Capitalismo, Socialismo e Democracia

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Capitalismo, Socialismo e Democracia
Autor(es) Joseph Schumpeter
Idioma inglês
Género Economia, Sociologia, História
Cronologia
Business cycles: a theoretical, historical, and statistical analysis of the capitalist process (1939)
Rudimentary mathematics for economists and statisticians (1946)


Capitalismo, Socialismo e Democracia (Capitalism, Socialism and Democracy) é um ensaio sobre economia (e a outros níveis, sobre Sociologia e História) de Joseph Schumpeter, indiscutivelmente a mais (ou uma das mais) famosa, debatida e importante obra deste autor,[1][2][3][4] e "um dos grandes clássicos das ciências sociais no século XX. O que torna o livro de Schumpeter tão brilhante são três coisas em particular: a sua visão romanceada da democracia; a sua análise herética do funcionamento da economia capitalista; e o seu argumento provocativo que o capitalismo está destinado a desaparecer — não por causa do seu fracasso, mas por causa do seu sucesso."[5] Publicada pela primeira vez em 1942, a obra é em grande parte não matemática, em comparação com as obras neoclássicas, colocando o foco nos surtos inesperados e rápidos de crescimento desencadeados pelo empreendedorismo, em vez de em modelos estáticos.[6]

Escrita da obra[editar | editar código-fonte]

Na Introdução à edição electrónica de 2003, Richard Svedberg refere os seguintes pontos.

No final da década de 1930, Schumpeter decidiu escrever um pequeno livro sobre socialismo. Citando a sua esposa, Elizabeth Boody Schumpeter: "J.A.S. tinha terminado a obra monumental, Business Cycles, em 1938, e procurou descontracção com Capitalismo, Socialismo e Democracia, que ele considerava como uma proposta nitidamente 'popular' e que contava terminar em poucos meses."[7]

Esta obra, no entanto, levou mais tempo a concluir do que ele esperava, e só foi publicada em 1942. Foi muito bem recebida, tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, e a sua reputação cresceu à medida que novas edições foram publicadas em 1947 e 1950. Hoje, de acordo com John Kenneth Galbraith, Capitalismo, Socialismo e Democracia é a principal obra pela qual Schumpeter é lembrado.[8]

No prefácio à edição de 1950, Schumpeter diz que este seu livro foi o resultado de "quase quarenta anos de pensamento, observação e pesquisa sobre o assunto do socialismo".[9] Gottfried Haberler — uma especialista da obra de Schumpeter, por sua vez, acrescentou que o livro "resume, faz a actualização e modifica ligeiramente o resultado do trabalho ao longo da vida de trabalho e estudo de Schumpeter [não só do socialismo, mas da teoria económica também]".[10]

Svedberg continua: “Há também o fato de que o período em que Capitalismo, Socialismo e Democracia foi escrito foi particularmente turbulento e dramático na vida de Schumpeter. Ele foi, por exemplo, investigado nestes anos pelo FBI por possível espionagem e havia rumores, (como ainda existem), que era pro-nazi. Ele também estava passando por uma crise pessoal — reavaliando-se e ao seu trabalho. Através de seu estilo exuberante, Capitalismo, Socialismo e Democracia pode dar a impressão de que foi escrito por alguém que era feliz e despreocupado, mas tal estava longe de ser o caso.”[11]

Resumo[editar | editar código-fonte]

Parte I: A Doutrina Marxista[editar | editar código-fonte]

Schumpeter dedica as primeiras 56 páginas do livro a uma análise do pensamento marxista e o lugar nele para os empreendedores. Digno de nota é a maneira como Schumpeter salienta a diferença entre o capitalista e o empreendedor, uma distinção que, segundo ele, seria benéfica se Marx a tivesse feito (p. 52). A análise de Marx é dividida em quatro funções que Schumpeter atribui ao escritor - profeta, sociólogo, economista e professor. A seção de Marx como profeta explica que, se por nada mais, Marx teria sido bem recebido pelas pessoas que precisavam de uma teoria para explicar o que estava a acontecer na sua sociedade. A seção de Marx como sociólogo foca como a teoria de classe de Marx se encaixa nas grandes tradições intelectuais contemporâneas e como ela as suplantou pelo menos na sua capacidade de sintetizar o pensamento sociológico. A seção de Marx como economista centra-se na teoria económica de Marx considerando-a excessivamente "estacionária" (pp. 27, 31). Ele também tratou dos conceitos de crise e de ciclo económico, duas teorias económicas de que Marx foi pioneiro (p. 39). Na última seção, Marx como professor, avalia a utilidade do pensamento de Marx para interpretar os acontecimentos do seu tempo e os que ocorreram entre a sua morte e o tempo de Schumpeter. Schumpeter diz que qualquer teoria sobre crises ganha apoio quando as crises ocorrem e aponta para algumas áreas onde as teorias de Marx falharam na previsão. Na página 53, ele argumenta que a teoria prediz bem as experiências coloniais inglesa e holandesa nos trópicos, mas falha quando aplicada à Nova Inglaterra, por exemplo.

A Destruição de Chá no porto de Boston, 1773

Parte II: Pode o Capitalismo Sobreviver?[editar | editar código-fonte]

Schumpter responde "não" no prólogo a esta secção. Mas ele diz: "Se um médico prevê que o seu paciente vá morrer em breve, isso não significa que ele o deseje." A secção consiste dos seguintes dez tópicos: A Taxa de aumento de Produção total, Capitalismo Plausível, o Processo de Destruição Criadora, Práticas Monopolistas, Temporada, A Diminuição das Oportunidades de Investimento, A Civilização do Capitalismo, Paredes derrubadas, Hostilidade crescente e Decomposição.

Destes, a destruição criadora foi absorvida na teoria económica dominante. Esta seção elabora uma visão do capitalismo que, em última análise, tende para o domínio das grandes sociedades anónimas que, ele sugere, será a sua própria ruína.

Parte III: Pode o Socialismo funcionar?[editar | editar código-fonte]

Nesta Parte é explorada a análise comparativa das teorias do socialismo conhecidas. As cinco seções desta Parte são: Plataformas de Compensação, O Diagrama Socialista, Comparação de Diagramas, O Elemento Humano e Transição.

Parte IV: Socialismo e Democracia[editar | editar código-fonte]

Este seção analisa como a democracia e o socialismo se poderão combinar. As quatro seções desta Parte incluem, A Definição do Problema, A Doutrina Clássica de Democracia, Uma Outra Teoria de Democracia e A Inferência.

Parte V: Uma descrição histórica dos Partidos Socialistas[editar | editar código-fonte]

Esta parte desenvolve cinco períodos do pensamento socialista. Antes de Marx, no tempo de Marx, de 1875 a 1914 (antes da Primeira Guerra Mundial), o período entre-guerras e o período contemporâneo de Schumpeter do pós-guerra.

Fila de famílias esperando por ajuda financeira. Diversos programas de ajuda social foram criados pelo governo dos Estados Unidos a partir de 1933.

Capitalismo e socialismo[editar | editar código-fonte]

A teoria de Schumpeter é que o sucesso do capitalismo conduzirá a uma forma de domínio dos grandes grupos empresariais e ao crescimento dos valores hostis ao capitalismo, especialmente entre os intelectuais. O clima intelectual e social necessário ao florescimento do empreendedorismo não existirá no capitalismo avançado; será substituído por alguma forma de socialismo. Não haverá uma revolução, mas apenas uma tendência para os partidos social democratas serem eleitos para os parlamentos, como parte do processo democrático. Ele argumentou que a implosão do capitalismo adviria do voto maioritário para a criação de um estado social e a colocação de restrições ao empreendedorismo que irão sobrecarregar e acabar por destruir a estrutura capitalista. Schumpeter enfatiza ao longo da obra que está a analisar tendências e não a comprometer-se em patrocínio político.

Na sua perspetiva, a classe intelectual desempenhará um papel importante no desmoronar do capitalismo. O termo "intelectuais" designa uma classe de pessoas em condições de desenvolver críticas dos assuntos sociais pelos quais não são diretamente responsáveis e capazes de defender os interesses dos estratos sociais a que eles próprios não pertencem. Uma das grandes vantagens do capitalismo, argumenta ele, é que, comparativamente aos períodos pré-capitalistas em que a educação era um privilégio de poucos, há cada vez mais pessoas a alcançar educação (superior). A disponibilidade de trabalho gratificante é no entanto limitada e isso, juntamente com a existência de desemprego, produz descontentamento. A classe intelectual é então capaz de organizar a contestação e desenvolver ideias críticas contra o mercado livre e a propriedade privada, ainda que essas instituições sejam necessárias à sua existência.[12] Esta análise é similar à do filósofo Robert Nozick, que argumentava que os intelectuais desgostos pelas suas capacidades, que eram tão bem reconhecidas na escola, não terem a devida recompensa no mercado de trabalho, se voltavam contra o capitalismo, mesmo que nele usufruam de uma vida muito mais agradável nele do que em sistemas alternativos.[13]

Na perspetiva de Schumpeter, o socialismo assegurará que a produção de bens e serviços seja dirigida para atender às “necessidades autênticas” do povo e vai superar algumas tendências inatas do capitalismo como as flutuações de conjuntura, desemprego e a decrescente aceitação do sistema. De acordo com alguns analistas, as teorias de Schumpeter da transição do capitalismo ao socialismo estavam "quase certas"[14] Exceto que ele não previu o óbvio fracasso do socialismo na Europa Oriental, nem o papel da tecnologia que realmente promoveu a inovação e o empreendedorismo no mundo ocidental no início na década de 1980.

Destruição criadora[editar | editar código-fonte]

O livro também introduziu o termo destruição criadora para descrever a entrada inovadora dos empreendedores era a força que sustentava o crescimento econômico a longo prazo, mesmo que isso destrua o valor das empresas estabelecidas que beneficiavam de algum grau de poder de monopólio. Devido aos entraves significativos à entrada de concorrentes de que beneficiavam os monopólios, os novos operadores teriam de ser radicalmente diferentes: garantindo que seriam alcançadas melhorias significativas, não uma mera diferença na embalagem. A ameaça de entrada no mercado manteria os monopolistas e oligopolistas disciplinados e competitivos, assegurando que eles invistam os seus lucros em novos produtos e ideias. Schumpeter acredita que era esta qualidade inovadora que fez do capitalismo o melhor sistema económico..[15]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Schumpeter on the Economics of Innovation And the Development of Capitalism, Arnold Heertje, Jan Middendorp (Ed.), Edward Elgar Publishing, 2006, p. 41
  2. Essays: On Entrepreneurs, Innovations, Business Cycles, and the Evolution of Capitalism, Joseph Alois Schumpeter, Transaction Publishers, 1951, Classics in economics collection, in the introduction by editor Richard Vernon Clemence, p. xviii-xix
  3. Capitalism and Democracy in the 21st Century: Proceedings of the International Joseph A. Schumpeter Society Conference, Vienna 1998 "Capitalism and Socialism in the 21st Century", (Ed.s) Dennis C. Mueller and Uwe Cantner, Springer, 2000,p. 2
  4. Economics Broadly Considered: Essays in Honour of Warren J. Samuels, Jeff E. Biddle, Volume 48 de Routledge Studies in the History of Economics, Routledge, 2001, p. 125
  5. Richard Swedberg, Introdução a Capitalism, Socialism and Democracy, 2003, Taylor & Francis e-Library
  6. Rogge, Can Capitalism Survive?, Part I | Library of Economics and Liberty
  7. Joseph A.Schumpeter, History of Economic Thought, Londres, Allen & Unwin, 1954, pp. v–vi
  8. John Kenneth Galbraith, Near or far Right Review of Capitalism, Socialism and Democracy, New Society, No. 758, (14 de Abril de 1977), p. 74.
  9. Joseph A. Schumpeter, Capitalism, Socialism and Democracy, Nova Iorque, Harper & Brothers, 1950, p. xiii
  10. Gottfried Haberler, Schumpeter’s "Capitalism, Socialism and Democracy" after Forty Years, p. 72, em Arnold Heertje (ed.), Schumpeter’s Vision: "Capitalism, Socialism and Democracy" after Forty Years, Nova Iorque, Praeger, 1981
  11. Joseph A. Schumpeter, Capitalism, Socialism and Democracy, 2003, o.c.
  12. Joseph Alois Schumpeter, The Concise Encyclopedia of Economics, Library of Economics and Liberty http://www.econlib.org/library/Enc/bios/Schumpeter.html
  13. Why Do Intellectuals Oppose Capitalism? by Robert Nozick
  14. Where Schumpeter was Nearly Right - The Swedish Model and Capitalism, Socialism and Democracy, Magnus Henrekson, Ulf Jakobsson, S-WoPEc - Scandinavian Working Papers in Economics, Working Paper Series, 3 de Abril de 2000
  15. Joseph Alois Schumpeter, The Concise Encyclopedia of Economics

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Nota[editar | editar código-fonte]