Cação-bruxa
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Vulnerável | |||||||||||||||||||||
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Notorynchus cepedianus (Péron, 1807) | |||||||||||||||||||||
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O cação-bruxa[1] (Notorynchus cepedianus) é uma espécie de tubarão marinho e betônico, pertencente à família Hexanchidae (grupo conhecido popularmente como tubarões-vaca). É conhecido por ser a única espécie atual classificada no gênero Notorynchus e destaca-se evolutivamente por possuir sete fendas branquiais[2], diferentemente da maioria dos tubarões que possui apenas cinco. Tem uma distribuição global em regiões costeiras, é um predador topo de cadeia oportunista e pode ser potencialmente agressivo para o ser humano, sobretudo se provocado.
Distribuição geográfica e Habitat
[editar | editar código]Com exceção do Atlântico Norte e do Mar Mediterrâneo, o cação-bruxa é encontrado na plataforma continental de todos os oceanos, embora os registros no Oceano Índico tenham validade incerta. Sua distribuição abrange o Atlântico Sudoeste (do sul do Brasil ao norte da Argentina)[3], Atlântico Sudeste (da Namíbia à África do Sul), Pacífico Oeste (do sul do Japão à Nova Zelândia) e Pacífico Leste (do Canadá ao Chile)[4]
São animais bentônicos associados à plataforma continental, preferindo principalmente fundos rochosos, embora também ocorram em fundos arenosos e lodosos. Existe uma clara segregação por idade em seu habitat: os jovens preferem águas rasas costeiras, sendo muito comuns em baías rasas e estuários com menos de 1 metro de profundidade[5]. Já os adultos habitam águas mais profundas, podendo ser encontrados a até 570 metros de profundidade, com uma média de ocorrência nos 45 metros.[6]
Descrição física
[editar | editar código]O corpo do cação-bruxa é fusiforme, apresentando uma cabeça larga e arredondada, focinho curto e rombudo, boca larga e olhos pequenos[7]. Uma de suas características mais marcantes é a presença de sete fendas branquiais[8]. Diferentemente de muitos tubarões, possui apenas uma nadadeira dorsal localizada na parte posterior do corpo e cauda heterocerca.
Sua coloração varia de marrom-avermelhado a cinza-prateado ou oliva no dorso, sempre com pequenas manchas pretas, enquanto o ventre é cor de creme. A espécie apresenta dimorfismo sexual, sendo as fêmeas maiores que os machos. Podem atingir entre 1,5 e 3 metros de comprimento e um peso máximo registrado de 107 kg. A dentição é altamente especializada: os dentes inferiores possuem formato de pente, enquanto os superiores são serrilhados.[9]
Comportamento e Alimentação
[editar | editar código]São animais que nadam lentamente junto ao fundo do mar, mas ocasionalmente podem aparecer na superfície. Seu comportamento envolve movimentações relacionadas às marés e migrações sazonais: durante a primavera e o verão, entram em baías para reprodução e, no outono, retornam ao mar aberto[10][11]. Costumam formar grupos com indivíduos do mesmo sexo e tamanho. A sua comunicação e percepção ambiental envolvem a detecção de substâncias químicas, a percepção de campos elétricos e a sensibilidade a mudanças de pressão.[12]
A espécie possui uma alimentação generalista e atua como um predador oportunista. Sua dieta inclui outros tubarões, raias, quimeras, mamíferos marinhos (como golfinhos, botos e focas), peixes ósseos (salmão, esturjão, arenque, anchova) e carniça. Podem caçar em grupo utilizando ataques rápidos de emboscada. Durante a alimentação, a mandíbula inferior fixa a presa enquanto a cabeça se move agressivamente para cortar pedaços com os dentes superiores. Seu sistema digestivo lento lhes permite passar longos períodos sem se alimentar, pois a digestão pode levar de horas a dias.[13]
Reprodução e Ciclo de vida
[editar | editar código]A espécie é ovovivípara e possui um sistema de acasalamento poliginândrico, no qual múltiplos machos e fêmeas copulam entre si. A reprodução ocorre a cada dois anos, geralmente na primavera e no início do verão. Durante o cortejo reprodutivo, o macho morde a fêmea para se segurar nela durante a cópula.[14]
A gestação é longa, durando até 12 meses, resultando em grandes ninhadas que variam de 82 a 95 filhotes[15]. Ao nascerem, os filhotes medem entre 40 e 53 cm e permanecem em áreas rasas e protegidas, não recebendo qualquer cuidado parental após o nascimento. A maturidade sexual é atingida mais cedo pelos machos (entre 4,3 e 5 anos) do que pelas fêmeas (entre 11 e 21 anos). A expectativa de vida estimada para a espécie é de aproximadamente 50 anos.[16]
Conservação
[editar | editar código]No Brasil
[editar | editar código]O tubarão-bruxa é uma espécie costeira e criticamente ameaçada no Brasil, classificado pelo ICMBio como Criticamente em Perigo (CR). No Rio Grande do Sul, seu grau de ameaça é considerado Dados Deficientes (DD) pelo estado, mas CR no nível nacional.[17]
Existem lacunas significativas no conhecimento dos registros da espécie nos últimos anos, e mecanismos de gestão e recuperação são urgentes. Um estudo de 2024 utilizando ciência cidadã, com entrevistas a 65 pescadores entre 2018 e 2024 nos estados do Sul e Sudeste, revelou que a espécie ainda ocorre em toda sua extensão histórica, com preferência por águas costeiras e frias — porém a falta de monitoramentos pesqueiros e o distanciamento das comunidades pesqueiras dificultam a coleta de dados refinados.
Globalmente (IUCN)
[editar | editar código]Globalmente, o cação-bruxa está listado como Vulnerável (VU) na Lista Vermelha da IUCN. A espécie é capturada intencionalmente e como fauna acompanhante em pescarias industriais, artesanais e recreativas ao longo de toda a sua distribuição.[18]
Há distribuição disjunta mundial, com dados genéticos indicando pelo menos três populações distintas: Pacífico Ocidental, Pacífico Norte Oriental e Atlântico Sul. A informação sobre tamanho e tendência populacional global ainda é muito limitada.
Tendências populacionais
[editar | editar código]No Atlântico Sudoeste, estudos recentes reportaram declínios populacionais de até 60%, além de altas taxas de captura acidental em pescarias de camarão em áreas costeiras e da plataforma continental.
Principais ameaças
[editar | editar código]- A pesca excessiva, tanto recreativa quanto comercial, é a principal causa do declínio. Tanto a carne quanto as barbatanas são apreciadas em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.
- A vulnerabilidade da espécie é determinada por uma combinação de fatores: perda de habitat, poluição, mudanças climáticas e interação com a pesca.
Usos
[editar | editar código]É utilizada para exposição em aquários públicos. Tem importância económica: é usada na alimentação humana, a sua pele é utilizada para fabricação de couro e óleo é extraído do seu fígado.
Taxonomia
[editar | editar código]O cação-bruxa é a única espécie actualmente classificada no gênero Notorynchus[19]. No entanto, este género já conteve outras espécies, hoje em dia consideradas sinónimos de N. cepedianus:
- Notorynchus aptiensis (Pictet, 1865)
- Notorynchus intermedius Wagner
- Notorynchus lawleyi Ciola & Fulgosi, 1983
- Notorynchus munsteri (Agassiz, 1843)
- Notorynchus serratissimus (Agassiz, 1844)
- Notorynchus serratus (Agassiz, 1844)
Referências
[editar código]- ↑ Infopédia. «cação-bruxa | Definição ou significado de cação-bruxa no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 24 de julho de 2021
- ↑ SHARK RESEARCH INSTITUTE. Shark Species. Shark Research Institute, [s.d.]. Disponível em: https://www.sharks.org/species. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ BOELTER, Jéssica Persi. Notorynchus cepedianus (Cação-bruxa). Fauna Digital do Rio Grande do Sul. Bird and Mammal Evolution, Systematics and Ecology Lab - UFRGS, 2018. Disponível em: https://www.ufrgs.br/faunadigitalrs/notorynchus-cepedianus-cacao-bruxa/. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ GBIF. Notorynchus cepedianus (Péron, 1807) Global Biodiversity Information Facility. Disponível em: https://www.gbif.org/species/2420600. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ SAVE OUR SEAS FOUNDATION. Broadnose sevengill cowshark. Save Our Seas Foundation, [s.d.]. Disponível em: https://saveourseas.com/worldofsharks/species/broadnose-sevengill-cowshark. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ FISHBASE. Notorynchus cepedianus, Broadnose sevengill shark : fisheries, gamefish, aquarium. FishBase, 20 jul. 2016. Disponível em: https://www.fishbase.se/summary/SpeciesSummary.php?id=2531&lang=portuguese_po. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ BOELTER, Jéssica Persi. Notorynchus cepedianus (Cação-bruxa). Fauna Digital do Rio Grande do Sul. Bird and Mammal Evolution, Systematics and Ecology Lab - UFRGS, 2018. Disponível em: https://www.ufrgs.br/faunadigitalrs/notorynchus-cepedianus-cacao-bruxa/. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ SHARK RESEARCH INSTITUTE. Shark Species. Shark Research Institute, [s.d.]. Disponível em: https://www.sharks.org/species. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ BOELTER, Jéssica Persi. Notorynchus cepedianus (Cação-bruxa). Fauna Digital do Rio Grande do Sul. Bird and Mammal Evolution, Systematics and Ecology Lab - UFRGS, 2018. Disponível em: https://www.ufrgs.br/faunadigitalrs/notorynchus-cepedianus-cacao-bruxa/. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ YILMAZ, Zerrin. Notorynchus cepedianus (Bluntnose sevengill shark). Animal Diversity Web. University of Michigan, 2006. Disponível em: https://animaldiversity.org/accounts/Notorynchus_cepedianus/. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ MURCH, Andy. Broadnose Sevengill Shark - Notorynchus cepedianus. Sharks and Rays / Big Fish Expeditions, 2026. Disponível em: https://saveourseas.com/worldofsharks/species/broadnose-sevengill-cowshark. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ MURCH, Andy. Broadnose Sevengill Shark - Notorynchus cepedianus. Sharks and Rays / Big Fish Expeditions, 2026. Disponível em: https://saveourseas.com/worldofsharks/species/broadnose-sevengill-cowshark. Acesso em: 25 abr. 2026.
- ↑ YILMAZ, Zerrin. Notorynchus cepedianus (Bluntnose sevengill shark). Animal Diversity Web. University of Michigan, 2006. Disponível em: https://animaldiversity.org/accounts/Notorynchus_cepedianus/. Acesso em: 25 abr. 2026.
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- ↑ Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade — ICMBio. (2018). Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Brasília: ICMBio/MMA.
- ↑ Finucci, B., Barnett, A., Cheok, J., Cotton, C.F., Kulka, D.W., Neat, F.C., Pacoureau, N., Rigby, C.L., Tanaka, S. & Walker, T.I. (2020). Notorynchus cepedianus. The IUCN Red List of Threatened Species 2020: e.T39324A2896914. DOI: 10.2305/IUCN.UK.2020-3.RLTS.T39324A2896914.en
- ↑ POLLERSPÖCK, Jürgen; STRAUBE, Nicolas. Notorynchus cepedianus (PÉRON, 1807). Shark-References, Versão 04/2026, 2026. Disponível em: https://www.shark-references.com/species/view/Notorynchus-cepedianus. Acesso em: 25 abr. 2026.
- (em inglês) FishBase - acesso a 28 de fevereiro de 2006
- (em inglês) Florida Museum of Natural History - acesso a 28 de fevereiro de 2006
- (em inglês) Australian Museum online - acesso a 28 de fevereiro de 2006
