Bom selvagem

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Detalhe do quadro histórico neoclássico The Death of General Wolfe (1771), retratando um índio norte-americano idealizado.

O bom selvagem ou mito do bom selvagem é um personagem modelo ou tópico literário na literatura e no pensamento antropológico da Idade Moderna, que nasce na Europa a partir do primeiro contato com as populações indígenas da América. A popularização do conceito é atribuída a filósofos iluministas como Rousseau, que teorizou uma humanidade naturalmente boa, ingênua e que seria corrompida por um processo civilizatório.[1]

O descobrimento do outro[editar | editar código-fonte]

Desde o famoso texto de Cristóvão Colombo em que diz haver chegado ao paraíso terreno,[2] a imaginação tratou de atribuir todo tipo de bondades ingênuas aos indígenas (os naturais, como os chamavam nos documentos espanhóis da época). A isto também contribuiu em grande parte Bartolomé de las Casas com seu Brevísima Relación de la Destrucción de las Indias.[3] O papel de parte do clero, de teólogos como os da Escola de Salamanca e dos próprios reis pode ver-se na convocatória da Junta de Burgos e a Junta de Valladolid, que discutiam sobre a natureza e a justificação da conquista e a exploração econômica da América (polêmica dos justos títulos ou da guerra aos naturais) e o corpo legislativo das leis das Índias. A Fábula Negra ampliou por toda a Europa a visão positiva de seres humanos em estado de natureza mortificados pelos abjetos espanhóis, que resumiriam todos os vícios e degenerações do homem civilizado.

A extensão do mito[editar | editar código-fonte]

As utopias do século XVI (Erasmo de Rotterdam, Elogio da Locura; Tomás Moro, Utopia) e obras como a de Baltasar Gracián (El Criticón) no século XVII, levam à definitiva discussão da natureza humana como má por natureza (Leviathan de Hobbes) ou boa por natureza, como pretendeu o Iluminismo (sobretudo Rousseau), que volta a "descobrir" exemplos de bons selvagens nas ilhas do Pacífico (tropicais e paradisíacas como as Antilhas, com indígenas nus de fácil trato e natureza pródiga) que descrevem viajantes como James Cook e produzem histórias como a do motim do Bounty.

Também contribuiu à extensão do uso do conceito o descobrimento das crianças salvagens ou crianças selvagens (Victor de Aveyron e Kaspar Hauser), que por sua vez tiveram tratamento literário e cinematográfico, por si mesmos ou como inspiração.

Cultura popular[editar | editar código-fonte]

O "bom selvagem" muitas vezes mapeia para raças não corrompidas em gêneros de ficção científica e fantasia, muitas vezes deliberadamente como um contraste com culturas mais avançadas "decaídas", em filmes como Avatar[4] e literatura, incluindo Ghân-buri-Ghân em O Senhor dos Anéis.[5] Exemplos de personagens bons selvagens famosos na fantasia e na ficção científica que são bem conhecidos são Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, Conan, o Bárbaro, criado por Robert E. Howard, e John, de Admirável Mundo Novo.[6] Ka-Zar, Thongor e outros são menos conhecidos. Tarzan, Conan e John são conhecidos não apenas por meio de sua literatura, mas também por adaptações para o cinema e outros materiais licenciados.

Referências

  1. Rousseau, Jean-Jacques (1989). Do Contrato Social. São Paulo: Pillares 
  2. «Notes on Columbus». www2.latech.edu (em inglês). Consultado em 28 de agosto de 2019 
  3. de las Casas, Bartolomé (2018). Brevísima relación de la Destrucción de las Indias. [S.l.]: FV Éditions 
  4. «'Avatar': Science, Civilization And The Noble Savage In Space». NPR.org (em inglês). Consultado em 24 de maio de 2021 
  5. Rutledge, Fleming (4 de novembro de 2004). The Battle for Middle-earth: Tolkien's Divine Design in The Lord of the Rings (em inglês). [S.l.]: Wm. B. Eerdmans Publishing 
  6. «The Subversion of Drama in Huxley's Brave New World» (PDF). Semantic Scholar. 22 de fevereiro de 2019. Consultado em 24 de maio de 2021 
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