Canto gregoriano

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Antifonário com canto gregoriano.

O canto gregoriano, também chamado de cantochão, é um gênero de música vocal monofônica, monódica (só uma melodia), não acompanhada, ou acompanhada apenas pela repetição da voz principal com o órganon, com o ritmo livre e não medido, utilizada pelo ritual da liturgia católica romana.

As características foram herdadas dos salmos judaicos, cantados nas antigas Sinagogas, em conjunto com costumes locais, como das Igrejas Orientais,[1], assim como dos chamados modos gregos.

Somente este tipo de prática musical podia ser utilizada na liturgia ou outros ofícios católicos. Só nos finais da Idade Média é que a polifonia (harmonia obtida com mais de uma linha melódica em contraponto) começou a ser introduzida nos ofícios da cristandade de então, e a coexistir com a prática do canto gregoriano.[2]

Origem[editar | editar código-fonte]

Antifonário Moçárabe.

Diversos cantos eclesiásticos, de melodias simples, foram desenvolvidos em meio aos Séculos III e IV baseados nos recitativos da liturgia das primeiras gerações de cristãos. Cada região desenvolvia seu próprio repertório, bem como sua forma particular de execução. Dessa forma, antecedendo o que viria a ser tornar o canto gregoriano, têm-se diversos tipos de cantos litúrgicos praticados em regiões diversas, como, por exemplo, o Ambrosiano (em Milão e norte da Itália), Romano (em Roma), Moçárabe (na Península Ibérica), Beneventano (no sul da Itália) e o Galicano (na Gália).[3]

Por volta do século VI, Gregório Magno selecionou, compilou e sistematizou os cânticos eclesiásticos e diferentes liturgias ocidentais espalhados pela Europa com o objetivo de unifica-los para serem utilizados nas celebrações religiosas da Igreja Católica. É de seu nome que deriva o termo gregoriano.[4]

Além da compilação e sistematização dos cânticos, o Papa Gregório fundou a Schola Cantorum, instituição cuja finalidade era ensinar e aprimorar o canto litúrgico. Mosteiros e abadias de toda a Europa enviavam religiosos para Roma no intuito de adquirir a necessária formação musical para, posteriormente, levar tais ensinamentos para a comunidade local.[5]

Hildegarda de Bingen

Com a unificação e padronização realizada pelo Papa Gregório I, o canto gregoriano não apenas se propagou pelas Igrejas e Mosteiros da Europa, tendo seu auge na alta Idade Média, como também deixou de ser apenas recitações dos Salmos e trechos bíblicos, monges de mosteiros por toda Europa começaram a compor músicas e poesias com o canto gregoriano. Um dos nomes que mais se destacou no que diz respeito à composição do canto gregoriano é o da freira beneditina Hildegarda de Bingen (1098-1179). Hildegarda se destacou com sua música, dentre outras áreas, e com seus versos que transcendem o texto meramente religioso e beiram a poesia.[6]

Com o surgimento da polifonia no fim da Idade Média, o Canto gregoriano foi caindo em desuso e, consequentemente, no esquecimento. Foi o abade beneditino Prosper Guéranger (1805–1875) da Abadia de Solesmes, quem teve a iniciativa de, através do estudo de antigos manuscritos, iniciar o processo de restauração do canto gregoriano.[7]Tal processo paleográfico ocorre até os dias de hoje, muitas vezes em parceria com Universidades, buscando não só a perfeita compreensão de manuscritos antigos como também o estudo performático para a execução mais apropriada do canto ritualístico.[8][9]

Importância do texto[editar | editar código-fonte]

Papa Gregório I, o qual implementou o canto que leva seu nome no ritual cristão.

O canto gregoriano não é um gênero musical no sentido estrito do termo. Desde seu surgimento que a música cristã é uma oração cantada, a qual devia realizar-se não de forma puramente material, mas com devoção ou, como dizia Paulo (Apóstolo): "cantando a Deus em vosso coração". O texto era, pois, a razão de ser do canto gregoriano. Na verdade, o canto do texto se baseia no princípio - segundo Santo Agostinho - de que "quem canta, ora duas vezes".

Canto gregoriano - O Sapientia - das Antífonas do Ó pelo Coro do Mosteiro de São Bento de Olinda/PE/BR,

O canto gregoriano jamais poderá ser entendido sem o texto, que deve ser em Latim[10], e que possui primazia sobre a melodia, pois é quem dá sentido a esta. Por isso, ao interpretá-lo, os cantores devem haver compreendido bem o sentido dele. Em consequência, deve-se evitar qualquer impostação de voz de tipo operístico, em que se busca o destaque do intérprete.

Deste canto procedem os modos gregorianos, que dão base à música ocidental. Deles vêm os modos maior (jônio) e menor (eólico), e outros cinco, que são menos conhecidos (dórico, frígio, lídio, mixolídio e lócrio).

Notação[editar | editar código-fonte]

Notação Moderna de Canto Gregoriano

O canto gregoriano é grafado em um sistema de quatro linhas - o Tetragrama - através de uma notação quadrada denominada Neuma.[11] Os neumas passaram a ser utilizados a partir do Século XIII. O desenvolvimento da escrita neumática se deu a partir de notações ainda mais antigas como, por exemplo, a daseiana, a sangaliana e a bizantina.[12]

Os neumas, basicamente, grafam um ponto (em latim, punctus) para cada sílaba do texto. Por vezes, a mesma sílaba pode ser executada com diversas notas, neste caso uma única sílaba é grafada com diversos neumas ornando a execução do cântico. Tal técnica recebe o nome de Melisma.

Para determinar a altura da notas no tetragrama, são utilizadas claves no início de cada sistema. No canto gregoriano as claves utilizadas são: a clave de Dó (C)Mensural c clef 02.svg e a clave de Fá (F)Mensural f clef 03.svg.

A notação moderna do Canto gregoriano incorporou alguns sinais semelhantes aos encontrados numa partitura comum, como a barra de pontuação (que em muito se assemelha à barra de compasso) e um pequeno ponto (em latim, punctum-mora) sobre o neuma para indicar sílabas mais longas (o qual guarda estreita semelhança com o ponto de aumento).[13]

Neumas[editar | editar código-fonte]

Como mencionado alhures, os neumas grafam sílaba por sílaba do texto e em alguns casos, mais de um neuma para a mesma sílaba. Na notação neumática cada nota possui o mesmo pulso, independente de sua forma ou nomenclatura, que pode ser considerado similar à colcheia da notação moderna.[14]

Abaixo, alguns exemplos de neumas mais comuns:

Exemplos de neumas
Black mensural brevis.svg
Punctum
Black mensural longa.svg
Virga
Mensural ligature ascending BL black 1.svg
Podatus (Pes)
Clivis.gif
Clivis (Flexa)
Climacus.gif
Climacus
Quilisma.1.gif
Quilisma
Mensural ligature BBL black torculus.svg
Torculus (Pes flexus)
Mensural ligature BBL black scandicus.svg
Scandicus
Mensural ligature BBL black porrectus.svg
Porrectus (Flexus resupinus)

Tons Salmódicos[editar | editar código-fonte]

Embora na música moderna seja bem comum a utilização do termo modos gregos (também chamados de "modos litúrgicos" ou "modos eclesiásticos"), no canto gregoriano os modos utilizados são chamados de Tons Salmódicos[15], uma vez que eram usados para a recitação dos Salmos (salmodia)[16]. Tais tons são escalas modais que são escolhidas conforme melhor se adaptem à antifona que acompanham e/ou à cadência final da peça musical.[17]

São quatro as escalas modais utilizadas nas composições gregorianas e levam os nomes medievais de Protus, Deuterus, Tritus e Tetrardus.[18] Cada uma dessas quatro escalas possuem os modos "Autêntico" e "Plagal", chegando assim a oito modos diferentes - oktoechos.[19]

Além dos oito tons salmódicos, em algumas ocasiões são utilizados o modo In directum, para Salmos não precedidos de antífona, e o modo Peregrinus, utilizado em antífonas de modalidade particular que não se encaixa em nenhum dos oito modos.

Veni sancte spiritus, também chamada de Sequentia de Pentecostes, cantado sobre o Modo I.

Música Litúrgica[editar | editar código-fonte]

O canto gregoriano é reconhecido pelo Concílio Vaticano II como a música própria dos ritos da Igreja Católica.[10][20]

Referências

  1. Cotte, Roger J. V. Música e Simbolismo: Ressonâncias cósmicas dos instrumentos e das obras. São Paulo: Cultrix, 1997
  2. Antífonas do Ó: O antigo e o novo na oração litúrgica do advento. - São Paulo: Paulinas, 1997. ISBN 85-356-0021-3
  3. Le Mée, Katherine W. The benedictine gift to music. New Jersey: Paulist Press, 2003.
  4. Conde, Antonio L. (1994). «El canto gregoriano en la Edad Media: Una investigación.». Medievalismo. 4: 81-94. ISSN 1989-8312 
  5. Coutinho, Emílio P. (Agosto de 2008). «O canto que brota da vida interior.». Revista Arautos do Evangelho. 80: 20-23 
  6. Gregorian Chant and Music in the Sistine Chapel - Universidade de Yale (em Inglês)
  7. «History | Abbaye de Solesmes». www.solesmes.com (em inglês). Consultado em 20 de maio de 2017 
  8. Postgraduate Programmes - MA Ritual Chant and Song. - Universidade de Limerick (em Inglês)
  9. Molinari, Paula. Técnica Vocal: Princípios para o cantor litúrgico. São Paulo: Ed. Paulus, 2015.
  10. a b Concílio Vaticano II: Constituição Conciliar Sanctum Concilium. n.54 e 116.
  11. Monges Beneditinos de Solesmes (1961). Liber Usuallis. (PDF). New York: Desclé Co. p. xi 
  12. Mammì, Lorenzo (6 de dezembro de 1999). «A Notação Gregoriana: Gênese e Significado». Revista Música. 10 (0): 21–50. ISSN 2238-7625. doi:10.11606/rm.v10i0.61749 
  13. Gregorian Chant Notation (em inglês)
  14. The Parish Book of Chant. (PDF). Washington, DC: Church Music Association of America. 2012. p. 305. ISBN 978-0984865291 
  15. Psalm Tones em PDF (56,4KB) - Church Music Association of America.
  16. Dourado, Henrique Autran. Dicionário de termos e expressões da música. São Paulo: Ed. 34, 2004.
  17. Cardine, Dom Eugène. Primeiro ano de canto gregoriano e semiologia gregoriana. São Paulo: Ed. Palas Athena, 1989.
  18. The Eight "Gregorian" Modes - The Gregorian Association (em inglês)
  19. Jeppesen, Knud. Counterpoint: The polyphonic vocal style of the sixteenth century. New York: Ed. Dover, 1992.
  20. «Quirógrafo pelo centenário do Motu Proprio "Tra le sollecitudini" sobre a música sacra (3 de dezembro de 2003) | João Paulo II». w2.vatican.va. Consultado em 19 de maio de 2017 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]