Caída da Praia

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Caída da Praia, ou Queda da Praia, é a designação dada às intensas crises sísmicas de origem tectónica, devidas ao afundamento do graben das Lajes, que já por duas vezes causaram a destruição quase completa da Praia da Vitória, nos Açores, e graves danos nas povoações do chamado Ramo Grande.

A primeira Caída da Praia ocorreu a 24 de Maio de 1614 e a segunda a 15 de Junho de 1841. Ao longo dos séculos têm sido frequentes os boatos e profecias de carácter milenarista apontando a iminência de uma terceira, e, no juízo de muitos, final, Caída da Praia. O tema tem servido de inspiração a múltiplos autores, o mais famoso dos quais é seguramente o Padre António Vieira que no seu Sermão do Enterro dos Ossos dos Enforcados usa o tema como exemplo de aviso divino. A tradição popular perpetua a memória das caídas na procissão da Misericórdia, tão bem descrita por Vitorino Nemésio, que ainda se realiza na madrugada de cada dia 15 de Junho.

Primeira Caída da Praia[editar | editar código-fonte]

A 9 de Abril de 1614 um sismo destruiu quase totalmente a freguesia das Fontinhas e provocou grandes danos nas freguesias vizinhas. A 24 de Maio um sismo de grande magnitude destruiu quase totalmente as freguesias de Agualva, Vila Nova, Lajes e Santa Cruz da Praia, provocando 200 mortos e muitos feridos. Houve grande movimento da falha sul do graben do Ramo Grande (ou graben das Lajes, como por vezes é designado), com o aparecimento de grandes fissuras no solo, grandes desmoronamentos e o abatimento generalizado do terreno na zona do Ramo Grande. Francisco Ferreira Drummond descreve nos Anais da Ilha Terceira a Caída da Praia e reconstrução que se lhe seguiu com grande pormenor. Apesar das medidas então tomadas, a reconstrução, tal como nas situações contemporâneas, foi um processo lento e penoso.

Castigo do anno de 1614 que se diz a cahida da Praia[editar | editar código-fonte]

Manuel Luís Maldonado, na sua Fenix Angrence (transcrição e notas de Helder Fernando Parreira de Sousa Lima, edição do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 1990, 2º vol., pp. 38-43), inclui uma descrição coeva da primeira Caída da Praia sobre a qual diz:

Eis o texto integral da descrição (mantendo a grafia coeva):

(Texto truncado no original).

Segunda Caída da Praia[editar | editar código-fonte]

Desde a manhã de 12 de Junho de 1841 que se vinham sentindo na Terceira, mas com particular incidência no Ramo Grande, numerosos sismos. A 13 de Junho sismos mais intensos provocaram alguns danos nos edifícios e forçaram os moradores da Praia e freguesias vizinhas a abandonar as suas casas. Na madrugada do dia 14 de Junho, violentos sismos provocaram ainda maiores danos. Pelas 3:25 da madrugada de 15 de Junho, um violento sismo causou enorme destruição na Praia e nas Fontinhas e danos generalizados em todas as freguesias do leste e nordeste da Terceira entre a vila de São Sebastião e a Agualva. Desde o areal até à Cruz do Marco ficou uma fissura no terreno marcando a posição da falha que por ali passa. A destruição foi maior nas Fontinhas, freguesia onde ruíram todos os edifícios. Dado que os habitantes tinham já abandonado as casas, ninguém morreu. Ficaram contudo danificadas centenas de casas em Santa Cruz da Praia, Fontinhas, Lajes, São Brás, Vila Nova, Agualva, Cabo da Praia, Porto Martins, Fonte do Bastardo e São Sebastião. Destas casas muitas tiveram de ser reconstruídas. A reconstrução foi apoiada por uma Comissão dos Soccorros organizada pelo Governador Civil José Silvestre Ribeiro.

Félix José da Costa Júnior, então secretário do Governador Civil e um dos homens encarregues do socorro às vítimas e da reconstrução, escreveu uma Memória Histórica do Horrível Terramoto de 1841 no qual é dada uma descrição circunstanciada dos seus efeitos nas freguesias do Ramo Grande. É a seguinte a descrição feita por aquela testemunha dos acontecimentos: