Teoria humoral


A teoria humoral, também conhecida como patologia humoral ou humorismo, foi uma doutrina médica desenvolvida na Antiguidade greco-romana que sustentava que a saúde humana dependia do equilíbrio entre quatro fluidos corporais denominados humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra.[1] A origem dessa concepção é geralmente associada aos tratados do Corpus Hippocraticum, conjunto de textos médicos tradicionalmente relacionados a Hipócrates e à medicina grega clássica.[2]
Segundo a teoria humoral, cada humor possuía características específicas associadas aos elementos da natureza, às estações do ano e aos temperamentos humanos.[3] O sangue era associado ao ar e ao temperamento sanguíneo; a fleuma, à água e ao temperamento fleumático; a bílis amarela, ao fogo e ao temperamento colérico; e a bílis negra, à terra e ao temperamento melancólico.[4] Nesse modelo médico, as doenças eram interpretadas como resultado de alterações no equilíbrio entre os humores, enquanto a saúde correspondia à harmonia entre eles.[5]
O médico grego Galeno, no século II d.C., teve papel importante na sistematização e difusão da teoria humoral no mundo romano e posteriormente na medicina medieval islâmica e europeia.[6] Galeno elaborou classificações dos temperamentos humanos e relacionou os humores a diferentes características físicas e comportamentais.[7] Seus escritos influenciaram amplamente a medicina ocidental durante muitos séculos.[8]
Com base na teoria humoral, diversos tratamentos médicos foram empregados ao longo da Antiguidade, da Idade Média e do início da Idade Moderna. Entre os procedimentos utilizados estavam sangrias, purgativos, dietas específicas e mudanças de hábitos consideradas adequadas para restaurar o equilíbrio humoral.[9] Alimentação, clima, hábitos cotidianos e estados emocionais também eram considerados fatores capazes de influenciar os humores corporais.[10]
A teoria humoral começou a perder influência entre os séculos XVII e XIX com o avanço da anatomia, da fisiologia experimental e da microbiologia.[11] No século XIX, o desenvolvimento da teoria celular e da patologia celular por Rudolf Virchow contribuiu para a substituição gradual das interpretações humorais tradicionais.[12] A medicina passou progressivamente a interpretar as doenças como alterações em células e tecidos específicos.[13]
Embora não faça parte da medicina científica contemporânea, a teoria humoral permaneceu influente na cultura ocidental e em estudos históricos da medicina.[14] Expressões populares relacionadas a “humor” e “temperamento” possuem origem histórica associada às antigas concepções humorais.[15]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ NUTTON, Vivian. Ancient Medicine. London: Routledge, 2004.
- ↑ HIPPOCRATES. Hippocratic Writings. Tradução de G. E. R. Lloyd. London: Penguin Classics, 1983.
- ↑ SIRASI, Nancy G. Medieval and Early Renaissance Medicine. Chicago: University of Chicago Press, 1990.
- ↑ PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins, 1997.
- ↑ NUTTON, Vivian. Ancient Medicine. London: Routledge, 2004.
- ↑ MATTERN, Susan P. The Prince of Medicine: Galen in the Roman Empire. Oxford: Oxford University Press, 2013.
- ↑ PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins, 1997.
- ↑ SIRASI, Nancy G. Medieval and Early Renaissance Medicine. Chicago: University of Chicago Press, 1990.
- ↑ PORTER, Roy. Blood and Guts: A Short History of Medicine. New York: W. W. Norton, 2002.
- ↑ SIRASI, Nancy G. Medieval and Early Renaissance Medicine. Chicago: University of Chicago Press, 1990.
- ↑ BYNUM, William. The History of Medicine: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2008.
- ↑ VIRCHOW, Rudolf. Cellular Pathology. London: John Churchill, 1860.
- ↑ BYNUM, William. The History of Medicine: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2008.
- ↑ NUTTON, Vivian. Ancient Medicine. London: Routledge, 2004.
- ↑ PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins, 1997.
Teoria humoral moderna
[editar | editar código]Embora a associação dos temperamentos com fluidos corporais seja obsoleta, a teoria dos quatro humores foi adaptada por outros pesquisadores, muitos sem usar os nomes originais, e muitos acrescentaram a extroversão como um novo fator, que determinaria os relacionamentos interpessoais. Como exemplos temos:
Os quatro humores e seus equivalentes modernos são apresentados a seguir:
| Humor | Elemento | Nome antigo | Tipologia Myers-Briggs | Avaliação DISC | Foco e Interesse | Características modernas (DISC) | Características antigas |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Bílis Amarela | Fogo | Colérico | ENTJ, ESTJ, ESTP, ENFJ | Dominante (D) | In-Charge | São muito ativas ao lidar com problemas e desafios. São egocêntricas, diretas, ousadas, dominadoras, exigentes, enérgicas, determinadas. | Estrategista, racional, Extrovertida e ousada. |
| Sangue | Ar | Sanguíneo | ESFP, ESFJ, ENFP, ENTP | Influente (I) | Get Going | Gostam de influenciar os outros através de conversas e atividades e tendem a ser emocionais. São entusiastas, persuasivas, convincentes, amistosas, comunicativas, confiantes e otimistas. | Otimista, sentimental, Extrovertida e instável. |
| Fleuma | Água | Fleumático | INTP, INFP, ISFP, ISFJ | Estável (S) | Behind the Scenes | Apreciam ritmo constante, segurança e não gostam de mudanças súbitas. São pacientes, confiáveis, calmos, leais, persistentes, gentis, previsíveis. | Sensato, trabalhador, introvertida e realista. |
| Bílis Negra | Terra | Melancólico | INFJ, INTJ, ISTP, ISTJ | Conforme (C) | Chart the Course | Valorizam aderir a regras, regulamentos e estrutura. São cautelosas, sistemáticas, precisas, analíticas, perfeccionistas e lógicas. | Intenso, profundo, introvertida e analítico. |

Contudo, em relação ao sistema Myers-Briggs, a correlação acima demonstrada está longe de ser perfeita, apresentando muitas falhas.
Uma correlação mais fidedigna poderá ser atingida relacionando os diversos valores de DISC, com as 16 personalidades do sistema MBTI:
- ISTJ: C muito elevado, D e S moderados, I muito baixo
- ISFJ: S elevado e C elevado, D e I baixos
- ISTP: S, D e C moderados, I baixo
- ISFP: S muito elevado, I e C moderados, D muito baixo
- INTJ: D e C muito elevados, S baixo, I muito baixo
- INTP: S, D e C moderados, I baixo
- INFJ: S, C e I moderados, D baixo
- INFP: S e I elevados, C e D baixos
- ESTJ: D e C elevados, I e S baixos
- ESFJ: I, S e C moderados, D baixo
- ESTP: D elevado, I moderado, C e S baixos
- ESFP: I elevado, S moderado, C e D baixos
- ENTJ: D muito elevado, I e C moderados, S muito baixo
- ENFJ: I e D elevados, C e S baixos
- ENTP: D e I elevados, C e S baixos
- ENFP: I muito elevado, D e S moderados, C muito baixo