Burguesia

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O estereótipo do burguês no Monsieur Jourdain, personagem principal da peça Le Bourgeois gentilhomme, de Molière.

A burguesia é uma palavra originária da língua francesa (bourgeoisie), usada nas áreas de economia política, filosofia política, sociologia e história, e que originalmente era uma classe social que surgiu na Europa na Idade Média (séculos XI e XII) com o renascimento comercial e urbano.[1][2] No mundo ocidental, desde o final do século XVIII, a burguesia descreve uma classe social, caracterizada por sua propriedade de capitais, sua relacionada "cultura", e sua visão materialista do mundo. Na filosofia marxista, o termo "burguesia" denota a classe social que detém os meios de produção de riqueza, e cuja preocupações sociais são o valor da propriedade e da preservação do capital, a fim de garantir a sua supremacia econômica na sociedade.[3] Na contemporânea teoria social o termo burguesia denota a classe dominante das sociedades capitalistas.[4]

A formação da burguesia[editar | editar código-fonte]

Inicialmente os burgueses eram os habitantes dos burgos (pequenas cidades protegidas por muros), estes eram pessoas que dedicavam-se ao comércio de mercadorias (roupas, especiarias, joias) e prestação de serviços e não eram bem vistas por integrantes da nobreza, que até então eram os principais detentores do poder.

Desprezados pelos nobres, estes burgueses eram herdeiros da classe medieval dos vassalos e, por falta de alternativas, dedicavam-se ao comércio que, alguns séculos mais tarde, serviria de base para o surgimento do capitalismo.

Com o surgimento da teoria maxismo a partir do século XIX, a burguesia passou a ser identificada como a classe detentora dos meios de produção na ordem social capitalista. Como tal, lhe foram atribuídos os méritos do progresso tecnológico, mas foi também responsabilizada pela reprodução da opressão pelo trabalho na sociedade contemporânea. Os marxistas cunharam também o conceito de "pequena burguesia", que foi como chamaram o setor das camadas médias da sociedade atual, regido por valores e aspirações da burguesia.

As igrejas da Idade Média, além de dar o conhecimento religioso aos cristãos, tomaram conta do ensinamento nas escolas, que ficavam anexas aos mosteiros. Com o surgimento da burguesia, parte das novas escolas passaram a ser administradas por esta classe que passou a ensinar novas matérias, além do conhecimento religioso.

Ascensão da burguesia[editar | editar código-fonte]

Na Baixa Idade Média, quando as cidades começaram a se formar e crescer, artesãos e comerciantes começaram a emergir como uma força econômica. Eles formaram as guildas, que eram associações e companhias que tinham o objetivo de promover o comércio e seus próprios interesses. Essas pessoas eram os burgueses originais. Na Baixa Idade Média, aliaram-se com a nobreza através de casamentos, para enfraquecer o sistema feudal, transformando-se gradualmente na classe governante de nação-estados industrializadas.

Além das guildas houve também as corporações de ofícios, caracterizados pela formação de um grupo de pessoas com as mesmas profissões. Eram divididos em três grupos, sendo um de profissionais com ampla experiência, uma de profissionais mediano, até aqui recebiam salários, e um com jovens aprendizes que não recebiam salários mas adquiriam muito conhecimento em sua profissão, com os outros profissionais

No século XVII e XVIII, essa classe de forma geral apoiou a Revolução Americana e a Revolução Francesa fazendo cair as leis e os privilégios da ordem feudal absolutista, limpando o caminho para a rápida expansão do comércio. Os conceitos tais como liberdades pessoais, direitos religiosos e civis, e livre comércio todos derivam-se das filosofias burguesas. Com a expansão do comércio e da economia de mercado, o poder e a influência da burguesia cresceu. Em todos os países industrializados, a aristocracia perdeu gradualmente o poder ou foi expurgada por revoltas burguesas, passando a burguesia para o topo da hierarquia social. Com os avanços da indústria, surgiu uma classe mais baixa inteiramente nova, o proletariado ou classe trabalhadora.

Aprofundamento[editar | editar código-fonte]

Pela forte carga ideológica que o termo hodiernamente acarreta, falar em burguesia para períodos anteriores ao século XVII constitui, senão um erro, pelo menos uma inexatidão histórica que convém precisar. Se desde o século XII há burgueses (id est, os habitantes dos burgos), e estes paulatinamente vão fazendo do comércio a sua fonte de receitas, no entanto, para este grupo é preferível usar expressões neutras do ponto de vista ideológico, como mercadores ou comerciantes.

Na verdade, no quadro de uma sociedade europeia dividida em três ordens ou três estados (remontando esta ideologia trinitária - considerada de origem providencial - à Idade Média, com a oposição e interdependência entre oratores, bellatores e laboratores), aquilo que vulgarmente se designa por clero, nobreza e povo, facilmente se compreende, ante a difícil e lenta mutação dos quadros mentais, a existência da burguesia como "ordem" (e muito menos como classe social, termo marxista apenas aplicável após à Revolução Industrial).

Isto, porém, não impede subestratificações dentro das ordens. Em Portugal, por exemplo, o clero divide-se entre os que fazem vida no século e o que a fazem debaixo de uma regra monástica; a nobreza, divide-se, consoante a riqueza e as funções, em ricos-homens, infanções (mais tarde fidalgos) e cavaleiros; o povo, em variadíssimos estratos, consoante a ocupação e a riqueza. E assim também, a partir do século XII, com o renascimento das cidades, emergem os seus habitantes, os quais, feitos mercadores, vão progressivamente aumentar as suas riquezas e aspirar ao ingresso na ordem superior que é a nobreza.

Consoante as épocas e as regiões, será mais ou menos fácil a mobilidade social entre elementos enriquecidos do Terceiro Estado e elementos do grupo nobre. Sucede muitas vezes nobres arruinados financeiramente casarem com filhas de mercadores (ou vice-versa), para dessa forma revitalizarem as suas casas; consoante a permeabilidade dos soberanos, poderão os novos representantes dessas famílias manter ou não o estatuto nobiliárquico.

Mas a ascensão do elemento burguês também se verifica através, por exemplo, do estudo - o acumular de riquezas possibilita aos filhos dos mercadores estudar nas universidades, instruírem-se, tornarem-se no corpo de letrados que auxilia o rei numa época de restauração do direito e de fortalecimento do poder real, conducente mais tarde ao que se chamou de absolutismo. Muitos destes letrados, filhos de burgueses, que servem devotadamente o rei, são recompensados, muitas das vezes, com títulos de nobreza, verificando-se assim a estreita fusão entre os dois grupos que muitos, entre os burgueses, propugnavam (mas que, muitas vezes, à nobreza tradicional, de sangue, desagradava).

Transformações regionais[editar | editar código-fonte]

Brasão da família Herincx, burgueses de 's-Hertogenbosch.

Fenômeno muito disseminado nos Países Baixos, Suíça e Germânia, especialmente nas grandes cidades republicanas, como Amsterdam, Roterdam, Hamburgo, Lübeck, e muitas outras, contudo, com uma forte separação entre a baixa e a alta burguesia, operou-se um desenvolvimento diferenciado e surgiu a percepção da alta burguesia como uma nova nobreza, de pleno direito e de caráter cívico, e não feudal ou militar. Nessas regiões o termo "burguês" formalizou-se como um título e tornou-se um sinônimo de patrício, um estatuto regulamentado juridicamente, hereditário e extensivo às famílias. Tipicamente essas famílias eram armígeras, seus nomes eram inscritos em Livros de Ouro, só elas podiam ingressar em certas irmandades, monopolizavam as maiores riquezas e o acesso aos cargos públicos e aos conselhos, e detinham uma série de outros privilégios legais, políticos, econômicos e sociais. Enquanto isso os membros da baixa burguesia perdiam sua denominação de "burgueses" e passavam a se denominar "habitantes"; eram os pequenos comerciantes, artesãos, mestres de oficinas, membros de guildas, oficiais subalternos, etc, que residiam no perímetro urbano, detinham alguns direitos e viviam com algum conforto. O restante da população era bastante flutuante e ficava composta de servos, agricultores, trabalhadores não especializados, soldados mercenários, artistas itinerantes, aventureiros, que eram pobres, não possuíam quase nenhum direito e eram sistematicamente explorados pelos estratos sociais superiores. Estrangeiros, mesmo ricos, não tinham direitos e não podiam desenvolver atividade política e econômica significativa sem admissão na burguesia. O mesmo problema enfrentavam os nobres tradicionais, praticamente excluídos da administração pública urbana. Esse processo foi, desta maneira, uma tomada de poder nas cidades pelo estrato burguês superior,[5][6] e foi em tudo semelhante ao ocorrido na Itália, onde o mesmo estrato social urbano tomou o controle das cidades após o esfacelamento do poder local do Sacro Império Romano-Germânico, sendo o único diferencial a denominação da classe dominante emergente, que lá simplesmente se chamou de patrícia, e não burguesa.[7][8] Em seu estudo dos Países Baixos, onde a transformação da burguesia em patriciado se tornou um caso modelar, Frijhoff & Spies registram sobre os novos patrícios:

“Descendentes de mercadores de grãos e arenque, cervejeiros e fabricantes de sabão, construtores de navios e capitães, investiram sua riqueza em capitais simbólicos que lhes pudessem dar a ilusão de pertencerem a uma nova nobreza, muito acima da classe média. Compraram feudos e direitos hereditários, agiam como senhores feudais, ostentavam títulos duvidosos, construíam casarões e renovavam castelos, adotavam extravagantes brasões, inventavam genealogias míticas, casavam com nobres decadentes e em alta voz exigiam direitos de caça – a única prerrogativa de classe que permanecia exclusiva da nobreza, junto com o acesso aos Estados Gerais”.[6]
Registro de admissão de Ernst Volraat na burguesia de Breda, 1º de abril de 1734. Detalhe do Breda Poorterboek (Livro dos Burgueses de Breda).

A admissão nessas formas de burguesia/patriciado se conformou às práticas de enobrecimento em geral: o estatuto não era concedido com facilidade, era invariavelmente oneroso (em alguns locais a taxa cobrada era uma fortuna), a admissão era formalizada publicamente, e em geral exigia-se provas de boa conduta e idoneidade moral para o requerente e sua família, além de um compromisso de dedicação aos interesses públicos. Em alguns locais a família requerente precisava residir na cidade por um século ou mais e ter desenvolvido expressiva tradição. Esta burguesia completava desta forma uma quase completa mímese da antiga nobreza, usando os mesmos meios de legitimação e auto-afirmação e criando por si mesma e para si mesma um amplo espaço de representação social. E mais do que se equiparando à nobreza feudal e militar, de fato em muitos locais as suplantou em prestígio, riqueza e influência. Nos Países Baixos a tradição da burguesia tornou-se tão ilustre que depois de um longo período em regime republicano, quando a monarquia foi restaurada e quis enobrecer as famílias principais, descendentes dos antigos grandes comerciantes e políticos, teve várias vezes suas ofertas rejeitadas porque essas famílias tinham o estatuto de burgueses como superior ao de nobres.[9][5][10]

Economia[editar | editar código-fonte]

Na atualidade, especialmente para os intelectuais alinhados ao pensamento marxista, burguesia pode querer significar uma classe social detentora dos meios de produção e empregadora do proletariado, que vende sua força de trabalho e seu tempo a fim de se sustentar.

A burguesia tinha como principal economia o comércio, lá por sua vez criaram-se as oficinas; formadas por mestres, oficiais, aprendizes, as oficinas governadas pela corporação de ofício; formada pelos mestres de todas as oficinas de um mesmo produto (ex: tapetes), a burguesia mais tarde na Alta Idade Média aliou-se aos reis (que tinham apenas uma figura decorativa) pois os reis estavam querendo o poder dos Senhores Feudais, que eram donos desses centros denominados burgos. Esse fato foi chamado "centralização política da Alta Idade Média".

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Bourgeoisie, "burguesía" in the Diccionario de la Real Academia Española (1994)
  2. Webster’s New Twentieth Century Dictionary of the English Language — Unabridged (1951) p. 205.
  3. «" Bourgeois Society ".» (em inglês). marxists.org 
  4. Dictionary.com, Dictionary.com. «bourgeoisie». Random House, Inc. Consultado em 19 de abril de 2012 
  5. a b Israel, J. I. The Dutch Republic: Its Rise, Greatness and Fall, 1477-1806. Oxford University Press, 1995
  6. a b Frijhoff, Willem & Spies, Marijke. Dutch Culture in a European Perspective: 1800, blueprints for a national community. Uitgeverij Van Gorcum, 2004
  7. Fraccaro, Plinio. "Patriziato". Enciclopedia Italiana, 1935
  8. "Patriziato". Dizionario di Storia. Treccani, 2011
  9. Hagestedt, Lutz. Ähnlichkeit und Differenz: Aspekte der Realitätskonzeption in Ludwig Tiecks späten Romanen und Novellen. Belleville, 1997
  10. Dronkers, Jaap & Schijf, Huibert. “Marriages between nobility and high bourgeoisie as a way to maintain their elite positions in modern Dutch society”. In: 6th Conference of the European Sociological Association. Murcia, 23- 26/09/2003
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