Caso de Ouro Preto

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Caso de Ouro Preto
Local do crime Ouro Preto,  Minas Gerais
 Brasil
Vítimas Aline Silveira Soares
Local do julgamento Fórum de Ouro Preto
Situação Inquérito policial

O Caso de Ouro Preto refere-se ao assassinato da estudante Aline Silveira Soares encontrada morta em um cemitério da cidade de Ouro Preto em Minas Gerais o que desencadeou grande repercussão nacional cobertura pela imprensa brasileira no início dos anos 2000.[1]

O Caso[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 2001, Aline Silveira Soares viajou de sua cidade Guarapari, no Espírito Santo para Ouro Preto, em Minas Gerais, uma cidade universitária, sede da Universidade Federal de Ouro Preto. Aline aparentemente foi acompanhada de uma amiga, Liliane, e sua prima Camila Dolabella para participar da Festa Do Doze, que em todo 12 de outubro reúne alunos e ex-alunos da UFOP.[2] A jovem foi encontrada morta em cima de um túmulo do cemitério Nossa Senhora das Mercês, com 17 facadas no corpo, na madrugada do dia 14 de outubro de 2001.[3]

Os investigadores e a mídia alegaram que a morte foi causada por jogadores do RPG Vampiro: A Máscara e o jogo foi proibido, temporariamente, pela justiça.[4]

Os Acusados[editar | editar código-fonte]

Segundo a promotoria, Aline teria sido assassinada por C.; E.P.A.; C.I.G.; e M. F., todos moradores da república Sonata, onde as jovens se hospedaram para a Festa. A causa do crime seria um jogo de RPG, que Aline teria perdido, sendo punida com a morte, mais especificamente uma morte ritual, de acordo com preceitos satânicos.[5] O que mais tarde não foi comprovado.

O Veredito[editar | editar código-fonte]

Os três acusados pela morte foram absolvidas do crime em 5 de julho de 2009, após cinco dias de julgamento.[6]

Papel da Imprensa e do Judiciário[editar | editar código-fonte]

Para Cynthia Semíramis Machado Vianna, do Observatório da Imprensa: "Durante o julgamento a imprensa promoveu uma campanha de desinformação, relacionando indevidamente o RPG com o que algumas autoridades supunham ser magia negra e rituais satânicos ligados a um homicídio[7]. O Jornal da Globo de 20/12/2004 fez reportagem sobre o crime, divulgada nacionalmente. Nela, enquanto a narração afirmava que foram encontrados manuais de magia negra, incluindo uma bíblia satânica, a tela mostrava apenas livros de RPG, levando a uma associação de idéias absurda. Vale esclarecer que a referida “bíblia satânica” era um dos suplementos do RPG “Vampiro: A Máscara” denominado “Livro de Nod”, que reúne textos poéticos, fictícios, sobre uma possível origem bíblica dos vampiros.

A imprensa deveria ter respeitado a inteligência do público. Foram oito anos deturpando o jogo de RPG, presumindo rituais de magia onde não existiam sequer indícios dessa prática, insuflando a condenação dos acusados. Após a absolvição, as matérias passaram a criticar as autoridades e brigar pelo esclarecimento do crime, questionando a postura policial. No entanto, em 2001, quando deveriam ter feito esses questionamentos, preferiram tratar os investigadores como donos da verdade. Dias antes do julgamento, apostavam na condenação dos acusados; após a absolvição, optaram por ignorar oito anos de manipulação e linchamento de acusados, desviando o foco da discussão para a ausência de culpados, procurando fazer com que o público esquecesse o papel vergonhoso que a imprensa teve no direcionamento deste caso. "[8] A notícia do veredicto foi publicada em primeira mão na conta do Twitter da jornalista Fernanda Lizardo.

Análises jurídicas posteriores apontaram a inexistência de nexo causal entre o RPG e o assassinato da estudante Aline Silveira Soares[9]

Análise Antropológica[editar | editar código-fonte]

A antropóloga Ana de Fiori analisou as circunstâncias e desenvolveu uma pesquisa sobre o comportamento dos envolvidos no julgamento e como a mídia abordou o caso. Segundo ela: "A primeira, recorrente na imprensa brasileira, é a crucificação perante a sociedade dos suspeitos antes do julgamento ser finalizado."[10] Outro ponto analisado na pesquisa diz respeito à associação do jogo com a morte da vítima. A antropóloga, que assistiu o julgamento final e entrevistou a promotora do caso durante sua pesquisa, diz que “muitas das acusações foram feitas sobre a prática ‘demoníaca’ do jogo de RPG, enquanto o que deveria ser julgado eram as provas que ligavam ao assassinato”.

Outros casos supostamente envolvendo o RPG[editar | editar código-fonte]

O caso de Ouro Preto foi o de maior repercussão, mas outros incidentes tiveram abordagem similar na imprensa brasileira.[11]

Em 2000, duas jovens foram estupradas, torturadas e estranguladas na cidade de Teresópolis, no Rio de Janeiro. O jogo foi relacionado ao crime pois uma garota convivia com jogadores de RPG. Um jogador foi preso injustamente, e mais tarde descobriu-se que o assassino era um cigano que nunca havia tido contato com qualquer material referente ao RPG.[12]

Em 2005, um crime com três vitimas da mesma família, em Guarapari – ES e praticado por dois jovens também foi associado ao jogo. Os acusados de latrocínio qualificado e premeditado, confessaram a polícia que a execução teria sido motivada pelo RPG.[13]

Referências

  1. «Acusados de matar jovem em RPG são inocentados em MG». Terra. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  2. TEMPO, O. (25 de abril de 2013). «Crime macabro em Ouro Preto a um passo do capítulo final». Cidades (em inglês). Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  3. «Folha Online - Cotidiano - Morte de estudante em MG pode ter sido motivada por jogo de RPG - 19/10/2001». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  4. «Julgamento da morte de adolescente em Ouro Preto segue nesta quinta - gazeta online». gazetaonline.globo.com. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  5. G1, Do; Paulo, em São; Globominas.com, com informações da (9 de junho de 2010). «Justiça confirma inocência de envolvidos em morte em jogo de RPG». Brasil. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  6. G1, Do; Paulo, em São; Globominas.com, com informações da (9 de junho de 2010). «Justiça confirma inocência de envolvidos em morte em jogo de RPG». Brasil. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  7. «Os erros no caso de Ouro Preto». Observatório da Imprensa. 14 de julho de 2009. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  8. «Os erros no caso de Ouro Preto». Observatório da Imprensa. 14 de julho de 2009. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  9. «Inexistência de nexo causal entre o RPG e o assassinato da estudante Aline Silveira Soares - DomTotal». domtotal.com. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  10. http://www.usp.br/aun/exibir.php?id=3576
  11. «Jogadores de RPG da região dos Inconfidentes ainda sofrem preconceito | #tecer». Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  12. «Hospedagem de Sites | Página não encontrada». raopo.com.br. Consultado em 22 de fevereiro de 2019 
  13. Reportagem publicada em 20/06/2008 no jornal "A Gazeta" de Vitória, ES, de autoria de André Vargas

Ligações externas[editar | editar código-fonte]