Batalha de Mogadíscio (1993)

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Batalha de Mogadiscio (1993)
Guerra Civil Somali
Black Hawk Down Super64 over Mogadishu coast.jpg
Helicóptero de Mike Durant, Super Six-Four, sobrevoando Mogadíscio em 3 de outubro de 1993.
Data 3–4 de outubro de 1993
Local Mogadíscio, Somália
Desfecho Vitória tática da UNOSOM II

Vitória estratégica da Aliança Nacional Somali

Beligerantes
Flag of the United Nations.svg UNOSOM II Somália Aliança Nacional Somali (ANS)
Comandantes
Estados Unidos William F. Garrison Somália Mohamed Farrah Aidid
Forças
Inicialmente:
160 soldados
19 aeronaves
12 veículos (9 Humvees)
(Estados Unidos)
2 000-4 000 milicianos e combatentes civis
Baixas
EUA
18 mortos
73 feridos[1]
1 capturado
Malásia
1 morto
7 feridos
Paquistão
1 morto
2 feridos
Milícia da ANS e civis
Desconhecido, estimativas variam de 1 000[2] a 3 000[3] mortos[4]
Est. mais de 1 500 feridos
21 capturados
  • Nota: a Força-Tarefa Ranger alcançou os objetivos da missão, de capturar determinados tenentes de Aidid, porém as repercussões políticas negativas decorrentes da batalha e a eventual retirada americana da Somália podem classificar esta batalha como uma vitória de Pirro.[5]
A única foto tirada no solo durante a batalha. Soldados americanos (no canto inferior esquerdo) em uma rua destruída tentando evitar levar um tiro.

A Batalha de Mogadíscio (em inglês: Battle of Mogadishu), também conhecida como Batalha do Mar Negro (Battle of the Black Sea) e Black Hawk Down na cultura popular americana, e como O Dia dos Rangers (em somali: Maalintii Rangers) para os somalis, foi um confronto militar travado em Mogadíscio, Somália, em 3 e 4 de outubro de 1993, por forças dos Estados Unidos com apoio militar das Nações Unidas contra milicianos somalis leais ao chefe tribal Mohamed Farrah Aidid, com apoio de civis armados. A batalha, parte da Operação Serpente Gótica, por vezes é chamada de Primeira Batalha de Mogadíscio, para diferenciá-la da Segunda Batalha de Mogadíscio.

A Força-Tarefa Ranger (Task Force Ranger), que consistia de uma força de assalto formada por equipes da Delta Force do Exército Americano e de Rangers, um elemento aéreo do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (160.º SOAR), cinco operadores Navy Seals do SEAL Team Six, membros dos Pararescue da Força Aérea Armericana e controladores da Equipe de Controle de Combate executaram uma operação que consistia do deslocamento de suas instalações, na periferia da cidade, para capturar personalidades do primeiro escalão do clã Habr Gidr, liderado por Aidid. A força de assalto consistia de dezenove aeronaves, doze veículos terrestres (incluindo diversos Humvees) e 160 homens de infantaria.

Durante a operação, dois helicópteros UH-60 Black Hawk americanos foram derrubados por lança-granadas-foguete, e três foram danificados. Alguns dos soldados conseguiram resgatar os feridos e levá-los de volta à base, porém outros ficaram presos nos locais dos acidentes e acabaram isolados; seguiu-se uma batalha urbana que durou toda a noite.

No início da manhã seguinte, uma força-tarefa foi enviada para resgatar os soldados presos na cidade, formada por soldados do Paquistão, da Malásia e da 10.ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos. Totalizava 100 veículos, incluindo tanques M48 paquistaneses e veículos blindados Condor da Malásia, com o apoio de helicópteros A/MH-6 Little Bird e UH-60 Black Hawk dos Estados Unidos. A força-tarefa chegou ao local do primeiro acidente e conseguiu resgatar os soldados que ali estavam; o local do segundo acidente foi tomado pelos somalis, e o piloto Mike Durant, único sobrevivente ali, foi preso e libertado posteriormente.

Não se sabe ao certo o número de vítimas somalis, porém as estimativas americanas afirmam que entre 1 000 e 1 500 milicianos e civis somalis teriam perdido suas vidas no combate, e 3 000 a 4 000 teriam sido feridos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, no entanto, estima que 200 civis teriam sido mortos, e milhares de outros feridos.[2] De acordo com as estimativas apresentadas pelo livro Black Hawk Down: A Story of Modern War, do autor americano Mark Bowden, 700 milicianos teriam morrido e mais de mil teriam sido feridos; a Aliança Nacional Somali, no entanto, dum documentário do programa Frontline, na televisão americana, declarou que apenas 133 teriam sido mortos em toda a batalha.[6] Já o jornal americano The Washington Post apresentou a cifra de 312 mortos somalis e 814 feridos.[1] Cerca de 18 soldados americanos morreram e 73 ficaram feridos. Entre as forças das Nações Unidas que participaram do combate, um soldado malásio morreu, sete outros malaios e dois paquistaneses ficaram feridos.

Contexto[editar | editar código-fonte]

Uma rua de Mogadíscio em ruínas por causa da guerra.

Em janeiro de 1991, o ditador da Somália, Siad Barre, foi deposto. Sua saída deixou um vácuo de poder que levou o país a uma anarquia completa. Os clãs e milícias que lutaram juntos para derrubar o ditador começaram a voltar-se uns contra os outros pelos espólios do poder, dando início a uma nova e sangrenta guerra civil. Só entre setembro e dezembro de 1991 pelo menos 20 mil pessoas foram mortas ou feridas nos combates. A capital Mogadíscio foi palco de intensas lutas entre diversos grupos e acabou em ruínas. Um dos mais poderosos senhores da guerra somali, Mohamed Farrah Aidid, queria o poder absoluto e assumiu o controle de boa parte de Mogadíscio e de grandes porções da zona rural somali. Suas milícias atacavam postos de ajuda humanitária, confiscando mantimentos destinados a população. Suprimentos como comida e remédios eram vetados para áreas controladas por grupos rivais ao dele. A situação humanitária no país, que já era ruim, se tornou caótica e estima-se que 300 mil pessoas morreram, principalmente de inanição.[7]

A ONU respondeu a crise política e humanitária na Somália e enviou a operação UNOSOM I. Os Estados Unidos lançaram suas próprias operações, como a Provide Relief ("Providenciar Conforto") e a Unified Task Force (também chamada "Operação Restaurar Esperança"), liderada pelo corpo de fuzileiros navais. Ainda assim, o número de mortos (em dezembro de 1992) chegou a quase 500 mil pessoas, com outros 1,5 milhões sendo expulsos de suas casas.[8]

Em março de 1993, foi lançada então a UNOSOM II, com o objetivo de reinstaurar a ordem na Somália. Mas assim como a missão anterior das Nações Unidas, o progresso foi lento ou quase imperceptível. Neste mesmo mês, uma iniciativa de paz alcançou um entendimento entre os principais grupos da guerra civil, mas a facção de Mohammed Farrah Aidid se recusou a aceitar os resultados das conversações. Em junho, os americanos começaram a lançar operações militares pontuais para tentar capturar Aidid. No mês seguinte, um helicóptero americano AH-1 Cobra disparou contra um complexo onde simpatizantes de Aidid supostamente estariam reunidos. Pelo menos 60 pessoas foram mortas. Quatro jornalistas estrangeiros foram mortos também. Esta ação trouxe condenação internacional para a missão da ONU e civis somalis começaram a nutrir desconfiança e até ódio com a presença militar americana no país. Em 8 de agosto de 1993, possivelmente em retaliação, uma bomba explodiu durante uma patrulha de soldados americanos, matando 4 militares. Os Estados Unidos já haviam reduzido substancialmente sua presença na Somália, mas este atentado forçou o presidente Bill Clinton a responder. Ele ordenou que tropas especiais da JSOC, especialmente homens da Força Delta e dos Rangers (unidades de elite das Forças Armadas dos Estados Unidos), sob comando do general William F. Garrison, se deslocassem para o território somali com o propósito de capturar ou matar Aidid. Contudo, após semanas de incursões infrutíferas, Garrison passou a ser pressionado mais veementemente por resultados.[8]

A batalha[editar | editar código-fonte]

Plano[editar | editar código-fonte]

O mapa da cidade mostrando o Hotel Olympic e o local onde os dois helicópteros caíram (em vermelho). No canto inferior esquerdo esta o quartel-general da Força Tarefa americana.

Após várias semanas de tentativas frustradas de pegar o general Aidid, um novo plano foi traçado. O alvo desta vez era Omar Salad Elmi (ministro de relações exteriores de Aidid) e Mohamed Hassan Awale (principal conselheiro político dele).[9]

No domingo, 3 de outubro de 1993, foram reunidos para a missão as unidades da Força Tarefa Ranger composta por membros das forças especiais do 3º Batalhão do Exécito, do 75º Regimento de Rangers, do 1º Destacamento das Forças de Operações Especiais (os "Delta Force") e elementos do 160º Regimento de Aviação para Operações Especiais (apelidados "The Night Stalkers").[10]

O plano principal era que soldados da Força Delta seriam lançados em três prédios (usando helicópteros MH-6 Little Bird) para capturar os alvos dentro dos edifícios. Ao mesmo tempo, quatro destacamentos de Rangers vindos de helicópteros MH-60L Black Hawk (sob comando do capitão Michael D. Steele) iriam proteger o perímetro ao redor dos prédios alvo, enquanto uma coluna de nove veículos HMMWVs e três caminhões M939 de cinco toneladas (sob comando do tenente-coronel Danny McKnight) viria por terra para levar de volta para a base os prisioneiros e todos os soldados. O general William Garrison estimou que a operação duraria cerca de 30 minutos.[11]

A principal coluna de veículos por terra deveria chegar ao lugar pré-determinado em questão de poucos minutos mas houve vários atrasos. Civis e milicianos somalis haviam criado barricadas nas ruas de toda Mogadíscio com pedras, destroços, pneus queimados e lixo, impedindo assim que o comboio se movimentasse livremente pela cidade. Os milicianos de Aidid usavam megafones para conclamar a população a lutar, com frases como "Kasoobaxa guryaha oo iska celsa cadowga!" ("Saiam para fora e defendam seus lares!").[9]

O ataque[editar | editar código-fonte]

Um veículo transportando milicianos somalis pelas ruas de Mogadíscio.

As 13:50h de 3 de outubro de 1993, a Força Tarefa Ranger recebeu informações definitivas da reunião onde Omar Salad Elmi, um dos mais importantes ministros de Mohammed Farah Aidid, estaria presente.[9]

As 15:42h, os helicópteros MH-6 levaram os soldados da Força Delta para os alvos, mas houve um atraso devido a poeira excessiva que inundava o ar. Logo em seguida, dois Black Hawks levaram homens Delta adicionais, ao mesmo tempo que os helicópteros também lançavam pelas cordas soldados Rangers para as quatro esquinas que deveriam proteger. Depois de lançar os homens, os helicópteros deveriam voar baixo pela área para dar cobertura adicional, ficando assim expostos demais ao fogo inimigo que vinha de baixo. Enquanto isso, no solo, os soldados americanos já percebiam que a resistência oferecida pelas milícias somalis era muito maior que a antecipada.[12]

O comboio chegou no hotel Olympic dez minutos depois dos helicópteros e esperou os Delta e os Rangers completarem sua missão e levarem os prisioneiros para os veículos.

Logo no começo da operação, o soldado Todd Blackburn, do quarto grupo de Rangers que desciam dos helicópteros, acabou caindo quando perdeu controle da corda enquanto descia do Black Hawk Super 67 e caiu cerca de 21 metros no meio da rua. Blackburn sofreu um grave ferimento na cabeça e nas costas e precisava de assistência médica imediata. Foi ordenado então que o sargento Jeff Struecker liderasse uma coluna de três Humvees e levasse Blackburn de volta para a base. Durante quase todo o caminho, o comboio foi alvejado centenas de vezes por milicianos somalis, armados principalmente com fuzis de assalto, como o AK-47. O sargento Dominick Pilla foi atingido na cabeça dentro do veículo de Struecker e morreu na hora, sendo o primeiro americano morto naquela operação.[13] Quando Struecker e sua coluna Humvee finalmente chegaram a base em segurança, todos os três veículos estavam crivados por balas de vários calibres.[9]

As 16:20h, perto de quarenta minutos após o início da operação (que já estava sofrendo vários atrasos), um dos helicópteros Black Hawk, codinome Super 61, pilotado pelos oficiais Cliff "Elvis" Wolcott e Donovan Briley, foi derrubado por um disparo de um RPG-7. Ambos os pilotos morreram na queda, mas dois tripulantes que também estavam a bordo estavam feridos. Dois soldados Delta, os sargentos Daniel Busch e Jim Smith, sobreviveram a queda também e saíram dos destroços do helicóptero e começaram a proteger o local da queda.[9]

Tripulantes do Super 64, o segundo helicóptero americano derrubado durante a batalha. Da esquerda para a direita: Winn Mahuron, Tommy Field, Bill Cleveland, Ray Frank e Mike Durant..

Um helicóptero MH-6, codinome Star 41, pilotado por Karl Maier e Keith Jones, pousou perto do local da queda do primeiro Black Hawk. Jones deixou o helicóptero e buscou um Delta ferido enquanto Maier o cobria, disparando sua arma da cabine do Little Bird. Ao mesmo tempo, um grupamento de Rangers e Deltas, liderados pelo tenente Thomas DiTomasso, chegaram para proteger o local da queda, que naquele ponto já estava sob pesado ataque das milícias somali. Jones e Maier resgataram os sargentos Busch e Smith, mas Busch acabaria morrendo devido ao seu ferimento (ele havia sido baleado quatro vezes).[14]

Uma equipe de busca e resgate (CSAR), liderados pelo sargento Scott Fales, desceram de helicóptero até a área onde o Black Hawk codinome Super 61 havia caído. A aeronave que trazia Fales, codinome Super 68, foi atingido várias vezes por disparos de milicianos somalis. A equipe CSAR identificou os dois pilotos mortos do Super 61 e começaram a prestar atendimento médico para os dois tripulantes que ainda estavam vivos, mas gravemente feridos. Para proteger os destroços do helicóptero, os soldados criaram uma parede de kevlar. Os Rangers então formaram um perímetro para defender o local da queda, que estava sendo duramente atacado.[15] Enquanto isso, um segundo grupo de Rangers e Deltas tentaram se mover para o local da primeira queda, mas tiveram de parar devido ao número de baixas (mortos e feridos) que estavam sofrendo. Eles acabaram se refugiando num prédio e permaneceram lá enquanto a noite chegava, sob pesado ataque dos somalis.[16]

Havia confusão das informações que chegavam, especialmente entre o comboio e as equipes de assalto. Os dois grupos tiveram de esperar mais de 20 minutos antes de receber novas ordens para se mover. Isso aconteceu porque ambos as unidades acreditavam que primeiro tinham de receber um contato do outro para prosseguir. Durante esta espera, um segundo helicóptero Black Hawk, codinome Super 64, pilotado pelo oficial Michael Durant, foi derrubado por um RPG, precisamente as 16:40h.[15]

Soldados americanos em ação na Somália.

No local da segunda queda, dois atiradores de elite da Força Delta, os sargentos Gary Gordon e Randy Shughart, desceram do seu Black Hawk, codinome Super 62 – pilotado por Mike Goffena. Após terem seu pedido de descer negado duas vezes, o quartel-general concordou em deixar que os dois sargentos fossem para o local da segunda queda para proteger os quatro americanos presos nos destroços. Enquanto tentavam defende-los, acabaram sendo atacados por uma multidão de somalis armados leais a Aidid. O tiroteio foi intenso e o sargento Gordon foi o primeiro a cair, morto com um tiro na cabeça. O colega, também sargento, Shughart pegou o seu fuzil CAR-15 e o entregou para o piloto Michael Durant. Shughart se moveu para atrás do nariz do helicóptero caído e tentou uma última resistência, segurando os milicianos somalis por mais mais 10 minutos antes dele próprio ser morto. Uma multidão então avançou no local da queda e saquearam o helicóptero e os seus tripulantes matando todos, menos Durant. Ele foi espancado até ficar quase inconsciente, mas foi salvo quando milicianos de Aidid chegaram para levar ele como refém. Por suas ações, os sargentos Gordon e Shughart foram postumamente agraciados com a Medalha de Honra do Congresso, as primeiras dadas de forma póstuma desde a Guerra do Vietnã. Os dois juntos haviam matado mais de 25 milicianos somalis e deixaram dezenas de feridos enquanto valentemente defendiam sua posição. Algumas horas depois, já no meio da noite, um grupo de soldados americanos chegaram ao local da segunda queda, que estava mais isolado. Todos os corpos haviam sumido e Durant já havia sido levado como prisioneiro. Os americanos então jogaram uma granada nos destroços do helicóptero e seguiram em frente com a missão.[17]

No cair da noite, ao final do dia 3 de outubro, as milícias somalis intensificaram seus ataques contra o local da primeira queda. Homens, mulheres e até crianças armadas lançavam-se contra os americanos para tentar sobrepujar suas posições. A batalha foi ficando cada vez mais violenta enquanto a noite ia adentro. Para ajudar a manter suas posições, helicópteros AH-6J Little Bird disparavam seus foguetes e canhões contra os somalis, enquanto os americanos resistiam no solo, infligindo severas perdas no inimigo. Os helicópteros do 160º Regimento de Aviação de Operações especiais eram especialmente equipados para combate noturno e sua tripulação era extremamente bem treinada.[15]

Uma força tarefa foi então montada para avançar pelo centro de Mogadíscio e resgatar todos os soldados americanos lá presos. Foram reunidos homens do 14º Regimento de Infantaria e da 10ª Divisão de Montanha do exército dos Estados Unidos, acompanhados por soldados malaios e paquistaneses das forças de paz da ONU. Essa força tarefa chegou no local da primeira queda por volta das 02:00h do dia 4 de outubro. Como a liderança da missão das Nações Unidas na Somália não havia sido notificada a respeito dos planos dos americanos para aquela operação, houve atrasos na partida do comboio e, sem um planejamento muito bom, o resgate acabou sendo complicado. Dois soldados da ONU foram mortos por milícias somalis no caminho. O general Garrison, comandante das tropas americanas, queria proteger seu pessoal, assim como os integrantes da força de paz, por isso fez questão de que a força tarefa só partisse quando estivesse com força total. Quando o comboio finalmente foi liberado para entrar na cidade, consistia em mais de 100 veículos dos capacetes azuis da ONU, incluindo blindados Condor malaios, quatro tanques de guerra paquistaneses (modelo M48), além de Humveess e caminhões M939 americanos. Helicópteros Black Hawks e Cobra também deram cobertura adicional. Enquanto isso, apesar do intenso combate, os americanos continuavam firmes em suas posições ao redor do local da queda do Super 61, guardando os dois tripulantes sobreviventes ainda nos destroços, junto com os médicos que cuidavam deles. Mais baixas entre as forças da ONU foram reportadas durante a ida e a volta do comboio de resgate e um veículo Condor foi seriamente danificado por um disparo de foguete de um RPG.[18][19]

A corrida final[editar | editar código-fonte]

Veículos Condor da Malásia.

No amanhecer do dia 4 de outubro, mais precisamente as 06:30h, a batalha estava quase que terminada. As forças americanas haviam sido evacuadas para a base da ONU num estádio de futebol. Enquanto isso, um grupo de soldados Ranger e Delta, liderados pelo sargento John R. Dycus, ao ver que não tinha mais espaço nos veículos do comboio de resgate, tiveram que deixar a zona de combate a pé. Este acontecimento foi apelidado de "Mogadishu Mile" (a "Milha de Mogadíscio"). Durante a corrida, o sargento Randal J. Ramaglia foi ferido com um tiro nas costas mas ele sobreviveu.[15]

No total, mais de 160 soldados americanos participaram dos combates e cerca de 18 deles foram mortos em ação e outros 73 ficaram feridos.[20] Os malaios tiveram um soldado seu morto e outros 7 feridos, enquanto os paquistaneses sofreram pelo menos duas baixas. Os somalis sofreram grandes perdas, com o número indo de 315[21] a até 2 000 combatentes mortos. Tais baixas incluem milicianos e civis armados. Já entre a população civil desarmada o número de mortos também foi alto devido ao combate ter acontecido em uma área densamente povoada de Mogadíscio. Dois dias depois, um disparo de morteiro atingiu uma base militar americana matando um soldado, o sargento Matt Rierson, e feriu outros doze.[22]

Duas semanas após a batalha, o general William Garrison enviou uma carta escrita a mão para o presidente Bill Clinton onde assumiu toda a responsabilidade pelo acontecido. Ele afirmou que a Força Tarefa Ranger agiu baseada em informações de inteligência sólidas. No final, apesar das baixas sofridas, o objetivo (capturar os membros do gabinete de Aidid no Hotel Olympic) foi cumprido.[23]

Consequências políticas[editar | editar código-fonte]

A viúva do sargento Gary Gordon recebe a medalha de honra do marido pelas mãos do presidente Bill Clinton.

A missão americana na Somália foi tachada como um fracasso.[24] O governo Clinton, em particular, foi duramente criticado pelo resultado da operação. Porém, as críticas mais duras vieram após a decisão do governo de retirar todas as tropas americanas da Somália antes da missão da ONU ser completada, com nenhum dos objetivos humanitários sendo atingidos e com o país ainda mergulhado em anarquia devido a violência. Também foi apontado a relação da organização terrorista al-Qaeda com Aidid e ainda assim, o governo americano se recusou a ordenar outras missões militares em território somali.[25] Osama bin Laden teria zombado da decisão de retirada precipitada das forças americanas, dizendo que isso mostrava "a fraqueza, fragilidade e covardice do soldado americano".[26]

O povo americano em casa ficou chocado com o resultado da operação, especialmente devido as perdas materiais e humanas. Os noticiários mostraram as imagens de corpos de soldados americanos sendo arrastados e exibidos por milicianos somalis pelas ruas de Mogadíscio. Em resposta a reação muito negativa do público americano, o governo de Bill Clinton ordenou que a presença americana nas missões humanitárias na região fosse reduzida.[26]

Em 26 de setembro de 2006, em uma entrevista para ao apresentador Chris Wallace do canal Fox News, o ex presidente Bill Clinton deu sua versão dos eventos que cercaram a missão na Somália. Ele defendeu sua estratégia de retirada das forças americanas e negou que a partida foi prematura. Clinton disse que políticos conservadores do Partido Republicano o pressionaram para ordenar uma retirada antes que os objetivos fossem alcançados. Ele afirmou: "...[conservadores republicanos] estavam querendo fazer com que eu saísse da Somália em 1993 no dia seguinte a operação e eu recusei e ficamos mais seis meses para podermos transferir nossa missão para as Nações Unidas."[27]

Clinton afirmou também que os Estados Unidos não tinham desistido de sua missão humanitária devido as perdas sofridas na missão. Ele afirmou que, naquele momento, ninguém imaginava que Osama bin Laden e a Al-Qaeda tinha ligação com o ocorrido. Ele disse que depois a missão se tornou somente humanitária e não mais militar.[27]

O medo de que algo como o que aconteceu na Somália se repetisse acabou afetando a política externa americana pelos anos subsequentes. Muitos analistas políticos creditam ao fracasso da operação em Mogadíscio e a resposta do povo americano como um dos motivos para que o governo dos Estados Unidos decidisse não interferir na crise em Ruanda, um outro país africano. A falta de ação americana (e também da comunidade internacional) acabou permitindo que o conflito ruandês se intensificasse, virasse uma guerra civil e assim o país, em 1994, foi palco de um dos maiores genocídios da história recente. Walter Clarke, um ex enviado americano para a Somália, afirmou: "Os fantasmas da Somália continuam a assolar a política americana. Nossa falta de ação em Ruanda foi resultado do nosso medo de que algo como aconteceu na Somália pudesse acontecer novamente."[28] Similarmente, durante a Guerra do Iraque, quatro membros de uma empresa mercenária americana foram mortos na cidade iraquiana de Faluja e seus corpos foram arrastados pelas ruas e a mídia americana comparou isso ao que tinha acontecido a Mogadíscio. Em reposta, os americanos lançaram uma grande operação militar naquela região.[29]

Cultura popular[editar | editar código-fonte]

O filme Black Hawk Down, de 2002, foi baseado no conflito.[30]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bowden, Mark, Black Hawk Down: A Story of Modern War, Atlantic Monthly Press (1999)
  • O'Connell, James Patrick. Survivor Gun Battle Mogadishu, US Army Special Forces. (New York City) (1993)
  • Clarke, Walter, e Herbst, Jeffrey, editors, Learning from Somalia: The Lessons of Armed Humanitarian Intervention, Westview Press (1997)
  • Gardner, Judith e el Bushra, Judy, editors, Somalia - The Untold Story: The War Through the Eyes of Somali Women, Pluto Press (2004)
  • Prestowitz, Clyde, Rogue Nation: American Unilateralism and the Failure of Good Intentions, Basic Books (2003)
  • Sangvic, Roger, Battle of Mogadishu: Anatomy of a Failure, School of Advanced Military Studies, U.S. Army Command and General Staff College (1998)
  • Stevenson, Jonathan, Losing Mogadishu: Testing U.S. Policy in Somalia, Naval Institute Press (1995)
  • Stewart, Richard W., The United States Army in Somalia, 1992-1994, US Army Center for Military History (2003)
  • Somalia: Good Intentions, Deadly Results, VHS, produced by KR Video and The Philadelphia Inquirer (1998)

Referências

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  12. Allard, Colonel Kenneth, Somalia Operations: Lessons Learned, National Defense University Press (1995).
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  30. http://www.imdb.com/title/tt0265086/


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