidos políticos da Espanha — Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e o Partido Popular (PP) — acusaram-se mutuamente de ocultar ou distorcer evidências por razões eleitorais. Os atentados ocorreram três dias antes das eleições gerais em que o PP, liderado por José María Aznar, foi derrotado. Imediatamente após o atentado, os líderes do PP alegaram evidências indicando a organização separatista basca Euskadi Ta Askatasuna (ETA) como a culpada pelos atentados.[7] [8]

No entanto, depois que uma conexão com o fundamentalismo islâmico foi estabelecida, o governo do PP colocou a Espanha na Guerra do Iraque, uma política extremamente impopular entre os espanhóis.[9] Manifestações e protestos nacionais pediram ao governo para dizer a verdade.[10] A visão predominante entre os analistas políticos é que a administração Aznar perdeu as eleições gerais por tentar manipular a responsabilidade dos ataques terroristas, e não pelos atentados em si.[11] [12] [13] [14]

Os atentados foram os piores ataques terroristas da história espanhola e da Europa. Foi o ataque que mais causou mortes no continente europeu desde o Atentado de Lockerbie, no Reino Unido, em 1988. Após 21 meses de investigação, o juiz Juan del Olmo processou o cidadão marroquino Jamal Zougam, entre vários outros, por sua participação na realização do ataque.[15] A sentença de setembro de 2007 não estabeleceu qualquer mentor conhecido nem uma ligação direta com a al-Qaeda, mas especialistas têm repetidamente advertido que não há a categoria de "autor intelectual" no direito espanhol.[16] [17]

Ataques[editar | editar código-fonte]

As explosões ocorreram entre as 7:39 e as 7:42 da manhã nas estações madrilenhas de Atocha (3 bombas), El Pozo de Tío Raimundo (2 bombas), Santa Eugenia (1 bomba) e num comboio a caminho de Atocha (4 bombas). As forças de segurança encontraram mais 3 bombas, que segundo o ministro do Interior Ángel Acebes, estariam preparadas para explodir quando chegassem os primeiros socorros às vítimas.[18]

Autoria[editar | editar código-fonte]

Placa em memória às vítimas do atentado

A dificuldade inicial de atribuir a autoria dos atentados provocou aceso debate em Espanha e terá ultimamente contribuído para a mudança de governo. De notar que houve eleições legislativas apenas quatro dias depois da tragédia.

O governo espanhol inicialmente atribuiu o atentado à ETA[8] , argumentando que foi utilizado um explosivo normalmente usado pela ETA e a Guardia Civil já tinha evitado um atentado de grandes proporções em 29 de fevereiro, quando apreendeu 500 kg de explosivos e prendeu dois prováveis membros da ETA.

No entanto a esquerda abertzale, através de Arnaldo Otegi (dirigente do partido político Batasuna, ilegalizado por pela sua associação à ETA) recusou qualquer responsabilidade da ETA neste atentado e o condenou.

Num segundo momento, o governo espanhol admitiu como possível a hipótese de a Al Qaeda estar envolvida. Quatro provas apontaram neste sentido:

  • um grupo próximo da Al Qaeda, as Brigadas de Abu Hafs Al Masri reivindicou o atentado em nome da Al Qaeda.
  • os atentados têm características em comum com outros atentados da Al Qaeda.
  • na tarde do dia 11 de Março foi encontrada, na região de Madrid, uma fita cassete com orações em árabe numa carrinha com detonadores.
  • na noite de 11 de Março foi divulgada a suspeita de que um bombista suicida seguia a bordo de um dos comboios.
  • minutos antes das 19:00 de 12 de Março, num telefonema feito para a redacção do diário GARA, a ETA negou a autoria dos atentados. A frase exacta (em tradução) foi: "A organização ETA não tem nenhuma responsabilidade sobre os atentados de ontem."

Reações[editar | editar código-fonte]

Na França, o plano de emergência nacional foi elevado para o nível laranja.[19] Na Itália, o governo declarou estado de alerta máximo.[20]

Manifestação contra o terrorismo em Barcelona no dia seguinte aos ataques

Em dezembro de 2004, José Luis Rodríguez Zapatero afirmou que o governo do PP apagou todos os arquivos de computador relacionados com os atentados de Madrid, deixando apenas os documentos impressos.[21]

Em 25 de março de 2005, a promotora Olga Sánchez afirmou que os bombardeios aconteceram 911 dias depois dos ataques de 11 de setembro, devido à "carga altamente simbólica e cabalística para grupos locais da al-Qaeda" em relação aquele dia. Como 2004 foi um ano bissexto, 912 dias tinham decorrido entre 11 de setembro de 2001 e 11 de março de 2004.[22]

Em 4 de janeiro de 2007, o El País informou que argelino Daoud Ouhnane, que é considerado o mentor dos atentados de 11-M, tentou voltar para a Espanha para preparar novos ataques, embora isto não tenha sido confirmado.[23]

Em 17 de março de 2008, Basel Ghalyoun, Mohamed Almallah Dabas, Abdelillah El-Fadual El-Akil e Raúl González Peña, que tinham sido condenados pela Audiência Nacional, foram libertados depois de uma decisão do Tribunal Superior.[24] Esse tribunal também soltou o egípcio Rabei Osman al-Sayed.[25]

Monumentos[editar | editar código-fonte]

Monumento às vítimas do atentado

Em 11 de Março de 2007, foi inaugurado na Estação de Atocha um monumento às vítimas do 11 de Março[26] . A cerimónia de inauguração foi presidida pelo Rei Juan Carlos e pela Rainha Sofia.

Julgamento e condenações[editar | editar código-fonte]

Em 31 de Outubro de 2007 foi conhecida a sentença a aplicar aos membros sobreviventes da célula terrorista. Um dos autores materiais, Jamal Zougam, respondeu por 191 homicídios e 1856 tentativas de homicídio, e foi condenado a 30 anos de prisão por cada um dos homicídios e 20 por cada uma das tentativas, e ainda a 12 anos de prisão por associação criminosa. A mesma sentença foi aplicada a Otman el Gnaoui. Ambos recebem assim um máximo acumulado de 30 anos, segundo a lei espanhola. Outros membros foram condenados a penas menores.

O indivíduo tido como principal suspeito — Rabei Osman, de alcunha O Egípcio — foi inocentado por falta de provas.

Os elementos da alegada rede instalada nas Astúrias e que teria feito a venda de explosivos retirados de uma mina (Carmen Toro, Antonio Toro, Emilio Llano, Raúl González e Ibrahim Moussaten) foram todos absolvidos.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b El Mundo (espanhol)
  2. "Spanish Indictment on the investigation of 11 March". El Mundo (em Spanish). Espanha. Consult. 16 de fevereiro de 2010. 
  3. Oneill, Sean (15 de fevereiro de 2007). "Spain furious as US blocks access to Madrid bombing 'chief'". The Times (London [s.n.]). Consult. 16 de fevereiro de 2010. 
  4. a b The Independent article:"While the bombers may have been inspired by bin Laden, a two-year investigation into the attacks has found no evidence that al-Qa'ida helped plan, finance or carry out the bombings, or even knew about them in advance."
  5. "Trial Opens in Madrid for Train Bombings That Killed 191", The Associated Press, 15 February 2007: "The cell was inspired by al-Qaida but had no direct links to it, nor did it receive financing from Osama bin Laden's terrorist organization, Spanish investigators say"
  6. "Trial Opens in Madrid for Train Bombings That Killed 191", The Associated Press, 15 de fevereiro de 2007.
  7. Lago, I. (Universitat Pompeu Fabra) Del 11-M al 14-M: Los mecanismos del cambio electoral. Pgs 12–13. Arquivado em 23 novembro 2008 no Wayback Machine
  8. a b "Selected bibliography on political analysis of the 11-M aftermath". El Mundo. Espanha. Arquivado desde o original em 6 de junho de 2011. Consult. 5 de maio de 2011. 
  9. 92% of the Spanish population expressed its disagreement with the intervention Clarin.com (espanhol)
  10. Cf. Meso Ayeldi, K. "Teléfonos móviles e Internet, nuevas tecnologías para construir un espacio público contrainformativo: El ejemplo de los flash mob en la tarde del 13M" Universidad de La Laguna (espanhol)
  11. El Periódico – 11M Arquivado em 18 abril 2009 no Wayback Machine
  12. El Periódico – 11M Arquivado em 18 abril 2009 no Wayback Machine
  13. El Periódico – 11M Arquivado em 18 abril 2009 no Wayback Machine
  14. 31 March 2004 – (31 de março de 2004). "Madrid Bombings and U.S. Policy – Brookings". Brookings.edu. Arquivado desde o original em 6 de junho de 2011. Consult. 5 de maio de 2011. 
  15. "Del Olmo sólo tiene ya un presunto autor material del 11-M para sentar en el banquillo / EL MUNDO". El Mundo. Espanha. Arquivado desde o original em 6 de junho de 2011. Consult. 5 de maio de 2011. 
  16. Barrett, Jane (31 de outubro de 2007). "The biggest surprise was that two men originally accused of planning the attack were convicted only of belonging to a terrorist group, not of the Madrid killings... 'We're very surprised by the acquittal,' said Jose Maria de Pablos, attorney of a victims' association linked to conspiracy theories. 'If it wasn't them, we have to find out who it was. Somebody gave the order.'" [S.l.: s.n.] Reuters. Arquivado desde o original em 24 de maio de 2011. Consult. 5 de maio de 2011. 
  17. "ETA, Irak, Zougam, el explosivo... y otras claves de la sentencia del 11-M". El Mundo. Espanha. Arquivado desde o original em 6 de junho de 2011. Consult. 5 de maio de 2011. 
  18. Judicial Indictment – Downloadable in Spanish (espanhol)
  19. "France raises alert to orange" BBC News [S.l.] 12 de março de 2004. Arquivado desde o original em 23 de junho de 2007. Consult. 5 May 2011. 
  20. The Terrorist Threat to the Italian Elections (Jamestown)[ligação inativa] Archived junho 23, 2007 at WebCite
  21. Aznar "wiped files on Madrid bombings", The Guardian, 14 de dezembro de 2004
  22. Un factor "cabalístico" en la elección de la fecha de la matanza en los trenes, "El País", 2005 March 10 (espanhol)
  23. El País El argelino huido tras perpetrar el 11-M preparaba nuevos atentados en España El País, 4 January 2007 (espanhol)
  24. Guillermo Peris Peris (17 Julho 2008). "El TS absuelve a cuatro procesados del 11-M por falta de pruebas y un error en un registro ordenado por Del Olmo" Diario Siglo XXI [S.l.] Arquivado desde o original em 4 September 2009. Consult. 1 Setembro 2009. 
  25. "Tribunal Supremo concluye vista de recursos contra sentencia atentados 11-M" ADN.es [S.l.] 2 July 2008. Arquivado desde o original em 4 Setembro 2009. Consult. 1 September 2009. 
  26. Monumento homenageia vítimas dos ataques de 11 de Março em Madrid.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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