Bissexualidade

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A bissexualidade é atração afetiva ou sexual por dois gêneros. Contrapõe-se às monossexualidades (heterossexualidade e homossexualidade). Não significa, necessariamente, atração por homens e mulheres, não inclui todos os gêneros não binários e nem sempre se refere a atrações simultâneas. É, frequentemente, usada como "termo guarda-chuva" para incluir outras não monossexualidades.

O número de indivíduos que apresentam comportamentos e interesses de teor bissexual é maior do que se suporia à primeira impressão. Tal impressão é devida à pouca discussão desta situação tanto em âmbito acadêmico, como em meio popular/comum, mantendo a tendência geral para a polarização da análise da sexualidade, restringindo-a a um binarismo estrutural entre a heterossexualidade e a homossexualidade.

Termos e diferenças[editar | editar código-fonte]

Ver também: Pansexualidade
  • Bissexualidade [no sentido restricto] - Atração por pelo menos dois géneros. Os géneros são percepcionados de forma igual.
  • Pansexualidade - Atração independentemente (percepção de forma igual) do género, relativamente a todos os géneros.
  • Polissexualidade - Atração independentemente do género, mas não relativamente a todos os géneros.

Atualmente, convencionou-se que a diferença entre bissexualidade e pansexualidade não está no número de géneros pelos quais se sente atração nem na negação ou reconhecimento, respetivamente, perante géneros não binários. A diferença é que, enquanto uma pessoa que se autodenomina bissexual reconhece os diferentes géneros e os encara de forma diferente (podendo ser a percepção de diferenças que leva a uma atração de diferentes graus conforme o género em questão), uma pessoa pansexual sente atração por todos os géneros com a mesma intensidade - por isso é que é definida como atração independentemente do género: porque as diferenças são um fator de pouco peso. Há, ainda, pessoas que se consideram polissexuais e que, apesar de não sentirem atração por todos os géneros (não podendo ser consideradas pansexuais), não partilham da percepção da bissexualidade, e sim da pansexualidade. [1]

Ménage à trois retratado num mural de Pompeia. O ménage à trois é considerado um exemplo de relação bissexual.

Sendo assim, a denominação bissexual não implica em transfobia (embora seja possível que uma pessoa bissexual seja transfóbica, não há uma correlação entre os dois aspetos). Implica, apenas, uma diferente percepção de género.

No guarda-chuva, podem, ainda, estar incluídos os seguintes termos, não tão comuns:

  • pessoas de sexualidade fluida, que, durante certas fases da vida, se encontram em partes distintas da escala de Kinsey, que determina "graus" de bissexualidade.
  • quem é heteroflexível (maioritariamente hétero) e quem é homoflexível (maioritariamente homossexual).
  • quem é ambissexual (no centro da escala de Kinsey)
  • bicuriosos, alguém que por norma não se identifica como bi mas sente vontade de experimentar estar com outros géneros.
  • quem é bi/panromântico, ainda que assexual, heterossexual ou homossexual.
  • sapiossexuais, alguém que opta por dizer que se sente atraído pelo intelecto das pessoas e não pelos seus géneros ou aparência.
  • persexuais, alguém que opta por dizer que se sente atraído pela personalidade das pessoas e não pelo seu intelecto.
  • omnissexuais, que gostam de todos os géneros (como os pansexuais), mas contrariamente a estes, percepcionam e reconhecem que há diferenças entre os vários géneros.
  • queer, termo usado por quem ainda não determinou ou não quer colocar rótulos muito específicos na sua sexualidade.

Visão social da bissexualidade[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Bifobia

Embora, teoricamente, por se apresentar também nela uma faceta de heterossexualidade, no sentido da atração por indivíduos do sexo oposto, segundo o olhar de homossexuais exclusivos, a bissexualidade pode parecer mais facilmente aceita. A verdade é que, em geral, há incidências específicas de preconceito contra pessoas bissexuais partindo tanto de homossexuais quanto de heterossexuais, denominado como bifobia. Uma face da bifobia se dá quando certos homossexuais consideram a bissexualidade pouco mais que um meio-termo confortável entre a heterossexualidade estabelecida e a identidade homossexual pela qual lutam por estabelecer, ou até uma fase de transição da hétero para a homossexualidade.

Este preconceito também causa certos julgamentos prévios sobre o indivíduo bissexual como a promiscuidade, inconstância, tendência à infidelidade, porte de doenças venéreas, ou mero modismo. Muitas vezes abordados como somente objeto de fetiche, bissexuais também podem receber respostas de repulsa de ambos os lados por conta do histórico de contato com os dois sexos.

Atualmente é comum também o uso do termo queer na denominação tanto de pessoas bissexuais como homossexuais, numa tentativa de fugir das categorizações restritas, englobando num único termo as pessoas que pura e simplesmente se afastam dos conceitos dominantes da "heterocisnormatividade". Contudo, uma vez que queer já foi usado como insulto e ainda pode ser considerado uma ofensa, deve ser aplicado unicamente a indivíduos que manifestem concordar com a aplicação do termo a si próprios, e não à comunidade inteira.

No entanto, em termos históricos, o comportamento bissexual foi aceito e até encorajado em determinadas sociedades antigas, especificamente, entre outras, na Grécia, e em determinadas nações do Oriente Médio.

Escala de Kinsey[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Escala de Kinsey

Em termos de estudos quanto à bissexualidade, sublinha-se em notoriedade e importância para estudos posteriores do assunto os Estudos de Kinsey, publicados em 1948 e 1953, quanto a um estudo cujas conclusões afirmavam, entre outras constatações, que grande parte da população estadunidense tinha comportamentos bissexuais de intensidade variante. Embora algo criticados, em particular quanto à seleção dos indivíduos a quem se aplicaram os inquéritos correspondentes ao estudo, estes vieram a tornar-se uma referência notória no que toca a estudos da sexualidade, e apresentou pela primeira vez a noção de que a bissexualidade é, possivelmente, muito mais comum do que se pensa.

Esses relatórios mantiveram-se, portanto, também importantes em campos teóricos - em particular pela noção apresentada da sexualidade humana ser composta não por duas alternativas únicas, a heterossexualidade e a homossexualidade, mas por um espectro de interesse e comportamento sexual, que tem as duas como extremos.

Orientação sexual, identidade, comportamento[editar | editar código-fonte]

A Associação Americana de Psicologia afirma que a orientação sexual

[2]

De acordo com Rosário, Schrimshaw, Hunter, Braun (2006),

[3]

Em um estudo longitudinal sobre o desenvolvimento da identidade sexual entre gays, lésbicas e bissexuais (LGB) jovens, os seus autores "encontraram considerável mudança na identidade LGB sexual ao longo do tempo". Jovens que haviam se identificado inicialmente tanto como gays/lésbicas quanto como bissexuais, tiveram aproximadamente três vezes mais chances de se identificar como gay/lésbica do que como bi em avaliações subsequentes. Dos jovens que haviam se identificado apenas como bi em avaliações anteriores, 60-70% continuaram a se identificar como bissexual, enquanto cerca de 30-40% assumiram uma identidade gay/lésbica ao longo do tempo. Os autores sugeriram que "embora haja jovens que constantemente se autoidentificaram como bissexuais ao longo do estudo, para outros jovens, uma identidade bissexual serviu como uma identidade de transição para uma futura identidade gay/lésbica.[3]

Bissexuais, geralmente, começam a se identificar como bissexuais em seus primeiros vinte anos de vida, em média.[4][5] Mulheres bissexuais têm mais frequentemente a sua primeira experiência heterossexual antes da sua primeira experiência homossexual, enquanto os homens bissexuais com mais frequência têm a sua primeira experiência homossexual antes da sua primeira experiência heterossexual.[6]

Prevalência[editar | editar código-fonte]

Um estudo realizado em 2002 nos Estados Unidos pelo National Center for Health Statistics (Centro Nacional Para Estatísticas da Saúde) descobriu que 1,8% dos homens com idade entre 18-44 se consideravam bissexuais, 2,3% homossexuais e 3,9% se identificavam como "algo mais". O mesmo estudo descobriu que 2,8% de mulheres com idades entre 18-44 se consideravam bissexuais, 1,3% homossexual, e 3,8% como "algo mais".[7] O The Janus Report on Sexual Behavior, publicado em 1993, mostrou que 5% dos homens e 3% de mulheres se consideram bissexuais e 4% dos homens e 2% de mulheres se consideravam homossexuais.[7] A seção 'Saúde' do The New York Times declarou que "1,5 por cento de mulheres americanas e 1,7 por cento de homens americanos identificar-se [como] bissexual."[8]

O trabalho do doutor Alfred Kinsey em 1948, "Sexual Behavior in the Human Male", descobriu que "46% da população masculina tinha apresentado tanto atividades heterossexuais como homossexuais, ou 'reagido' às pessoas de ambos os sexos, no decurso da sua vida adulta."[9] Kinsey não gostou do uso do termo "bi" para descrever os indivíduos que participem em atividades sexuais com machos e fêmeas, preferindo usar o "bi" em seu sentido original biológicos como hermafrodita: "Até que seja demonstrado que o gosto em uma relação sexual depende do indivíduo conter em sua anatomia estruturas de ambos os sexos, ou capacidades fisiológicas masculinas e femininas, é lamentável chamar essas pessoas de bissexuais "(Kinsey et al., 1948, p. 657).[10] Dr. Fritz Klein acredita que a atração emocional e social são elementos muito importantes na atração bissexual. Um terço dos homens em cada grupo não apresentaram excitação significativa. O estudo não provava serem eles assexuais, Rieger e afirmou que a falta de resposta não alterou as conclusões gerais.

Símbolos[editar | editar código-fonte]

Um símbolo comum da comunidade bissexual é a bandeira do orgulho bissexual, que tem uma faixa magenta na parte superior para a homossexualidade, uma azul na parte inferior para a heterossexualidade e uma violeta, misturado a partir do magenta e do azul, no meio para representar a bissexualidade.[11]

Os triângulos sobrepostos.

Outro símbolo com o mesmo esquema de cores é um par de sobreposição de triângulos rosa e azul (o triângulo rosa é um símbolo bem conhecido para a comunidade homossexual) sendo o centro roxo na parte onde os triângulos se encontram.[12]

Símbolo bissexual da lua.

Muitos indivíduos homossexuais e bissexuais têm um problema com o uso do símbolo do triângulo rosa, uma vez que era o símbolo que o regime de Hitler utilizava para marcar e perseguir os homossexuais (semelhante à Estrela de Davi amarela constituída de dois triângulos sobrepostos). Portanto, o símbolo da lua dupla foi concebido especificamente para evitar o uso dos triângulos.[13] O símbolo da lua dupla é comum na Alemanha e nos países vizinhos. Outro símbolo usado para a bissexualidade é um diamante roxo, conceitualmente, derivado do cruzamento de um dois triângulos, rosa e azul (respectivamente), colocados sobrepostos um ao outro.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Commons
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Referências

  1. Doenst identifying as bisexual reinforce a false gener binary. Bisexual.org
  2. [1]
  3. a b Rosario, M., Schrimshaw, E., Hunter, J., & Braun, L. (Fevereiro, 2006). Sexual identity development among lesbian, gay, and bisexual youths: Consistency and change over time. Journal of Sex Research, 43(1), 46–58. Retrieved April 4, 2009, from PsycINFO database.
  4. Fox, Ronald C. (1995). Bisexual identities. In A. R. D'Augelli & C.J. Patterson (Eds.), Lesbian, gay, and bisexual identities over the lifespan. New York: Oxford University Press.
  5. Weinberg, Thomas S. (1994). Research in sadomasochism: A review of sociological and social psychological literature. Annual Review of Sex Research, 5, 257–279.
  6. Hyde, Janet Shibley, John D. DeLamater. Understanding human sexuality, 361. New York, NY. 10th ed.
  7. a b «Frequently Asked Sexuality Questions to the Kinsey Institute». The Kinsey Institute. Consultado em 16 de fevereiro de 2007. 
  8. Carey, Benedict (5 de julho de 2005). «Straight, Gay or Lying? Bisexuality Revisited» The New York Times [S.l.] Consultado em 24 de fevereiro de 2007. 
  9. Research Summary from the Kinsey Institute.
  10. Kinsey, A. C., Pomeroy, W. B., & Martin, C. E. (1948). Sexual behavior in the human male. Philadelphia and London: W. B. Saunders.
  11. Page, Michael. «Bi Pride Flag». Consultado em 16 de fevereiro de 2007. «The pink color represents sexual attraction to the same sex only, homosexuality, the blue represents sexual attraction to the opposite sex only, heterosexuality, and the resultant overlap color purple represents sexual attraction to both sexes (bi).» 
  12. «Symbols of the Gay, Lesbian, Bisexual, and Transgender Movements». 26 de dezembro de 2004. Consultado em 27 de fevereiro de 2007. 
  13. Koymasky, Matt; Koymasky Andrej (14 de agosto de 2006). «Gay Symbols: Other Miscellaneous Symbols». Consultado em 18 de fevereiro de 2007. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]