Batoidea
Batoidea
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Raias, arraias ou peixes batoides (pré-AO 1990: batóides) são peixes cartilaginosos marinhos classificados na infraclasse Batoidea (ou Rajomorphii) da classe Elasmobranchii, grupo que também contêm os tubarões. As raias têm o corpo achatado dorsiventralmente e, por consequência, as fendas branquiais encontram-se por baixo da cabeça – essa é a principal característica que distingue os peixes batoides dos tubarões. Vivem normalmente no fundo do mar (demersais), embora algumas, como a jamanta, sejam pelágicas.
As raias "típicas" têm as barbatanas peitorais como uma extensão do corpo, de forma arredondada ou em losango, pelo que se refere ao seu corpo como o "disco". Podem considerar-se neste grupo, não só as verdadeiras raias (com pequenas barbatanas dorsais na extremidade da cauda), mas também os peixes-serra (ver abaixo), os uges ou ratões (com um espinho venenoso na cauda), as raias eléctricas e os peixes-guitarra e os tubarões-anjos, embora estes tenham as fendas branquiais parcialmente dos lados do corpo e seja, por essa razão, muitas vezes classificados entre os tubarões.
As raias são muito próximas dos tubarões, do ponto de vista filogenético, de tal forma que são incluídos na mesma Classe (Elasmobranchii), por isso a divisão entre raias e tubarões é meramente morfológica são semelhantes aos tubarões-serra (Pristiophoriformes), por terem também a maxila superior transformada numa serra, mas os segundos têm as fendas branquiais dos lados do corpo, por trás das barbatanas peitorais; além disso, estes últimos têm um par de barbilhos na serra e dentes desiguais.
Existe uma espécie de jamanta do Oceano Atlântico, conhecida em Cabo Verde como "gavião-do-mar".
Existe apenas uma família de raias que habitam água doce, principalmente em rios do Pantanal, a família Potamotrygonidae, cujos representantes têm também um espinho venenoso na cauda.
Classificação científica
[editar | editar código]Abaixo uma lista das ordens reconhecidas de raias (ver também texto acima).[2] Ver também a classificação patente na página Chondrichthyes.
- Ordem Rajiformes - raias verdadeiras
- Família Anacanthobatidae
- Família Dasyatidae. Conhecida pelos espinhos venenosos de sua cauda; eles contêm um veneno que causa dor e pode causar sintomas como náusea, vômito, febre, calafrios, paralisia, desmaio, taquicardia e hipotensão (dependendo da espécie). Aliás, as toxinas de algumas espécies podem ser fatais para os seres humanos.
- Gymnuridae
- Hexatrygonidae
- Myliobatidae. As maiores raias, incluindo a gigantesca raia jamanta. A maioria tem um espinho venenoso.
- Plesiobatidae
- Potamotrygonidae. As raias de água doce.
- Rajidae
- Rhinobatidae. Tem uma estrutura corporal similar à dos peixes serra, porém não são parentes próximos.
- Urolophidae
- Ordem Myliobatiformes - jamantas
- Ordem Pristiformes - peixes-serra
- Ordem Torpediniformes - raias eléctricas
Características Biológicas das Arraias
[editar | editar código]As arraias, pertencentes à classe Chondrichthyes, são peixes cartilaginosos amplamente distribuídos em ambientes marinhos e, em menor proporção, em águas doces. Elas compartilham um ancestral comum com os tubarões, sendo classificadas na subclasse Elasmobranchii e na ordem Myliobatiformes, embora existam outras ordens dependendo da espécie considerada.[3]
Estrutura Corporal
[editar | editar código]A principal característica anatômica das arraias é o corpo achatado dorsoventralmente, com nadadeiras peitorais amplamente desenvolvidas e fundidas à cabeça, formando um disco corporal de contorno variado entre espécies. O esqueleto é composto por cartilagem, o que lhes confere leveza e flexibilidade.[4]A boca está posicionada na parte ventral do corpo, assim como as narinas e as fendas branquiais, enquanto os olhos e os espiráculos localizam-se dorsalmente, permitindo a respiração enquanto repousam parcialmente enterradas no substrato.
Tipos de Locomoção
[editar | editar código]As arraias apresentam dois principais modos de locomoção: a locomoção rajada (ou oscilatória) e a locomoção undulatória. Na locomoção rajada, comum em espécies como as arraias-prego (Myliobatis spp.), o movimento é realizado com grandes batimentos das nadadeiras peitorais, lembrando o bater de asas de aves subaquáticas. Já na locomoção undulatória, observada em espécies como as arraias-do-gênero Dasyatis, as nadadeiras peitorais realizam ondulações sequenciais, criando impulso para frente.[5]Ambos os mecanismos conferem grande eficiência energética e manobrabilidade.
Mecanismos de Defesa
[editar | editar código]As arraias são geralmente animais de comportamento pacífico e defensivo. Muitas espécies possuem um ferrote caudal, localizado na base da cauda, que pode conter glândulas de veneno. Esse espinho é utilizado como mecanismo de defesa contra predadores e pode causar ferimentos graves em humanos. Além disso, algumas espécies, como a arraia-elétrica (Narcine brasiliensis), são capazes de emitir descargas elétricas de baixa voltagem, utilizadas tanto para defesa quanto para a captura de presas.[5]
Classificação Científica
[editar | editar código]A classificação científica das arraias varia de acordo com a espécie, mas de maneira geral, elas pertencem ao seguinte grupo taxonômico:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Chondrichthyes
Subclasse: Elasmobranchii
Infraclasse: Batoidea
Ordens principais: Myliobatiformes, Rajiformes, Torpediniformes, entre outras.
Essa diversidade reflete a ampla adaptação morfológica e ecológica das arraias aos diferentes ambientes aquáticos, desde recifes tropicais até fundos arenosos de rios.[5]
Habitat e Distribuição
[editar | editar código]As arraias apresentam ampla distribuição geográfica, ocupando uma variedade de habitats aquáticos ao redor do mundo. Sua adaptabilidade morfológica e fisiológica permite a colonização de ambientes marinhos costeiros, oceânicos e, em algumas espécies, de águas doces. Essa diversidade ecológica reflete uma radiação evolutiva bem-sucedida dentro do grupo dos elasmobrânquios.[5]
Habitat
[editar | editar código]A maioria das arraias é bentônica, ou seja, vive próxima ao fundo dos corpos d'água, onde encontra alimento e proteção contra predadores. Elas são particularmente abundantes em áreas costeiras rasas, como baías, estuários, recifes de corais e fundos arenosos ou lamacentos. Algumas espécies preferem fundos duros, enquanto outras se enterram parcialmente em substratos moles para camuflagem e emboscada.Em relação à profundidade, as arraias habitam desde regiões litorâneas de poucos metros até zonas batipelágicas com mais de 1.000 metros de profundidade. Espécies do gênero Rajidae, por exemplo, são comuns em ambientes de profundidade elevada e águas frias, enquanto Dasyatis americana é típica de águas tropicais rasas.[5]
Além das espécies marinhas, existem arraias dulcícolas, adaptadas a viver exclusivamente em rios e lagos. Um exemplo notável é o grupo Potamotrygonidae, restrito à bacia amazônica e outras bacias sul-americanas, como a do rio Paraná. Essas arraias desenvolveram adaptações fisiológicas para lidar com a osmorregulação em água doce, como modificações nos rins e na estrutura das brânquias.[6]
Distribuição Geográfica
[editar | editar código]As arraias estão amplamente distribuídas em ambientes tropicais, subtropicais e temperados, com maior diversidade registrada nas regiões costeiras do Atlântico, Pacífico e Índico. A zona equatorial concentra a maior riqueza de espécies, principalmente em áreas de plataforma continental e recifes.[7]
Espécies como Aetobatus narinari (arraia-pintada) são cosmopolitas, encontradas em águas tropicais e subtropicais de todos os oceanos, enquanto outras possuem distribuição mais restrita e endêmica. No Brasil, por exemplo, estima-se a ocorrência de mais de 60 espécies de arraias marinhas e cerca de 35 espécies de água doce, muitas delas exclusivas da região amazônica.[7]
As distribuições das arraias são influenciadas por fatores como temperatura da água, salinidade, profundidade, disponibilidade de alimento e tipo de substrato. Além disso, algumas espécies realizam movimentos migratórios sazonais, geralmente relacionados à reprodução e à disponibilidade de presas.
Alimentação e Comportamento
[editar | editar código]O estudo dos hábitos alimentares e comportamentais revela adaptações ecológicas complexas que influenciam sua distribuição, interação com o ambiente e papel trófico nos ecossistemas aquáticos.
Dieta Típica
[editar | editar código]A dieta das arraias varia conforme a espécie, o habitat e a disponibilidade de presas. De maneira geral, são consideradas carnívoras bentônicas, alimentando-se de invertebrados como moluscos, crustáceos, vermes poliquetas e pequenos peixes. A estrutura de sua mandíbula, frequentemente reforçada com placas dentárias, é adaptada para esmagar conchas e exoesqueletos duros.[5]
Algumas espécies, como as arraias da família Myliobatidae (ex.: arraia-águia), demonstram especialização em moluscos bivalves, enquanto outras, como a Potamotrygon motoro, comum em ambientes dulcícolas sul-americanos, exibem uma dieta mais generalista. Já espécies pelágicas, como a arraia-manta (Mobula birostris), têm uma dieta filtradora baseada em zooplâncton, representando uma exceção ao padrão bentônico.[8]
Técnicas de Caça
[editar | editar código]As técnicas de caça das arraias são geralmente discretas e adaptadas à vida no fundo. Elas utilizam estratégias de emboscada, permanecendo parcialmente enterradas na areia ou lama até detectar a presença da presa. A localização do alimento é facilitada por sensores eletro-receptores, as ampolas de Lorenzini, que detectam os campos elétricos emitidos por organismos vivos.[5]
Ao encontrar a presa, as arraias empregam movimentos de sucção oral ou esmagamento para capturá-la. Algumas espécies demonstram comportamento ativo de escavação, movimentando-se em círculos ou utilizando as nadadeiras peitorais para desalojar invertebrados do sedimento.[5]
Comportamento Social vs. Solitário
[editar | editar código]O comportamento social das arraias varia significativamente entre espécies. A maioria é considerada solitária, especialmente as espécies bentônicas, que passam a maior parte do tempo isoladas, interagindo com outros indivíduos apenas durante o período reprodutivo.
No entanto, espécies pelágicas, como as arraias-manta e algumas do gênero Mobula, apresentam comportamentos gregários e podem formar grandes agregações sazonais, possivelmente relacionadas à reprodução ou à abundância de alimento[9]. Estudos com Mobula alfredi indicam comportamentos sociais complexos, incluindo interações repetidas entre indivíduos e movimentações coordenadas.
As razões evolutivas para essas variações comportamentais ainda são objeto de estudo, mas parecem estar ligadas à estratégia alimentar, tipo de habitat e vulnerabilidade a predadores.
Reprodução e Ciclo de Vida
[editar | editar código]As arrais apresentam estratégias reprodutivas complexas e adaptadas à sua ecologia. Assim como outros elasmobrânquios, elas se caracterizam por uma reprodução lenta, com maturação sexual tardia, fecundidade reduzida e cuidados específicos com os embriões, o que as torna vulneráveis a pressões ambientais e pesqueiras.[5]
Modo de Reprodução
[editar | editar código]As arraias exibem fertilização interna, um traço comum entre os elasmobrânquios, facilitado pela presença de clásperes nos machos — estruturas copulatórias derivadas das nadadeiras pélvicas[10]. A maioria das espécies é vivípara, embora existam diferentes formas de viviparidade. No caso das arraias, a viviparidade aplacentária é predominante, onde os embriões se desenvolvem no útero materno sem ligação placentária, sendo nutridos inicialmente pela gema do ovo e, posteriormente, por histotrofia (secreções uterinas)[11].
Algumas espécies, como as do gênero Potamotrygon (arraias de água doce sul-americanas), apresentam viviparidade com histotrofia trofoblástica, na qual os embriões consomem um "leite uterino" produzido pelas vilosidades da parede uterina da fêmea. Essa forma de cuidado pré-natal garante um desenvolvimento embrionário mais avançado, resultando em filhotes relativamente autossuficientes ao nascer[11].
Cuidados Parentais
[editar | editar código]Diferente de muitos peixes ósseos, as arraias não apresentam cuidados parentais pós-natais. Após o nascimento, os filhotes são totalmente independentes e aptos à sobrevivência no ambiente natural. O principal investimento parental ocorre durante a gestação, com significativa alocação energética para o desenvolvimento dos embriões[5].
A ausência de cuidados parentais após o parto é compensada pela alta taxa de sobrevivência dos filhotes, que nascem bem desenvolvidos, com morfologia semelhante à dos adultos e comportamentos instintivos de alimentação e fuga de predadores.
Tempo de Gestação e Filhotes
[editar | editar código]O tempo de gestação das arraias varia conforme a espécie e as condições ambientais, podendo durar de 3 a 12 meses. Por exemplo, em espécies do gênero Dasyatis, a gestação pode durar cerca de 4 a 11 meses, enquanto em arraias de água doce (Potamotrygonidae), o período gestacional normalmente varia entre 5 e 9 meses[11].
O número de filhotes por gestação é geralmente pequeno, variando de 1 a 10 indivíduos, embora algumas espécies maiores possam gerar até 20 filhotes em um único ciclo reprodutivo. O intervalo entre gestações também tende a ser longo, o que, combinado à baixa fecundidade, limita o potencial de recuperação populacional dessas espécies[11].
Importância Ecológica
[editar | editar código]As arraias desempenham um papel fundamental nos ecossistemas marinhos, atuando tanto como predadoras intermediárias quanto como presas de grandes carnívoros. Ao se alimentarem de invertebrados bentônicos, como moluscos e crustáceos, elas ajudam a regular populações, evitar desequilíbrios e promover a bioturbação, o revolvimento do sedimento do fundo, que aumenta a diversidade do habitat.[5]
Espécies pelágicas, como a arraia-manta (Mobula birostris), contribuem para o ciclo de nutrientes ao filtrar grandes volumes de zooplâncton e transportar energia entre diferentes regiões oceânicas.[9]
Como presas, são alvo de predadores como tubarões-tigre, tubarões-brancos e orcas, especialmente em fases juvenis. Essa relação trófica mantém o equilíbrio populacional e pode influenciar até o comportamento das arraias, como padrões de forrageamento e uso de habitat.[12]
Conservação e Ameaças
[editar | editar código]As arraias enfrentam crescentes ameaças à sua sobrevivência, sendo muitas espécies classificadas como vulneráveis, em perigo ou criticamente ameaçadas segundo a Lista Vermelha da IUCN. Sua baixa taxa reprodutiva, crescimento lento e maturação tardia tornam as populações particularmente sensíveis à pressão antrópica.[13]
Principais Ameaças
[editar | editar código]A principal ameaça às arraias é a sobrepesca, seja como captura direcionada, devido ao valor de suas nadadeiras, pele e carne, ou como captura incidental (bycatch) em pescarias de arrasto e redes de emalhe[13]. Espécies como a arraia-gigante (Mobula birostris) e a arraia-diabo (Mobula spp.) são especialmente vulneráveis devido à alta demanda por suas guelras no comércio asiático de medicina tradicional.[14]
Além disso, a degradação de habitats costeiros, como manguezais, estuários e recifes, impacta negativamente a sobrevivência de juvenis e adultos. A poluição, especialmente por metais pesados e microplásticos, também representa um risco crescente, afetando a saúde e a reprodução dessas espécies [15]
Referências
- ↑ *[1]
- ↑ FishBase
- ↑ NELSON, Joseph (2016). Fishes of the World. [S.l.]: Wiley. ISBN 9781119174844
- ↑ MOYLE, Peter (2004). Fishes: An Introduction to Ichthyology. [S.l.]: Prentice Hall. ISBN 9780131008472
- ↑ a b c d e f g h i j k CARRIER, Jeffrey (2012). Biology of Sharks and Their Relatives. [S.l.]: CRC Press. ISBN 9781439839249
- ↑ CARVALHO, Marcelo (2003). Freshwater Stingrays of South America. [S.l.]: University of Iowa Press. ISBN 978-3931702878
- ↑ a b LAST, Peter (2016). Rays of the World. [S.l.]: CSIRO Publishing. ISBN 978-0643109131
- ↑ ARAUJO, Fernando (2004). Feeding ecology of freshwater stingrays in the Amazon basin. [S.l.]: Neotropical Ichthyology
- ↑ a b COUTURIER, Laurent (2012). Movements, behaviour and habitat use of Mobula alfredi in the Indian Ocean. [S.l.]: Marine Ecology Progress Series. pp. 101–114
- ↑ COMPAGNO, Leonard (1999). Sharks, Skates and Rays: The Biology of Elasmobranch Fishes. [S.l.]: Smithsonian Institution Press. ISBN 978‑1560983635 Verifique
|isbn=(ajuda) - ↑ a b c d HAMLETT, William (2005). Shark Reproduction. [S.l.]: CRC Press. ISBN 978‑0849324020 Verifique
|isbn=(ajuda) - ↑ HEITHAUS, Michael (2007). Predator–prey interactions between sharks and rays in coastal ecosystems. [S.l.]: Estuarine, Coastal and Shelf Science. ISSN 0171-8630. doi:10.3354/meps327281
- ↑ a b DULVY, Nicholas (2014). Extinction risk and conservation of the world’s sharks and rays. [S.l.]: eLife. doi:10.7554/eLife.00590. Verifique
|doi=(ajuda) - ↑ COUTURIER, Lionel (2012). Mobulid rays: Global status and trade in gill plates. [S.l.: s.n.] doi:10.1002/aqc.2245
- ↑ GARCIA, Lucas (2024). Heavy metal contamination in rays and benthic elasmobranchs. [S.l.: s.n.]

