Ganz unten

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Ganz unten é o título original do livro de Günter Wallraff, que foi lançado no Brasil com o título de Cabeça de Turco.

O livro retrata a situação dos turcos na Alemanha, sofrendo todo tipo de preconceito.

Resumo[editar | editar código-fonte]

Cabeça de Turco é uma obra que revela a realidade da vida dos estrangeiros que procuram trabalho na Alemanha.

Wallraff denuncia, baseado na experiência vivida, a situação de marginalização, desprezo e discriminação das minorias étnicas numa sociedade que se julga «sensata, soberana, incontestável e imparcial». Trata-se de um relato, na primeira pessoa, das agruras a que estão submetidos os imigrantes iugoslavos, espanhóis, gregos e, em especial, os turcos.

A metodologia da reportagem foi a da encarnação do repórter em personagem do seu próprio livro: o jornalista transformou-se no objeto da reportagem. Essa opção permitiu uma aproximação extraordinária da realidade, uma vez que o repórter não apenas testemunha, mas sente o fato. É capaz de relatá-lo em um nível psíquico, tendo uma idéia do que se passa na cabeça do imigrante marginalizado.

Para iniciar a sua viagem aos «porões da sociedade alemã», ele teve de passar por uma radical metamorfose, a fim de impedir que o desmascarassem e que o projeto do livro fracassasse. Confessa que evitou por muito tempo o papel de um imigrante turco disposto aos trabalhos mais degradantes para sobreviver. Sabia de antemão, por depoimentos, o que iria sofrer – desaforos diários, exposição a riscos em trabalhos perigosos, não-pagamento integral de benefícios e encargos sociais, exploração incontida do trabalho, etc. Colocou lentes de contato escuras, «aprendeu» a falar um alemão canhestro, realizou exercícios físicos para fortalecer as costas para os trabalhos extenuantes que o aguardavam.

Ofereceu-se com o seguinte anúncio: estrangeiro, robusto, procura qualquer tipo de trabalho, mesmo que seja muito pesado e sujo, mesmo que paguem pouco.

A fim de «ensaiar» para o seu papel, sob o pseudônimo de Ali Sinirlioglu, aceitou algumas propostas de emprego que ofertavam de 5 a 9 marcos/hora, quando o salário-referência alemão é de 11 marcos/hora. Trabalhou como ajudante em uma fazenda, recebendo apenas alojamento, como tocador de realejo mendicante, e até na cozinha de um McDonald's[1]

Wallraff não testemunhou o desprezo aos estrangeiros apenas nos meios em que trabalhava. No momento em que foi pedir batismo a padres da Igreja Católica, instituição que presumivelmente não teria olhos para diferenças étnicas, encontrou fortíssimas resistências. Apesar de ter demonstrado evidente disposição de se “converter” do islamismo para o catolicismo e um bom domínio dos ensinamentos cristãos, os padres alemães que visitou o encararam com desconfiança e fizeram exigências intransponíveis para a sua conversão. Apenas quando encontrou um padre oriundo da Polônia, que também havia sofrido perseguição política, foi batizado.

O ponto principal do livro, que ocupa a maioria dos capítulos, são os trabalhos a que Ali é dirigido quando se oferece para a empreiteira Adler. Além de usar de todo o tipo de subterfúgio para burlar a legislação, atrasando o pagamento dos salários baixíssimos e não registrando seus operários para driblar o fisco, Adler remete os trabalhadores estrangeiros para subempregos em outras empresas.

Nelas, os operários não-alemães geralmente ficam nos piores e mais perigosos postos, e a não-observância das normas de segurança é uma constante nesses locais. Como no grupo Thyssen, indústria de aço, em que trabalhadores turcos ficam expostos ao pó e gás de coque, sem capacete, máscara e luvas de proteção, e em turnos que podem chegar a 16 horas por dia. Não era raro, por exemplo, um operário estar dormindo em casa há apenas duas horas, após trabalhar por mais de doze, e receber um telefonema exigindo que se apresentasse para o próximo turno.

Nas amizades que Wallraff fez com outros turcos, ouviu histórias de operários que morreram por causa das emanações de gás e de outros que, apesar de terem sofrido acidentes sérios, não puderam exigir licença por causa da sua situação irregular. Um bom exemplo é um operário turco com quem Ali conversou. Seu nome era Mehmet. Tinha 49 anos, mas aparentava 60. Em um só ano sofreu três acidentes graves e continuou trabalhando. Um dia, após dez anos de trabalho, foi demitido. O que se vê nas páginas do livro é um enorme conjunto de irregularidades cometidas por Adler, que construiu fortuna em cima da exploração do trabalho de imigrantes, aproveitando-se da sua situação desesperada.

Tomando conhecimento de que muitos estrangeiros são requisitados para trabalhar como cobaias na indústria farmacêutica, Ali decide deixar o trabalho pesado na Thyssen. Com uma bronquite crônica e os ombros doloridos, parte para Neu-Ulm, onde fica o instituto LAB, um dos maiores institutos de testes da Europa. Sem maiores perguntas é aceito e enviado para um exame médico. Aprovado, o teste começaria no dia seguinte: duraria onze semanas e consistia em testar medicamentos para epilepsia. Os efeitos colaterais eram terríveis: problemas na vista, «vertigem violenta, fortes dores de cabeça e distúrbios de percepção», além de sangramento na gengiva. Um dia depois abandonou o teste. Logo após, tendo ido verificar a situação de outro laboratório, deu-se ao luxo de recusar o trabalho, o que a maioria dos imigrantes não pode fazer. Wallraff denuncia, ao consultar um professor da Universidade de Bremen, que a maioria desses testes são desnecessários. «São estudos que têm propósitos comerciais, e não há nenhuma relação entre sua utilização e as despesas que acarretam».

Sem se sentir em condições de voltar a trabalhar na Thyssen, Ali, sabendo que Adler estava tendo problemas com seu motorista, decide obter esse cargo. Para isso inventa para Adler que alguns operários queriam dar-lhe uma surra por conta de salários atrasados. Não pagar os empregados, aliás, era costume de Adler. Prometendo-lhe proteção, consegue a «promoção»: «de engolidor de pó e trabalhador braçal a motorista particular e guarda-costas».

Certa vez, Walrraff é quase descoberto. Adler percebeu quando ele fez sinal para o fotógrafo, mas com a desculpa de que fazia um exercício de caratê, afastou as suspeitas. Dirigindo o Mercedes do patrão, Ali pode ouvir suas conversas por telefone, despedindo funcionários, ou falando com industrias e políticos. Adler é um homem que aproveita-se do desemprego para explorar pobres coitados. «Ele está longe de conhecer todas as vítimas de sua exploração; quando muito, sabe o nome desses infelizes. Só quer o dinheiro que lucra com eles».

Günter Walrraff, então, constata que ainda lhe falta uma ocupação: trabalhar em uma usina nuclear. Tenta uma colocação em Würgassen, a usina nuclear mais antiga da Alemanha. No entanto a resposta demorou dois meses, uma vez que a vida de quem quer trabalhar lá é investigada. Nesse meio tempo, é alertado por um amigo médico que a exposição à radiação, somada à bronquite e às seqüelas do teste farmacêutico poderia gerar lesões permanentes. Desistiu da ideia, mas colhendo depoimentos, contatou como é o trabalho na usina: os operários, em sua maioria imigrantes, recebem «em poucos dias, ou horas, às vezes até mesmo em segundos, a dose máxima de radiação permitida por ano: 5000 milirem». Estourada esta cota, sem saber o porquê, são mandados embora.

Porém, há uma denúncia muito mais grave feita por Wallraff: caso sirva aos seus interesses, Adler pode mandar, a pedido de alguma usina nuclear, uma equipe de imigrantes para executar serviços de altíssima periculosidade, em áreas expostas a gigantesca radiação, e que certamente redundarão na morte por câncer dentro de alguns anos. A exigência é que sejam imigrantes, para que, após o serviço, retornem aos seus países de origem, onde morrerão sem que se possa provar a causa do câncer e sem atrair a atenção de autoridades alemãs. Para apurar essa denúncia gravíssima, Wallraff monta uma «operação» para provar que Adler envolve-se em um negócio que resulta, em outras palavras, num «assassinato a prazo». Queria ver até que ponto ia a ganância de seu patrão.

Para isso Walrraff chama dois amigos para se fazerem passar por homens de uma usina atômica com um sério problema, e cuja resolução, a cargo de Adler, seria uma missão suicida. Fechado o negócio, Adler encarregou Ali de arranjar alguns conterrâneos para esse trabalho. O combinado: um ônibus estaria à espera dos seis pobres diabos e os levaria à usina. Feito o trabalho, em 14 dias deviam estar fora do país. Walrraff, então, constatou que Adler não tinha limites. Sua máxima era: «nós fazemos de tudo». O autor completa: «tudo o que dê lucro».

O problema é que não havia ônibus, não havia nada. Então a encenação: amigos de Walrraff, simulando policiais à paisana acabariam com a operação e levariam alguns turcos «encanados», Adler fugiria e não desconfiaria de nada. Após alguns imprevistos, o plano dá certo.

Cabeça de Turco, enfim, é uma denúncia, não só da situação dos imigrantes, mas sobretudo do sistema capitalista. Mostra uma sociedade que se diz civilizada, mas que, ao contrário, é desumana. O jornalista tornou-se objeto de sua reportagem e produziu uma obra capaz de levar o leitor a uma reflexão.

Referências

  1. Onde testemunhou absurdos de insalubridade, em uma rede cujo um dos motes é a «extrema limpeza de seus ambientes».