Caso Lucas Terra

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Caso Lucas Terra
Local do crime Avenida Vasco da Gama
Data 21 de março de 2001 (18 anos)
Vítimas Lucas Vargas Terra
Réu(s) Silvio Roberto Galiza (pastor)[1]
Igreja Universal[2]
Juiz Vilebaldo José de Freitas Pereira[3] (2008)
Delma Lobo[4] (2011)
Vera Lucia Medauar (2011)[4]
Patrícia Sobral[1] (2012)
Gelza Almeida[5] (2013)
Local do julgamento Fórum Ruy Barbosa
Situação Além da Igreja Universal[2], um réu foi julgado e condenado em 1ª Instância[1]
Outros dois suspeitos recorrem na justiça para não irem a júri popular[5]

O Caso Lucas Terra diz respeito a Lucas Vargas Terra[6], um adolescente que foi assassinado aos 14 anos, em Salvador, no dia 21 de março de 2001. O caso ganhou repercussão nacional[7][8][9] e internacional.[10] Sua foto apareceu pela primeira vez no jornal Correio em maio de 2001.[11] Foi apresentado no Linha Direta da Rede Globo em 30 de novembro de 2006.[12] Foi listado em 2019 pelo Correio como um dos crimes que "marcaram os últimos 40 anos na Bahia".[11]

Lucas Terra teria sofrido agressões sexuais e queimado vivo supostamente pelo pastor Silvio Roberto Galiza, um bispo, um obreiro e um segurança da sede da Universal em Salvador. Até o momento, apenas o pastor Galiza foi condenado pela justiça[13][14][15][16] Após ser condenada por danos morais, a Igreja Universal pagou dois milhões de reais à família de Lucas Terra.[2] O caso ainda está em aberto.[5]

História[editar | editar código-fonte]

Desaparecimento[editar | editar código-fonte]

Lucas Vargas Terra
Nascimento 20 de outubro de 1986[17]
Salvador (Bahia)[17]
Morte 21 de março de 2001 (14 anos)
Salvador, Bahia
Nacionalidade brasileiro
Parentesco Marion Terra (mãe)[18]
José Carlos Terra (pai de Lucas, falecido em 21 de fevereiro de 2019)[18]
Carlos Terra Junior (irmão)[19]
Carlos Felipe Terra (irmão)[19]

Na noite em que desapareceu, em 21 de março de 2001, o garoto ligou de um telefone público para seu pai, Carlos Terra informando que estava com o pastor Silvio Roberto Galiza e devido ao horário ia dormir na Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro do Rio Vermelho. Durante as buscas, o pastor Galiza contou versões contraditórias sobre a última vez que viu Lucas. Segundo o promotor do caso, Davi Gallo, o pastor se encontrava próximo ao telefone que Lucas ligou e as buscas foram "desfocadas" por informações falsas.[20]

Corpo[editar | editar código-fonte]

Em 23 de março de 2001 foi encontrado um corpo dentro de um caixote queimado em um terreno baldio na Avenida Vasco da Gama.[18] O corpo foi posto em espera ao longo de quarenta e três dias no Instituto Médico Legal (IML), aguardando exame de DNA.[5] Foi apontado que o corpo seria o de Lucas Terra devido a uma mecha de cabelo e partes da roupa que ficaram intactas, que dias depois foi confirmado pelo laudo pericial da polícia.[18] O laudo médico revelou que houve uma tentativa de asfixia-lo e depois ele foi carbonizado a tal ponto que impossibilitou determinar a causa da morte e se houve abuso sexual ou não, este detalhe levou ao promotor crer que "certamente houve ato de violência sexual".[20]

Os peritos criminais encontraram no corpo restos de tecido semelhantes ao encontrado na igreja do Rio Vermelho, ligando o crime a Galiza e a Universal.[20] Lucas foi sepultado no Cemitério Bosque da Paz.[5] O crime ocorreu dias antes do dia em que Lucas e seu pai emigrariam para a Itália, onde já vivia sua mãe, Marion Terra.[21]

Testemunhas[editar | editar código-fonte]

Segundo testemunhas o garoto era um membro muito participativo dentro da igreja e Galiza ficou obcecado por Lucas em pouco tempo, demonstrando uma atitude dominadora sobre ele. O pastor se incomodava quando Lucas ficava próximo às meninas e sempre o convidava para dormir na igreja com outros garotos, o que era desconhecido por Carlos Terra.[20]

Os superiores do pastor transferiram Galiza para outra instituição após descobrirem que ele dormiu na mesma cama com o Lucas na igreja, enquanto os outros garotos dormiram em um cômodo separado. Porém, após a transferência, Galiza continuava a visitar a Universal em que Lucas frequentava. O pastor já havia sido expulso de uma outra comunidade religiosa; o que lhe valeu de ser apelidado de "O secretário do Diabo", pelos habitantes do bairro. [20]

As testemunhas que depuseram contra Galiza foram ameaçadas por outros membros da igreja. A testemunha que era a namorada de Lucas, A.P.R.M. de 17 anos, disse que foi perseguida por membros da igreja, humilhada e expulsa. O que também foi relatado pela testemunha M.O.C.:

"Fui ameaçado e mesmo frequentando a igreja há 20 anos, disseram que era para eu calar a boca. O regime é militar. Eles dizem que [a gente] tem que falar tudo em nome do Senhor, até mentir. Isso porque ouvi o pastor Silvio contradizendo-se quanto ao local que ele disse que tinha deixado Lucas."[22]

A equipe de reportagem do jornal A Tarde também foi ameaçada e perseguida por ordem do bispo João Leite, que acionou seus seguranças, impedindo que outros membros da igreja fossem entrevistados pelos jornalistas.[23] Carlos Terra também foi ameaçado, o que o levou a pedir ajuda ao Ministério Público.[24] O publicitário e amigo de Carlos Terra, Toni Costa foi inscrito no programa de proteção a tetemunha em 2003.[25]

Ao dar seu depoimento em julho de 2002, o pastor Fernando ficou detido sob observação do juíz, após se contradizer várias vezes.[26]

Protestos[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 2001 o inquérito foi concluído e Silvio Galiza passou a ser acusado pela morte de Lucas, mas a polícia não decretou sua prisão, fato que aconteceu após Carlos Terra acampar na porta do Ministério Público de Salvador.[20]

Os pais de Lucas recorreram a ongs de defesa dos Direitos Humanos e o Ministério da Justiça. Carlos Terra foi entregar uma carta ao escritório da Onu (Organização das Nações Unidas) na Suíça, onde questionava a demora do julgamento e de onde vinha os recursos financeiros de Silvio Galiza para ser defendido por um dos advogados mais caros do Brasil, sendo que ele morava na periferia,[17] isso culminou com a marcação do primeiro julgamento, em junho de 2004.[20]

Condenação[editar | editar código-fonte]

Silvio Galiza[editar | editar código-fonte]

Silvio Galiza foi condenado em 9 de junho de 2004 a 23 anos e 5 meses, que após recorrer da decisão foi reduzida para 18 anos[20] e depois para 15. As principais provas para a condenação foram cinco testemunhas contra ele. O tribunal do juri avaliou o crime como homicídio triplamente qualificado e aceitou a tese da acusação que apontou que Galiza cometeu abuso sexual, matou e queimou o corpo da vítima.[9]

A promotora Cleusa Boyda disse que "pra mim aquilo não era caso terminado. Porque eu fiquei sempre com aquela sensação que tinha mais gente envolvida naquilo, mas como saber se o próprio pastor negava a autoria dele e jamais iria dizer ... que alguém participou".[20] O promotor Davi Gallo disse que Galiza é o autor do crime, mas seria impossível ele ter feito aquilo sozinho.[20]

IURD[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 2007 o Superior Tribunal de Justiça, mantendo a decisão da 2.ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça (TJ) da Bahia, de 14 de março, determinou que a Igreja Universal do Reino de Deus indenize à família de Lucas em um milhão de reais, por danos morais. Consta na decisão que:

"O vínculo [de Galiza e a Universal] está caracterizado pela subordinação, poder diretivo escalonado, remuneração, atos constitutivos, entre outros.[10](...) Como será demonstrado, a ocorrência desse hediondo crime só foi possível devido a uma postura desleixada da instituição religiosa em questão. De fato, atribui-se tal negligência à referida igreja não só pela má escolha de um de seus membros pregadores o Pastor Auxiliar Sílvio Roberto Santos Galiza -, como também pelo fato de, sobre ele, não ter sido exercida uma vigilância satisfatória."[27]

A decisão foi contestada pela defesa da igreja, alegando que o pastor não estava em horário de trabalho durante o crime. Porém, o Superior Tribunal Justiça da Bahia manteve a decisão em favor da promotoria, que alegou que o pastor pediu que Lucas ficasse mais tempo na igreja e em dezembro de 2008, com juros e correção monetária, a multa foi estimada em dois milhões de reais,[2] que foi paga pela Universal.[14]

Novo processo[editar | editar código-fonte]

Ao ser entrevistado pelo Linha Direta em 2006, Galiza estava acompanhado de sete advogados e apresentou uma nova versão do crime, como nas outras ocasiões, sempre alegando sua inocência, mas desta vez acusando outros três membros da igreja, o bispo Fernando Aparecido da Silva[18], o pastor Joel Miranda Macedo[18] e o segurança dos dois, Luis Claudio.[28][20]

Segundo ele, Lucas teria morrido por conta-lo que viu Joel Miranda e Fernando Aparecido em um ato sexual. A declaração foi aceita pela promotoria. O advogado da defesa disse que a denúncia contra seus clientes seria uma estratégia de Galiza, após Aparecido e Miranda afastarem ele "quando ficou constatado que o mesmo (Silvio) estaria levando garotos para dormir na mesma cama que ele, na igreja do Rio Vermelho, em Salvador."[29] Em outra entrevista, Galiza disse que recebeu ameaças de um advogado da Universal e foi subornado para omitir fatos do crime.[28]

Depois da denúncia, foi aberto em fevereiro de 2008[5] um processo contra Fernando Aparecido da Silva, que ficou preso,[29] após ter passado um tempo foragido[30] e Joel Miranda Macedo, que continou foragido. Dezoito meses após o início do processo eles receberam um habeas-corpus concedido pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF).[29]

Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda Macedo foram inocentados em novembro de 2013, pela juíza Gelzi Almeida, que alegou falta de provas. Após a família de Lucas recorrer da decisão, em setembro de 2015 o Recurso de Apelação foi julgado pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), com os desembargadores decidindo com unanimidade que Joel Miranda Macedo e Fernando Aparecido da Silva fossem à juri popular.[18]

Após a defesa dos dois acusados recorrerem, a decisão do Tribunal de Justiça da Bahia foi anulada em novembro de 2018 pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF. Fazendo parte da ação da acusação, o Ministério Público da Bahia disse que a Procuradoria Geral da República (PGR) iria recorrer da decisão.[18] Carlos Terra fez campanha pedindo julgamento pelo júri popular, até sua morte em fevereiro de 2019.[31] Em sessão virtual, Lewandowski votou contra novamente em março de 2019 e a ministra Cármen Lúcia pediu vista,[nota 1] impedindo que os pastores fossem a júri popular naquele momento. Não foi divulgado quando o caso retornará ao STF.[33]

Livros e filme[editar | editar código-fonte]

Em 2009 foi lançado um documentário que retrata a simulação do caso em quarenta minutos. Foi escrito e dirigido por Cláudio Factum e lançado na Bahia.[34]Em 2016 foi lançado um livro sem fins lucrativos, titulado como "Lucas Terra - Traído pela obediência". Foi escrito pelo pai de Lucas Terra[35] e distribuído de forma independente.[36] Em 2019 será lançado a continuação do primeiro livro, "Carlos Terra - Traído pela obediência".[5]

Notas

  1. Segundo Bruno Lupion, do Nexo Jornal pedi vista "existe para que ministros estudem melhor um tema antes de votar, mas falta de regras permite que ele sirva também para impedir ou atrasar um julgamento"[32]

Referências

  1. a b c Lílian Marques (13 de julho de 2012). «Condenado por matar Lucas Terra cumpre pena em regime aberto na BA». G1. Consultado em 19 de março de 2019 
  2. a b c d Redação (12 de dezembro de 2008). «Caso Lucas Terra: última audiência de instrução será nesta sexta (12)». Correio. Consultado em 10 de março de 2019 
  3. Redação (12 de setembro de 2008). «Justiça realiza audiência sobre o caso do menino Lucas Terra». Correio. Consultado em 19 de março de 2019 
  4. a b Franco Adailton (25 de novembro de 2011). «Caso Lucas Terra: Juiz decidirá se acusados vão a juri popular». A Tarde. Consultado em 19 de março de 2019 
  5. a b c d e f g Yasmin Garrido (26 de fevereiro de 2019). «Lucas Terra: pastores acusados de participar de crime seguem em cargos na igreja». Correio. Consultado em 16 de março de 2019 
  6. «Tribunal de Justiça do Estado da Bahia TJ-BA - Apelação : APL 00170902820088050001-». Tribunal de Justiça da Bahia. Consultado em 9 de março de 2019 
  7. «Preso pastor foragido por assassinato em 2001». O Tempo (jornal). 25 de maio de 2008. Consultado em 8 de março de 2019 
  8. «Ex-pastor preso por pedofilia denuncia colegas». Extra (jornal do Rio de Janeiro). 29 de maio de 2008. Consultado em 9 de março de 2019 
  9. a b «Confirmada condenação de ex-pastor». Folha de Londrina. 3 de dezembro de 2005. Consultado em 8 de março de 2019 
  10. a b Tiago Décimo (19 de outubro de 2007). «Igreja Universal terá de pagar R$ 1 milhão por morte de menino». Estadão. Consultado em 9 de março de 2019 
  11. a b Wladmir Pinheiro (15 de janeiro de 2019). «Os crimes que marcaram os últimos 40 anos na Bahia». Correio. Consultado em 9 de março de 2019 
  12. «Extinta ação contra o programa "Linha Direta"». Jornal da Ordem. 29 de junho de 2007. Consultado em 9 de março de 2019 
  13. Dourado, Tatiana Maria (28 de novembro de 2013). «Pastores suspeitos de matar Lucas Terra não vão a júri popular na Bahia». G1. Consultado em 9 de março de 2019 
  14. a b Redação (25 de novembro de 2011). «Última audiência do caso Lucas Terra termina sem decisão sobre júri popular». Correio. Consultado em 10 de março de 2019 
  15. «Caso Lucas Terra: acusados de homicídio não serão julgados». A Tarde. 27 de novembro de 2013. Consultado em 9 de março de 2019 
  16. «Pastores suspeitos de matar Lucas Terra não vão a júri popular na Bahia». G1. 27 de novembro de 2013. Consultado em 9 de março de 2019 
  17. a b c Oliveira, Cláudia (17 de fevereiro de 2002). «Pai faz apelo à Onu contra impunidade». A Tarde: 1. Em tom de desabafo, José Carlos Terra informa na carta que será entregue a autoridades e ao povo suíço, que o acusado morador na periferia na capital baiana, mesmo não tendo recursos financeiros está sendo defendido por um dos advogados mais caros do país 
  18. a b c d e f g h Redação (22 de fevereiro de 2019). «Morre pai de Lucas Terra, adolescente assassinado por ex-bispos da Universal». Correio. Consultado em 16 de março de 2019 
  19. a b Bruno Wendel e Yasmin Garrido (22 de fevereiro de 2019). «'Ele chegou a cursar Direito para entender processo', diz viúva de CarlosTerra». Correio. Consultado em 21 de março de 2019 
  20. a b c d e f g h i j k Linha Direta. Rede Globo. (30 de novembro de 2006).
  21. Joselia Maria (23 de fevereiro de 2019). «Pai de Lucas Terra é sepultado ao lado do filho; história será contada em livro». Consultado em 8 de março de 2019 
  22. Oliveira, Cláudia (10 de julho de 2002). «Depoimentos de testemunhas complicam pastor». A Tarde 
  23. Oliveira, Cláudia (4 de julho de 2002). «Pai de vítima vai a Brasília pedir justiça». A Tarde 
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  25. Vinícius Nascimento (22 de fevereiro de 2019). «Pai de Lucas Terra é sepultado ao lado do filho; história será contada em livro». Correio. Rede Bahia. Consultado em 5 de julho de 2019 
  26. Oliveira, Cláudia (24 de julho de 2002). «Pastor vai depor e se contradiz». A Tarde 
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  28. a b «Caso Lucas Terra: ex-pastor fala de caso homossexual - A Tarde». A Tarde. 29 de maio de 2008. Consultado em 10 de março de 2019 
  29. a b c «STF: pastores acusados de matar jovem pedem habeas». Terra. 24 de junho de 2008. Consultado em 10 de março de 2019 
  30. «Bispo da Universal preso por assassinato de jovem - Extra Online». O Globo (Rio). 26 de junho de 2008. Consultado em 10 de março de 2019 
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  32. Bruno Lupion (19 de dezembro de 2016). «Como funciona um pedido de vista em processos do Supremo». Nexo Jornal. Consultado em 3 de julho de 2019 
  33. Bruno Luiz Santos e Redação (20 de março de 2019). «Caso Lucas Terra na pauta do STF». A Tarde. Consultado em 3 de julho de 2019 
  34. «Entretenimento Drama espanhol é destaque na Sala Walter da Silveira». iBahia. Rede Bahia. 14 de junho de 2009. Consultado em 2 de julho de 2019 
  35. «Livro narra detalhes do casoLucas Terra». A Tarde. 12 de setembro de 2016. Consultado em 2 de julho de 2019 
  36. Agência Estado (20 de março de 2012). «Pai acampa na frente de fórum baiano para cobrar Justiça de crime que chocou o país». Estado de Minas. EM. Consultado em 3 de julho de 2019 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]