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Carbonária

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Símbolo maçônico da Carbonária
Símbolo maçônico/carbonário (cruz, chaves, pentagrama e alfabetos esotéricos. Note-se as chaves cruzadas parodiando o símbolo do papado, mas com um pentagrama no lugar do brasão papal).

A Carbonária foi uma sociedade secreta revolucionária que atuou na Itália, França, Portugal, Espanha, Brasil e Uruguai nos séculos XIX e XX, notória por seu marcado anticatolicismo, bem como por ações violentas, atentados, assassinatos políticos e terrorismo, e por sua influência na queda de monarquias tradicionais e absolutistas.[1][2]

Embora seja frequentemente afirmado que a Carbonária não possuía unidade ou linha de ação claramente definida[3][3][4], muitos estudiosos discordam dessa visão. Pesquisas como a de John Rath (1964) indicam que a sociedade tinha sim um pano de fundo bem pronunciado, baseado na cosmovisão iluminista e maçônica, como se observa na presença de ritos iniciáticos similares entre as associações e no forte caráter anticlerical - porém, seu modus operandi era centrado no uso da violência política e em assassinatos seletivos para impor disciplina interna e aterrorizar adversários.[5] A perspectiva de que a Carbonária tinha objetivos bem definidos e alinhados com a maçonaria é também observada pela Igreja Católica: a própria condenação papal na bula Ecclesiam a Jesu Christo (1821) descreveu a Carbonária como uma organização coesa, voltada a minar a Igreja e a monarquia.[6]

Bandeira da Carbonária
Bandeira tradicionalmente associada à Carbonária.

Um dos liames entre a Carbonária e a Maçonaria evidencia-se pelo fato de que vários membros de destaque — como Giuseppe Garibaldi, Giuseppe Mazzini, entre outros — estiveram ativos em ambas as redes. Outro ponto de contato é a estrutura interna da Carbonária (choças, barracas, vendas, Alta Venda) que reflete uma hierarquia iniciática e de obediências muito semelhante à maçônica.[7]

A oposição da Igreja Católica quanto ao movimento carbonário veio a público, de modo especial, quando houve a condenação formal da Carbonária na bula Quo Graviora Maiora (1826), que denunciou a promoção da indiferença religiosa, indisciplina social, conspirações contra a autoridade papal e envolvimento em execuções para proteger seus segredos por parte da Carbonária.[8]

Estrutura interna

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Organizada por níveis — choças (básico), barracas (intermediário), vendas (local central), e Alta Venda (nível superior) —, a Carbonária impunha severa disciplina interna. Traidores ou dissidentes eram punidos, muitas vezes com morte, por meio de organizações como a Alta Venda, responsável por execuções clandestinas em todo o território italiano.[9]

Assassinatos famosos

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Placa memorial de Angelo Targhini e Leonida Montanari
Placa memorial de Angelo Targhini e Leonida Montanari.

A Carbonária italiana não se limitava à política revolucionária, mas recorreu ao terrorismo interno:

  • Em 1825, Angelo Targhini e Leonida Montanari foram decapitados em Roma após tentar retaliar um informante (Filippo Spada, ex-carbonário acusado de delação, que sobreviveu ao ataque).[10][11][12]
  • Em 1826, Don Ignazio Muti, secretário do cardeal Agostino Rivarola, foi morto em Ravenna em atentado atribuído a carbonários contra o cardeal.[13]
  • Em 1826, Antonio Bellini, inspetor de polícia, foi assassinado em Faenza no mesmo ciclo de retaliações sectárias.[13]
  • Em 1828, Luigi Zanoli, Angiolo Ortolani, Gaetano Montanari e Gaetano Rambelli foram enforcados em Ravena por planejarem o sequestro ou assassinato do cardeal Rivarola.[14]
  • Em 1848, Pellegrino Rossi, primeiro-ministro do Estado Pontifício, foi morto em Roma com mandantes do crime ligados à Carbonária.[15][16][17]
  • Outros casos de execuções clandestinas foram ordenados pela Alta Venda como forma de terror interno.[18]

Revoluções e intervenções políticas

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  • 1820–21 — Promoção ativa das revoluções em Nápoles, Estados Papais e Piemonte, com forte presença militar, motins e apoio às constituições liberais.[19]
  • 1831 — Levantamentos em Modena, Romagna, Bolonha, Parma e nos Estados Papais; líderes como Enrico Misley e Ciro Menotti foram capturados e executados.[20]
  • 1847 — Insurreições no Reino das Duas Sicílias conduzidas por comitês carbonários culminaram na execução dos Cinco Mártires de Gerace.[21]
  • Atentado em Paris (1858)Felice Orsini, afiliado ao ideal carbonário, tentou assassinar Napoleão III, gerando forte impacto político e diplomático.[22]
  • Portugal — A Carbonária portuguesa atuou no assassinato do rei dom Carlos I de Portugal e do Luís Filipe, Príncipe Real de Portugal (1908), e apoiou a Revolução de 5 de Outubro de 1910, decisiva para o estabelecimento da República.[23]
  • Brasil e UruguaiGiuseppe Garibaldi, carbonário, participou da Revolução Farroupilha (RS, Brasil), da Revolução Cisplatina e de conflitos no Uruguai (Guerra Civil/República Rio-Grandense), disseminando ideais carbonários no continente sul-americano.[24]
  • França (Charbonnerie) — Conspirações contra a Restauração e Carlos X; ver estudos de referência.[25]

Países de atuação

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Símbolo da Carbonária Portuguesa
Símbolo utilizado pela Venda Jovem-Portugal da Carbonária Portuguesa (c. 1910).

A Carbonária teve presença — direta ou por influência ideológica — nos seguintes países:

Pessoas famosas assassinadas ou executadas

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  • Angelo Targhini, executado em 1825 sob acusação interna de traição.[26]
  • Leonida Montanari, igualmente executado em 1825.[27]
  • Luigi Zanoli, Angiolo Ortolani, Gaetano Montanari e Gaetano Rambelli, executados em 1828.[28]
  • Ciro Menotti, líder da revolta de 1831, foi executado após a conspiração em Modena.[29]
  • Rei Dom Carlos I e Príncipe Luís Filipe, assassinados pela Carbonária em Lisboa, 1908.[23]
  • Pellegrino Rossi, primeiro-ministro do Estado Pontifício, assassinado em 1848 .[15][16][17]

Símbolos, ritos e codificação secreta

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A Carbonária utilizava objetos com forte carga simbólica interna:

  • Nas barra­cas (locais de reunião), eram dispostos um carvão (símbolo de esforço), copo d’água (pureza), sal (incorrup­tibilidade), novelo (solidariedade), feixe de lenha (união), coroa de espinhos (sofrimento), e pequena escada (ascensão ideológica).[30]
  • O Grande Mestre usava uma faixa tricolor e empunhava uma scure (machado), símbolo de autoridade, enquanto seus assistentes empunhavam machados menores, refletindo uma semelhança ritual com a Maçonaria.[30]
  • A bandeira carbonária tinha faixas horizontais azul (esperança), vermelha (compromisso) e preta (fé inabalável).[30]
  • A Carbonária utilizava um alfabeto cifrado de substituição fixa para comunicação sigilosa, com correspondência entre letras (“A→O”, “B→P” etc.), usado nos motins de 1830-31 e em ritos iniciáticos.[30]
  • A semelhança com a Maçonaria era visível, e maçons podiam ingressar diretamente como mestres.[31]

Referências

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  1. "Secret Societies in Europe (1814–1850)", EHNE – Encyclopédie d’Histoire Numérique de l’Europe.
  2. “Carbonari”, Encyclopædia Britannica — cita atuação na Itália e influência sobre grupos na França, Portugal, Espanha, Brasil e Uruguai com caráter anticlerical e conspirativo.
  3. a b Smith 1988.
  4. Duggan 2008.
  5. Rath, John (January 1964), “The Carbonari: Their Origins, Initiation Rites, and Aims”, The American Historical Review, 69 (2): 353–370.
  6. Bula papal ‘’Ecclesiam a Jesu Christo’’ (1821).
  7. Encyclopædia Britannica: verbetes sobre Carbonari e estrutura iniciática.
  8. Bula ‘’Quo Graviora Maiora’’ (1826).
  9. Alta Venda e disciplina interna por execuções clandestinas (estudos e compilações históricas).
  10. Execução de Angelo Targhini e Leonida Montanari (1825).
  11. Wikipédia em francês (síntese documental) sobre Targhini e Montanari, sua execução e últimas palavras.
  12. Treccani – Dizionario Biografico: verbete Montanari, Leonida (menção ao ataque contra Filippo Spada).
  13. a b Gentile, Pierangelo (2019). «Mestiere da matti o da birbi»: miti e realtà di sette e congiure carbonare nell’epoca di Leone XII. In: Governo della Chiesa, governo dello Stato. Ancona: Consiglio Regionale delle Marche, pp. 406–408.
  14. Relato das execuções em Ravena (1828): Zanoli, Ortolani, Montanari, Rambelli.
  15. a b La Nazione (17 fev. 2024): “Il giurista Pellegrino Rossi... Assassinato in Vaticano”.
  16. a b Massime dal passato (13 jul. 2020): “Il caso irrisolto: l’omicidio di Pellegrino Rossi”.
  17. a b Gustavo Brigante Colonna, L'uccisione di Pellegrino Rossi; 15 novembre 1848 (Milano: Mondadori, 1938), p. 266 – apresenta evidências de que a autoria intelectual do assassinato estava provavelmente vinculada à Carbonária romana.
  18. Relatos sobre punições secretas (execuções) atribuídas à Alta Venda.
  19. Britannica: revoltas de 1820–21 (Itália liberal), participação carbonária.
  20. Sínteses sobre os motins de 1831 e execução de líderes como Misley e Menotti.
  21. Insurreições de 1847 no Reino das Duas Sicílias (Cinco Mártires de Gerace).
  22. Atentado de Felice Orsini (1858).
  23. a b Carbonária Portuguesa: assassinato do rei e do príncipe; apoio à Revolução de 1910.
  24. Wikipedia inglesa: atuação de Garibaldi na América do Sul.
  25. Spitzer, Alan B. Old Hatreds and Young Hopes: The French Carbonari against the Bourbon Restoration. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971.
  26. Fonte sobre Targhini executado em 1825.
  27. Fonte sobre Montanari executado em 1825.
  28. Lista dos executados em Ravena: Zanoli, Ortolani, Montanari, Rambelli (1828).
  29. Ciro Menotti executado após revolta de 1831.
  30. a b c d Artigo italiano sobre simbologia carbonária (it.wikipedia.org/wiki/Carboneria).
  31. Catholic Encyclopedia: ritos, símbolos e relação com a Maçonaria.

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