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Carioca

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 Nota: Para outros significados, veja Carioca (desambiguação).
"A Carioca", pintura de 1882 de Pedro Américo

Carioca é o gentílico oficial do município do Rio de Janeiro, capital do estado do Rio de Janeiro, no Brasil, também podendo referir-se, como adjetivo, a tudo que pertence ao município do Rio de Janeiro, como por exemplo aos seus bairros.[1][2][3] É também aceito popularmente como gentílico de todo o estado do Rio de Janeiro e ao que se refere a ele,[4] por exemplo em Campeonato Carioca de Futebol, mesmo sendo "fluminense" o gentílico oficial.[5]

Etimologia

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O termo "carioca" é de origem tupi[6] e foi adotado como gentílico a partir do nome do Rio Carioca, principal fonte de água potável da cidade por um longo tempo.[7][8][9] No entanto, a história da etimologia palavra contou com diferentes interpretações.

Historicamente, a tese mais difundida foi a que a palavra significaria "casa de homem branco": kara'iwa (homem branco) + oka (casa)[10], como referência a uma suposta casa de pedra construída próxima à foz do Rio Carioca por Gonçalo Coelho, na segunda expedição portuguesa à Baía de Guanabara, em 1503-1504. Essa tese foi formulada nos anos 1850s pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen[11], e segue até hoje bastante citada em livros contemporâneos[10][12].

Contudo, ainda que a tese siga aparecendo em dicionários gerais e obras de referência, hoje é consenso entre linguistas que essa tese é errada, tanto do ponto de vista historiográfico quanto linguístico.[7][13][8][14][15][16][17][9] Em vez disso, a tese que se apresenta é que o nome vem de kariîó + oka, "casa do indígena carijó" — nome da principal aldeia tupinambá na margem esquerda da Baía, ocupando um território na foz do Rio Carioca, correspondente aos atuais bairros da Glória, Catete e Flamengo. De fato, dois documentos históricos fundamentais apoiam essa explicação: o escritor francês Jean de Léry, que fez parte da expedição francesa que implantou a França Antártica, lista em seu Viagem à Terra do Brasil (1574), as aldeias tupinambá visitadas por ele entre 1557 e 1558, e descrever assim o nome da Aldeia Karióka (tradução de Rafael Freitas da Silva)[7][18]:

Nessa aldeia, assim chamada, que é o nome de um ribeiro, da qual a aldeia toma o nome, por estar situada perto. Verte-se por casa dos kariós; composto desta palavra kariós [carijós] e de ók [oca], que significa casa. Tirando os 'os' e acrescentando ók, teremos kariók.

Além disso, o padre José de Anchieta, em seu Auto de São Lourenço, lista todas as aldeias tupinambá derrotadas pelos portugueses ao redor da Baía, e cita tal aldeia diretamente como "Carijo oca"[19][20][7][13]:

Yaupa Moçupiroka, Yequej, guatapitiba, […] Carijo oca, Pacucaya, Araçatiba.

Ao contrário do que afirma Léry, contudo, o nome do Rio Carioca vem muito provavelmente do nome da Aldeia e não o contrário, uma vez que nomes de águas em tupi sempre terminam com o sufixo -y.[21] Além disso, seria muito improvável que os tupinambás usassem uma referência a homens brancos para nomear tanto a sua aldeia quanto um riacho, que ao que tudo indica existem desde muito antes da chegada dos europeus.[7]

História

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No período colonial (século XVI - século XVIII), os nascidos na capitania do Rio de Janeiro[22] eram conhecidos por "carioca", devido ao Rio Carioca,[8] que era o rio que fornecia água potável à população (aqueles que "bebiam das águas do Carioca"). A partir de 1783, por decreto de D. Luiz de Vasconcelos, então vice-rei do Brasil, foi criado um novo gentílico "mais civilizado" para o Rio de Janeiro, o "fluminense", a partir do termo latino flumen, que significa "rio", em alusão ao "Rio".

Segundo o relato de Dom Juan Francisco de Aguirre, nobre espanhol que visitou o Rio de Janeiro em março de 1782, os naturais do Rio de Janeiro passaram a ser apelidados de “cariocas” devido ao seu deslumbramento com o Aqueduto da Carioca e suas águas: "Foi esse deslumbre pelo seu aqueduto que fez com que os naturais desta cidade ficassem conhecidos como cariocas, nome da fonte de onde a água que abastece a região. Logo que estabelecem contato com um europeu, os cariocas apressam-se em dizer-lhe que essa água tem o poder de enfeitiçá-lo e de fazê-lo fixar residência na cidade".[23]

Em 1834, através do Ato Adicional à Constituição de 1824, o município do Rio de Janeiro se separou da Província do Rio de Janeiro para constituir o Município Neutro, com administração vinculada diretamente à corte imperial brasileira. Como "carioca" é um termo indígena, os membros da Corte optaram por intitularem-se "fluminenses", tendo "carioca" sobrevivido pelo uso popular, principalmente nas demais províncias do Império do Brasil.

Em 1891, após a Proclamação da República do Brasil em 1889, o Município Neutro transformou-se no Distrito Federal e a província do Rio de Janeiro transformou-se no estado do Rio de Janeiro. Em 1960, com a mudança da capital do país para Brasília, o antigo Distrito Federal tornou-se o estado da Guanabara, que adotou então oficialmente a designação "carioca" pela primeira vez para os habitantes do novo estado. Com a fusão do estado da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro, em 1975, o então estado da Guanabara passou a integrar o atual estado do Rio de Janeiro. Oficialmente, optou-se por "fluminense" como gentílico oficial do novo estado, reduzindo-se o gentílico "carioca" a gentílico municipal. Contudo, a maioria dos habitantes do estado do Rio de Janeiro preferem a designação "carioca" a "fluminense" (especialmente na Região Metropolitana, Costa Verde e Região dos Lagos) e desde os anos 2000 o movimento "Somos Todos Cariocas" busca o reconhecimento de carioca como gentílico co-oficial do estado do Rio de Janeiro.[4]

Referências

  1. «Rio de Janeiro (RJ) | Cidades e Estados | IBGE». www.ibge.gov.br. Consultado em 26 de agosto de 2025. Cópia arquivada em 11 de julho de 2025 
  2. carioca no dicionário Michaelis
  3. A origem dos bairros cariocas
  4. a b Lucas, Jorge Alexandre (1 de janeiro de 2014). «Somos todos cariocas: identidade e pertencimentos no mundo globalizado». Revista Científica Ciência em Curso (em francês). 3 (2): 111–123. ISSN 2317-0077 
  5. Estado do Rio de Janeiro IBGE
  6. «Carioca». Michaelis On-Line. Consultado em 5 de outubro de 2025 
  7. a b c d e «O RIO ANTES DO RIO - Rafael Freitas da Silva - Livro». Travessa.com.br. Consultado em 9 de agosto de 2016 
  8. a b c NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 555.
  9. a b comunik16@gmail.com, Comunik16, https://comunik16 dev. «Rio Memórias». Rio Memórias. Consultado em 5 de outubro de 2025 
  10. a b FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 353
  11. Varnhagen, Francisco Adolfo de (1854). História Geral do Brasil, V. I. Madri: Imprensa da V. de Dominguez. p. 415 
  12. BUENO, E. Capitães do Brasil: a saga dos primeiros colonizadores. Rio de Janeiro. Objetiva. 1999. p. 46,47.
  13. a b Navarro, Eduardo De Almeida; Trevisan, Rodrigo Godinho; Fonseca, Renato Da Silva (28 de abril de 2012). «Recensão crítica do livro "O português e o tupi no Brasil"». Língua e Literatura (30). 359 páginas. ISSN 2594-5963. doi:10.11606/issn.2594-5963.lilit.2012.97584. Consultado em 5 de outubro de 2025 
  14. Santana, Andreza Bispo (org). O Povo Brasileiro I: Matriz Tupi (PDF). Universidade de São Paulo.: [s.n.] p. 25 
  15. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. Terceira edição. São Paulo: Global, 2005. p. 187
  16. Domene, Marina Gialluca. «O Diabo em Anchieta: a representação do diabólico no Brasil dos Quinhentos». Consultado em 5 de outubro de 2025 
  17. Carlos, Jose. «Dicionário Tupi-Guarani / Português Dicionário Tupi -Guarani / Português». Consultado em 5 de outubro de 2025 
  18. Léry, Jean de (1941). Viagem à Terra do Brasil. São Paulo: Livraria Martins. p. 255 
  19. Anchieta, José (2010). O Auto de São Lourenço. São Paulo: Valer. p. 22 
  20. Anchieta, José (1933). Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 
  21. Edelweiss, Frederico (1963). Quirimurê – Atribulações de um Topônimo. Salvador: Arquivos da Universidade da Bahia, v. VII 
  22. COMELLI, P. As ruas do Rio de Janeiro imperial. Disponível em http://www.comelliphilatelist.com/artigos3.asp?id=262. Acesso em 14 de setembro de 2012.
  23. Carvalho França, Jean Marcel (1999). Visões do Rio de Janeiro Colonial. Rio de Janeiro: José Olympio Editora e Editora UERJ. pp. pg. 156 
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