Capitania de São Vicente
| Capitania de São Vicente Capitania Hereditária de São Vicente | |||||
|
Capitania hereditária do Estado do Brasil | |||||
| |||||
| |||||
| Continente | América do Sul | ||||
| Capital | São Vicente (1534–1681) São Paulo (1681–1709) | ||||
| Língua oficial | Português | ||||
| Outros idiomas | Língua geral paulista; línguas indígenas[nota 1] | ||||
| Religião | Catolicismo | ||||
| Governo | Monarquia absoluta | ||||
| Donatário | |||||
| • 1534 — 1571 | Martim Afonso de Sousa | ||||
| Capitão-mor | |||||
| • 1534 — 1536 | Pero de Góis | ||||
| História | |||||
| • 6 de outubro de 1534 | Cartas de doação e foral | ||||
| • 3 de novembro de 1709 | Incorporação pela Coroa portuguesa | ||||
| Moeda | Réis | ||||
| [nota 2] | |||||
A Capitania de São Vicente foi uma capitania hereditária[nota 3] da América portuguesa, criada em 6 de outubro de 1534 por João III de Portugal, como parte do sistema de colonização baseado na delegação de poderes régios a donatários. Foi concedida a Martim Afonso de Sousa, que exerceu papel central na organização inicial da colonização portuguesa no litoral centro-sul do Brasil [1][3].
A capitania teve papel pioneiro no processo de colonização e ocupação do território, sediando a fundação da Vila de São Vicente[nota 4] em 1532, considerada a primeira vila oficialmente instituída pela Coroa portuguesa no Brasil.[5][6] A partir desse núcleo, estruturaram-se as primeiras experiências administrativas, econômicas e políticas da colonização, incluindo as primeiras eleições municipais realizadas em território americano sob domínio português.[7][nota 5]
Ao longo dos séculos XVI e XVII, a capitania foi marcada por intensos conflitos com populações indígenas, pela escravização sistemática de nativos, pela atuação dos sertanistas[nota 6] e pela expansão territorial rumo ao interior do continente.[8][2] Com a descoberta de ouro no final do século XVII, tornou-se epicentro de disputas políticas e econômicas, culminando na Guerra dos Emboabas.
Em 3 de novembro de 1709, a capitania foi adquirida pela Coroa portuguesa e transformada na Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, encerrando o regime hereditário e consolidando a centralização administrativa na região.[9][10]
História
[editar | editar código]Povos indígenas e ocupação pré-colonial
[editar | editar código]A região que viria a constituir a Capitania de São Vicente era habitada por populações humanas muito antes da chegada dos europeus, com evidências arqueológicas que remontam a milhares de anos. Esses grupos desenvolveram distintas tradições culturais, responsáveis pela produção de sambaquis, instrumentos líticos e registros rupestres distribuídos ao longo do litoral e do interior do atual estado de São Paulo.[11][12][13]
No início do século XVI, imediatamente antes da colonização portuguesa, é possível identificar ao menos quatro grandes áreas de ocupação indígena no território da futura capitania. A faixa litorânea era ocupada majoritariamente por povos pertencentes ao tronco linguístico tupi, que mantinham intensas redes de circulação, alianças e conflitos ao longo da costa atlântica.
A região do vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira era predominantemente habitada por grupos associados ao tronco linguístico jê, estendendo-se para áreas contíguas do interior, onde também se encontravam populações não tupi. Ao sul e a sudeste da vila de São Vicente, por sua vez, predominava a presença de povos guarani, cuja mobilidade territorial ultrapassava os limites que mais tarde seriam impostos pela colonização europeia.[14]
Fundação e primeiros anos (1532–1548)
[editar | editar código]Após mais de três décadas de presença limitada da Coroa portuguesa nos territórios americanos definidos pelo Tratado de Tordesilhas, o rei João III instituiu, em 1534, o sistema das capitanias hereditárias, dividindo a costa da América portuguesa em quatorze lotes concedidos a particulares, os donatários, responsáveis por sua exploração, defesa e povoamento.[1][15]
Esse modelo administrativo não era inédito, tendo sido anteriormente aplicado por Portugal nos arquipélagos da Madeira e de Cabo Verde desde o século XV.[3] No contexto americano, sua adoção respondeu tanto às investidas estrangeiras, sobretudo francesas, quanto à necessidade de transferir parte dos custos e riscos da colonização para agentes privados.[1][4]

A Capitania de São Vicente foi formalmente criada entre 1534 e 1535 por meio de duas cartas expedidas por João III. A primeira, uma carta foral datada de 6 de outubro de 1534, determinava a extensão territorial concedida ao fidalgo e explorador Martim Afonso de Sousa. A segunda, datada de 20 de janeiro de 1535, definia com maior precisão os limites da capitania.[6][5][16]
A capitania foi inicialmente dividida em duas porções descontínuas. A primeira abrangia a vila homônima de São Vicente e estendia-se da barra sul da baía de Paranaguá até o rio de São Vicente, identificado como a barra de Bertioga. A segunda compreendia a faixa litorânea entre o rio Curupacê, nas proximidades da Ilha de São Sebastião, e o rio Macaé, no atual estado do Rio de Janeiro.[6]
Pouco tempo após sua fundação, a vila de São Vicente enfrentou instabilidade e violência. Foi alvo de ataques de espanhóis ligados à chamada Guerra de Iguape, liderados por Ruy Garcia de Mosquera, que reivindicavam a região para a Coroa de Castela. Durante esses confrontos, a vila foi saqueada e parte significativa de sua população foi morta.[5]
Em 1541, São Vicente sofreu ainda os efeitos de um maremoto que destruiu parte considerável de suas edificações. Em razão das dificuldades naturais e estratégicas do sítio original, em 1545 foi fundada a vila de Santos, em local mais protegido das variações do mar, para onde se transferiu o principal porto da capitania, consolidando-se como novo eixo econômico da região.[16][10]
Integração ao Estado do Brasil (1548–1562)
[editar | editar código]Em 1548, a Coroa portuguesa promoveu uma reorganização administrativa da colônia com a criação do Estado do Brasil, estabelecendo um governo-geral sediado na cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos. A partir desse momento, a Capitania de São Vicente deixou de se relacionar diretamente com a metrópole e passou a subordinar-se à autoridade do governador-geral, nomeado pelo rei.[4][1]
Essa mudança teve como objetivo fortalecer o controle régio sobre o território colonial, coordenar a defesa da costa, conter investidas estrangeiras e impor maior uniformidade administrativa às capitanias, muitas das quais enfrentavam dificuldades de povoamento e organização.[15][3] Embora o regime das capitanias hereditárias tenha sido mantido, os donatários passaram a ter sua autonomia significativamente limitada pela atuação do governador-geral.
No caso da Capitania de São Vicente, a integração ao Estado do Brasil contribuiu para maior articulação política e militar com outras regiões da colônia, ao mesmo tempo em que intensificou os conflitos com populações indígenas e aprofundou a dependência da mão de obra compulsória, especialmente indígena, no processo de expansão territorial e econômica do planalto paulista.[8][2]
Guerra dos Tamoios e França Antártica
[editar | editar código]Nos primeiros decênios da colonização, a economia da Capitania de São Vicente baseou-se amplamente na exploração do trabalho escravizado indígena, obtido por meio de alianças militares, guerras intertribais e do sistema de escambo com populações nativas. Esse modelo resultou, já nos anos iniciais, na formação de uma expressiva população de cativos, estimada em cerca de três mil indivíduos por volta de 1540.[17][nota 7]
A intensificação da captura de indígenas, aliada ao esgotamento das relações de troca e à crescente violência colonial, produziu forte reação das populações nativas. Em 1547, a povoação de Bertioga foi destruída, com a maior parte de seus moradores sendo morta ou capturada, marcando a escalada dos conflitos no litoral paulista.[17]

Diante do litoral em permanente estado de hostilidade, os portugueses passaram a direcionar seus esforços de colonização para o interior do continente. Nesse contexto, foram fundadas a vila de Santo André da Borda do Campo, em 8 de abril de 1553, e o colégio jesuíta de São Paulo de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554. Em 1560, a vila de Santo André foi abandonada, com sua população transferida para as proximidades do colégio, que foi elevado à condição de vila.[18]
Dois anos depois, em 1562, São Paulo de Piratininga tornou-se alvo de um ataque da Confederação dos Tamoios, liderada pelo cacique Piquerobi, irmão de Tibiriçá, tradicional aliado dos portugueses. O Cerco de Piratininga foi, contudo, repelido, garantindo a manutenção do núcleo colonial no planalto.[18]

Em 1563, uma epidemia de varíola atingiu severamente as populações indígenas da capitania, enfraquecendo decisivamente a resistência nativa. Em 1567, a Confederação dos Tamoios foi derrotada, e os sobreviventes do planalto paulista foram aldeados sob controle colonial e missionário.[18]
Enquanto esses conflitos se desenrolavam na porção meridional da capitania, a região setentrional, correspondente à Baía de Guanabara, encontrava-se em relativo abandono por parte da Coroa portuguesa. A rivalidade entre tupinambá, inimigos dos tupiniquim, aliados dos portugueses, favoreceu a ocupação francesa da área, no episódio conhecido como França Antártica.
A principal fortificação francesa, o Forte Coligny, foi destruída em 1560, mas a expulsão definitiva dos franceses somente ocorreu em janeiro de 1565, quando foi fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro [19]. Nesse contexto, em 1562, a porção norte da Capitania de São Vicente foi incorporada diretamente à Coroa portuguesa, dando origem à Capitania Real do Rio de Janeiro.[19]
Aldeamentos, bandeiras e expansão territorial
[editar | editar código]
Após o término da Guerra dos Tamoios, a população indígena do planalto paulista passou a ser progressivamente aldeada de forma compulsória em assentamentos organizados pelos missionários jesuítas. Nesses aldeamentos, os indígenas eram submetidos ao trabalho forçado sob o argumento da catequese e da chamada “salvação cristã”. Entre os principais aldeamentos fundados nesse período destacam-se São Miguel, Pinheiros, Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos e Itaquaquecetuba [18].
A estratégia missionária consistia, em geral, na conversão das lideranças indígenas, na doutrinação sistemática das crianças e jovens e no enfraquecimento da autoridade dos pajés, promovendo profundas transformações nas estruturas sociais, familiares e rituais das aldeias. Esse projeto, contudo, revelou-se limitado e instável, tanto pela resistência indígena quanto pelos interesses conflitantes dos colonos paulistas. Como consequência, a partir da década de 1580, intensificou-se a captura sistemática de indígenas no interior do continente, inaugurando o período conhecido como o ciclo da escravização indígena [18][20].
O ciclo das bandeiras, denominação atribuída ao conjunto de expedições realizadas principalmente entre 1580 e 1640, transformou a vila de São Paulo de Piratininga em um dos principais centros de organização de incursões armadas rumo ao interior da América do Sul. Essas expedições tiveram como alvo central as missões jesuíticas localizadas na bacia do rio da Prata, resultando na destruição das missões do Tape, do Guairá e de Itatins, situadas, respectivamente, nos atuais estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul [21].
Apesar da amplitude dessas incursões, a atuação bandeirante não se traduziu, nesse período, em uma ocupação territorial estável do interior, que só ocorreria de forma mais consistente após a descoberta de jazidas auríferas no final do século XVII e início do século XVIII.
Paralelamente, a crescente oposição da Companhia de Jesus, da Igreja Católica e da própria Coroa portuguesa à escravização de indígenas cristianizados intensificou os conflitos entre colonos paulistas e as autoridades religiosas e metropolitanas. Esse embate culminou, em 1640, na expulsão dos padres jesuítas da capitania, episódio conhecido como a Botada dos padres fora, motivado pela tentativa de aplicação de uma bula do Papa Urbano VIII que previa a excomunhão de todos aqueles envolvidos na captura e exploração de indígenas escravizados [22].
A chamada “era de ouro” da ação bandeirante encerrou-se em 1641, com a Batalha de M'Bororé, na qual forças indígenas aliadas aos jesuítas derrotaram os bandeirantes paulistas na região da atual Mesopotâmia argentina [21]. A partir desse marco, as expedições organizadas a partir da capitania passaram a concentrar-se progressivamente na prospecção de metais preciosos. Foi também nesse contexto que, em 1681, a sede administrativa da capitania foi transferida de São Vicente para São Paulo.
Descoberta do ouro e Guerra dos Emboabas
[editar | editar código]A partir do final do século XVII, foram identificadas jazidas auríferas no interior da Capitania de São Vicente, especialmente em áreas exploradas por sertanistas oriundos da vila de Taubaté, então vinculada à Capitania de Itanhaém.[23][10] A descoberta de ouro desencadeou um intenso fluxo migratório de colonos provenientes de outras regiões da América portuguesa e do Reino de Portugal, alterando profundamente o equilíbrio social e político da região.
Os grupos locais, conhecidos como vicentinos ou paulistas, buscaram inicialmente manter o controle exclusivo das áreas auríferas recém-descobertas, valendo-se do conhecimento prévio do território e das rotas de acesso ao interior. No entanto, a rápida disseminação das informações sobre as descobertas atraiu numerosos forasteiros, denominados pejorativamente de “emboabas”, termo da língua geral paulista empregado para designar indivíduos considerados estranhos à comunidade local.[carece de fontes]
As tensões entre paulistas e emboabas resultaram em confrontos armados que culminaram na Guerra dos Emboabas,[nota 8] conflito que evidenciou a fragilidade do controle dos donatários sobre regiões de grande interesse econômico e estratégico.[23] A derrota dos paulistas e a intervenção direta da Coroa portuguesa levaram à reorganização administrativa do território minerador.
Como consequência do conflito, em 1709, a Capitania de São Vicente foi adquirida pela Coroa portuguesa e transformada na Capitania Real de São Paulo e Minas de Ouro, passando a ser governada por autoridades nomeadas diretamente pela metrópole, o que marcou o fim do regime hereditário na região.[23]
Extinção da capitania hereditária e configuração territorial (1709)
[editar | editar código]No contexto das transformações administrativas decorrentes da Guerra dos Emboabas, a Capitania de São Vicente foi adquirida pela Coroa portuguesa em 1709, sendo extinto o regime hereditário e criado, em seu lugar, a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro.[10] No momento dessa reorganização, a antiga capitania apresentava uma malha territorial relativamente consolidada, composta por diversas vilas fundadas ao longo dos séculos XVI e XVII.[23]
A constituição dessa rede de vilas refletia o processo gradual de ocupação do litoral e do interior, impulsionado inicialmente pela colonização açucareira, pela escravização indígena e, posteriormente, pela expansão bandeirante e pela descoberta de jazidas auríferas.[10] A relação cronológica das vilas fundadas até 1709 permite visualizar a amplitude territorial alcançada pela capitania às vésperas de sua incorporação definitiva à administração régia.[carece de fontes]
As vilas existentes à época da extinção da capitania, listadas a seguir em ordem de fundação, eram as seguintes:[nota 9]
Historiografia
[editar | editar código]A Capitania de São Vicente ocupa posição central na historiografia da colonização portuguesa no Brasil, sendo interpretada de formas distintas ao longo do tempo, de acordo com os paradigmas teóricos e metodológicos adotados pelos historiadores. As primeiras narrativas históricas sobre a capitania, produzidas ainda no século XIX, enfatizaram seu papel fundador e civilizatório, frequentemente associando São Vicente à origem institucional do Brasil colonial.[24]
No início do século XX, a obra de João Capistrano de Abreu representou um ponto de inflexão ao deslocar o foco da narrativa heroica para os processos de ocupação do território e para a importância dos caminhos terrestres e das dinâmicas internas da colonização. Para Capistrano, São Vicente constituiu um eixo fundamental da interiorização da colonização portuguesa, articulando litoral e sertão por meio de rotas que antecederam a descoberta das jazidas auríferas.[25]
A partir da segunda metade do século XX, a historiografia passou a problematizar de forma mais sistemática as relações entre colonização, escravização indígena e expansão territorial. Nesse contexto, os trabalhos de John Manuel Monteiro destacaram o papel central da captura e exploração de populações indígenas na formação econômica e social da capitania, relativizando interpretações que viam o bandeirantismo exclusivamente como movimento de expansão territorial.[8][2]
Estudos mais recentes, como os de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno e Jorge Pimentel Cintra, têm enfatizado a complexidade administrativa e territorial da capitania, destacando sua fragmentação espacial, suas disputas jurisdicionais e sua inserção em redes mais amplas de circulação econômica e política no interior da América portuguesa.[10][6] Essas abordagens reforçam a compreensão da Capitania de São Vicente não apenas como um núcleo fundador, mas como uma entidade dinâmica, marcada por tensões, conflitos e constantes reconfigurações ao longo dos séculos XVI e XVII.
Singularidade histórica da Capitania de São Vicente
[editar | editar código]A Capitania de São Vicente distingue-se das demais capitanias hereditárias por um conjunto de características que lhe conferem singularidade no contexto da colonização portuguesa na América. Diferentemente das capitanias do Nordeste, cuja estrutura econômica esteve fortemente associada à produção açucareira voltada ao mercado atlântico, São Vicente desenvolveu-se a partir de uma economia mais diversificada e fortemente dependente da exploração do trabalho indígena e da mobilidade territorial.[2][9]
Outro elemento distintivo foi sua precoce interiorização. Enquanto grande parte das capitanias manteve-se restrita ao litoral por décadas, São Vicente tornou-se, desde o século XVI, um ponto de partida para expedições que avançaram para o planalto e para o interior do continente, articulando redes de circulação que alcançaram a bacia do rio da Prata e, posteriormente, as regiões mineradoras.[25][10]
A fragmentação territorial da capitania, marcada pela existência de porções descontínuas e pela criação de unidades autônomas, como a Capitania de Itanhaém e a Capitania do Rio de Janeiro, também constitui um traço singular. Esse processo reflete tanto disputas sucessórias quanto a dificuldade da Coroa portuguesa em impor um controle administrativo uniforme sobre regiões de ocupação dispersa e conflituosa.[5][6]
Por fim, a Capitania de São Vicente desempenhou papel decisivo na transição do modelo hereditário para uma administração mais centralizada, processo acelerado pela descoberta do ouro e pela Guerra dos Emboabas. Sua incorporação à Coroa portuguesa, em 1709, simboliza o esgotamento de um modelo de colonização baseado na delegação privada e a consolidação de uma política colonial mais diretamente controlada pela metrópole.[9][15]
Relações com a Capitania de Itanhaém
[editar | editar código]A Capitania de Itanhaém foi criada em 1624 em decorrência de disputas sucessórias em torno da posse da Capitania de São Vicente. A donatária Mariana de Sousa Guerra, condessa de Vimieiro, entrou em conflito com seu primo Álvaro Pires de Castro e Sousa, o Conde do Monsanto, a respeito dos direitos hereditários sobre a capitania vicentina.[26]
Em razão dessa disputa, Mariana de Sousa Guerra foi destituída da posse da Capitania de São Vicente, mantendo, contudo, o direito de instituir uma nova capitania hereditária. Como resultado, fundou a Capitania de Itanhaém, com sede na Vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, que passou a coexistir, de forma autônoma, com a Capitania de São Vicente ao longo do século XVII.[26]
A Capitania de Itanhaém exerceu influência significativa sobre áreas do vale do Paraíba e do litoral paulista, incluindo vilas como Taubaté, desempenhando papel relevante no processo de interiorização da colonização e na formação das rotas de acesso às regiões mineradoras. Essa capitania permaneceu sob regime hereditário até 1753, quando foi adquirida pela Coroa portuguesa e incorporada à Capitania de São Paulo.[26]
Legado histórico
[editar | editar código]O legado histórico da Capitania de São Vicente manifesta-se de forma duradoura na configuração territorial, política e cultural do Brasil meridional. A rede de vilas fundada entre os séculos XVI e XVII serviu de base para a formação de extensas áreas do atual estado de São Paulo, do Paraná e de partes do Centro-Oeste, influenciando a posterior organização das províncias e estados brasileiros.[10]
As práticas de interiorização desenvolvidas a partir da capitania, embora profundamente marcadas pela violência da escravização indígena, contribuíram para a ampliação do espaço colonial português e para a consolidação de rotas que seriam fundamentais no ciclo do ouro e na integração econômica da colônia.[2][25]
No plano institucional, São Vicente ocupa lugar simbólico na história política brasileira por abrigar as primeiras experiências de administração municipal e de representação local sob domínio português no continente americano. Esse legado, frequentemente mobilizado em narrativas comemorativas, tem sido reinterpretado pela historiografia contemporânea à luz das contradições e conflitos que marcaram o processo colonial.[1][7]
Assim, a Capitania de São Vicente permanece como objeto central para a compreensão das origens históricas do Brasil, não apenas como marco fundador, mas como espaço de experimentação, conflito e transformação que moldou de forma decisiva a formação do território e da sociedade brasileira.
Ver também
[editar | editar código]- Feitoria de São Vicente
- Engenho dos Erasmos
- História do Rio de Janeiro
- História de São Paulo
- História do Brasil
- Ciclo do pau-brasil
- Ciclo do açúcar
- Lista de governadores de São Paulo (com os mandatários da capitania)
- Lista de governadores do Rio de Janeiro no período colonial
- Lista de capitães-mores de São Paulo
Notas
- ↑ A língua geral paulista consistiu em um conjunto de variantes de base tupi amplamente utilizadas no planalto paulista entre os séculos XVI e XVIII, sobretudo em contextos de contato interétnico e de expansão territorial. Sua difusão esteve associada à escravização indígena e às expedições de interiorização.
- ↑ A Capitania de São Vicente não constituiu um Estado soberano, mas uma entidade administrativa colonial subordinada ao Reino de Portugal. O português era a língua da administração, embora outras línguas fossem amplamente utilizadas no cotidiano colonial [1][2].
- ↑ No contexto do Reino de Portugal, o termo capitania hereditária designa uma concessão administrativa e jurisdicional feita pela Coroa a particulares, com direitos transmissíveis por herança, mas sempre subordinados à soberania régia. As capitanias não constituíam unidades políticas autônomas nem implicavam soberania territorial própria.
- ↑ No contexto do Direito português do Antigo Regime, vila e cidade não eram categorias demográficas, mas jurídico-administrativas. A vila possuía câmara municipal, juiz ordinário e pelourinho, enquanto o título de cidade era concedido por prerrogativa régia, geralmente associada à sede episcopal. Assim, embora São Vicente seja frequentemente referida como a “primeira cidade do Brasil”, seu estatuto formal durante o período colonial foi o de vila. O uso do termo “cidade” em sentido historiográfico é anacrônico e honorífico.[1][4] A criação da vila, conforme a legislação atual, é pode ser considerada a primeira entidade municipal nas Américas, mas o uso do termo cidade, neste caso, é anacrônico.
- ↑ A referência às primeiras eleições municipais refere-se à eleição de oficiais da câmara local, conforme as práticas do municipalismo português, não correspondendo a processos eleitorais modernos de sufrágio amplo.
- ↑ O termo bandeirantes é uma designação historiográfica posterior aos eventos descritos. Nos séculos XVI e XVII, os próprios participantes dessas expedições utilizavam denominações como entradas ou jornadas.
- ↑ As estimativas sobre o número de indígenas escravizados no início da colonização variam conforme as fontes e devem ser compreendidas como aproximações, baseadas sobretudo em relatos administrativos e missionários, e não em levantamentos censitários sistemáticos.
- ↑ A Guerra dos Emboabas não constituiu um conflito formal entre unidades políticas, mas uma série de confrontos armados localizados, envolvendo grupos de colonos com interesses divergentes sobre o controle das áreas auríferas recém-descobertas.
- ↑ A listagem considera vilas oficialmente instituídas por ato régio ou reconhecidas administrativamente até 1709, não incluindo povoações, freguesias ou assentamentos informais existentes à época.
Referências
- ↑ a b c d e f g Vainfas 2000.
- ↑ a b c d e f Monteiro 1995.
- ↑ a b c Saldanha 2001.
- ↑ a b c Abreu 1988.
- ↑ a b c d Leme 2004.
- ↑ a b c d e Cintra 2013.
- ↑ a b Senado 2006.
- ↑ a b c Monteiro 1984.
- ↑ a b c Boxer 1969.
- ↑ a b c d e f g h Bueno 2009.
- ↑ Alves 2010.
- ↑ Alberto 2014.
- ↑ Moraes 2007.
- ↑ Monteiro 1984, p. 22.
- ↑ a b c Ricupero 2016.
- ↑ a b Fabra 2010.
- ↑ a b Monteiro 1995, pp. 29–35.
- ↑ a b c d e Monteiro 1984, p. 29.
- ↑ a b Bicalho 2008.
- ↑ Monteiro 1995, pp. 42–51.
- ↑ a b Páez & Echenique 2016.
- ↑ Monteiro 1999.
- ↑ a b c d Boxer 1969, pp. 159–160.
- ↑ Varnhagen 1877.
- ↑ a b c Abreu 1930.
- ↑ a b c Leme 2004, pp. 88–126.
Bibliografia
[editar | editar código]Livros
[editar | editar código]- Abreu, João Capistrano de (1930). Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Capistrano de Abreu
- Blaj, Ilana (2002). A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681–1721). São Paulo: Humanitas FFLCH/USP
- Boxer, Charles Ralph (1969). O Império Colonial Português (1415–1825). Lisboa: Edições 70
- Fabra, Carlos (2010). São Vicente: primeiros tempos. [S.l.: s.n.]
- Monteiro, John Manuel (1984). «Vida e morte do índio: São Paulo colonial». Índios no Estado de São Paulo. São Paulo: Yankatu
- Monteiro, John Manuel (1995). Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras
- Varnhagen, Francisco Adolfo de (1877). História Geral do Brasil. Rio de Janeiro: Casa de E. e H. Laemmert
Teses e dissertações
[editar | editar código]- Alberto, Luiz Antônio (2014). Registros rupestres de São Paulo: conhecer para preservar (Tese). Universidade de São Paulo
- Alves, Denise Maria (2010). A indústria lítica do sambaqui Mar Casado (Tese). Universidade de São Paulo
- Moraes, Camila Azevedo (2007). Arqueologia Tupi no nordeste de São Paulo (Tese). Universidade de São Paulo
Artigos
[editar | editar código]- Bicalho, Maria Fernanda Baptista (2008). «A França Antártica, o corso, a conquista e a "peçonha luterana"». História (São Paulo): 29–50. doi:10.1590/S0101-90742008000100004
- Bueno, Beatriz Piccolotto Siqueira (2009). «Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532–1822)». Anais do Museu Paulista. 17 (2): 251–294
- Cintra, Jorge Pimentel (2013). «Reconstruindo o mapa das capitanias hereditárias». Anais do Museu Paulista. 21 (2): 11–45. doi:10.1590/S0101-47142013000200002
- Monteiro, Rodrigo Bentes (1999). «A rochela do Brasil: São Paulo e a aclamação de Amador Bueno como espelho da realeza portuguesa». Revista de História (141): 21–44
- Páez, Sergio Luis Alberto; Echenique, Nora Inés (2016). «La Batalla de Mbororé: el afianzamiento de soberanía en la región de las misiones jesuíticas». Actas Congreso Internacional de Geografía – San Miguel de Tucumán
- Ricupero, Rodrigo (2016). «O estabelecimento do Exclusivo Comercial Metropolitano e a conformação do Antigo Sistema Colonial no Brasil». História (São Paulo). doi:10.1590/1980-436920160000000100
Institucionais e imprensa
[editar | editar código]- Senado Federal (2006). «Brasil foi o primeiro país americano a fazer eleições, em 1532»
Ligações externas
[editar | editar código]- Edição integral do livro História da Capitania de São Vicentede Pedro Taques de Almeida Pais Leme (em formato PDF)
- Memórias para a história da capitania de S. Vicente, autor Frei Gaspar da Madre de Deus
- SEADE - Histórico da formação dos municípios do Estado de São Paulo
- SEADE - Mapas históricos das divisões político-administrativas do Estado de São Paulo
