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Calendário positivista

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O calendário positivista foi uma proposta de reforma do calendário criada por Auguste Comte em 1849. Inspirado nas ideias de Marco Mastrofini e em uma proposta anterior apresentada por Hirossa Ap-Iccim (pseudônimo de Hugh Jones), Comte elaborou um calendário solar composto por 13 meses de 28 dias, totalizando 364 dias, acrescidos de um dia festivo dedicado à comemoração dos mortos, somando 365 dias.

Esse dia extra, inserido ao final do último mês, ficava fora do ciclo semanal, o que fazia com que o primeiro dia de cada mês fosse sempre uma segunda-feira. Em anos bissextos, um segundo dia suplementar — também fora da contagem semanal — era acrescentado em homenagem às mulheres consideradas sagradas.

O calendário mantinha as mesmas regras do calendário gregoriano para o cálculo dos anos bissextos e também iniciava em 1º de janeiro. O ano 1, denominado por Comte como o Ano da Grande Crise (em referência à Revolução Francesa), correspondia ao ano de 1789 do calendário tradicional.

Assim como outras propostas do positivismo, o calendário positivista nunca foi amplamente adotado, mas ilustra o esforço de Comte em reorganizar não apenas o conhecimento científico, mas também a vida social e simbólica segundo princípios racionais e históricos.

Calendário positivista (detalhe) na Capela da Humanidade, em Paris. Da esquerda para a direita: agosto (Dante), setembro (Gutenberg), outubro (Shakespeare), novembro (Descartes), dezembro (Frederico, o Grande), 13º mês (Bichat).

Os meses do calendário positivista receberam nomes em homenagem a figuras históricas da Europa Ocidental que se destacaram nas áreas da ciência, religião, filosofia, indústria e literatura. A nomeação seguiu uma ordem cronológica, refletindo a progressão histórica da humanidade segundo a visão de Auguste Comte. Diferentemente do calendário gregoriano, em que os dias do ano são dedicados a santos católicos, e do calendário revolucionário francês, que associa os dias à natureza e à agricultura da Ilha de França, o calendário positivista atribui a cada dia o nome de uma personalidade histórica. Assim, semanas e dias assumem uma função semelhante aos dias dos santos, mas sob um enfoque secular e humanista. Ao todo, o calendário lista 558 grandes personalidades da história, agrupadas conforme suas áreas de atuação.[1] Algumas figuras consideradas negativas também foram incluídas na forma de “execração perpétua”, isto é, lembradas como exemplos a serem rejeitados moralmente. Napoleão, por exemplo, foi visto por Comte como especialmente digno desse tipo de condenação.[2]

Os treze meses do calendário são:

  1. Moisés
  2. Homero
  3. Aristóteles
  4. Arquimedes
  5. César
  6. São Paulo
  7. Carlos Magno
  8. Dante
  9. Gutenberg
  10. Shakespeare
  11. Descartes
  12. Frederico
  13. Bichat

Em 1849, Auguste Comte afirmou que seu calendário representava uma “ruptura de continuidade” com as formas tradicionais de pensamento, sendo o calendário humanista uma expressão dessa transformação. Ele o descreveu como “uma instituição provisória, concebida para este século excepcional, com o propósito de servir como introdução ao culto abstrato da Humanidade”.[3]

Apesar de seu valor simbólico e filosófico, o calendário positivista teve pouca adesão. Um dos motivos, segundo o escritor Duncan Steel, foi a escolha de nomes de pessoas para os meses, todos em homenagem a figuras históricas. Para ele, essa opção tornava o sistema pouco prático e até confuso — mencionar, por exemplo, “o terceiro dia de Homero” ou fazer referência ao mês de “Shakespeare” poderia causar ambiguidade.[4]

A escritora Tricia Lootens observa que a proposta de consagrar dias a personalidades literárias, em uma espécie de canonização secular inspirada no modelo católico, não encontrou eco fora do meio positivista. Segundo ela, fora desses círculos — que sempre foram restritos —, a ideia era recebida com certa ironia ou nostalgia.[5]

Vantagens

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As principais vantagens do calendário positivista estão relacionadas à sua estrutura altamente regular e sistemática. O ano é composto por exatamente 52 semanas, divididas em 13 meses, sendo que cada mês possui 28 dias organizados em 4 semanas completas. Além disso, os dias do mês sempre caem no mesmo dia da semana — por exemplo, o dia 17 será sempre uma quarta-feira.

Essa regularidade torna o calendário perene, ou seja, ele permanece o mesmo a cada ano, ao contrário do calendário gregoriano, que varia anualmente. Tal característica facilita o planejamento de atividades para instituições e setores industriais com ciclos de produção longos. Feriados móveis, como o Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos — celebrado na enésima quinta-feira de novembro —, poderiam ter uma data fixa sem perder sua posição na semana.

As comparações estatísticas entre meses tornam-se mais precisas, já que todos têm o mesmo número de dias úteis e de fins de semana. O mesmo vale para os trimestres, que no calendário positivista possuem sempre 13 semanas. Defensores da proposta argumentam que dividir o ano em 13 partes iguais é mais eficiente do que as 12 divisões desiguais do calendário tradicional, especialmente em termos de organização econômica.

Desvantagens

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Embora cada trimestre tenha a mesma duração de 13 semanas, o fato de treze ser um número primo dificulta a adaptação de atividades tradicionalmente organizadas em ciclos trimestrais, que ficariam desalinhadas em relação aos novos meses.

Líderes do cristianismo, islamismo e judaísmo historicamente se opuseram ao calendário, argumentando que suas práticas religiosas de culto semanal a cada sete dias seriam comprometidas. Isso porque o dia de adoração mudaria anualmente, ou haveria um intervalo de oito dias nos anos com a ocorrência do “Festival de Todos os Mortos” ou do “Festival das Mulheres Sagradas”.[6]

Aniversários, datas comemorativas e outros feriados também precisariam ser realocados para manter sua recorrência, passando a ocorrer sempre no mesmo dia da semana. Isso poderia gerar problemas práticos, como feriados que coincidissem com domingos, considerados dias não úteis. Por exemplo, um feriado celebrado em 8 de janeiro no calendário positivista sempre cairia no 8 de Moisés, um domingo, exigindo uma licença compensatória no dia seguinte, o 9 de Moisés.

Além disso, seria necessário atualizar uma vasta gama de registros administrativos e os sistemas computacionais que os operam. Durante um período de transição, muitos desses sistemas teriam que funcionar simultaneamente com o calendário gregoriano e o calendário positivista, exigindo compatibilidade e ajustes técnicos significativos.

Ver também

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Referências

  1. Hayes, Edward Cary; Weatherly, Ulysses G. (1926). Social Progress: Studies in the Dynamics of Change. [S.l.]: J. B. Lippincott 
  2. Bowle, John (1954). Politics and Opinion in the Nineteenth Century: An Historical Introduction. New York: Oxford University Press 
  3. Comte, Auguste (1877). System of Positive Polity. [S.l.]: Longmans, Green and Co. 
  4. Steel, Duncan (2000). Marking Time: The Epic Quest to Invent the Perfect Calendar". [S.l.]: John Wiley & Sons, Inc. p. 308. ISBN 9780471298274  Verifique o valor de |url-access=registration (ajuda)
  5. Lootens, Tricia (1996). Lost saints: silence, gender, and Victorian literary canonization. [S.l.]: University of Virginia Press. p. 15 
  6. Elton, Benjamin J. (24 de fevereiro de 2012). «Calendar Reform and Joseph Herman Hertz». Jewish Telegraphic Agency. Consultado em 9 de setembro de 2013 

Ligações externas

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