Bob Dylan

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Bob Dylan Medalha Nobel
Bob Dylan Barcelona.jpg
Bob Dylan em Barcelona (1984)
Informação geral
Nome completo Robert Allen Zimmerman
Nascimento 24 de maio de 1941 (75 anos)
Origem Duluth, Minnesota
País  Estados Unidos
Gênero(s) Rock
Folk
Country
Instrumento(s) Voz, violão, baixo, gaita, guitarra, piano
Período em atividade 1959 - presente
Gravadora(s) Columbia
Prémios Medalha do prêmio Nobel Prémio Nobel de Literatura 2016
Página oficial www.bobdylan.com

Bob Dylan (nome artístico de Robert Allen Zimmerman; Duluth, 24 de maio de 1941) é um compositor, cantor, pintor, ator e escritor norte-americano.

Nascido no estado de Minnesota, neto de imigrantes judeus russos, aos dez anos de idade Dylan escreveu seus primeiros poemas e, ainda adolescente, aprendeu piano e guitarra sozinho. Começou cantando em grupos de rock, imitando Little Richard e Buddy Holly, mas quando foi para a Universidade de Minnesota em 1959, voltou-se para a folk music, impressionado com a obra musical do lendário cantor folk Woody Guthrie, a quem foi visitar em Nova Iorque em 1961.

Em 2004, foi eleito pela renomada revista Rolling Stone o 7º maior cantor de todos os tempos e, pela mesma revista, o 2º melhor artista da música de todos os tempos, ficando atrás somente dos Beatles, e uma de suas principais canções, "Like a Rolling Stone", foi escolhida como a melhor de todos os tempos.[1] Influenciou diretamente grandes nomes do rock americano e britânico dos anos de 1960 e 1970. Em 2012, Dylan foi condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama.[2]

Ganhou o Prêmio Nobel da Literatura em 2016 por "ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana"[3]. E, assim, tornou-se o primeiro e único artista na história a ganhar, além do Prêmio Nobel, o Oscar, Grammy e o Globo de Ouro.

Biografia[editar | editar código-fonte]

1941-1960[editar | editar código-fonte]

Robert Allen Zimmerman (nome hebraico: Zushe ben Avraham)[4] nasceu no hospital St. Mary de Duluth, em Minnesota, no dia 24 de maio de 1941[5] e cresceu em Hibbing, Minnesota, no Mesabi Iron Range a oeste do Lago Superior. Os estudos realizados por vários de seus biógrafos mostraram que seus avós paternos, Zigman e Anna Zimmerman, emigraram de Odessa (atual Ucrânia) para os Estados Unidos por causa de um pogrom antissemita ocorrido em 1905.[6] Seus avós maternos, Benjamin e Lybba Edelstein, eram judeus lituanos que chegaram à América em 1902.[6] Em sua autobiografia, Crônicas, Vol. 1, Dylan escreveu que o apelido de sua avó materna era Kyrgyz e que sua família era procedente de Istambul.[7]

Seus pais, Abram Zimmerman e Beatrice "Beatty" Stone, faziam parte de uma pequena mas muito unida comunidade judaica. Robert Zimmerman viveu em Duluth até seus seis anos, quando seu pai contraiu poliomielite e sua familia voltou à cidade natal de sua mãe, Hibbing, Minnesota, onde passou o resto de sua infância.[8] Robert passou boa parte de sua juventude escutando rádio: em um primeiro momento, escutando emissoras de Shreveport, em Louisiana, country, e posteriormente, rock and roll.[9] Durante sua estadia na escola, formou várias bandas, como The Shadow Blasters, de curta duração, e The Golden Chords,[10] com a qual chegaria a tocar no programa de busca de talentos Rock and Roll Is Here to Stay.[11] No anuário escolar de 1959, Robert Zimmerman assinalou sua principal ambição "unir-se a Little Richard".[12] No mesmo ano, usando o pseudônimo de Elston Gunn, tocou em duas apresentações com Bobby Vee, acompanhando ao piano e improvisando com palmas.[13][14][15]

Em setembro de 1959, Zimmerman se mudou para Minneapolis, para estudar na universidade de Minnesota. Durante a época, seu interesse inicial no rock and roll deu lugar a uma aproximação ao folk. Em 1985, Dylan explicou sua atração pelo folk: "A coisa sobre o rock'n'roll é que para mim de qualquer jeito ele não era suficiente... Havia bons bordões e ritmo pulsante... mas as canções não eram sérias ou não refletiam a vida de um modo realista. Eu sabia que quando eu entrei na música folk, era um tipo de coisa mais sério. As canções eram enchidas com mais desespero, mais tristeza, mais triunfo, mais fé no sobrenatural, sentimentos mais profundos".[16] Logo começou a tocar no 10 O'Clock Scholar, uma cafeteria a poucas quadras do campus universitário, e se viu envolvido no circuito folk de Dinkytown.[17]

Durante seus dias en Dinkytown, Zimmerman passou a se chamar de "Bob Dylan". Em uma entrevista concedida em 2004, Dylan disse: "Você nasce, sabe, com nomes errados, pais errados. Digo, isso acontece. Você se chama do que quiser se chamar. Este é o país da liberdade"..[10] Em sua autobiografia, Crónicas, Vol. 1, Dylan escreveu sobre a mudança de nome:

"Eu havia visto alguns poemas de Dylan Thomas. A pronúncia de Dylann e Allyn era parecida. Robert Dylan. A letra D tinha mais força. Entretanto, o nome Roberto Dylan não era tão atraente como Roberto Allyn. As pessoas sempre haviam me chamado de Robert ou Bobby, mas Bobby Dylan me parecia vulgar, e além disso já haviam Bobby Darin, Bobby Vee, Bobby Rydell, Bobby Neely e muitos outros Bobbies. A primeira vez que me perguntaram meu nome em Saint Paul, instintiva e automaticamente soltei: 'Bob Dylan'".[18]
Bob Dylan em novembro de 1963.

1960-1963: Mudança para Nova Iorque e contrato de gravação[editar | editar código-fonte]

Dylan abandonou a universidade após seu primeiro ano. Em janeiro de 1961, mudou-se para Nova Iorque com a esperança de ver seu ídolo musical, Woody Guthrie, que estava gravemente doente, com um estado avançado do mal de Hutington no hospital psiquiátrico de Greystone Park.[19] Guthrie foi uma das maiores influências nas primeiras apresentações de Dylan. Sobre Guthrie, Dylan chegou a dizer: "Você pode escutar suas canções e aprender a viver".[20] Também escreveu, posteriormente: "As canções em si têm o infinito alcance de humanidade nelas... [Ele] era a verdadeira voz do espírito americano. Eu disse a mim que seria o maior discípulo de Guthrie".[21] À medida que o visitava no hospital, Dylan ficou amigo do assistente de Guthrie, Ramblin' Jack Elliott. Muito do repertório de Guthrie era na verdade canalizado através de Elliott, a quem Dylan prestou tributo em Crônicas (2004).[22]

A partir de fevereiro de 1961, Dylan tocou em vários clubes do bairro de Greenwich Village. Em setembro, ele começou a ganhar certa reputação graças a uma resenha de Robert Shelton no The New York Times durante uma apresentação no Gerde's Folk City.[23] No mesmo mês, Dylan tocou a harmônica para Carolyn Hester durante a gravação de seu terceiro álbum, o que levou seus talentos para a atenção do produtor John H. Hammond.[24] Hammond contratou Dylan para a Columbia Records em outubro.

As interpretações incluídas em seu primeiro trabalho para a Columbia, intitulado Bob Dylan e lançado em 1962, consistiam em material de música folk, blues e gospel combinado com duas composições próprias, "Song to Woody" e "Talkin' New York". O álbum teve pouco êxito comercial, vendendo cinco mil cópias em seu primeiro ano, o suficiente para uma rescisão de contrato.[25] Dentro da Columbia, Dylan começou a ser tachado como a "tolice de Hammond" e sugeriram findar seu contrato. Apesar disso, Hammond defendeu vigorosamente Dylan, e ao mesmo tempo encontrou um bom defensor em Johnny Cash, que havia assinado pela Columbia meses antes.[25] Durante seu trabalho para a Columbia, Dylan também gravou várias canções sob o pseudônimo de Blind Boy Grunt[26] para a revista de música folk Broadside Magazine, uma revista e gravadora de música folk.[27] Dylan usou o pseudônimo Bob Landy para gravar como tocador de piano no álbum de antologia de 1964, The Blues Project, lançado pela Elektra Records.[26] Sob o pseudônimo de Tedham Porterhouse, Dylan contribuiu com a harmônica para o álbum de 1964 de Ramblin' Jack Elliott, Jack Elliott.[26]

Em agosto de 1962, Dylan deu dois importantes passos em sua carreira musical ao modificar seu nome legalmente para Robert Dylan na Corte Suprema de Nova Iorque e ao firmar um contrato de representação com Albert Grossman. Grossman foi o empresário de Dylan até 1970 e se caracterizou por sua personalidade algumas vezes confrontativa e pela extrema proteção que mostrava para seu principal cliente.[28] Dylan descreveria posteriormente Grossman como "uma espécie de Coronel Tom Parker... você podia cheirá-lo vindo".[29] As tensões entre Grossman e John Hammond obrigaram o segundo a abandonar as sessões de gravação do segundo trabalho discográfico de Dylan, sendo substituído pelo jovem produtor Tom Wilson.[30]

De dezembro de 1962 a janeiro de 1963, Dylan fez sua primeira viagem ao Reino Unido.[31] Ele foi convidado pelo diretor de televisão Philip Saville para aparecer em um drama The Madhouse on Castle Street, o qual Saville estava dirigindo a emissora BBC.[32] No fim da apresentação, Dylan tocou "Blowin' in the Wind", uma das primeiras exibições da canção para um público maior.[33] Enquanto em Londres, Dylan tocou em alguns clubes folk da cidade, como Les Cousins, The Pinder of Wakefield,[34] e Bunjies.[31] Ele também aprendeu novas canções de alguns intérpretes britânicos, como Martin Carthy.[31]

Próximo da época de seu segundo álbum, The Freewheelin' Bob Dylan, lançado em maio de 1963, ele começou a fazer seu nome como cantor e compositor. Muitas das canções incluídas no álbum foram classificadas como canções de protesto, inspiradas parcialmente em Woody Guthrie e influenciadas pela paixão de Pete Seeger por canções tradicionais.[35] "Oxford Town", por exemplo, é um conto irônico sobre a arriscada matrícula de James Meredith como o primeiro negro na universidade do Mississippi.[36]

Sua mais famosa canção à época, "Blowin' in the Wind", deriva parcialmente sua melodia da canção tradicional "No More Auction Block", apesar de sua letra questionar o status quo social e político da época.[37] A canção teve muitas versões e tornou-se um sucesso internacional com Peter, Paul and Mary, criando um precedente para muitos outros artistas que se alçariam com sucessos através de composições de Dylan. Por sua parte, a canção "A Hard Rain's a-Gonna Fall" se baseia nos acordes da balada folk "Lord Randall". Com suas referências ao apocalipse nuclear, a canção ganhou ressonância durante o desenrolar da crise dos mísseis de Cuba, poucas semanas depois de Dylan começar a tocá-la.[38] Como "Blowin' in the Wind", "A Hard Rain's a-Gonna Fall" marcou uma importante direção na composição de novas canções, mesclando o uso do fluxo de consciência e a lírica imagista com as formas tradicionais do folk.[39]

Enquanto as primeiras canções de Dylan solidificaram sua reputação inicial, The Freewheelin' Bob Dylan também incluía canções de amor mescladas com uma lírica irônica e blues falado surreal. O humor se converteu em um dos pilares da personalidade de Dylan,[40] e a variedade de material impressionou muitos ouvintes, incluindo os Beatles. George Harrison comentou: "Só colocávamos e nos viajava. O conteúdo das letras de suas canções e só a atitude - era incrivelmente original e maravilhoso".[41]

A voz áspera de Dylan era perturbadora para alguns ouvintes iniciais, ao mesmo tempo que uma atração para outros. Descrevendo o impacto que Dylan havia ocasionado em seu marido e nela mesma, Joyce Carol Oates escreveu: "Quando escutei pela primeira vez essa voz crua, muito jovem e parecendo não treinada, francamente nasal, como se a lixa pudesse dalar, o efeito foi dramático e eletrificante".[42] Muitas de suas primeiras canções famosas alcançaram o público em geral através de versões imediatamente mais palatáveis de outros intérpretes, como Joan Baez, que se converteu na protetora de Dylan assim como sua posterior amante.[10] Baez foi determinante na hora de levar Dylan à popularidade nacional e internacional com numerosas versões de suas canções e ao convidá-lo frequentemente ao palco em suas apresentações.[43]

Alguns outros que gravaram e tiveram sucessos com canções de Dylan no início e metade da década de 1960 foram The Byrds, Sonny & Cher, The Hollies, Peter, Paul and Mary, The Association, Manfred Mann e The Turtles. A maioria tentou dar uma batida pop e ritmo às canções, enquanto Dylan e Baez os tocavam na maior parte como peças folk esparsas. As versões cover tornaram-se tão ubíquas que a CBS começou a promovê-lo com a frase"Nobody Sings Dylan Like Dylan."[44]

Transição[editar | editar código-fonte]

Mas logo Dylan mudou de rumos artísticos, afastando-se do movimento folk de protesto e voltando-se para canções mais pessoais, introspectivas, ligadas a uma visão muito particular de mundo. As questões sócio-políticas de seu tempo: racismo, guerra fria, guerra do Vietname, injustiça social, cedem espaço para a temática das desilusões amorosas, amores perdidos, vagabundos errantes, liberdade pessoal, viagens oníricas e surrealistas, embaladas pela influência da poesia beat. Esta transição se dá entre 1964 e 1966, quando Dylan eletrifica a sua música, passa a tocar com uma banda de blues-rock como apoio e choca a plateia folk, com sua aproximação ao rock. Na época, muitos ignoravam que Dylan já havia tocado rock and roll na adolescência e apreciava artistas country como Johnny Cash, que já trabalhavam com instrumentos elétricos desde os anos 50. O sucesso dos Beatles e demais roqueiros britânicos na releitura do rock americano também lhe chamaram a atenção. Em compensação, foi aclamado pela crítica, ampliou o seu público (mesmo sendo chamado de "traidor" por fãs do Dylan cantor folk), tornando-se cada vez mais influente entre artistas contemporâneos (John Lennon, por exemplo) e lançando os mais apreciados discos de sua carreira, com uma série de canções clássicas de seu repertório: "Maggie's Farm", "Subterranean Homesick Blues", "Gates of Eden", "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)", "Mr. Tambourine Man", "Ballad Of A Thin Man", "Like a Roling Stone", "Just Like a Woman", entre outras, lançadas em seus álbuns mais inspirados: "Bringing It All Back Home" e "Highway 61 Revisited" de 1965 e o duplo "Blonde on Blonde", de 1966.

Em maio de 1966, após uma tumultuada turnê pela Inglaterra, devido ao formato rock dos shows, Dylan sofreu um grave acidente de moto que o afastou dos palcos e gravações até 1968. Em seu retorno, surpreendeu o público e a crítica com o álbum "John Wesling Hardin", fortemente influenciado pelo country, tendência que acentuou-se no trabalho seguinte, "Nashville Skyline", que trouxe o clássico "Lay Lady Lay" para as paradas. Limitando-se a apresentações esporádicas, das quais a mais importante foi sua participação no Festival da Ilha de Wight em agosto de 1969, além de sua participação no Concerto para Bangladesh, organizado por George Harrison em 1971, Dylan só voltaria a realizar turnês em 1974.

Anos 70[editar | editar código-fonte]

O que produziu no início dos anos 70 não foi bem recebido pela crítica, considerado muito abaixo de seus hits originais. Apenas algumas canções destacam-se: "If Not For You" (1970), "Knockin' on Heaven's Door" (1973), "Forever Young" (1974). Mas ao voltar as turnês, acompanhado pelo grupo The Band, retorna a evidência e ao sucesso, principalmente pelo elogiado duplo ao vivo "Before the Flood" (1974). Na retomada da carreira de forma mais ativa, Dylan produz "Blood On Tracks" (1975) e "Desire" (1976), seus melhores discos nos anos 70, aclamados pela crítica. Deste último, a canção "Hurricane", baseada na história de Rubin Carter, um boxeador negro preso injustamente, foi um sucesso espetacular, ao mesmo tempo que a turnê Roling Thunder Revue (75/76) era aclamada por crítica e público. São também de Desire as músicas Sara (dedicada a sua esposa) e Romance in Durango, essa última vertida para Romance no Deserto pelo letrista Fausto Nilo para o disco de mesmo nome do cantor Raimundo Fagner.

Conversão[editar | editar código-fonte]

Apresentação de Bob Dylan em Roterdão, 23 de junho de 1978

Após seu divórcio em 1977, da esposa Sara Lownds[45], com quem era casado desde 1965, Dylan viveu uma grande crise pessoal, que refletiu-se em seu trabalho artístico. Depois de uma turnê mundial em 1978, em parte registrada no duplo ao vivo "At Budokan" (gravado no Japão), ele voltou-se para a música gospel, após converter-se ao cristianismo e filiar-se a uma igreja. Foi o período mais controverso e polêmico de sua carreira, principalmente por Dylan afastar-se de seu repertório clássico e investir em canções com temática cristã. Nesta nova fase, surpreendeu seus antigos fãs e se apróximou de músicos do segmento cristão, como Larry Norman[46], Chuck Girard[47] e Keith Green, em cujo álbum "So You Wanna Go Back to Egypt" chega a gravar uma participação com sua harmônica[48].

Mais importante do que isso, motivado por sua nova espiritualidade, Dylan gravou três álbuns: "Slow Train Coming" (1979) considerado o mais inspirado dos três, deu a Dylan um Grammy de melhor vocal masculino, pela canção "Gotta Serve Somebody". O segundo álbum, "Saved" (1980), teve uma recepção menos entusiasmada, embora na opinião de Kurt Loder da Rolling Stone este álbum fosse superior ao primeiro [49]. "Shot of Love" (1981) encerra a fase cristã de Dylan.

A despeito da intolerância das críticas à época do seu lançamento, em 2003, o conteúdo das músicas de "Gotta Serve Somebody" foi depurado, revisitado e redimido por nomes como Shirley Caesar, Helen Baylor, Chicago Mass Choir e outros representantes da música afro-americana, em "The Gospel Songs of Bob Dylan", um CD que se desdobrou em indicação para o Grammy e em documentário (2006) sobre esta fase. O jornal International Herald Tribune declarava que a interpretação afro-americana levava a música de Dylan a um outro patamar[50].

Anos 80[editar | editar código-fonte]

Com "Infidels", de 1983, Dylan afasta-se da fé cristã, volta-se inesperadamente para as suas raízes judaicas e parece reencontrar certo equilíbrio artístico. Bem recebido pela crítica, é considerado seu melhor álbum desde Desire. As apresentações ao vivo, em que volta a interpretar suas canções clássicas, marcam uma reconciliação com seu público. Em 1985 participa do especial We are the world com outros 40 grandes nomes da música estadunidense - entre eles Michael Jackson, Tina Turner, Ray Charles, Stevie Wonder - pela campanha contra a fome na África.

Dylan continua a gravar regularmente, buscando uma sonoridade "made anos 80" ao mesmo tempo em que tenta preservar seu estilo. "Down In The Groove", álbum de 1988, passou despercebido, contém várias covers, mas equivale a uma declaração de princípios, com canções de folk-rock, gospel, rock, que demarcam os gostos artísticos preferenciais do artista. Depois de uma turnê com a lendária banda californiana Grateful Dead, ele lança o álbum "Oh Mercy" (1989), elogiado pela qualidade inesperada das canções e volta às paradas com o super-grupo Traveling Wilburys, formado com os amigos George Harrison, Tom Petty, além de Jeff Lynne e Roy Orbison.

Bob Dylan no Lida Festival de Estocolmo, Suécia, em 1996.

Anos 90[editar | editar código-fonte]

No início dos anos 90, Bob Dylan parece dar uma "parada" na carreira. Para comemorar e fazer um balanço de seus 30 anos de trajetória, ele volta a gravar folk tradicional, acústico, sem importar-se com o pouco apelo comercial deste gênero nos dias atuais. Em 1992 é realizado um show-tributo em grande estilo, com a participação de vários nomes do rock, country e do soul cantando suas músicas: Eric Clapton, George Harrison, Stevie Wonder, Neil Young, Willie Nelson, Lou Reed, Eddie Vedder entre outros.

Depois do acústico produzido para a MTV em 1994, Dylan só voltaria com um CD de inéditas em 1997 (ano que vários outros famosos voltaram a ativa com sucesso, entre eles os Bee Gees). O álbum "Time Out Of Mind" ganharia vários prêmios Grammy e foi considerado por muitos uma nova ressurreição artística, confirmada pela qualidade de "Love and Theft" (2001). Neste mesmo ano a revista Rolling Stone publicou uma lista com as 500 melhores músicas da história e em primeiro lugar ficou Like a Rolling Stone, de Bob Dylan. Atualmente registra-se um novo interesse pela vida e obra de Dylan, com o lançamento oficial de várias gravações piratas, além do lançamento do documentário "No Direction Home", de Martin Scorsese, que flagra os anos iniciais de sua carreira (1961-1966) e, mais recentemente, com "Modern Times", seu novo álbum lançado em 2006, com o qual, pela quarta vez na carreira, Dylan conquistou a liderança do ranking dos mais vendidos dos Estados Unidos, vendendo 192.000 cópias na primeira semana. A última vez que Dylan tinha alcançado a liderança nos Estados Unidos, foi com o álbum "Desire", de 1976, que ficou 5 semanas no topo das paradas. Antes disso, alcançou o primeiro lugar com o clássico disco "Blood On The Tracks", em 1975, e com "Planet Waves", no ano anterior.

Prêmio Nobel[editar | editar código-fonte]

Em 13 de outubro de 2016, foi anunciada a escolha de Bob ao Prêmio Nobel da Literatura de 2016, em um evento em Estocolmo, na Suécia.[51] Bob Dylan foi acusado de ser arrogante, inclusive por membros da Academia Sueca, pois ficou em silêncio após o anúncio de seu prêmio Nobel de Literatura e não respondeu às insistentes ligações da Academia.[52]

Somente duas semanas depois, no dia 28 de outubro, Bob Dylan quebrou o silêncio acerca do Nobel. O cantor disse que é algo "difícil de acreditar", além de considerar "surpreendente e incrível" a laureação. Contudo, o cantor enviou uma carta pessoal à Academia Sueca comunicando que não irá comparecer à cerimônia de premiação, alegando ter "outros compromissos".[53][54]

Discografia[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Discografia de Bob Dylan

Dylan possui uma extensa discografia dentre álbuns de estúdio e ao vivo como os álbuns The Freewheelin' Bob Dylan, Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, John Wesley Harding, Blood on the Tracks, Desire, Infidels, Time Out of Mind, Modern Times e Fallen Angels.

Pintor[editar | editar código-fonte]

Bob Dylan também pinta e desenha tendo lançado um livro de desenhos "Drawn Blank" em 1994

Fez a sua primeira exposição denominada "The Drawn Blank Series" no Museu Kunstsammlungen em Chemnitz (Alemanha) (onde há obras de Munch e Picasso) entre Outubro de 2007 e 3 de Fevereiro de 2008 com 175 aquarelas e guaches.

Escritor[editar | editar código-fonte]

Dylan escreveu o livro Tarântula em 1966, mas só foi publicado em 1971 (New York: Macmillan). No Brasil, o livro foi publicado em 1986 pela Editora Brasiliense (Coleção Circo de Letras) com tradução de Paulo Henriques Britto. Foi publicado em Portugal em 2007, com tradução de Vasco Gato (Vila Nova de Famalicão: Quasi).

Embora durante toda a sua vida Dylan tenha publicado as suas songs book, parece ser com o título de Lyrics que irá sucessivamente editar a compilação das letras das suas composições: lyrics de 1962-1985 (1985); em 1997, ampliadas ao período 1962-1996; em 1999, até 1999; em 2004, compreende as lyrics entre 1962-2001; em 2008, intituladas simplesmente Lyrics; e finalmente em 2014, sob o título The Lyricssince 1962, ed. por Christopher Ricks, Lisa Nemrow e Julie Nemrow (New York: Simon & Schuster)[55]

Em Portugal, as suas letras das canções foram editadas em dois volumes pela editora Relógio d’Água, em 2006 e 2008, respetivamente, abrangendo os períodos temporais indicados nos títulos: Canções 1962-2001 – Volume 1 (1962-1973), Volume 2 (1974-2001), ambos com traduções de Angelina Barbosae Pedro Serrano.

Mais recentemente, em 2004, saiu a público o primeiro volume da autobiografia de Dylan, Chronicles, volume one (New York: Simon & Schuster), que teve logo tradução portuguesa por Bárbara Pinto Coelho: Crónicas (Lisboa: Ulisseia, 2005) e brasileira, por Lúcia Brito: Crônicas Vol. I (São Paulo: Planeta, 2005).

Dylan é amigo de Caetano Veloso, amizade nascida após a leitura do livro Verdade Tropical.

Em 13 de outubro de 2016, a Academia Sueca agraciou o poeta-cantor com o Prémio Nobel de Literatura por “ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana”. Esta atribuição inesperada do maior prémio... da literatura a alguém que era conhecido no mundo da música foi algo controverso e fez correr muita tinta.

Em Portugal[editar | editar código-fonte]

Bob Dylan deu seis concertos em Portugal, os primeiros em julho 1993, no Coliseu do Porto e no Pavilhão de Cascais, e o último em 2008, em contexto de festival, em Algés.

Em abril de 1999 deu dois concertos no então Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e no Coliseu do Porto. Em julho de 2004, apresentou-se em Vilar de Mouros e, quatro anos depois, no festival Nos Alive, em Algés.

Bob Dylan é uma influência assumida por músicos e compositores portugueses como Sérgio Godinho[56], Jorge Palma[57], Jorge Cruz[58] e Samuel Úria[59].

Referências

  1. «Bob Dylan, 'Like a Rolling Stone'» (em inglês). Rolling Stone. Consultado em 28 de setembro de 2012. 
  2. Tom Cohen (29 de maio de 2012). «Albright, Dylan among recipients of Presidential Medal of Freedom». CNN (em inglês). CNN U. S. Consultado em 28 de setembro de 2012. 
  3. Group, Global Media. . "Nobel da Literatura vai para Bob Dylan" (em pt-PT). TSF Rádio Notícias.
  4. «Singer/Songwriter Bob Dylan Joins Yom Kippur Services in Atlanta» (em inglês). Chabad.org News. 24 de setembro de 2007. Consultado em 24 de maio de 2011. 
  5. «Bob Dylan». Consultado em 24 de maio de 2011. 
  6. a b Sounes, Down The Highway: The Life Of Bob Dylan, pp. 12-13. ISBN 0-8021-1686-8
  7. Dylan, Chronicles, Volume One (en inglês), pp. 92-93. ISBN 0-7432-2815-4
  8. Shelton, No Direction Home (em inglês), pp. 25-33. ISBN 0-306-81287-8
  9. Shelton, No Direction Home, pp. 38-39. ISBN 0-306-81287-8
  10. a b c «Bob Dylan: Biography» (em inglês acessodata = 1 de abril de 2009). Contactmusic.com. 
  11. Sounes, Down The Highway: The Life Of Bob Dylan, pp. 29-37. ISBN 0-8021-1686-8
  12. Shelton, No Direction Home, pp. 39-43. ISBN 0-306-81287-8
  13. «Early alias for Robert Zimmerman» (em inglês). Expecting Rain. 11 de agosto de 1999. Consultado em 24 de maio de 2011. 
  14. Sounes, Down The Highway: The Life Of Bob Dylan, pp. 41-42. ISBN 0-8021-1686-8
  15. Heylin, Bob Dylan: Behind the Shades Revisited (em inglês), pp. 26-27. ISBN 0-06-052569-X
  16. Texto de Cameron Crowe no álbum de 1985 Biograph.
  17. Shelton, No Direction Home, pp. 65-82. ISBN 0-306-81287-8
  18. Dylan, Chronicles, Vol. 1, 78-79. ISBN 0-7432-2815-4
  19. Dylan, Chronicles, Volume One, p. 98. ISBN 0-7432-2815-4
  20. Shelton, No Direction Home, pp. 39-43. ISBN 0-306-81287-8
  21. Dylan, Chronicles, Volume One, pp. 244–246.
  22. Dylan, Chronicles, Volume One, pp. 250–252.
  23. Robert Shelton (21 de septiembre de 1961). «Bob Dylan: A Distinctive Stylist» (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2011. 
  24. Richie Unterberger (8 de outubro de 2003). «Carolyn Hester Biography» (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2011. 
  25. a b Scaduto, Bob Dylan (em inglês), p. 110. ISBN 1-900924-23-4
  26. a b c Richie Unterberger. «Blind Boy Grunt» (em inglês). All music. Consultado em 24 de maio de 2011. 
  27. Shelton, No Direction Home, pp. 157-158. ISBN 0-306-81287-8
  28. Gray, The Bob Dylan Encyclopedia (em inglês), pp. 283-284. ISBN 0-8264-6933-7
  29. Shelton, No Direction Home, p. 150. ISBN 0-306-81287-8
  30. Heylin, Bob Dylan: Behind the Shades Revisited, pp. 115-116. ISBN 0-06-052569-X
  31. a b c Heylin, 1996, Bob Dylan: A Life In Stolen Moments, pp. 35–39.
  32. «Dylan in the Madhouse» (em inglês). BBC TV. 14 de outubro de 2007. Consultado em 24 de maio de 2011. 
  33. Sounes, Howard. Down the Highway: The Life Of Bob Dylan. Doubleday 2001. p159. ISBN 0-552-99929-6
  34. Jude Rogers (17 de setembro de 2007). «Josh Ritter» (em inglês). The Guardian. Consultado em 24 de maio de 2011. 
  35. Shelton, No Direction Home, pp. 138-142. ISBN 0-306-81287-8
  36. Shelton, No Direction Home, p. 156. ISBN 0-306-81287-8
  37. O livreto escrito por John Bauldie que acompanha o álbum The Bootleg Series Volumes 1-3 (Rare & Unreleased) 1961-1991 (1991) diz: "Dylan reconheceu a dívida em 1978 ao Marc Rowland: Blowin' In The Wind' sempre foi um espiritual. Eu a tirei de uma canção chamada 'No More Auction Block'—que é um espiritual e 'Blowin' In The Wind' segue o mesmo sentimento." pp. 6–8.
  38. Heylin, Bob Dylan: Behind the Shades Revisited, pp. 101-103. ISBN 0-06-052569-X
  39. Ricks, Dylan's Visions of Sin (en inglés), pp. 329-344. ISBN 0-670-80133-X
  40. Scaduto, Bob Dylan, p. 35. ISBN 1-900924-23-4
  41. Revista Mojo (dezembro de 1993).
  42. Joyce Carol Oates (2004). «Dylan at 60» (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2011. 
  43. Joan Baez entry, Gray, The Bob Dylan Encyclopedia, pp. 28-31. ISBN 0-8264-6933-7
  44. Steve Meacham (15 de agosto de 2007). «It ain't me babe but I like how it sounds» (em inglês). The Sydney Morning Herald. Consultado em 24 de maio de 2011. 
  45. Sara Dylan
  46. Larry Norman e Bob Dylan, uma troca de influências
  47. Dylan e Chuck Girard
  48. [1] Participação de Bob Dylan em "So You Wanna Go Back to Egypt", de Keith Green
  49. Revista Rolling Stone (1980-09-18)
  50. International Herald Tribune
  51. "".
  52. «Acadêmico sueco critica "arrogância" de Bob Dylan por silêncio após Nobel». AFP / UOL. 21 de outubro de 2016. 
  53. País, Ediciones El. (2016-11-16). "Bob Dylan não irá a receber seu Nobel de Literatura" (em pt-br). EL PAÍS.
  54. «Bob Dylan no irá a la ceremonia de entrega del Premio Nobel». CNNEspañol.com. 2016-11-16. Consultado em 2016-11-16. 
  55. «A legitimação literária do canto de Bob Dylan». literaturaliteraturaliteratura.blogspot.pt. Consultado em 2016-11-06. 
  56. «Dylan é "absolutamente um desbravador na canção americana" - Sérgio Godinho». portocanal.sapo.pt. Consultado em 2016-10-13. 
  57. «Jorge Palma canta Bob Dylan». discodigital.sapo.pt. Consultado em 2016-10-13. 
  58. «Jorge Cruz: "Bob Dylan é o pai da canção como nós a conhecemos"». diabonacruz.blogspot.pt. Consultado em 2016-10-13. 
  59. «Nobel: "É como se tivesse ganho um familiar próximo", diz Samuel Úria». SAPO Mag. Consultado em 2016-10-13. 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Outros projetos Wikimedia também contêm material sobre este tema:
Wikiquote Citações no Wikiquote
Commons Imagens e media no Commons
Precedido por
Svetlana Alexijevich
Nobel de Literatura
2016
Sucedido por